Arquivo de Novembro, 2007

Os filhos e as filhós

“As palavras são como as cerejas” – dizia o meu “avó” Jacinto, de Camarate, como já aqui referi várias vezes.

Pois cá estão elas a puxar uma pelas outras.

Puxei pelas “Bolas de Berlim”, que uma refugiada judia da Alemanha introduziu em Portugal, fiz crescer água na boca a um bom número de leitores, e agora vem o velho amigo Lopes Cardoso perguntar mais detalhes sobre as tradicionais “filhós” portuguesas.

Antes de responder directamente à pergunta, um esclarecimento sobre os ditos e bem saborosos fritos do Natal.

Eu não sei qual a origem das filhós, como doce. Mas já assim se chamavam no século XVI, pois já Gil Vicente escreveu sobre elas:

mando-vos eu sospirar pola padeira d’Aveiro que haveis de chegar à venda e entam ali desalbardar e albardar o vendeiro senam tever que nos venda vinho a seis, cabra a três pão de calo, filhós de manteiga moça fermosa, lençóis de veludo casa juncada, noite longa chuva com pedra, telhado novo a candea morta e a gaita à porta. Apre zambro empeçarás olha tu nam te ponha eu o colos na rabadilha e verás”.

        Quanto à etimologia, filhós vem do latim filiola, que significava filha pequena.

         Agora, respondendo à pergunta: filhós é tão bom, que todos gostam de comer e ninguém se farta, na noite da consoada, e no dia seguinte.   Por isso é tanto masculino, como feminino, tanto singular, como plural.    Comem todos: o filhós, a filhós, os filhós, as filhós.

Há quem use no singular filhó, mas parece-me que está errado.   Nos séculos XIV e XV usava-se filhó por filho, e talvez por detrás desse uso se esconda a origem do bolo.  Não sei!

 E há também quem use no plural filhoses e também filhozes.   Este plural já entrou no costume, e portanto, segundo os dicionários,  não é errado.Nos Açores chamam-lhes “malassadas”.

       Bom proveito!

Mais fuxico

As oportunidades que a Internet nos oferece parecem ser inesgotáveis.

Até há poucos dias eu nem sequer tinha ouvido alguma vez a palavra “fuxica”.

Hoje já posso adiantar, para minha e vossa ilustração, a sua origem etimológica.

Graças à dica da sinpática visitante Lady Bird (por mão do meu post sobre a simpática joaninha), através dela pelo bloque “Museu da Língua Portuguesa”,  posso esclarecer todos os participantes do blogue “História das Palavras”, que estejam interessados, que este termo chegou ao Brasil, vindo de África, da língua quicongo, uma língua africana falada pelos bacongos nas províncias de Cabinda.

Na sua origem diz-se fuuzya” e significa “mexericar”, “segredar”.   A palavra fundiu-se com o brasileiro e ficou “fuxico” com este significado.

Resta saber se “fuxico” não existiria já no português do Brasil, com o significado de “costura mal acabada, provisória”.

Bolas de Berlim e quejandas

Poucos serão, por certo, os meus amigos, aqui presentes, que se lembram da II Guerra Mundial.

É natural, pois já lá vão mais de 60 anos (1939-1945) e muitos de vós ainda não eram nascidos.

Durante esse trágico período, em que Portugal se manteve sempre neutral, passaram pelo nosso país dezenas de milhar de refugiados. Normalmente chegavam com um visto válido por 30 dias – ou até mesmo ilegalmente, sem qualquer visto – e, como não conseguiam partir para outro destino, dentro do prazo legal, ou eram presos, ou forçados a residir numa das duas povoações, que a isso foram destinadas: primeiro as Caldas da Rainha, depois também a Ericeira.

Uma das limitações que lhes foram impostas era a proibição de trabalharem em Portugal, como assalariados.  Mas eles tinham que viver de alguma coisa.  É certo que muitos recebiam um subsídio de organizações de assistência nos Estados Unidos.  Mas era um magro subsídio, e alguns usaram de imaginação para montarem pequenos negócios, que isso sim, era permitido.

Foi assim que, como consequência da guerra e dos seus refugiados, se introduziram em Portugal, não só novos costumes, como novos produtos.

Escreve a historiadora Irene Flunser Pimentel, no seu livro «Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial»  (Lisboa, “A Esfera dos Livros”, Maio de 2006), que uma refugiada, de nome Davidson, começou a fabricar em casa um bolo, que conhecia do seu país natal, a Alemanha, e que ela vendia a outros refugiados, e depois a quem mais quisesse provar.

Era um frito de massa de farinha doce, redondo como uma bola, polvilhado de açúcar, no interior do qual se injectava um doce, normalmente vermelho. Na Alemanha, o bolo era chamado Berliner Pfannkuchen (bolo berlinense de frigideira), ou simplesmente Berlinner Ballen.Se ainda não adivinharam foram essas as primeiras “Bolas de Berlim”, que a breve trecho começaram a ser vendidas também nas pastelarias.  Mais tarde mudaram de estilo: passaram a ser cortadas horizontalmente e recheadas com o chamado “creme pasteleiro”.

Quem diria então que passados mais de 60 anos, as “Bolas de Berlim” se iriam manter, ainda hoje, nos balcões das nossas pastelarias, agora já naturalizadas como bolo tradicional português. E até que se tenha gerado já uma polémica à volta da proibição da sua venda ambulante nas praias, com grande prejuízo para as moscas, amantes do açúcar…

A verdade é que, a mim, as bolas de Berlim, que só vim a conhecer quando mudámos da aldeia para Lisboa, me lembravam muito as “filhós”, que a minha “avó” Maria, de Camarate, confeccionava pelo Natal, com a participação de toda a família alargada e gáudio da miudagem. Com açúcar e canela por cima.

O mesmo sucedia em Tremez, quando para ali mudámos, antes de nos instalarmos em Lisboa. Aí chamavam-se “velhós” e o recheio era de doce de abóbora.

Em ambos os casos eram bastante mais pequenas do que as bolas de Berlim que depois comi nas pastelarias de Lisboa.

E depois vendiam-se muito nas praias. Lembram-se?

Andava um homem (ou uma mulher) com uma caixa de lata, com prateleiras, e a garraiada atrás deles. As senhoras chamava-nos às barracas. “Já lá vai, vai já!”

No Brasil, comem-se pelo Carnaval, e chamam-se “sonhos”.

Aqui em Israel, na altura em que vos estou escrevendo, as confeitarias e os supermercados têm expostas grandes quantidades de “Bolas de Berlim” (ou “Sonhos” para os brasileiros que aqui vivem), pois está quase a chegar a semana da festa religiosa judaica de Hanucá (5-12 de Dezembro), em que é tradicional comer fritos em azeite, e sobretudo estas bolas, recheadas com doce de morango vermelho.

Mas já se usam vários outros recheios, para todos os gostos. Esta manhã estive num supermercado e vi lá um petiz, atrás da mãe que fazia as suas compras.  Vinha todo feliz, trazendo na mão uma caixa de plástico com três redondas “sufganiot” (é o nome que lhes damos na língua hebraica), recheadas com… creme de chocolate!.

Acham que é simples coincidência a tradição de vários povos, em diversos países, comerem bolos de massa frita no Inverno? Pois não é com certeza!  O frio, os dias mais curtos, as chuvas, que obrigam as famílias a ficar mais tempo em casa, os lumes acesos, tudo isto conduz à tendência para comer fritos e doces.

Para os judeus há uma explicação relacionada com o “milagre da bilha de azeite”, que não vou contar aqui, pois esta já vai longa. Para os cristãos, o pretexto é o Natal.

No mesmo contexto se insere a coincidência de diversos povos “inventarem” festas religiosas e nacionais, celebradas nas alturas importante do ciclo anual: as sementeiras, as colheitas, os novos frutos, o calor, o frio, a chuva, os dias longos e os dias curtos.

Somos todos muito semelhantes na nossa condição humana e de habitantes deste planeta.

Bolas de Berlim

Sufganiot


Vamos fuxicar?

Vamos fazer fuxico?    Sabem qual é a origem desta palavra?    Eu também não, mas se algum dia souberem, digam-me, porque eu gostava de saber.

Não sei porquê criou-se, entre alguns visitantes deste despretensioso blogue, a impressão de que eu sou uma autoridade em matéria de etimologia, ou até que sei muitas histórias de palavras.   Parece-me que, por mais de uma vez me apresentei como simples curioso, que gosta muito de aprender a história da ferramenta com que trabalho no meu dia-a-dia: as palavras.

Vem isto a propósito das muitas consultas que me chegam, de simpáticos visitantes, por vezes muito difíceis, mas a que faço sempre o possível por responder, mesmo que para isso tenha que ir aprender.   E até por isso tenho que agradecer os vossos contactos.

Mas algumas vezes tenho que confessar: “Não sei!”.

Ivete Godoi, de Salvador da Bahia, pede-me  a história das palavras “artesão” e “artesanato” e, se possível, a forma como se escrevem em sânscrito!   Imaginem.

A minha primeira reacção foi:  “Ora, artesão e artesanato, vêm de arte, com certeza.   E do latim, ars, segundo creio.   A que propósito chega aqui o sânscrito?   Que sei eu de sânscrito?”.   Claro que tinha que vir da língua-mãe “indo-europeia”, mas eu sei lá disso.

Mas tinha a obrigação de procurar de onde nos veio “ars” e foi isso que fiz.

Pois tem razão a nossa amiga artesã.  No Indo-europeu, a raiz ar [é assim que se escreve no nosso alfabeto; em devanagário não sei], ar, dizia eu, significava unir, juntarPara se unir duas coisas é preciso habilidade.  Foi com essa acepção que chegou ao latim, e deste ao francês, de onde derivou para as outras línguas.  Só em meados do século XVII foi a arte associada com a pintura, a escultura, etc.

Mas fazer com arte (arte + facere) é um artifício.  Hoje em dia quase tudo quanto usamos é artificial.

Não esqueçamos, porém, que tudo começou com o indo-europeu ar = juntar.  Para juntar os ossos temos as articulações, que juntam e ajudam a movimentar.

A não ser, lagarto-lagarto, que estas sofram de artrite.

E o tal “fuxico”, também é uma arte?