Etiópia ou Abissínia?

Vou confessar-vos uma coisa: este blogue está a dar-me muito mais prazer do que eu pensava, quando o iniciei. O número de visitantes cresce de semana para semana, e muitos deles têm a gentileza de me escrever, fazendo comentários ou perguntas, e até corrigindo coisas em que eu errei, por falta de informação ou por informação errada. Assim, além de aprender sempre mais qualquer coisa, também fico a conhecer muitas pessoas interessantes que, de outro modo, não conheceria.

Obrigado a todos.

Infelizmente o meu tempo é escasso, para escrever com a regularidade que eu gostaria de manter. Em parte, isso sucede por causa do meu trabalho. Mas também é devido ao meu feitio de querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Uma má desculpa.

Fiz hoje, uma vez mais, uma revisão aos meus objetivos e prioridades. Uma das decisões foi começar a deitar fora apontamentos e recortes, que guardei ao longo dos anos, para um dia escrever e cheguei à conclusão de que mesmo que eu viva até aos 120 anos, que é o máximo permitido e pouco provável, só me restam, a contar do próximo dia 5 de Outubro, 44 anos para realizar uma pequena parte do que tinha planeado

E puxei para cima da lista um compromisso de escrever todas as semanas uma ou mais histórias, das que tinha colecionado, mesmo que seja pequenina

Esta semana está na baila, aqui em Israel, o problema de integração dos judeus da Etiópia. Muitos deles têm chegado, por esforço próprio, a profissões e postos elevados. Mas muitos mais têm ainda muita dificuldade em se integrar. E por estes dias sente-se isso mais, quando se aproxima a reabertura das aulas.

Lembro-me que, quando eu era novo, o meu amigo Salomão Shmulevitz, que começou a sua carreira de jornalista no Diário de Notícias, escreveu um livro com o título de «O que é a Abissínia?».

O Salomão Shmulevitz veio muito novo para a Terra de Israel, “hebraisou” o nome para Shelomó Shamgar, e tornou-se um dos mais brilhantes jornalistas deste país. Infelizmente uma doença má levou há cerca de 12 anos.

Foi o Shelomó Shamgar quem fundou a Liga de Amizade Israel-Portugal e foi seu presidente até aos seus últimos dias. E fui eu que tive que ocupar esse honroso cargo,  durante 11 anos, por meus pecados, porque nunca lhe cheguei aos calcanhares.

Mas estávamos a conversar sobre a Abissínia, que hoje se chama Etiópia.

Ponhamos os pontos nos ii!

No tempo em que eu estudei chamava-se Abissínia a um país muito mais pequeno, situado, mais ao menos, no norte do que é hoje a Etiópia.

Os seus habitantes eram semitas e semita é a língua amharica, que eles ainda hoje falam. Nas línguas semíticas, no árabe e no hebraico, o país chamava-se Habash, E de Habash nos chegou Abissínia. Era a Terra do Preste João, o lendário padre cristão, que os exploradores portugueses tanto se esforçaram por encontrar na Abissínia.

Mais tarde o reino da Abissínia foi muito alargado, juntando-se-lhe outros povos negros seus vizinhos. E então passou a chamar-se Etiópia.  Aithiôps, “terra da gente de cara queimada” era o nome que os gregos davam a diversos terras africanas, desde o Vale do Nilo, até ao Corno de África.

No Novo Testamento, que foi escrito na sua maior parte em grego, a palavra aparece a designar de uma forma geral, diversos povos africanos. A palavra estava ali, à mão de semear, e assim foi dada ao novo país, que incluía a antiga Abissínia.

E já agora, como curiosidade, a explicação de alguns termos, de que todos ouvimos falar.

Como vimos, a língua da Abissínia é semítica.

Como se chama a capital da Etiópia? Adis Abeba. Adis significa nova. Conhecemo-la, por exemplo, no nome de Cartago, na língua fenícia: Kart-Hadasht, a «Nova Cidade”, que os fenícios fundaram no Norte de África.

Abeba – é o mesmo que Aviv, em hebraico, que significa tanto espiga, como primavera, a época do ano em que se ceifam as espigas. Tel Aviv – significa “Colina da Primavera”. A cidade de Telavive (assim se escreve em português correto) não fica numa colina, mas isso é outra história, que ficará talvez para outro dia.

Temos pois que Adis Abeba – é a Nova Primavera.

Lembram-se do imperador deposto – Hailé Selassieh? Pois Selassie (em hebraico chelishiah) significa Trindade. E Hailé é santo. Portanto, o nome do imperador era Santíssima Trindade.

Mengistu Haile Mariam, que foi presidente da República Democrática Popular da Etiópia, também tem Hailé (santo) no seu nome. E Mariam era, como sabemos, o nome aramaico da Virgem Maria (Miriam em hebraico). Portanto o presidente comunista da Etiópia era Mengistu de Santa Maria.

Desejo a todos uma excelente semana.

As malhas fugidas do nylon

Haverá ainda, entre os meus leitores, alguém que se lembre ainda de certas profissões, que eram muito comuns no meu tempo e, desde então, desapareceram, ou quase?

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, onde eu morava, no curto espaço de um quarteirão, havia a carvoaria do senhor Serafim, que fazia também as “bolas” para acender o fogareiro, havia a mercearia do senhor Pelicão, (ou seria Pericão?), havia o alfaiate senhor Miranda e o droguista Cardoso, a tabacaria Silva (só muitos anos mais tarde soube que o senhor, a quem todos chamávamos Silva, e nos vendia as borrachas e os lápis para a escola, afinal se chamava Espinosa. Ele deixava que o chamássemos Silva, uma vez que o nome da loja era Tabacaria E. Silva).

A um cantinho da loja do alfaiate, que era também a habitação da família Miranda, estava uma pequena mesa, onde trabalhava a senhora Ermelinda, cerzideira (sabem o que é?), que também apanhava as malhas, que ameaçavam “fugir” perna acima, nas meias das senhoras. Para isso tinha um copo de boca larga, sobre o qual esticava a parte da meia onde estava a malha fugitiva, e pacientemente a “apanhava” com uma agulha de barbela. As meias de algodão já não eram para as senhoras finas, as de seda ainda custavam um dinheirão, quando, no final da guerra, por volta de 1945, apareceram no mercado as “meias de vidro”. Era esse o nome vulgar das meias em fibra de nylon, que nessa altura, ainda que muito mais baratas do que as de seda, eram suficientemente caras, pois o nylon, que havia servido para o esforço de guerra, ainda era escasso no mercado. Vinham da América, claro, e já se vendiam no “contrabando”.

O nylon foi a primeira fibra sintética inventada, para substituir as fibras têxteis naturais. A seda era muito cara e os japoneses faziam uma fortuna com ela. Os americanos procuraram um substituto sintético, e o nylon (no Brasil escrevem “nailon”) foi sintetizado em 1935, pelo químico da DuPont, Wallace Hume Carothers. Poucos anos depois, em 1939, rebentou a Segunda Guerra Mundial, e todo o nylon que a DuPont pode produzir foi absorvido para fins militares. No após guerra, começaram a fazer, primeiro, as meias de nylon, e mais tarde outras peças de lingerie feminina, que até aí utilizavam a seda japonesa.

Contudo havia ainda escassez da nova fibra e as meias, como eram novidade, e, além de elegantes, eram práticas, tinham muita procura. Como o fio era muito resistente, se era puxado por um prego no sapato, não se rompia, mas a malha fugia, como um comboio. Era feio ver as malhas fugidas nas meias das senhoras. Surgiu então a arte das “apanhadeiras”: localizar sobre um copo a ponta da malha e, pacientemente, com uma agulha de crochet, reconduzi-la ao seu lugar. Mais tarde inventaram umas pequenas máquinas, semelhantes ao copo, que facilitavam o trabalho. Era uma forma das mulheres se estabelecerem de conta própria: comprar uma máquina e abrir banca numa janela, ou num canto de uma loja.

Lembro-me de me terem contado então que o exército americano pôs à venda uma grande quantidade de excedentes de guerra, entre os quais muitos paraquedas. Ninguém os queria, então em grandes quantidades.

Então houve um comerciante americano mais esperto que se lembrou de arrematar todos os paraquedas, desfiou o nylon e vendeu-o em bobinas, para a indústria

Mas, estou eu aqui a contar-vos a história de uma invenção, quando o tema deste cantinho é a “história das palavras” e não das invenções.

Pois a verdade é que não se sabe ao certo por que razão a empresa DuPont decidiu chamar nylon à nova fibra. Circulam muitas histórias.

Porque já participei algumas vezes, na minha vida, na escolha de nomes e de marcas para produtos, sei que é um processo difícil e demorado: tem que ter em conta que deve soar bem, ser aprovado pelos homens do marketing, atrativo para os utilizadores e não se assemelhar com outro já existente, senão não poderá ser registado.

Deve ter sido isso exatamente o que aconteceu com o nylon. Diz uma versão que a DuPont tinha fábricas em Nova Iorque e em Londres e juntou as abreviaturas de ambas as cidades NY+LON.

Depois é fácil inventar explicações: alguém disse a invenção da fibra americana veio prejudicar enormemente o comércio japonês da seda. “Now you’ve lost, Old Nippon” “Agora estás perdido, velhote nipónico”

Fazer sinagoga

Que as palavras têm cada uma a sua história já aqui vimos.

E que se passa com as línguas, cada uma das quais é constituída por palavras? Pois as línguas também têm as suas histórias, mas estas devem ser analisadas sobre prismas diferentes dos que nos mostram as palavras.

Consoante a sua hegemonia e o papel que representam para atender à necessidade de um determinado número de pessoas de se entenderem com outras e para se cultivar – assim é mais ou menos importante a história de cada língua.

Quando o mundo girava à volta da cultura clássica e da filosofia, e quando a religião cristã representava um papel importante na hegemonia política do mundo, era indispensável dominar a língua latina para ter acesso à vida cultural.

Quando esta passou para os salões de Versalhes e para os círculos literários e artísticos de Paris – era indispensável falar francês.

Hoje, que a tecnologia de ponta domina a nossa vida, e em que tudo se consegue através da Internet, o inglês passou a ser a língua universal consagrada.

E há outras línguas, menos conhecidas da maioria das gentes, confinadas a populações mais pequenas, dominadas por outras línguas mais importantes. As pessoas que nasceram e foram criadas no seio desses idiomas lutam, enquanto podem, com a esperança de preservar a cultura da língua que mamaram.

É o caso das duas principais línguas judaicas (além do hebraico), o idish e o ladino.

É o caso da língua basca.

O hebraico, que durante dois milénios se manteve sempre como língua litúrgica e língua clássica sem aplicação na vida corrente, conseguiu nos últimos dois séculos um ressurgimento inédito, tornando-se numa língua viva, em tudo adaptada à civilização do século XXI, à investigação e à tecnologia de ponta.

Tenho uma grande admiração pelas pessoas que persistem em manter vivas as línguas ameaçadas de desaparecimento.

Por isso, nos últimos dias, tive uma grande alegria encontrando um blogue inteiramente escrito no dialecto mirandês, que se fala nas Terras de Miranda (do Douro), em Trás-os-Montes. Já tinha lido, há muitos anos, um pequeno texto em mirandês, mas era um texto um pouco “artificial”, escrito propositadamente para um acto oficial.

No blogue de AMADEU FERREIRA fui encontrar uma série de textos, muito interessantes pelo seu conteúdo, mas sobretudo porque foram escritos no dialecto mirandês, com muita naturalidade e como idioma de uso corrente.

Foi num desses textos que encontrei uma expressão que não conhecia, e que se liga directamente com outra vertente, talvez a mais importante, das minhas pesquisas.

Aprendi de Amadeu Ferreira uma expressão usada em Sendim, que reproduzo na versão original, para lhe não tirar o sabor:

“… quando algues mulhieres s’ajúntan a cumbersar, diç-se que ’stan a fazer la sinagoga’. Quando la mulhier chega algo tarde a casa i sin se saber por adonde andubo, stá sujeita a oubir de la boca de l home: ‘Mas onde ye que caralhos andubiste a fazer la sinagoga?…”

A expressão tem origem nos processos da infamada inquisição, onde aparece quejandas vezes a acusação contra cristãos-novos, isto é, judeus forçados a converter-se ao cristianismo, que se reuniam em determinadas casas, para fazer, às escondidas, as orações da sua religião ancestral.

Em termos da linguagem inquisitorial, chamava-se a isso “fazer sinagoga”. “Sinagoga” é o a casa onde os judeus celebram o seu culto e fazem as suas orações. Naquela época, séculos XVI-XVIII, era proibido não só construir edifícios para servirem de sinagoga, como seguir de qualquer modo a religião judaica.

Segundo o Regimento da Inquisição de 1640 – que Amadeu Ferreira também cita – “as casas em que se provar que faziam sinagoga, e ajuntamento para ensinarem seus erros, serão arrasadas, postas por terra e salgadas e no chão que ficar delas se levantará um padrão de pedra, com letreiro, no qual se declare a causa por que se mandaram arrasar e salgar”.

A apoiar o seu artigo, o autor refere os nomes de várias pessoas daquela região mirandesa, que foram queimadas vivas, em fogueiras públicas, por “fazerem sinagoga” e seguirem outros ritos da religião judaica.

Quando já os homens não tinham tempo e meios para estudar a religião “proscrita”, ou porque eram perseguidos por isso pela inquisição, eram as mulheres que mais porfiavam em mantê-la viva e transmiti-la às suas filhas. E isso manteve-se assim secretamente até ao fim do século XX.

Aproveitando o velho costume das mulheres se reunirem num sítio apropriado, num lance de escadas ou apanhando uma nesga de sol de inverno, para conversarem, enquanto faziam malha ou cosiam as roupas da família, essas mulheres cristãs-novas reuniam-se para rezar e pedir a Deus pelo fim das perseguições de que eram vítimas.

Hoje, cristãs-novas e velhas, já não se reúnem para rezar. As conversas são outras, há sempre muito que contar sobre as vizinhas, aquilo a que, no meu tempo, se chamava “dar à língua”.fazer-sinagoga-21

Pois ficam sabendo que, em terras de Miranda, isso se chama “fazer sinagoga”.

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner

A esperança chamada Nadja

A nossa amiga Nadja estava prestes a perder a esperança de encontrar aqui a resposta à sua pergunta sobre a origem do seu nome.

Pois aqui vai com os meus protestos renovados de que nem sempre posso responder, porque não sei tudo. Sei até muito pouco.:

Nadja – que em algumas línguas se escreve Nadia – é um nome de aqui, do Médio Oriente, com origem no Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Na língua árabe, significa “o arauto, o anunciador de Deus”. Por extensão, significa também “o princípio, o primeiro”. E escreve-se assim: ندية.

Importado para o Ocidente, Nadia significa “o desapontar de uma flor” e, por extensão, “a esperança”.

O Corão usa a palavra Nadja, como nome de uma deusa adorada pelos árabes, antes de ter surgido o Islão.

Na mitologia grega era uma das sete ninfas de Péricles, a ninfa honesta.

Em russo, usa-se como diminutivo de Nadezhda.

Em francês, o nome Nadine, deriva do diminutivo russo.

Valeu, Nadja?

 

O amigo do meu amigo, meu amigo é…

Temos uma nova amiga brasileira, a Nadja.

Amiga porque visitou este blogue, em que nos encontramos, e fez perguntas. Quem faz perguntas, ajuda-nos a aprender mais alguma coisa. E quem nos ajuda a aprender é nosso amigo.

A Nadja pergunta duas coisas: a origem da palavra “amigo” e o significado do seu nome.

Vou tentar.

Este poste será sobre a palavra “amigo”, que vem do vocábulo latino “amicus”, que tem exactamente o mesmo significado, e cuja raiz é o verbo “amo”, que significa “gostar de”, “amar”.

Amigo é, portanto, uma pessoa de quem se gosta, que se ama.

O que é que isto nos faz lembrar? O antiquíssimo preceito bíblico: «Amarás o próximo como a ti mesmo».

Este preceito é muito mais profundo do que as sete palavras com que se enuncia. Não vamos analisar aqui o contexto em que ele foi enunciado. Quem estiver interessado, abrirá a sua Bíblia e encontrá-lo-á no livro “Levítico”, capítulo 19, versículo 18.

Limitar-me-ei a apresentar aqui um aspecto deste preceito, em que poucas vezes reparamos, porque também não nos ensinam, geralmente.

Devemos amar o nosso próximo e por isso ele é o nosso amigo.

E devemos amá-lo  como nos amamos a nós próprios.

Ora eu conheço algumas pessoas que têm uma péssima opinião de si próprios. Estão sempre a criticar-se, falando para consigo, acham que são pouco inteligentes, que são baixos, que são altos, que são gordos, que são magros, que são feios, que não servem para nada, que nunca chegarão a ser alguma coisa na vida. É óbvio que essas pessoas não se amam a si próprias. Antes pelo contrário, detestam-se. Estão constantemente a criticar-se por tudo e por nada.

Deus nos livre, pois, de sermos o “próximo” dessas pessoas. Se elas nos amarem como vimos que se amam a si próprios, então detestam-nos, criticam-nos por tudo e por nada!

E quanto mais essas pessoas se dizem a si próprias o que pensam, mais se tornam feias, más, pouco inteligentes. Porque a vida ensina-nos que sempre  “o que pensamos acontece-nos”.  

Se pensamos que somos pouco inteligentes, não usamos a nossa inteligência, que é um dom divino a todas as suas criaturas. Se pensamos que somos feios, descuraremos a nossa aparência ao ponto de pareceremos feios aos olhos dosoutros. Se pensarmos que somos gordos, tudo quanto fizermos nos conduzirá a engordar.

Mas se, pelo contrário, soubermos sempre perdoar os nossos erros e as nossas falhas, se aceitarmos ser como somos, emendando esses erros, certos de que temos suficiente inteligência e força de vontade para usar nessa tarefa. Se, em vez de nos criticarmos, nos amarmos a nós próprios, então quando amarmos ao nosso próximo como a nós próprios, estaremos trazendo a salvação ao Mundo.

E, se formos nós, primeiro que tudo, o nosso melhor amigo conquistaremos novos amigos, em cada dia.

É isso, Nadja, o verdadeiro significado de “amigo”.

 

 

 

 

Assim nasceu um nome

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

 

A quem dedicou Luis de Camões este lindo soneto de amor?

E tantas outras poesias e canções, através das quais, o poeta nacional, galanteador e brigão, como o definem os seus biógrafos, se dirige, apaixonado, à sua amada, sem nunca ter conseguido, consumar esse fogo ardente, que o consumia?

 

Dizem que foi uma tal Caterina de Ataíde, dama da corte, a inspiradora desse tão grande amor, por causa do qual o poeta sofreu vários degredos, os quais o levariam a escrever mais tarde a grande epopeia do Povo Português – «Os Lusíadas» .

 

Há um certo consenso em relação ao nome da amada de Camões.

Já o mesmo não sucede quanto à sua verdadeira identidade.

É que na corte existiam, pelo menos, três damas com o mesmo nome.

 

Não vou entrar na polémica, pois para tanto me faltam os conhecimentos.

 

Mas vou arriscar-me a suportar uma chuva de protestos, referindo que foi desse grande amor do poeta que nasceu um bonito nome próprio feminino, desde então muito em voga.

 

A única vez que o poeta atribuiu um nome à sua amada Caterina, usou, mesmo assim de um anagrama, inventando um novo nome, em que utilizou todas as letras, que compunham o da sua paixão C-A-T-E-R-I-N-A.

 

Vejam então o que resultou:

 

 

Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.

Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam;
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.

Quando Liso Pastor, num campo verde,
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama?
(suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

 

Já viram? Pois com as letras de C-A-T-E-R-I-N-A ele construiu N-A-T-É-R-C-I-A.

 

Caterina, ou em outras línguas Catherine, tornou-se mais tarde em português, CATARINA.

 

A etimologia deste nome é incerta.

Dão-lhe alguns o significado de “casta, pura”, derivando-o do grego “katharos”.

Já outros relacionam-no com uma deusa pagã, da magia e do encantamento – Hecaté.

 

Natércia é também o nome de um município brasileiro, no Estado de Minas Gerais.

E também aqui temos uma história curiosa, que merece ser contada.

O nome teve origem nas minas de ouro, conhecidas por “Descoberto da Pedra Branca”.

Depois de muito disputada a sua posse, o proprietário de uma das suas ramificações, que residia, com sua esposa, num engenho chamado de Santa Catarina, deu à propriedade o nome de “Arraial do Ribeirão de Santa Catarina da Pedra Grande”.

Nome muito comprido, efectivamente, que, quando ali foi criada uma paróquia, foi encurtado para… “Paróquia de Santa Quitéria”!

Engano involuntário? Trama de algum/a devoto/a desta santa?

 

O certo é que houve quem insistisse o suficiente para que o erro fosse rectificado e a Paróquia voltou a ser encomendada a Santa Catarina.

 

Mas aí não parou a curiosa história do lugar.

 

Em meados do século passado, a população de Santa Catarina sofria prejuizos desagradáveis, porque uma parte da correspondência postal, que lhe era dirigida, era “desviada” … para o Estado da Santa Catarina.

 

Então reuniu-se a vereação da Câmara Municipal, para tomar uma decisão. Algum amante da tradição vernácula, fez uma proposta para que o nome da povoação fosse mudado, sem lhe mudar o sentido, seguindo a tradição do grande poeta português.

 

Desde 1953 – quem quiz que a sua correspondência fosse entregue na antiga Santa Catarina, teve que pasar a escrever no envelope, não o nome antigo, mas NATÉRCIA.

 

Se quizerem ver onde se situa, vejam aqui um mapa e algumas bonitas fotografias

http://www.bussolanet.com.br/cidades/mapa.asp?id=119         

Há banhos e banhos…

Há palavras que, através da sua história, se aproximam tanto umas das outras, que acabam por nos parecer da mesma família, e não são tal.

Já aqui vos contei sobre a relação – apenas aparente e não real -entre os banhos, que tomamos na banheira, e os “banhos”, que antigamente os noivos eram obrigados a publicar, anunciando o seu próprio casamento, para que, quem tivesse justificada objecção à sua união, se pronunciasse.

E expliquei que, estes últimos têm relação com “abandono, abandonar” (do latim bannum =  proclamação) e nenhuma relação com os banhos de lavagem.

Ou, se têm, não é etimológica, e sobre isso, só por graça, falaremos adiante.

Podem ler outra vez, se quiserem, sobre abandono, em http://steinhardts.wordpress.com/2007/03/27/70/

Hoje quero debruçar-me mais sobre a outra vertente – os banhos na banheira (ou no duche).

Banho vem do latim baneu, que é, por sua vez, uma corrupção de balneu. Por isso, um estabelecimento de banhos se chama balneário.

Em Portugal, foi costume chamar caldas (=quentes) aos balneários de águas minerais, isto porque normalmente eram águas quentes naturais (“Caldas da Rainha”).

Por curiosidade, já que o saber não ocupa lugar – como dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate  – “água quente”, na língua árabe (e também em hebraico) diz-se hamá (pronuncia-se khamá com um h-gutural).  Na cidade de Tibérias (junto ao Mar da Galileia ou Lago Tiberíades) há uma nascente de águas sulfúricas naturais quentes, a que chama Hamat Tveria. E no lado oriental do mesmo lago há outra fonte semelhante, muito frequentada, chamada em árabe Al-Hamá (al é, como sabem, o artigo definido, em árabe) e, em hebraico Hamat Gader.

Em Lisboa, também há uma nascente de água quente natural, a que os mouros chamavam Al-Hamá. Como a língua portuguesa não tem o som gutural Kh, antigamente todas as palavras árabes e hebraicas que se escreviam com esta letra eram transcritas com um f . (Al’hayat deu alfaiate, Harum deu Faro, Albuhera deu Albufeira, etc.).  Assim também Al-Hamá deu Alfama.  Sim senhor, os banhos de águas quentes de Alfama, hoje já em desuso.

Prometi acima voltar a falar dos banhos (de banheira) e da sua relação com o casamento.

Pois aqui vai, e não se riam, porque nem tudo quanto hoje é óbvio, parecia assim nos tempos mais remotos.

A Idade Média é conhecida na história também pela falta de hábitos higiénicos. Tomar banho era visto na sociedade medieval como um acto de vaidade, e até de deboche (pela fama que tinham as caldas romanas). Por isso, só se praticava três ou quatro vezes por ano.

Uma anedota urbana, que tem foros de verdade, é que os casamentos se realizavam normalmente em Junho, porque Maio era mês de banhos e assim os corpos dos noivos ainda conservavam um cheiro mais ou menos suportável.

Isso não era extensivo aos judeus, porque a Bíblia está cheia de preceitos sobre a lavagem obrigatória das mãos, em várias ocasiões, durante o dia, assim como banhos rituais de imersão com grande frequência.

Nem oito nem oitenta – dizia também o meu “avô” Jacinto.  A lavagem também pode ser uma obsessão, doença mental conhecida.

Num dos processos da Inquisição de Lisboa, consta a prisão de um indivíduo que, coitado, sofria dessa doença, e passava os dias lavando-se copiosamente no Chafariz que hoje se chama o Chafariz de Dentro, em Alfama. Foi preso e acusado de… suspeitas de judaísmo.  Por se lavar demasiado… 

Contou-me isto, há muitos anos, um amigo português, professor de medicina, com base na descrição do caso, como exemplo dos sintomas, numa revista científica de medicina.

Aliás, na lista de indícios de judaísmo, para os quais era obrigatória a denúncia e fazia parte de todos os interrogatórios do Santo Ofício, constava sempre: “lavar-se e vestir camisa lavada às sextas-feiras”. Era crime contra a religião…

 

E, já agora,  vem à mão de semear o “banho-maria”.  Isso mesmo, o processo de aquecer um produto, geralmente um alimento, produto farmacêutico, cosmético, etc., dentro de uma vasilha, que se coloca por sua vez dentro de outra vasilha com água quente.  Evita-se assim que o produto seja aquecido a mais de 100º, porque, para cima dessa temperatura, a água se evapora.

A atribuição do nome também se deve a uma lenda… e a um erro de tradução.

Diz a lenda que Maria, ou Miriam, irmã de Moisés, do Egipto, se dedicava a experiências de alquimia. Para essas experiências, ela inventou um aparelho, a que os gregos chamavam kaminos Marias (a chaminé de Maria).  Alguém traduziu erradamente, do grego para o latim, como balneum Mariae, o banho da Maria.  Por isso, os franceses chamaram ao tal instrumento bain-marie. Era assim no século XV.

No princípio do século XIX, quando o termo foi adoptado, na versão francesa, para outros idiomas, já não designava o instrumento da química, mas sim o processo de aquecimento que hoje se chama assim.

Em português “banho-maria” só aparece por essa altura.

Tolerar o sofrimento

Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter amigo já a quem faça dano;
E assim não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da Pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede”

(Luis de Camões – “Os Lusíadas”)

 

 

Assisti, nos últimos três dias, aqui, na Universidade de Bar-Ilan, a um simpósio sobre o tema «Tolerância e Intolerância nas sociedades ocidentais».

Participaram muitos historiadores israelitas e estrangeiros, e entre estes a professora Elvira de Azevedo Mea, da Universidade do Porto.

Na ocasião, o apresentador do simpósio lembrou que tolerância vem do latim tolerare, com o significado de suportar. Suportar, aceitar, o outro, o que é diferente de nós.

E o que é suportar, pergunto agora eu?

Suportar é sub-portare, ou seja transportar, segurando por baixo (sub).

Também sofrer, no sentido em que Camões empregou a palavra na estrofe acima, significa suportar. «Não sofre o peito forte, usado à guerra, não amigo já a quem faça dano». Não se refere a sofrer dores no peito, mas sim a não suportar a falta de oportunidade para combater.

Efectivamente, sofrer, do latim sufferre, significa exactamente o mesmo su(b) = por baixo e ferre = carregar.

E tol, a palavra inicial latina de onde derivou tolerar, também significava levantar, carregar.

Claro que quem tem um sofrimento não tem outro remédio se não suporta-lo.

Ou “dar de beber à dor é o melhor – já dizia a Mariquinhas” pela linda voz da saudosa Amália Rodrigues.

.

Divagando no Estreito do Bósforo…

Istanbul Bids for 2008 Olympics

 
Image details: Istanbul Bids for 2008 Olympics served by picapp.com

        Mesmo não tendo nunca estado na Turquia, todos aprendemos na escola que o Estreito de Bósforo é um estreito que liga o Mar Negro ao Már de Mármara e marca, na Turquia, o limite dos continentes asiático e europeu.

Bosphorus é um nome de origem grega, composto de duas palavras: bos (que significa boi) e phorus, foros, (passagem, transporte). Queriam os gregos significar com isso que o estreito era tão estreito que podia ser atravessado por um boi a nado. Ou, segundo outros, que podia ser atravessado sentado num odre, feito da pele de um boi, cheio de ar. Escolham!

Bos é também o nome latino da espécie zoológica a que pertence o boi, ou bove, e todo o resto do gado a que chamamos bovino.

Também se chama gado vaccum, em honra da meia-metade feminina: a vaca.   Já os latinos chamavam ao boi bove e à vaca vacca, e se alguém souber explicar-me porquê, agradeço, pois não encontrei a explicação.

Nos talhos, em Lisboa, chamava-se carne de vaca sem distinção tanto à de vaca como à de boi. Já no Alentejo só vi “talhos de carne de boi”. Era o macho que dominava na designação. Não sei se ainda é assim, nem sei também a razão.

O que se prova, mais uma vez, é que a história dos nomes dos bichos varia consoante o pronto de vista de quem os dá.

Já vimos aqui, há tempos (“Bifes de Peru”) que, na língua inglesa, os mesmos animais tem dois nomes: quando vivo o boi é ox, palavra de origem saxónica, dado por quem os criava; no prato, o boi é beef, de origem francesa, dado pelos normandos, que os comiam…

E da mesma forma porco, carneiro, etc. tinham nomes saxónicos enquanto vivos, e franceses depois de mortos… e cozinhados.

O mesmo sucedia entre nós com o peixe, que só o era enquanto vivo, dentro de água. Cá fora, candidato a mudar-se para o nosso prato, era pescado.  Hoje, em português, já não se usa pescado, como substantivo, mas em espanhol ainda se mantém a distinção.

 

Para saber mais, clique aqui: 

Estambul, Bosforo Y Dardanelos/ Istanbul

A hóstia e o pão ásimo

Este ano, os judeus comemoram a festividade de Pessah, de 20 a 26 de Abril.

Portanto, como os dias do calendário judaico começam sempre ao por do sol (na criação, primeiro foi escuridão, ou seja a noite, e só depois nasceu a luz), a tradicional ceia de Pessah, terá lugar esta noite, 19 de Abril, data em que estou escrevendo esta história.

Pessah significa, na língua hebraica: “passagem”. E comemora, na realidade, diversas passagens, mas sobretudo a passagem da escravidão no Egipto para a liberdade na Terra de Israel.  Isto na vertente nacional da festividade. No ciclo anual, é a passagem do inverno para a primavera.

Pessah dos judeus e a Páscoa dos cristãos estão intimamente relacionadas.  Na realidade, são a mesma festividade, mas encarada sob pontos de vista históricos diferentes.  Os judeus lembram a libertação da escravidão do Egipto; os cristãos recordam a morte e a ressurreição de Jesus.

Segundo os Evangelhos, Jesus estava precisamente a celebrar a ceia judaica de Pessah, com os seus discípulos, quando foi preso pelos soldados romanos.

Teoricamente até coincidem nas datas em que são comemoradas: segundo o calendário lunar judaico, a festividade tem uma data fixa: principia no dia 14 do mês de Nissan. Como os meses lunares principiam com a lua nova, o dia 14 será mais ou menos o da lua cheia. Em relação ao calendário solar, que todos seguimos na vida laica, é uma festa móvel.

A data da Páscoa cristã foi fixada no primeiro concílio de Niceia, no ano 325.  É comemorada no primeiro domingo, depois da lua cheia da Primavera (no Hemisfério Norte, ou do Outono, no Hemisfério Sul).  Portanto, teoricamente, será no domingo mais próximo do tal 14 de Nissan dos judeus, em Março ou Abril do calendário solar.

Este ano, não foi assim. A Páscoa cristã foi exactamente um mês antes do Pessah judaico. A explicação é simples. Como 12 meses lunares são menos do que um ano solar, o calendário judaico, em determinados anos, tem que ser ajustado com um mês adicional – tem treze meses.  Foi o que aconteceu este anos, e, por isso, Pessah é celebrado um mês depois da Páscoa..

Para ambas as religiões é uma das principais, se não a principal festividade do ano.

Os principais símbolos do Pessah são o cordeiro pascal (sacrifício do animal, que passou a ser apenas simbólico desde que o Templo de Jerusalém deixou de existir), o pão ázimo, chamado Matsá, pão sem levedura, o único que os judeus podem comer durante os oito dias de Pessah, em recordação de que, quando os seus antepassados fugiram dos egípcios, que os perseguiam, levaram apenas a massa, que tinham preparado para o pão, e que não teve tempo de levedar, e quatro copos de vinho, a cada um dos quais corresponde uma bênção, bebidos nas paragens que o pai da família faz, enquanto conta aos filhos, durante a ceia, a história do Êxodo, ou saída do Egipto.

Ora era precisamente isso que Jesus estava a fazer, durante a ceia daquela noite, a que se costuma chamar a Santa Ceia do Senhor.

O lugar onde isso se passou é conhecido, poderão visita-lo quando, se Deus quiser, vierem um dia a Jerusalém: é o Cenáculo (sala da ceia), no Monte Sião.

Podem então ler, no Evangelho de Marcos (14:22-26): “Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho, e todos beberam dele. E disse-lhes: isto é o meu sangue.”.

O significado mais profundo do acto de Jesus naquela ceia, foi a transformação das orações tradicionais judaicas sobre o pão e o vinho, instituindo com elas a Eucaristia.   Eucaristia veio-nos do grego, através do latim, e significa “gratidão”  (eu, significa “bem”, e kharizesthai, mostrar favor; de eu deriva por exemplo, eucalipto – bem coberto – e de kharis, favor, graça, vem o carisma).

Pão e vinho. 

Que pão era esse que Jesus e os seus discípulos comiam na ceia de Pessah? Era a matsá, pão não levedado, tal como a hóstia, é pão ázimo. Não levedado. Hóstia significa em latim “vítima”, “sacrifício”, lembrando o cordeiro pascal.

E o vinho era um dos quatro cálices que todos bebem em volta da mesa da ceia de Pessah, logo à noite.

É esta a história da ceia da Páscoa judaica e da Eucaristia cristã.

Página Seguinte »