Há banhos e banhos…

Há palavras que, através da sua história, se aproximam tanto umas das outras, que acabam por nos parecer da mesma família, e não são tal.

Já aqui vos contei sobre a relação – apenas aparente e não real -entre os banhos, que tomamos na banheira, e os “banhos”, que antigamente os noivos eram obrigados a publicar, anunciando o seu próprio casamento, para que, quem tivesse justificada objecção à sua união, se pronunciasse.

E expliquei que, estes últimos têm relação com “abandono, abandonar” (do latim bannum =  proclamação) e nenhuma relação com os banhos de lavagem.

Ou, se têm, não é etimológica, e sobre isso, só por graça, falaremos adiante.

Podem ler outra vez, se quiserem, sobre abandono, em http://steinhardts.wordpress.com/2007/03/27/70/

Hoje quero debruçar-me mais sobre a outra vertente – os banhos na banheira (ou no duche).

Banho vem do latim baneu, que é, por sua vez, uma corrupção de balneu. Por isso, um estabelecimento de banhos se chama balneário.

Em Portugal, foi costume chamar caldas (=quentes) aos balneários de águas minerais, isto porque normalmente eram águas quentes naturais (”Caldas da Rainha”).

Por curiosidade, já que o saber não ocupa lugar – como dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate  – “água quente”, na língua árabe (e também em hebraico) diz-se hamá (pronuncia-se khamá com um h-gutural).  Na cidade de Tibérias (junto ao Mar da Galileia ou Lago Tiberíades) há uma nascente de águas sulfúricas naturais quentes, a que chama Hamat Tveria. E no lado oriental do mesmo lago há outra fonte semelhante, muito frequentada, chamada em árabe Al-Hamá (al é, como sabem, o artigo definido, em árabe) e, em hebraico Hamat Gader.

Em Lisboa, também há uma nascente de água quente natural, a que os mouros chamavam Al-Hamá. Como a língua portuguesa não tem o som gutural Kh, antigamente todas as palavras árabes e hebraicas que se escreviam com esta letra eram transcritas com um f . (Al’hayat deu alfaiate, Harum deu Faro, Albuhera deu Albufeira, etc.).  Assim também Al-Hamá deu Alfama.  Sim senhor, os banhos de águas quentes de Alfama, hoje já em desuso.

Prometi acima voltar a falar dos banhos (de banheira) e da sua relação com o casamento.

Pois aqui vai, e não se riam, porque nem tudo quanto hoje é óbvio, parecia assim nos tempos mais remotos.

A Idade Média é conhecida na história também pela falta de hábitos higiénicos. Tomar banho era visto na sociedade medieval como um acto de vaidade, e até de deboche (pela fama que tinham as caldas romanas). Por isso, só se praticava três ou quatro vezes por ano.

Uma anedota urbana, que tem foros de verdade, é que os casamentos se realizavam normalmente em Junho, porque Maio era mês de banhos e assim os corpos dos noivos ainda conservavam um cheiro mais ou menos suportável.

Isso não era extensivo aos judeus, porque a Bíblia está cheia de preceitos sobre a lavagem obrigatória das mãos, em várias ocasiões, durante o dia, assim como banhos rituais de imersão com grande frequência.

Nem oito nem oitenta – dizia também o meu “avô” Jacinto.  A lavagem também pode ser uma obsessão, doença mental conhecida.

Num dos processos da Inquisição de Lisboa, consta a prisão de um indivíduo que, coitado, sofria dessa doença, e passava os dias lavando-se copiosamente no Chafariz que hoje se chama o Chafariz de Dentro, em Alfama. Foi preso e acusado de… suspeitas de judaísmo.  Por se lavar demasiado… 

Contou-me isto, há muitos anos, um amigo português, professor de medicina, com base na descrição do caso, como exemplo dos sintomas, numa revista científica de medicina.

Aliás, na lista de indícios de judaísmo, para os quais era obrigatória a denúncia e fazia parte de todos os interrogatórios do Santo Ofício, constava sempre: “lavar-se e vestir camisa lavada às sextas-feiras”. Era crime contra a religião…

 

E, já agora,  vem à mão de semear o “banho-maria”.  Isso mesmo, o processo de aquecer um produto, geralmente um alimento, produto farmacêutico, cosmético, etc., dentro de uma vasilha, que se coloca por sua vez dentro de outra vasilha com água quente.  Evita-se assim que o produto seja aquecido a mais de 100º, porque, para cima dessa temperatura, a água se evapora.

A atribuição do nome também se deve a uma lenda… e a um erro de tradução.

Diz a lenda que Maria, ou Miriam, irmã de Moisés, do Egipto, se dedicava a experiências de alquimia. Para essas experiências, ela inventou um aparelho, a que os gregos chamavam kaminos Marias (a chaminé de Maria).  Alguém traduziu erradamente, do grego para o latim, como balneum Mariae, o banho da Maria.  Por isso, os franceses chamaram ao tal instrumento bain-marie. Era assim no século XV.

No princípio do século XIX, quando o termo foi adoptado, na versão francesa, para outros idiomas, já não designava o instrumento da química, mas sim o processo de aquecimento que hoje se chama assim.

Em português “banho-maria” só aparece por essa altura.

Tolerar o sofrimento

Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter amigo já a quem faça dano;
E assim não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da Pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede”

(Luis de Camões – “Os Lusíadas”)

 

 

Assisti, nos últimos três dias, aqui, na Universidade de Bar-Ilan, a um simpósio sobre o tema «Tolerância e Intolerância nas sociedades ocidentais».

Participaram muitos historiadores israelitas e estrangeiros, e entre estes a professora Elvira de Azevedo Mea, da Universidade do Porto.

Na ocasião, o apresentador do simpósio lembrou que tolerância vem do latim tolerare, com o significado de suportar. Suportar, aceitar, o outro, o que é diferente de nós.

E o que é suportar, pergunto agora eu?

Suportar é sub-portare, ou seja transportar, segurando por baixo (sub).

Também sofrer, no sentido em que Camões empregou a palavra na estrofe acima, significa suportar. «Não sofre o peito forte, usado à guerra, não amigo já a quem faça dano». Não se refere a sofrer dores no peito, mas sim a não suportar a falta de oportunidade para combater.

Efectivamente, sofrer, do latim sufferre, significa exactamente o mesmo su(b) = por baixo e ferre = carregar.

E tol, a palavra inicial latina de onde derivou tolerar, também significava levantar, carregar.

Claro que quem tem um sofrimento não tem outro remédio se não suporta-lo.

Ou “dar de beber à dor é o melhor – já dizia a Mariquinhas” pela linda voz da saudosa Amália Rodrigues.

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Divagando no Estreito do Bósforo…

Istanbul Bids for 2008 Olympics

 
Image details: Istanbul Bids for 2008 Olympics served by picapp.com

        Mesmo não tendo nunca estado na Turquia, todos aprendemos na escola que o Estreito de Bósforo é um estreito que liga o Mar Negro ao Már de Mármara e marca, na Turquia, o limite dos continentes asiático e europeu.

Bosphorus é um nome de origem grega, composto de duas palavras: bos (que significa boi) e phorus, foros, (passagem, transporte). Queriam os gregos significar com isso que o estreito era tão estreito que podia ser atravessado por um boi a nado. Ou, segundo outros, que podia ser atravessado sentado num odre, feito da pele de um boi, cheio de ar. Escolham!

Bos é também o nome latino da espécie zoológica a que pertence o boi, ou bove, e todo o resto do gado a que chamamos bovino.

Também se chama gado vaccum, em honra da meia-metade feminina: a vaca.   Já os latinos chamavam ao boi bove e à vaca vacca, e se alguém souber explicar-me porquê, agradeço, pois não encontrei a explicação.

Nos talhos, em Lisboa, chamava-se carne de vaca sem distinção tanto à de vaca como à de boi. Já no Alentejo só vi “talhos de carne de boi”. Era o macho que dominava na designação. Não sei se ainda é assim, nem sei também a razão.

O que se prova, mais uma vez, é que a história dos nomes dos bichos varia consoante o pronto de vista de quem os dá.

Já vimos aqui, há tempos (”Bifes de Peru”) que, na língua inglesa, os mesmos animais tem dois nomes: quando vivo o boi é ox, palavra de origem saxónica, dado por quem os criava; no prato, o boi é beef, de origem francesa, dado pelos normandos, que os comiam…

E da mesma forma porco, carneiro, etc. tinham nomes saxónicos enquanto vivos, e franceses depois de mortos… e cozinhados.

O mesmo sucedia entre nós com o peixe, que só o era enquanto vivo, dentro de água. Cá fora, candidato a mudar-se para o nosso prato, era pescado.  Hoje, em português, já não se usa pescado, como substantivo, mas em espanhol ainda se mantém a distinção.

 

Para saber mais, clique aqui: 

Estambul, Bosforo Y Dardanelos/ Istanbul

A hóstia e o pão ásimo

Este ano, os judeus comemoram a festividade de Pessah, de 20 a 26 de Abril.

Portanto, como os dias do calendário judaico começam sempre ao por do sol (na criação, primeiro foi escuridão, ou seja a noite, e só depois nasceu a luz), a tradicional ceia de Pessah, terá lugar esta noite, 19 de Abril, data em que estou escrevendo esta história.

Pessah significa, na língua hebraica: “passagem”. E comemora, na realidade, diversas passagens, mas sobretudo a passagem da escravidão no Egipto para a liberdade na Terra de Israel.  Isto na vertente nacional da festividade. No ciclo anual, é a passagem do inverno para a primavera.

Pessah dos judeus e a Páscoa dos cristãos estão intimamente relacionadas.  Na realidade, são a mesma festividade, mas encarada sob pontos de vista históricos diferentes.  Os judeus lembram a libertação da escravidão do Egipto; os cristãos recordam a morte e a ressurreição de Jesus.

Segundo os Evangelhos, Jesus estava precisamente a celebrar a ceia judaica de Pessah, com os seus discípulos, quando foi preso pelos soldados romanos.

Teoricamente até coincidem nas datas em que são comemoradas: segundo o calendário lunar judaico, a festividade tem uma data fixa: principia no dia 14 do mês de Nissan. Como os meses lunares principiam com a lua nova, o dia 14 será mais ou menos o da lua cheia. Em relação ao calendário solar, que todos seguimos na vida laica, é uma festa móvel.

A data da Páscoa cristã foi fixada no primeiro concílio de Niceia, no ano 325.  É comemorada no primeiro domingo, depois da lua cheia da Primavera (no Hemisfério Norte, ou do Outono, no Hemisfério Sul).  Portanto, teoricamente, será no domingo mais próximo do tal 14 de Nissan dos judeus, em Março ou Abril do calendário solar.

Este ano, não foi assim. A Páscoa cristã foi exactamente um mês antes do Pessah judaico. A explicação é simples. Como 12 meses lunares são menos do que um ano solar, o calendário judaico, em determinados anos, tem que ser ajustado com um mês adicional - tem treze meses.  Foi o que aconteceu este anos, e, por isso, Pessah é celebrado um mês depois da Páscoa..

Para ambas as religiões é uma das principais, se não a principal festividade do ano.

Os principais símbolos do Pessah são o cordeiro pascal (sacrifício do animal, que passou a ser apenas simbólico desde que o Templo de Jerusalém deixou de existir), o pão ázimo, chamado Matsá, pão sem levedura, o único que os judeus podem comer durante os oito dias de Pessah, em recordação de que, quando os seus antepassados fugiram dos egípcios, que os perseguiam, levaram apenas a massa, que tinham preparado para o pão, e que não teve tempo de levedar, e quatro copos de vinho, a cada um dos quais corresponde uma bênção, bebidos nas paragens que o pai da família faz, enquanto conta aos filhos, durante a ceia, a história do Êxodo, ou saída do Egipto.

Ora era precisamente isso que Jesus estava a fazer, durante a ceia daquela noite, a que se costuma chamar a Santa Ceia do Senhor.

O lugar onde isso se passou é conhecido, poderão visita-lo quando, se Deus quiser, vierem um dia a Jerusalém: é o Cenáculo (sala da ceia), no Monte Sião.

Podem então ler, no Evangelho de Marcos (14:22-26): “Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho, e todos beberam dele. E disse-lhes: isto é o meu sangue.”.

O significado mais profundo do acto de Jesus naquela ceia, foi a transformação das orações tradicionais judaicas sobre o pão e o vinho, instituindo com elas a Eucaristia.   Eucaristia veio-nos do grego, através do latim, e significa “gratidão”  (eu, significa “bem”, e kharizesthai, mostrar favor; de eu deriva por exemplo, eucalipto – bem coberto – e de kharis, favor, graça, vem o carisma).

Pão e vinho. 

Que pão era esse que Jesus e os seus discípulos comiam na ceia de Pessah? Era a matsá, pão não levedado, tal como a hóstia, é pão ázimo. Não levedado. Hóstia significa em latim “vítima”, “sacrifício”, lembrando o cordeiro pascal.

E o vinho era um dos quatro cálices que todos bebem em volta da mesa da ceia de Pessah, logo à noite.

É esta a história da ceia da Páscoa judaica e da Eucaristia cristã.

Um blogue de baixo quilate

Há blogues de alto quilate e há os mais modestos, como o meu.

O que é um quilate afinal?

Pois há quilates e quilates, duas palavras que facilmente se confundem:  em diamantes e outras pedras preciosas, o quilate é uma unidade de peso; nos metais preciosos, como o ouro, é uma unidade de pureza.

Comecemos por este: convencionou-se que o ouro puro tem 24 quilates.  Portanto, quando se diz que uma determinada jóia é feita de ouro de 21 quilates, isso significa que a sua liga  tem 87,5%  (21/24) de ouro e o resto são outros metais não preciosos;  se for de 18 quilates (18/24) tem 75%  de ouro, e assim por diante.

Em sentido figurado, um blogue de  “alto quilate” é aquele que tem alta percentagem de conteúdo com valor. O resto tem menos ou nenhuma importância.

            A outra acepção, nas pedras preciosas, é uma unidade de peso, igual a 200 miligramas. Um diamante de 20 quilates, significa que pesa 4 gramas.

            Porque lhe chamamos “quilate”?

Isso é que tem uma história, que vale a pena contar: as batatas vendem-se e compram-se aos quilos, mas os diamantes (tirando talvez a Elizabeth Taylor e os seus ex-maridos) não se compram aos quilos, mas sim em unidades muito pequenas, que têm de ser pesadas em balanças de alta precisão. Antes de haver balanças electrónicas, era preciso encontrar um peso padrão muito pequeno. 

Os comerciantes decidiram-se então pelas sementes da alfarroba, não só por serem muito leves (mais ou menos os tais 0,2 gramas) como porque antigamente pensavam que tinham a qualidade de serem todas exactamente iguais em peso umas às outras.   Hoje sabe-se que isto não é exacto.  Mas as diferenças eram muito pequenas. Comprar ou vender um diamante ou um rubi, consoante o número de sementes de alfarroba que pesava, acabava por ser suficientemente exacto.

O nome da alfarroba, em português, ficou-nos da ocupação árabe, com a habitual conversão do h aspirado, que por vezes se escreve kh, em f.   Al-kharub, em árabe, é a nossa alfarroba. Aqui em Israel chamamos-lhe Harub.  Em inglês, como sabem, diz-se “carob”.

A semente da alfarroba também vem do árabe “qirat”.  Mas a sua origem é grega. Na Grécia, as sementes da alfarroba chamavam-se keration e daí passou para os árabes..

Do árabe “qirat”, talvez através do francês “carat”, ou do italiano “carato”, nós fizemos “quilate”.

O outro “quilate”, que, como vimos designa a pureza do ouro, tem exactamente a mesma origem. Apenas que não é uma unidade de peso.

Na língua inglesa é costume distinguir duas grafias: carat para o peso dos diamantes e karat para a pureza do ouro.

 

 

Alerta, camaradas!

Vi hoje na televisão um programa em que um vereador de determinada Câmara Municipal se dirigia aos seus Camaradas.   Não teria sido possível eu ver essa cena, se não estivesse lá o cameraman (anglicismo!) com a sua câmara. 

Ora aqui temos nós quatro palavras aparentadas, de entre várias outras pertencentes à mesma família.:  Todas derivam do latim camara ou camera (usaram-se as duas grafias), que, por sua vez derivou do grego kamara, e cujo significado é abóbada ou compartimento.

No português antigo, câmara era simplesmente um quarto numa habitação ou uma sala. 

Havia os conselheiros reais, que se reuniam na “câmara d’el-rei” e exerciam junto do monarca funções semelhantes às dos ministros de hoje.

Com o uso deram origem a outras corporações com o mesmo nome: Câmaras Municipais, Câmaras de Comércio, etc.

No exército, os soldados que dormiam na mesma câmara (quarto, dormitório) referiam-se uns aos outros por seus “camaradas”.    Daí ganhámos um sinónimo para “companheiro”.

No século X, um cientista iraquiano, da cidade de Basra, Abu Ali Al-Hassan ibn Al-Haitham, foi o primeiro a realizar metodicamente experiências sobre uma observação, que já os chineses haviam feito muitos séculos antes, e depois deles também os gregos: a luz que penetra por um pequeno orifício, numa das paredes de um quarto às escuras, projecta-se lá dentro, na parede contrária.   E, se entre essa luz e a parede se interpuser um objecto, a sombra desse objecto fica visível na parede-tela.

Chamou-lhe, na língua árabe, “Al.Bayt al-Muthilim” (a casa escura, ou o quarto escuro).  Traduzido em latim, a língua que utilizavam os cientistas do ocidente, deu camera obscura, ou seja a “câmara escura”.

Graças às observações de Al-Hassan, explicadas num tratado sobre óptica, que ele escreveu, viria a ser inventada a “câmara fotográfica” e a fotografia.

E da fotografia veio o cinema e o vídeo, para os quais se usam aparelhos, a que continuamos a chamar câmara.

Portanto, camaradas da Câmara, olhem bem para a câmara, para ficarem bem no retrato.  

Falar em geometria…

Andaria eu no 1.º ano do liceu, ou talvez no 2.º, e, nas horas livres fazia pequenos recados à minha Mãe, os quais me levavam de quando em quando a uma drogaria, que havia perto de nossa casa.   Quem é que ainda se lembra do que era uma drogaria, no tempo em que ainda não havia detergentes, nem supermercados?

Pois naquela drogaria costumava entrar uma senhora, já de uma certa idade, manifestamente culta, que conversava sempre com os presentes, sobretudo com os mais novos, e contava muitas histórias sobre terras estrangeiras, Paris, Roma, Londres, Viena, a que, naquele tempo muito poucos portugueses viajavam.   Olhando agora para trás, não sei se a senhora tinha mesmo visitado aquelas cidades, se apenas lia muitos livros.

Na candura do meu mundo de estudante recém-chegado ao liceu, disse-lhe um dia:  “A senhora conhece muito bem a Geografia.”.  E a senhora, com um sorriso malévolo, respondeu-me: “Geografia? olhe que não, só passei por lá uma vez, e por pouco tempo.”

Lembrei-me agora deste episódio, porque este vosso amigo, que consegue fazer-se entender em várias línguas, já uma vez teve que falar numa língua chamada Etimologia.~

Não acreditam? Eu conto.

Estive uma só vez na Grécia, por 24 horas, numa escala técnica entre dois aviões.  Cheguei a Atenas a meio do dia, dormi lá, e no dia seguinte, ao princípio da tarde, segui viagem.

À noite, entrei num restaurante e olhei em volta, procurando uma mesa. “Acorreu logo um empregado solícito, perguntando se o “Kirie” (senhor! Lembram-se do ‘Kirie Eleison’, da missa?) se o Kirie achava bem aquele “trapézio” (mesa)?”  Parecia que estava numa aula de Geometria!

Acabei o repasto, o empregado veio mostrar-me o carrinho das sobremesas (por gestos, pois nem ele falava língua que eu soubesse, nem eu falava grego.)  Declinei a sobremesa e então ele pediu o “aritmus” para o “kirie”.  Afinal eu sempre percebia um pouco de grego: “a conta para este senhor”.

Na manhã seguinte aproveitei para ir ver a Acrópole, dei umas voltas por Atenas, e, a certa altura, com receio que se fizesse tarde, pois não sabia bem o caminho, fiz sinal a um táxi e mandei seguir para o hotel. Claro que o taxista também só falava grego.

Já pertinho do hotel, onde tinha as malas, vi um letreiro com o nome de “General Electric”. Ora eu trabalhava em Lisboa, na General Electric Portuguesa, e tinha-me correspondido, por assuntos de negócio, com o representante da firma em Atenas.  Não o conhecia pessoalmente, mas já agora seria simpático cumprimenta-lo.

Pedi ao taxista que parasse ali. Qual quê, felizmente estávamos parados num semáforo, mas ele gesticulava, falava pelos cotovelos, e eu, vendo-me grego, só consegui dizer-lhe: “I don’t understand”.   “Duntandestan? Hotel, hotel…

Ora bolas, eu sabia que ali não era ainda o hotel, mas como é que eu ia explicar aquele filho de Atenas, que queria parar ali e depois iria a pé para o hotel?   Instintivamente comecei a falar etimologicamente. Lembrei-me dos filósofos gregos (filos=amigo sofos=saber) e apontando para a tabuleta da GE, disse-lhe “Filos!”  O homem abriu-se num amplo sorriso, encostou o carro ao passeio, desligou o taxímetro, e cheio de compreensão, disse: “Filos, filos…” Compreendeu que eu tinha ali um amigo.

Veio-me à lembrança esta história, porque um simpático visitante deste meu sítio, o senhor Fernando Quaresma, me escreveu directamente, pedindo para explicar a etimologia dos termos da Geometria.

Eu não sabia.  Mas lembrei-me de que, se, naquela altura, eu tivesse ficado mais alguns dias em Atenas, já estaria a escolher o meu almoço nos restaurantes… em geometria!

A Geometria começou por causa das cheias do Nilo.  Quais são as terras mais férteis do mundo?  As das margens do rio Nilo, claro. Porque o rio as inunda e traz consigo todas as matérias que as fertilizam. Mas não há bela sem senão. Se, por um lado, as cheias as cheias enriquecem os proprietários das terras, por outro, quando baixa a maré, levam consigo todos os postes de demarcação das propriedades.  E para devolver o seu a seu dono, era necessário fazer novas medições. 

Os gregos aprenderam com os egípcios a medir as superfícies da terra. “Geo” é “terra”, “metria” é “medida”, e assim inventámos a arte de medir a terra – a geo…metria.

Aos egípcios ficámos a dever também as pirâmides.  Os gregos chamavam-lhes “puramis”, com base no nome que eventualmente lhes davam os egípcios.

“Cilindro” significava “rolo”.   Quando os livros eram escritos em rolos de papiros egípcios (de papiros nos veio a palavra “papel”) não se dizia livro, mas sim “kilindro”, e do livro enrolado nasceu a forma geométrica do cilindro.

Reparem bem que o som do “c”, para nós soa “ss”, antes de “i” ou de “e”, em grego era sempre “k”, como antes de “a”, “o” “u”, e assim ficou sendo no oriente.  Aqui onde eu vivo, Cícero diz-se “Kikero”, e Cesarea é “Keissária”. Por isso, Cesar (imperador), deu em alemão “Kaiser”.

Círculo era “kiklus”, um anel, para adornar o dedo das damas. Depois, na Geometria, foi só copiar a forma..E na nossa pronúncia latina – círculo, mas também “circo” para as crianças…

Quando um grego, ainda hoje, quer marcar um encontro na esquina de duas ruas, diz: “gonia” (canto). Os Romanos fizeram daí “angulus”, e o que é um ângulo, senão um canto?

A circunferência chegou ao grego e ao latim de uma raiz indo-europeia, “qwel”, que significava “andar à volta”.

Um polígono tem “poli” (muitos) “gonia” (ângulos, cantos, como já vimos). 

A palavra grega “konus” deu o “cone”. Deu também, em português, por causa da sua forma geométrica, uma palavra chula, que me abstenho de repetir aqui. A bom entendedir…

Um “quadrilátero” tem, evidentemente, quatro “latus” (lados).

O “raio” do círculo vem de “radius”, cujo significado primitivo era vara, estaca. Para medir o raio era necessário um pau comprido.

Prisma? Pergunta ainda o senhor Quaresma.   Pois vem de “prizein” que em grego significa serrar. Era preciso serrar para se obter a forma do prisma.

Estão a ver? Agora já podemos mandar “prizein” um “radius” para fazer um “trapézio”, para almoçarmos em cima dele, da próxima vez que formos a Atenas. 

A sesta e o cesto

Hoje, depois do almoço, dormi à sesta.

Tinha que ser, porque estava um bocado cansado. 

Nem precisava de dizer que foi depois do almoço, pois todos sabem que a “hora da sesta” é depois do almoço.

E porquê? Porque os antigos latinos contavam as horas a partir da seis da manhã. Ao meio-dia, era a hora da sexta.    Mas sexta escreve-se com um “xis”, e sesta é com um “esse”!   Pois é. Mas nem sempre foi assim.  

Vejam, por exemplo, este extracto de um texto de cerca de 1300: Mays quando for a ora de sesta deuë tãger todolos sinos da uilla aa missa maior assi como os tãgem enos dias das grandes festas.

E também “sexta-feira” se escrevia “sesta-feira”.

A propósito, lembro-me de uma reportagem na televisão, sobre os abusos de poder no tempo do Estado Novo, a que assisti, pouco depois do 25 de Abril.

Pediram aos membros de um grupo de trabalhadores dos caminhos-de-ferro, a labutar ao sol quente, que contassem as explorações a que tinham sido sujeitos no passado.

Mas os homens pareciam estar ainda pouco à vontade para falar sobre o passado, e a cada pergunta diziam que se defendiam “com o artigo sesto”. 

O entrevistador deve ter feito uma nota mental para ver mais tarde o que dizia esse “artigo sexto”, que tão bem defendia os trabalhadores, pois, a cada nova pergunta, os homens invocavam o mesmo “artigo sesto”.

A certa altura, não se conteve e perguntou: “Artigo Sexto, de que Lei?”.

“Não é da Lei, não senhor, mas resolve todos os problemas. Pelo Natal, pela Páscoa, e de cada vez que o chefe começa a apertar mais com a gente, manda-se um dos miúdos a casa dele com um cesto, e ele fica logo mais amigo!  Questão de ortografia: não era sexto, era cesto.

Eu sei, eu sei, não precisam de dizer que este artigo (o meu) não tem piada (do verbo piar) nenhuma, porque vai já para o “artigo cesto” … dos papéis.

Ou, como também se dizia antigamente… para o “arquivo grande”, um sinónimo de “cesto dos papéis”.  

Tâmaras na palma… da mão

“Ai Mouraria, da velha Rua da Palma…!”  “Reza-te a sina nas linhas traçadas na palma da mão…” 

Em que ficamos? Palma, de palmeira, ou palma das mãos?

Como já deram por isso, se é a mesma palavra, deve ter andado em bolandas na história. 

Pois a verdade é que a mesma palavra nasceu em latim, “palma”, com o significado de “mão”.    Por extensão, como os ramos das palmeiras pareciam estender-se como os dedos da mão, foram esses ramos chamados, ainda em latim, “palma”.  (”Domingo de Ramos”, em inglês, é “Palm Sunday”).

Foi esta acepção botânica a primeira a chegar às nossas línguas, através dos diversos dialectos germânicos – “palma” = ramo da palmeira.

A outra accepção, na realidade a original em latim, como vimos, a da parte da mão, em forma de concha, chegou-nos pelo francês “paume”.

Mão” veio também do latim “manu”.

O uso da mesma palavra para a mão e para o ramo da palmeira já vem de longe. Na língua hebraica, “Kaf” (plural “kapot”) é tanto a “palma da mão” (ou do pé), como o ramo da planta que aqui nos brinda com as deliciosas tâmaras (do hebraico “tamar”).

Ainda no hebraico, e por extensão, qualquer objecto cuja forma lembre a palma da mão, é “kaf” – “caf” é “colher”, e também “pá”.

O membro superior do corpo humano (”braço” em português, é, em hebraico, “yad”.  O membro inferior (a “perna”) é “reguel”.

Portanto a “palma do braço” é “kaf ha-yad” e a “palma da perna” é “kaf ha-reguel”.

Voltando ao nosso português, temos ainda muitos derivados do latim “palma”, desde “palmiforme” (em forma de palma), como o verbo “palmar”, ou seja apanhar com a mão.

E temos também o “palmo” – medida da extensão que vai da ponta do polegar à ponta do mínimo, estando a mão bem aberta. Medida de 0,22 m. 

O homem e a maçã

Uma história curtinha, de que me lembrei hoje, ao fazer mais uma tentativa para catalogar a minha biblioteca.

“Maçã-de-adão” – todos sabemos o que é: aquela cartilagem saliente, que todos temos no pescoço, através da qual se processa também a fala.

Mas porquê “maçã-de-adão”?Por duas razões:

- A primeira baseia-se na lenda popular que conta que quando, no paraíso, Eva convenceu o marido a provar o fruto da árvore da ciência do bem e do mal – supostamente uma maçã – Adão deu uma dentada e engasgou-se, porque o bocado que engoliu ficou entalado na garganta, no lugar onde está a dita cartilagem.

A segunda explicação, científica, é que o crescimento da cartilagem é determinado por hormonas masculinas, sobretudo a testosterona.  Como só nos homens se encontram essas hormonas em quantidade, sobretudo na puberdade, é nos homens que a saliência é mais pronunciada.   E quanto mais altos, mais pronunciada.

Daí o nome de “maçã-de-adão” - e não de Eva.  

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