O verão de S. Martinho

D. Natália Bispo, senhora da «Casa do Castelo“, ex-líbris da cidade de Sabugal, brindou-nos, este ano, com uma vívida série de reportagens diárias, sobre o decorrer das festas do Magusto, no adro daquela histórica fortaleza.

Que mais incentivo precisava eu, para empreender um breve estudo histórico-etimológico sobre os termos próprios desta época, na nossa língua.

O magusto comemora-se em várias épocas do ano. Mas é sobretudo no final do “verão de S. Martinho”, que as festas atingem o seu auge.

Porquê “verão” e porquê “S. Martinho”?

O verão, do latim veranu, também chamado estio, é o período do ano em que as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. No hemisfério norte, principia a 21 de março e finda com o equinócio de Outono por volta de 23 de setembro. Por essa altura começam o frio e as chuvas. Não raro, em Outubro,  as chuvas já são torrenciais e nos países nórdicos, as terras cobrem-se de neve.

Então, repentinamente, por alturas de 1 de novembro, o frio, as chuvas e a neve param, o sol volta a banhar as terras. A gente do campo aproveita para realizar umas últimas atividades agrícolas, antes que volte o inverno. Não estivessem eles habituados a este fenómeno meteorológico, e dir-se-ia que o verão tinha voltado.

Antigamente, quando os arrendamentos rurais eram anuais, os contratos faziam-se com pagamento das rendas pelo S. Miguel (29 de Setembro) ou pelo S. Martinho (11 de Novembro), em função da época das colheitas

 Mas é sol de pouca dura, pois passados onze dias de bonança regressa o inverno, desta vez mesmo a sério.

Explicado o primeiro termo da expressão, vejamos agora por quê de S. Martinho.

Martin de Tours era um soldado romano, nascido por volta do ano 316, na Hungria. Era pagão, educado na religião romana dos seus pais. Um dia, segundo a lenda, em pleno inverno europeu, ele deparou com um mendigo, tiritando de frio, que lhe pediu esmola. Martim não tinha nada para lhe dar, mas logo ali puxou da espada, cortou ao meio a sua capa de soldado, e deu uma das partes ao mendigo, para que se abrigasse do frio.

Agora era ele que sentia o frio nos ossos. Mas, nesse preciso momento, a neve deixou de cair e o sol tornou a banhar a terra, como se tivesse voltado o verão. Martim viu nisso um milagre e decidiu definitivamente converter-se ao Cristianismo, como já tinha em mente desde a sua juventude. Mais tarde foi escolhido para bispo de Tours, em França, e realizou outros milagres, pelo que foi canonizado.

O “verão de S. Martinho” é comemorado em quase todos os países da Europa. Nos países eslavos e na Hungria tem o nome alternativo de “verão das velhas”.

Mas o fenómeno não se verifica somente na Europa. Também no continente americano ele é conhecido. No tempo dos primeiros colonizadores europeus, os índios aproveitavam esse período de “falso verão” para fazerem a colheita da abóbora e do milho. Parece que foi por isso que lhe deram o nome de “Indian summer” (verão do índio). Há outras versões para a origem do termo, mas aqui só nos interessa a nossa versão europeia.

No primeiro dia de novembro, quando oficialmente principia o verão de S. Martinho, é comemorado em todo o mundo o “Dia de Todos os Santos” (conhecidos e desconhecidos). A comemoração foi iniciada em 13 de maio de 609 ou 610, quando o Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão romano, onde até aí “residiam” todos os deuses pagãos dos romanos, a Maria, mãe de Jesus, e a todos os mártires da Igreja.

A data foi mudada para 1 de novembro, pelo Papa Gregório III (731-741), não se sabe bem porquê. Supõe-se que a razão tenha sido a cristianização dos celtas, na Inglaterra. Nessa data eles tinham antes uma festa popular, a que chamavam o Samhain. O Samhaim era a época em que se acreditava que as almas dos mortos voltavam às suas casas para visitar os familiares, para buscar alimento e se aquecerem no fogo da lareira. As tradições populares têm muita força e persistência na memória coletiva dos povos. Quando se converteram ao Cristianismo, eles continuaram a celebrar o Samhain. Era, pois forçoso, “cristianizar” também o Samhein. Por isso foi transferida a data do “Dia de Todos os Santos” para 1 de novembro.

Os mortos não foram esquecidos, sobretudo aqueles cuja data de falecimento não era conhecida. Os crentes rezavam pelos seus mortos em diversas datas, mas séculos depois da fixação da data para “Todos-os-Santos”, foi escolhido o dia seguinte, 2 de novembro, para “Dia de Finados”, ou dos “Fieis Defuntos.”

Uma tradição semelhante, baseada também no Samhain dos pagãos celtas, encontrou o seu caminho de Inglaterra para os Estados Unidos. É a “noite das bruxas” (All Hallows’ Eve ou Halloween) e comemora-se na véspera do “Dia de Todos os Santos”. É comemorado com mascarados, histórias de terror, cerimónias religiosas (alguns fazem jejuns) e as crianças vão de porta em porta a pedir presentes, doces e bolos. Algo de muito semelhante com o pedir do “pão-por-deus” nas nossas aldeias.

Com tudo isto, acham que me esqueci do magusto?

Pois não me esqueci, não senhores: O magusto vem do latim “magnus ustos” (grande fogueira), que se acende na noite de S. Martinho, para assar castanhas e em alguns sítios também bolotas. Ambos os frutos eram, no passado, alimento dos pobres. Portanto, inicialmente o magusto era o lume, não a comida que se assava com ele. Na Galícia e nas Astúrias é o magosto.

Aliás, até ao século XVII comiam-se em Portugal mais castanhas do que pão ou batatas.

Etimologia de “castanha”? Parece fácil – cor do fruto. Pois não é! O contrário é a verdade: a cor vem do nome do fruto. Em francês, ambos são “marron”, nome derivado da palavra lígure (língua romana galo-italiana) “mar”, que significa “pedra”

Antigamente, os franceses diziam “chesteine”. De chesteine, tiraram os ingleses “chest”, e “noz de Chest” é chestnut, o nome que eles dão à castanha.

Em grego era Castanea, nome de uma terra na Grécia, de onde veio o fruto que inicialmente se chamava “nós de Castanea”.

Do grego, através do latim, castanea chegou até nós como “castanha”… e castanholas. Tudo da mesma família etimológica.

Não me esqueci de nada?

Esqueci.  “No S. Martinho, castanhas e vinho”

No S. Martinho, prova-se o vinho que foi feito em setembro. Além do vinho, ainda se vai ao bagaço da uva (pé), durante a fermentação, e se lhe deita por cima água, para retirar o pouco de mosto que ainda lá tenha ficado. É a água-pé, com muito pouco álcool.

Era o que me deixavam beber, em pequeno, quando assistia ao magusto na aldeia.

Para os mais velhos, em vez de deitar água no mosto, deitavam-lhe aguardente (água+ardente).

E então ficava uma bebida mais alcoólica e mais doce do que o vinho – a jeropiga.

Créditos:

Fotografias: Internet e Drª. Maria João Lopes Cardoso

Recomendações:

Para ver, clique sobre o link:

«Ben-Rosh, uma biografia do Capitão Barros Basto, Apóstolo dos Marranos»- Elvira de Azevedo Mea e Inácio Steinhardt

Dicionário Moderno da Língua Portuguesa (com o novo acordo ortográfico)

Quem era a Maria das bolachas?

A minha história de hoje foi inspirada num artigo do «Diário de Notícias”, com o título de «Bolacha Maria: Uma bolacha perfeita».

Este título tinha que me trazer à memória reminiscências da minha primeira infância, esse período tão ligado ao meu saudoso “avô” adotivo, Jacinto, de Camarate, sobre o qual já escrevi aqui várias vezes.  Sempre senti no “avô Jacinto” uma dedicação tão amorosa, como se eu fosse realmente seu neto. Estou a falar nos meus primeiros dois anos de vida, pois com a idade de 3 anos já nos mudámos de Camarate para Tremês.

Operário da construção civil, como se diz agora, pedreiro na fala daquela época, Jacinto mourejava todos os dias, de sol a sol, saindo de casa antes do sol nascer, para ir para o trabalho, percorrendo muitos quilómetros a pé, pela “estrada militar”, em direção a Sacavém, ou pela estrada da Charneca, até Lisboa.

O sábado era o dia da “jorna”, assim se dizia então o magro salário auferido diariamente pelo duro trabalho de muitas horas, e que era pago semanalmente, para o trabalhador poder pagar as dívidas ao merceeiro da aldeia, e lhe merecer o crédito para mais uma semana de “fiados”.

Mas, assim que se achava com algum dinheiro no bolso, e antes de empreender o caminho de regresso a Camarate, o “avô” Jacinto procurava a primeira mercearia, onde quer que se encontrasse, para comprar uma guloseima para o seu “neto”, sempre a mesma.

Quando chegava, cansado, com a pela ressequida pelo sol e pelo pó da estrada, eu corria a abraça-lo. Era na casa dos “avós” Jacinto e Maria que eu passava a maior parte do meu tempo.

No sábado, sempre os olhos do “avô” brilhavam de felicidade. “Ò Inácio, que dia é hoje?”. Mesmo que eu não estivesse a par do calendário, esta pergunta sugeria-me logo a resposta certa: “É sábado!”. “E é dia de quê?”. Agora, era já com voz baixa, meio envergonhado, que eu respondia: “É dia de bolos”. Era isso, todos os sábados, ao voltar do trabalho, Jacinto trazia, escondido atrás das costas, um pequeno cartuxo de papel pardo, com “bolachas Maria”. Era o meu luxo e a minha guloseima semanal.

“Bolachas Maria” já existiam há muitos anos e existem ainda hoje em todo o mundo. Não passam de moda. O seu sabor quase neutro, talvez ligeiramente abaunilhado, a sua forma redonda, plana, e consistência seca, fazem com que se torne no bolo ideal para acompanhar o café ou o chá, singela ou barrada com doce, chocolate, etc.

Também a bolacha Maria tem a sua história.

“Bolacha” ou “biscoito” são sinónimos, pese a quem numas terras use um dos termos e noutras o outro para designar variedades diferentes. “Bolacha” vem de “bolo”, com o sufixo diminutivo “-acha”. “Biscoito” veio-nos da língua francesa, onde se diz “biscuit”, ou seja “cozido duas vezes”. Como tudo nasce para servir um propósito, a história é que os padeiros-confeiteiros serviam-se antigamente de uma pequena porção da massa dos bolos para experimentar o calor do forno. Depois coziam o resto dos bolos. Mas aquela primeira massa, que geralmente ficava um pouco húmida, era levada ao forno segunda vez, para secar. Cozida duas vezes – bis-cuit, em francês – ou, pelo mesmo motivo, “cookie” – de “cook” – cozer.

Em português, a palavra “biscoito” já existia desde o século XV, quando os navegantes o levavam como mantimento para as longas viagens. O termo “bolacha” só começou a ser usado no século XIX.

Em 1857, dois padeiros empreendedores, James Peek e George Hander Freans, de Dockhead, um arrabalde de Londres, começaram a fabricar “cookies” e a vende-los para outras áreas. Para isso adquiriram uma carruagem que circulava por todo o país, ostentando o nome “Peek Freans”.

Tornaram-se conhecidos e em breve mudaram para Clements Road, em Bermondsey, onde abriram uma fábrica, que dava trabalho a dezenas de operários.

Quem passava na localidade não podia ignorar o cheirinho a bolo que se espalhava no ar.  Por isso lhe chamam ainda hoje “a terra das bolachas”.

Em 1870, quando da guerra entre a França e a Prússia, a fábrica dos dois sócios, agora já com a firma “Peek Freans & Co. Ltd”,  recebeu das forças armadas uma encomenda de 10 milhões de “cookies”. Isso contribuiu definitivamente para o desenvolvimento do negócio como grande empresa internacional. Hoje existem subsidiárias e licenciadas da Peek Freans em muitos países do mundo, e as suas embalagens de lata são já há muitos anos objeto de coleção.

Maria Alexandrovna

Ora, em 1874, o segundo filho da rainha Vitória, Alfredo, duque de Edimburgo, casou-se com uma grão-duquesa russa, Maria Alexandrovna.

Peek Freans, com o grande prestígio de que já gozavam, como fabricantes de “cookies”, entenderam homenagear a duquesa com um novo biscoito, redondo, com um friso decorativo, e, no centro, gravaram o nome da homenageada: “Maria”.

Como sucede ainda hoje com os casamentos reais britânicos, o casamento dos príncipes foi seguido com grande interesse em toda a Europa, . Toda a gente quis provar as bolachas com o nome da noiva.

Um pouco por toda a parte, industriais locais começaram a imitar o produto. Portugal e a Espanha foram dos primeiros, mas até no Japão se produzem hoje bolachas iguais, com o nome “Maria” gravado no centro, e o imprescindível “Made in Japan”.

Mas o país onde as “bolachas Maria” entraram francamente na cultura nacional foi a Espanha do século XX. Durante o período de fome que se seguiu à guerra civil espanhola, a falta de pão era tanta que o governo empreendeu uma campanha para a produção de trigo. O resultado foi uma fartura tal do cereal que, para lhe dar vazão, os padeiros começaram a fabricar grandes quantidades de bolacha. Tornou-se habitual nos cafés colocar em cima do balcão pratos com bolachas “Maria” (com o nome estampado), para os clientes se servirem, acompanhando o café. Era também um símbolo da recuperação da economia espanhola. E tornou-se um biscoito favorito.

Dizem as estatísticas que, 40% dos cartões com biscoitos que se vendem em Espanha são “galletas Maria”.

Podem começar, meus amigos, a olhar para a bolacha Maria com outro respeito…

Onde está o rato?

Já alguma vez sentiram ratos debaixo da pele? Não, pois não! Quem é que pode ter ratos, debaixo da pele? Debaixo da pele temos músculos.

Nem ratos, nem mexilhões. Mexilhões também não.

Em latim rato dizia-se mus.

De mus chegou-nos o inglês mouse (rato), termo com que estamos todos familiarizados, por via do mouse/rato do computador.

E no diminutivo, um rato pequeno, era musculus.

Aos antigos terá parecido que os músculos salientes do corpo humano, nos braços e nas pernas, tinham a forma e os movimentos de pequenos ratinhos. Por isso criaram a palavra músculo, na anatomia humana.

Em francês e inglês ficou muscle (com pronúncias diferentes).

E a que propósito vem aqui o mexilhão?

É que a etimologia é a mesma. Provavelmente a carne do pequeno molusco, debaixo da concha, terá dado a ideia de um pequeno músculo. Em inglês é mussel e em francês moule. De onde, quase irreconhecível, o nosso mexil>mexilhão, que é quem mais sofre quando o mar está bravo, segundo a sabedoria popular, num aviso para o Zé Povinho.

Não fica por aqui a contribuição do rato para a nossa fala.

Conhecem o almíscar?, uma substância de origem animal, proveniente de uma bolsa situada perto do umbigo do almiscareiro, uma espécie de cabrito sem cornos, que habita os vales e as serras do Himalaia, do Tibete e da Sibéria. Com esta explicação é natural que não conheçam. Mas nas perfumarias, por exemplo nos aftershave (loções para depois de barbear), encontramos a designação de musk, um perfume feito à base do almíscar, nome que nos veio da língua árabe, com a mesma origem –al musk. A etimologia aqui é indireta. Veio do sânscrito muska, que significava testículo, novamente porque a forma desta glândula masculina lembrará (talvez, vamos lá!), um rato – mus. Mas já ouvi dizer que a ingestão do mexilhão favorece a fertilidade. Terá ligação?

A glândula, pela qual o tal cabrito segrega o almíscar, pareceu aos persas um testículo. Então pegaram no nome do testículo em sânscrito, e fizeram mushk para o perfume.

Já chega de palavras de origem esquisita? Ficamos por aqui?

Antes, porém, vamos tomar um cálice do delicioso vinho Moscatel de Setúbal.

Quando eu era pequeno, pensava que a uva moscatel tinha que ver com as moscas que pousavam nela, por ser doce.

Mas não tem que ver, não senhor. Nas outras línguas é muscat ou muskat. Tem que ver com a noz moscada (almiscarada), que em inglês se chama nutmeg. Este meg vem do latim muscus, novamente relacionado com o ratinho… Mas através do musk/almíscar, por causa do perfume da noz e da uva…

Muscat, ou Mascate em português, é a capital do sultanato de Oman, e já foi possessão portuguesa. Mas aí já não sei se há ligação.

Entretanto, se lhes perguntarem o que tem que ver o rato do computador, com os vossos bíceps e com o vinho moscatel, já não podem dizer que não sabem.

Os nossos dedos

Hoje em dia, vivemos num mundo digital. Temos relógios digitais, fotografias digitais, televisão digital… provavelmente já se pode ir a um café e beber uma bica digital.

A palavra “digital” chegou-nos do latim, onde significava “dedo”, aquilo que nós e muitos outros animais temos nas extremidades das mãos e dos pés. Como era fácil contar pelos dedos, a palavra “dígito” evoluiu para designar “algarismo”. Um número de telefone, em Portugal, tem agora, nove dígitos.

Antes de chegar ao latim, a palavra existiu na língua comum indo-europeia (de que derivou a maioria das línguas da Europa, além do sânscrito na Índia e suas ramificações), onde se dizia deik, e significava “apontar”. Com os dedos aponta-se.

Mas, da mesma palavra derivou o verbo “dizer” (originalmente “dizer” era apontar, mostrar).

Um sistema digital é um conjunto de dispositivos de processamento, armazenamento e transmissão de dados, usando valores discretos (descontínuos). Utilizam-se para isso sistemas de numeração binários, ou seja em que os únicos dígitos empregues são o “0″ e o “1″, com os valores de “sim” ou “não”, “aceso” ou “apagado”.

O sistema a que estávamos habituados antes era o analógico, que usa um intervalo contínuo de valores, para representar informação. Temos relógios digitais e relógios analógicos, como temos televisão analógica e televisão digital.

Ora quase todos nós nascemos com 5 dedos em cada mão. Digo quase todos, porque um colega meu no liceu tinha 6 dedos numa mão. Mas isso são excepções: polegar, indicador, médio, anelar e mínimo.  Com excepção de “polegar”, que veio do latim “pollicaris”, cuja origem não encontrei, todos os outros têm significados claros para nós.

Detenhamo-nos apenas no “anelar”, o dedo da mão esquerda onde, nas culturas ocidentais, se coloca o anel de casamento. Porquê precisamente nesse dedo e na mão esquerda.

Para aprendermos isso temos que recuar até à civilização egípcia, onde se simbolizava a união entre marido e mulher, através de pulseiras e correntes. Com o andar dos tempos, passaram a usar, para esse efeito, o anel que tinha um significado religioso, relacionado com o sol e a lua. Quando Alexandre da Macedónia conquistou o Egipto, em 332 A.C., o costume espalhou-se pela Europa e pelo Ocidente.

Os cientistas egípcios, que estudaram a anatomia humana, revelaram que no quarto dedo da mão esquerda nasce um nervo que vai ter directamente ao coração Portanto o “nervo do amor”. Também houve quem dissesse que era a “veia do amor”. Por isso, nos ficou a tradição de usar a “aliança de casamento” no dedo anelar da mão esquerda.

Em latim, o dedo anelar (digitus annularis) também foi chamado “digitus medicinalis” (o dedo do médico). Esta última designação foi conservada na língua alemã – “arztfinger”. Os etimologistas estão muito divididos em relação à origem deste nome. Muito provavelmente não teria que ver com médicos, mas sim com curandeiros, que atribuíam a esse dedo qualidades mágicas de cura. Talvez pelo mesmo motivo do nervo ou da veia que vai para o coração.

Quanto ao dedo mínimo, também o povo lhe chama “o dedo da orelha”, por razões óbvias apropriadas às suas pequenas dimensões.

O crime da camisa lavada

Camisa é uma palavra árabe (kemiz) que entrou não só no português como em várias línguas latinas.

É uma palavra muito citada nos processos da Inquisição, onde os cristãos-novos, judeus forçados a converter-se ao judaísmo, no século XV, eram frequentemente acusados pelos seus vizinhos de “vestirem camisas lavadas na sexta-feira”, e isso era interpretado como sinal de que “judaizavam”.

Não é que aos cristãos fosse proibido vestir camisa lavada, em qualquer dia. Mas os judeus guardavam o sábado, seu dia santo, e, por isso, tomavam banho na sexta-feira, e mudavam de camisa, para entrarem no dia santo puros e limpos.

Não se riam por alguém tomar banho uma vez por semana (pelo menos), porque naquela época ainda não havia o hábito de tomar banho. Tomar banho todas as semanas era pelo menos estranho, se não condenável.

Nos séculos XVI e XVII, tomar banho regularmente era uma afronta para a saúde, desaconselhada pelos médicos. Hoje dizemos que nos devemos lavar com frequência, para limpar e alargar os poros da pele, por onde o corpo respira. Naquela época, a classe médica pensava que os poros abertos eram um convite às doenças malignas, para entrarem no corpo humano.

Um banho por ano, com muito cuidado, por alturas da primavera, já era uma concessão. Por isso foram inventados os perfumes. Mas isso é outra conversa…

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, acharam muito estranho, e faziam troça dos indígenas, que se lavavam muitas vezes ao dia.

Também num dos processos da Inquisição há uma denúncia contra um indivíduo, por tal sinal cristão-velho, que sofria de uma doença maníaco-obcessiva, e estava o dia inteiro no Chafariz de Dentro, em Lisboa, a lavar-se.

Os muçulmanos têm hábitos absolutamente diferentes, como se sabe, e ao lado de cada mesquita há sempre um chafariz público, para se lavarem as mãos e os pés, antes de entrar. Na Guiné, por exemplo, era costume os indígenas andaram por toda a parte com uma cafeteira de água na mão.

Os judeus tinham obrigatoriamente os seus banhos públicos, não só para a preparação para o sábado, mas para diversas outras ocasiões, mandatórias pela Torah. E a lavagem das mãos é obrigatória sempre, antes da comida, e depois de fazer as suas necessidades.

Assim, depois dos judeus terem sido convertidos pela força, deveriam também deixar de tomar banho e de mudar de camisa na sexta-feira. Esse era um dos quesitos dos interrogatórios e, a provar-se, era sinal de que o réu, apesar de cristão, continuava a praticar costumes judaicos.

Os vizinhos cristãos-velhos, sobretudo se lhes tinham ódio ou inveja, se os viam mudar de camisa na sexta-feira, corriam logo a denunciá-los.

Frases como esta (copiada de um blogue): “Ouviu dizer que Vila Nova de Cerveira ia ter um orçamento participativo e como não pode ver “uma camisa lavada” no vizinho….” têm precisamente a origem neste antigo costume.

Caiu como a sopa no mel

Algum de vocês já comeu sopa de mel? Eu não. Penso mesmo que, se existe, deve ser enjoativa. Pelo menos no sentido que hoje damos à palavra “sopa”, tal como a encontramos nos cardápios dos restaurantes.

“Caldo gordo ou magro de legumes, ou outras substâncias, que se serve no começo das duas principais refeições.” (Dicionário Priberam).

Nem me parece muito natural a sopa cair no mel. O contrário vá que não vá: Uma colher de mel cair na sopa… é possível, mas estraga a sopa.

Contudo lemos e dizemos com frequência que tal coisa ou tal acontecimento “caiu como sopa no mel”, isto é, aconteceu como nos convinha, estava mesmo a calhar.

Explicação? Pois tudo tem sempre uma explicação. É que o significado original de “sopa” não é o caldo, mas aquilo que o caldo ensopa. Mais propriamente o pedaço de pão, que se come molhado num líquido.

Nos meus tempos de menino, em Camarate, eram comum os trabalhadores do campo e da construção, ao “mata-bicho” (aquilo a que nós chamamos o “pequeno almoço” ou o “cafezinho da manhã”), ao saírem para o trabalho, ainda antes do sol nascer, comerem uma “sopa de cavalo cansado” – uma malga bem cheia de pedaços de pão da véspera, embebidos em vinho tinto.

“Fazer sopas” era deitar pedaços de pão dentro de um líquido.

Temos, pois, que cair o pedaço de pão dentro do mel é realmente muito agradável e desejado, que combina muito bem.

Eis a segunda definição da Priberam para “sopa”:

 Qualquer pedaço de pão embebido em caldo ou em outro líquido.”

 

Que tudo quanto vos aconteça caia sempre como a sopa no mel.

Fazer tijolo

Nos meus tempos de estudante do liceu, eu morava em Lisboa, na rua dos Anjos e frequentei a Escola Portugália (hoje Externato Portugália), na Rua Palmira.

A Escola ficava quase no extremo sul da rua, no que então se chamava o Bairro Andrade, por onde passava a linha do “elétrico” para a Graça. Para norte, passado o Jardim dos Anjos, que envolvia a igreja do mesmo nome, e antes de chegar ao Bairro das Colónias, a Rua Palmira cruzava-se com o Caminho do Forno do Tijolo. Hoje creio que se chama Rua do Forno do Tijolo.

Obviamente, houve ali, em tempos idos, um forno para o fabrico de tijolos.

No fim dessa rua, cruzavamos a linha do elétrico, que depois subia a Angelina Vidal (escritora, republicana e feminista), até à Graça.

Se, em vez de subirmos pela Angelina Vidal, tomassemos à direita a Rua de Damasceno Monteiro (que foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa), iriamos ter à Calçada do Monte e às Olarias (rua e largo).

Forno de Tijolo e Olarias sugerem a existência de barro naquela zona. Efectivamente o terreno ali é argiloso. Por isso, se instalaram ali, no passado, as indústrias de fabrico de louça de barro, e de tijolos para a construção.

Se recuarmos no tempo, até aos séculos XIV e XV, quando em Lisboa havia uma significativa população de mouros e de judeus, sabemos que estes eram obrigados a viver em bairros separados. Os mouros nas Mourarias, a de Lisboa na área ainda hoje designada por esse nome; e os judeus nas Judiarias, das quais a principal ficava numa zona desaparecida durante o terramoto de 1755, mais ou menos entre a igreja da Madalena, e as ruas da actual Baixa. Ambas as comunidades tinham os seus cemitérios próprios, afastados das zonas de habitação.

Existem diversas grafias do termo árabe, almocavar, usado para designar os cemitérios. O dos judeus ficava onde hoje se situam a Rua do Benformoso e o Largo do Intendente Pina Manique, subindo pelas ruas da Bela Vista do Monte e do Terreirinho (actuais), até quase ao Largo das Olarias, onde provavelmente confinava com o almocavar dos mouros, que descia das Olarias pela vertente do Monte de S.Gens.

Os mouros foram expulsos de Portugal em 1497, quase ao mesmo tempo que os judeus foram forçados ao batismo cristão. Os dois cemitérios deixaram de ter uso. Mas também não houve nenhum respeito humano pelo repouso eterno dos finados ali sepultados. D. Manuel decretou que ambos os terrenos fossem usados como logradouros públicos. Com uma excepção: não se deviam  usar as pedras dos túmulos e cabeceiras, porque destas o rei Venturoso havia feito mercê à “fábrica” do Hospital de Todos-os-Santos, que havia mandado construir, e iria demarcar definitivamente o limite oriental do Rossio, do lado onde se encontra hoje a Pastelaria Suissa.

Quando da construção do Metropolitano de Lisboa, em vão procurei informar-me se nas obras haviam sido encontradas algumas inscrições sepulcrais hebraicas. Só tive conhecimento de uma única pedra em árabe, que manifestamente provinha do almocavar mouro.

Portanto, quando do terramoto de 1755, já não existiam aqueles dois cemitérios de Lisboa Antiga.

Depois da violenta destruição resultante do sismo, houve uma falta enorme de materiais de construção, sobretudo de tijolos, o material mais empregue nas  obras de reconstrução da cidade.

O Forno do Tijolo teve de funcionar em ritmo acelerado, produzindo o mais possível, e aproveitando toda a argila disponível, onde quer que a houvesse.

Não se estranhará pois que, dentro desses tijolos, fossem encontradas, com uma certa frequência, restos de ossadas humanas.

Isso tornou-se do domínio público e alvo de muitas conversas. Daí que, quando alguém falecia, se começou a dizer, na linguagem popular, “já está a fazer tijolo”.

É esta a origem da expressão popular usada já em todo o país.

Paz às almas dos mortos, cujos despojos humanos os humanos não souberam respeitar.

Etiópia ou Abissínia?

Vou confessar-vos uma coisa: este blogue está a dar-me muito mais prazer do que eu pensava, quando o iniciei. O número de visitantes cresce de semana para semana, e muitos deles têm a gentileza de me escrever, fazendo comentários ou perguntas, e até corrigindo coisas em que eu errei, por falta de informação ou por informação errada. Assim, além de aprender sempre mais qualquer coisa, também fico a conhecer muitas pessoas interessantes que, de outro modo, não conheceria.

Obrigado a todos.

Infelizmente o meu tempo é escasso, para escrever com a regularidade que eu gostaria de manter. Em parte, isso sucede por causa do meu trabalho. Mas também é devido ao meu feitio de querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Uma má desculpa.

Fiz hoje, uma vez mais, uma revisão aos meus objetivos e prioridades. Uma das decisões foi começar a deitar fora apontamentos e recortes, que guardei ao longo dos anos, para um dia escrever e cheguei à conclusão de que mesmo que eu viva até aos 120 anos, que é o máximo permitido e pouco provável, só me restam, a contar do próximo dia 5 de Outubro, 44 anos para realizar uma pequena parte do que tinha planeado

E puxei para cima da lista um compromisso de escrever todas as semanas uma ou mais histórias, das que tinha colecionado, mesmo que seja pequenina

Esta semana está na baila, aqui em Israel, o problema de integração dos judeus da Etiópia. Muitos deles têm chegado, por esforço próprio, a profissões e postos elevados. Mas muitos mais têm ainda muita dificuldade em se integrar. E por estes dias sente-se isso mais, quando se aproxima a reabertura das aulas.

Lembro-me que, quando eu era novo, o meu amigo Salomão Shmulevitz, que começou a sua carreira de jornalista no Diário de Notícias, escreveu um livro com o título de «O que é a Abissínia?».

O Salomão Shmulevitz veio muito novo para a Terra de Israel, “hebraisou” o nome para Shelomó Shamgar, e tornou-se um dos mais brilhantes jornalistas deste país. Infelizmente uma doença má levou há cerca de 12 anos.

Foi o Shelomó Shamgar quem fundou a Liga de Amizade Israel-Portugal e foi seu presidente até aos seus últimos dias. E fui eu que tive que ocupar esse honroso cargo,  durante 11 anos, por meus pecados, porque nunca lhe cheguei aos calcanhares.

Mas estávamos a conversar sobre a Abissínia, que hoje se chama Etiópia.

Ponhamos os pontos nos ii!

No tempo em que eu estudei chamava-se Abissínia a um país muito mais pequeno, situado, mais ao menos, no norte do que é hoje a Etiópia.

Os seus habitantes eram semitas e semita é a língua amharica, que eles ainda hoje falam. Nas línguas semíticas, no árabe e no hebraico, o país chamava-se Habash, E de Habash nos chegou Abissínia. Era a Terra do Preste João, o lendário padre cristão, que os exploradores portugueses tanto se esforçaram por encontrar na Abissínia.

Mais tarde o reino da Abissínia foi muito alargado, juntando-se-lhe outros povos negros seus vizinhos. E então passou a chamar-se Etiópia.  Aithiôps, “terra da gente de cara queimada” era o nome que os gregos davam a diversos terras africanas, desde o Vale do Nilo, até ao Corno de África.

No Novo Testamento, que foi escrito na sua maior parte em grego, a palavra aparece a designar de uma forma geral, diversos povos africanos. A palavra estava ali, à mão de semear, e assim foi dada ao novo país, que incluía a antiga Abissínia.

E já agora, como curiosidade, a explicação de alguns termos, de que todos ouvimos falar.

Como vimos, a língua da Abissínia é semítica.

Como se chama a capital da Etiópia? Adis Abeba. Adis significa nova. Conhecemo-la, por exemplo, no nome de Cartago, na língua fenícia: Kart-Hadasht, a «Nova Cidade”, que os fenícios fundaram no Norte de África.

Abeba – é o mesmo que Aviv, em hebraico, que significa tanto espiga, como primavera, a época do ano em que se ceifam as espigas. Tel Aviv – significa “Colina da Primavera”. A cidade de Telavive (assim se escreve em português correto) não fica numa colina, mas isso é outra história, que ficará talvez para outro dia.

Temos pois que Adis Abeba – é a Nova Primavera.

Lembram-se do imperador deposto – Hailé Selassieh? Pois Selassie (em hebraico chelishiah) significa Trindade. E Hailé é santo. Portanto, o nome do imperador era Santíssima Trindade.

Mengistu Haile Mariam, que foi presidente da República Democrática Popular da Etiópia, também tem Hailé (santo) no seu nome. E Mariam era, como sabemos, o nome aramaico da Virgem Maria (Miriam em hebraico). Portanto o presidente comunista da Etiópia era Mengistu de Santa Maria.

Desejo a todos uma excelente semana.

As malhas fugidas do nylon

Haverá ainda, entre os meus leitores, alguém que se lembre ainda de certas profissões, que eram muito comuns no meu tempo e, desde então, desapareceram, ou quase?

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, onde eu morava, no curto espaço de um quarteirão, havia a carvoaria do senhor Serafim, que fazia também as “bolas” para acender o fogareiro, havia a mercearia do senhor Pelicão, (ou seria Pericão?), havia o alfaiate senhor Miranda e o droguista Cardoso, a tabacaria Silva (só muitos anos mais tarde soube que o senhor, a quem todos chamávamos Silva, e nos vendia as borrachas e os lápis para a escola, afinal se chamava Espinosa. Ele deixava que o chamássemos Silva, uma vez que o nome da loja era Tabacaria E. Silva).

A um cantinho da loja do alfaiate, que era também a habitação da família Miranda, estava uma pequena mesa, onde trabalhava a senhora Ermelinda, cerzideira (sabem o que é?), que também apanhava as malhas, que ameaçavam “fugir” perna acima, nas meias das senhoras. Para isso tinha um copo de boca larga, sobre o qual esticava a parte da meia onde estava a malha fugitiva, e pacientemente a “apanhava” com uma agulha de barbela. As meias de algodão já não eram para as senhoras finas, as de seda ainda custavam um dinheirão, quando, no final da guerra, por volta de 1945, apareceram no mercado as “meias de vidro”. Era esse o nome vulgar das meias em fibra de nylon, que nessa altura, ainda que muito mais baratas do que as de seda, eram suficientemente caras, pois o nylon, que havia servido para o esforço de guerra, ainda era escasso no mercado. Vinham da América, claro, e já se vendiam no “contrabando”.

O nylon foi a primeira fibra sintética inventada, para substituir as fibras têxteis naturais. A seda era muito cara e os japoneses faziam uma fortuna com ela. Os americanos procuraram um substituto sintético, e o nylon (no Brasil escrevem “nailon”) foi sintetizado em 1935, pelo químico da DuPont, Wallace Hume Carothers. Poucos anos depois, em 1939, rebentou a Segunda Guerra Mundial, e todo o nylon que a DuPont pode produzir foi absorvido para fins militares. No após guerra, começaram a fazer, primeiro, as meias de nylon, e mais tarde outras peças de lingerie feminina, que até aí utilizavam a seda japonesa.

Contudo havia ainda escassez da nova fibra e as meias, como eram novidade, e, além de elegantes, eram práticas, tinham muita procura. Como o fio era muito resistente, se era puxado por um prego no sapato, não se rompia, mas a malha fugia, como um comboio. Era feio ver as malhas fugidas nas meias das senhoras. Surgiu então a arte das “apanhadeiras”: localizar sobre um copo a ponta da malha e, pacientemente, com uma agulha de crochet, reconduzi-la ao seu lugar. Mais tarde inventaram umas pequenas máquinas, semelhantes ao copo, que facilitavam o trabalho. Era uma forma das mulheres se estabelecerem de conta própria: comprar uma máquina e abrir banca numa janela, ou num canto de uma loja.

Lembro-me de me terem contado então que o exército americano pôs à venda uma grande quantidade de excedentes de guerra, entre os quais muitos paraquedas. Ninguém os queria, então em grandes quantidades.

Então houve um comerciante americano mais esperto que se lembrou de arrematar todos os paraquedas, desfiou o nylon e vendeu-o em bobinas, para a indústria

Mas, estou eu aqui a contar-vos a história de uma invenção, quando o tema deste cantinho é a “história das palavras” e não das invenções.

Pois a verdade é que não se sabe ao certo por que razão a empresa DuPont decidiu chamar nylon à nova fibra. Circulam muitas histórias.

Porque já participei algumas vezes, na minha vida, na escolha de nomes e de marcas para produtos, sei que é um processo difícil e demorado: tem que ter em conta que deve soar bem, ser aprovado pelos homens do marketing, atrativo para os utilizadores e não se assemelhar com outro já existente, senão não poderá ser registado.

Deve ter sido isso exatamente o que aconteceu com o nylon. Diz uma versão que a DuPont tinha fábricas em Nova Iorque e em Londres e juntou as abreviaturas de ambas as cidades NY+LON.

Depois é fácil inventar explicações: alguém disse a invenção da fibra americana veio prejudicar enormemente o comércio japonês da seda. “Now you’ve lost, Old Nippon” “Agora estás perdido, velhote nipónico”

Fazer sinagoga

Que as palavras têm cada uma a sua história já aqui vimos.

E que se passa com as línguas, cada uma das quais é constituída por palavras? Pois as línguas também têm as suas histórias, mas estas devem ser analisadas sobre prismas diferentes dos que nos mostram as palavras.

Consoante a sua hegemonia e o papel que representam para atender à necessidade de um determinado número de pessoas de se entenderem com outras e para se cultivar – assim é mais ou menos importante a história de cada língua.

Quando o mundo girava à volta da cultura clássica e da filosofia, e quando a religião cristã representava um papel importante na hegemonia política do mundo, era indispensável dominar a língua latina para ter acesso à vida cultural.

Quando esta passou para os salões de Versalhes e para os círculos literários e artísticos de Paris – era indispensável falar francês.

Hoje, que a tecnologia de ponta domina a nossa vida, e em que tudo se consegue através da Internet, o inglês passou a ser a língua universal consagrada.

E há outras línguas, menos conhecidas da maioria das gentes, confinadas a populações mais pequenas, dominadas por outras línguas mais importantes. As pessoas que nasceram e foram criadas no seio desses idiomas lutam, enquanto podem, com a esperança de preservar a cultura da língua que mamaram.

É o caso das duas principais línguas judaicas (além do hebraico), o idish e o ladino.

É o caso da língua basca.

O hebraico, que durante dois milénios se manteve sempre como língua litúrgica e língua clássica sem aplicação na vida corrente, conseguiu nos últimos dois séculos um ressurgimento inédito, tornando-se numa língua viva, em tudo adaptada à civilização do século XXI, à investigação e à tecnologia de ponta.

Tenho uma grande admiração pelas pessoas que persistem em manter vivas as línguas ameaçadas de desaparecimento.

Por isso, nos últimos dias, tive uma grande alegria encontrando um blogue inteiramente escrito no dialecto mirandês, que se fala nas Terras de Miranda (do Douro), em Trás-os-Montes. Já tinha lido, há muitos anos, um pequeno texto em mirandês, mas era um texto um pouco “artificial”, escrito propositadamente para um acto oficial.

No blogue de AMADEU FERREIRA fui encontrar uma série de textos, muito interessantes pelo seu conteúdo, mas sobretudo porque foram escritos no dialecto mirandês, com muita naturalidade e como idioma de uso corrente.

Foi num desses textos que encontrei uma expressão que não conhecia, e que se liga directamente com outra vertente, talvez a mais importante, das minhas pesquisas.

Aprendi de Amadeu Ferreira uma expressão usada em Sendim, que reproduzo na versão original, para lhe não tirar o sabor:

“… quando algues mulhieres s’ajúntan a cumbersar, diç-se que ‘stan a fazer la sinagoga’. Quando la mulhier chega algo tarde a casa i sin se saber por adonde andubo, stá sujeita a oubir de la boca de l home: ‘Mas onde ye que caralhos andubiste a fazer la sinagoga?…”

A expressão tem origem nos processos da infamada inquisição, onde aparece quejandas vezes a acusação contra cristãos-novos, isto é, judeus forçados a converter-se ao cristianismo, que se reuniam em determinadas casas, para fazer, às escondidas, as orações da sua religião ancestral.

Em termos da linguagem inquisitorial, chamava-se a isso “fazer sinagoga”. “Sinagoga” é o a casa onde os judeus celebram o seu culto e fazem as suas orações. Naquela época, séculos XVI-XVIII, era proibido não só construir edifícios para servirem de sinagoga, como seguir de qualquer modo a religião judaica.

Segundo o Regimento da Inquisição de 1640 – que Amadeu Ferreira também cita – “as casas em que se provar que faziam sinagoga, e ajuntamento para ensinarem seus erros, serão arrasadas, postas por terra e salgadas e no chão que ficar delas se levantará um padrão de pedra, com letreiro, no qual se declare a causa por que se mandaram arrasar e salgar”.

A apoiar o seu artigo, o autor refere os nomes de várias pessoas daquela região mirandesa, que foram queimadas vivas, em fogueiras públicas, por “fazerem sinagoga” e seguirem outros ritos da religião judaica.

Quando já os homens não tinham tempo e meios para estudar a religião “proscrita”, ou porque eram perseguidos por isso pela inquisição, eram as mulheres que mais porfiavam em mantê-la viva e transmiti-la às suas filhas. E isso manteve-se assim secretamente até ao fim do século XX.

Aproveitando o velho costume das mulheres se reunirem num sítio apropriado, num lance de escadas ou apanhando uma nesga de sol de inverno, para conversarem, enquanto faziam malha ou cosiam as roupas da família, essas mulheres cristãs-novas reuniam-se para rezar e pedir a Deus pelo fim das perseguições de que eram vítimas.

Hoje, cristãs-novas e velhas, já não se reúnem para rezar. As conversas são outras, há sempre muito que contar sobre as vizinhas, aquilo a que, no meu tempo, se chamava “dar à língua”.fazer-sinagoga-21

Pois ficam sabendo que, em terras de Miranda, isso se chama “fazer sinagoga”.

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner

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