Arquivo de Outubro, 2006

Do lápis à carroça

Pois bem, para quem não soube responder, aqui vai a explicação que me deu, há 60 anos, o meu mui amado professor de francês, Dr. Alexandre Martins Correia: 

Карандаш – Karandach – é russo, sim senhor, e significa naquela língua, muito simplesmente “lápis”.

Mas não, o meu mestre não me quis chamar “lápis”, não senhor. (Se não se lembram, vejam a entrada anterior)  Quem deu, pela primeira vez  ao vocábulo russo a grafia afrancesada foi o caricaturista Emmanuel Poiré, nascido em 1859, em Moscovo, onde seu avô francês havia chegado como oficial das tropas de Napoleão, e por lá se deixou ficar.O neto, Emmanuel, quando chegou à maioridade, decidiu emigrar para a terra dos seus antepassados e fazer lá o seu serviço militar, para recuperar a nacionalidade francesa, para ele e para o pai, pois ambos a tinham perdido.Foi também em França que ele começou a utilizar o lápis para desenhar “histórias sem palavras”, que publicou em vários jornais, sob o pseudónimo de “Caran d’Ache”. Desenhador humorístico era sinónimo em francês de “caricaturista” – do italiano “caricare” (carregar, e já vamos conversar sobre esta palavra, mais adiante), de onde também o francês (e o inglês) “charge”, que além do significado de “carga”, tem também o de “troça”. Mas não,  o professor não quis fazer troça de mim, quando me disse: “Que vous êtes caran d’ache aujourd’hui”.  Em 1924, foi fundada em Genebra, na Suíça, uma fábrica de lápis, que julgo ser ainda hoje a única naquele país. E se não é a única, será pelo menos a maior e a mais famosa, com seus lápis de cor, que todos conhecemos. Aproveitando a fama do caricaturista francês, falecido em 1909, em Paris, adoptou como marca o termo russo, com a grafia que Poiré deu ao seu pseudónimo: “Caran d’Ache”. Um dos slogans publicitários da fábrica de lápis era “Caran d’Ache à toujours bonne mine”. Tem sempre boa “mina”, ou seja o cilindro de grafite no interior do lápis. 

Mas “bonne mine” em francês é também “boa cara”, “boa expressão”, “boa disposição” e foi esse o jogo de palavras que o Dr. Correia quis fazer. Eu estava com boa cara naquele dia, ao entrar para a aula de francês. Com “bonne mine”, como o lápis da Caran d’Ache  Era sempre um prazer a boa disposição do nosso professor de francês. Um dia, um colega nosso, contou que nas férias tinha ido de avião a Paris. Viajar de avião, naquela altura, era um luxo. O cidadão comum, se já ia a Paris, viajava de comboio, no “Sud-Express”.  Mandado contar em francês as sua impressões de viagem, o nosso colega, a certa altura, perguntou ao professor: “Avez-vous déjà volé, Monsieur le Professeur?”  E logo lhe atalhou o Dr. Correia, fingindo uma expressão zangada: “Par qui me prenez-vous?” .  Agora expliquem lá este jogo de palavras, seus francófonos! Esta já vai longa, mas eu ameacei mais acima voltar a falar do italiano “carricare”, que, tal como o nosso “carregar”, vem do latim “carrus”, veiculo de duas rodas, de onde nos vem evidentemente o “carro”.   PS- Para mifares castellan – seia
Se não me der um endereço electrónico, não lhe poderei responder, pois não?

Percevejos, pulgas e outras espécies zoológicas

Estou encantado com esta minha recente aventura no Reino dos Blogs – Blogosfera, como já me ensinaram.

Além de me proporcionar o contacto com muitos novos e valiosos amigos, tem-me permitido também aumentar os meus conhecimentos. Assim, quando chegar a “velho” já levo mais bagagem.

No outro dia, deixei cair aqui, de passagem o “pionés“, com que ia pendurar mais uma achega histórica no poste.   E logo o amável leitor Luís Mateus me escreveu um esclarecimento importante sobre a origem do nome deste predecessor do “Post-It” (nome provavelmente inspirado no meu blog, hahaha) da 3M, que ainda não foi totalmente suplantado pelos diversos programas “Notes”,  incluindo mesmo o componente do “Outlook”.  

Não são só as palavras que têm vida própria – e portanto “história”; os produtos também a têm. Os meus netos já não conseguem conceber ideias tão simples como a “ardósia” em que aprendi, se não a ler, pelo menos a fazer contas. E porque estou a escrever “os meus netos”? Provavelmente muitos dos meus leitores só ouviram falar em semelhante objecto, nunca o viram.

Pois voltando ao “pionés“, pois claro que tem carradas de razão o Luís Mateus. É um aportuguesamento do francês “punaise“(1256), percevejo, forma feminina de “punais” (1138), do latim vulgar putire, cheirar mal, e nasus, nariz, o que cheira mal do nariz.

A verdade é que o meu saudoso professor de francês, na Escola Portugália, o sempre jovial Dr. Alexandre Martins Correia, já me ensinara a pronúncia correcta. Mas já lá vão uns bons 60 anos. Na altura em que escrevi, não relacionei.  (A propósito do Dr. Correia, um dia, quando cheguei à aula, ele recebeu-me com esta expressão: “Oh, que vous êtes caran-d’ache aujourd’hui”. Quem adivinha o que ele queria dizer?) O americano Edwin Moore registou em 1899 a patente da sua invenção: “um alfinete com pega”, a que chamou na sua língua “Push Pin”, ou seja “alfinete de empurrar”.Em 1900 alugou um quarto para fabricar, de noite, os alfinetes, que vendia de dia.A primeira venda, dizem, foi de uma grosa de push-pins, por $2,00 dólares.  Quem teria sido a primeira pessoa a estabelecer a ligação entre o polegar que espeta a “tacha”pois claro que temos uma palavra vernácula para o pionés – e a unha do dito, que esmaga mortalmente o percevejo, não sei. “Ainda” não sei. Se “pouce” não se escrevesse com “ou” e como tal se não pronunciasse, talvez arriscasse uma relação com “puce” (tudo insectos de certas camas, pois dizia o meu “avô” Jacinto, “quem se deita com cães acorda com pulgas”). Mas lá diz o ditado que a história etimológica tem razões que a razão não conhece. Já sei, já sei, não foi da etimologia que o Pascal disse isso. Mas vem a dar no mesmo. 

Açucar – mascavado ou refinado?

“Aprender até morrer” – dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate. Li há dias um texto em inglês, onde, numa lista de compras, encontrei um termo que me chamou a atenção: “Sugar muscovado”.Eu conhecia em português o açúcar mascavado. Obviamente era disso que tratava. Mas então qual seria a origem da palavra? Teria alguma coisa que ver com Moscovo?

Fui informar-me e tive a satisfação de aprender que não senhor, que a palavra inglesa teve origem precisamente na nossa língua, no português.

Como? Pois tudo começou com o verbo “cabar”, que já se usava antes do século XIV, e tinha mais ou menos o sentido de “prezar”.

Mais tarde formou-se a forma composta “menoscabar”, ou seja “menosprezar”.

Querem um exemplo? “a ideia da eternidade dos castigos apavorava-o a tal ponto, que se pusera a menoscabar os espantosos padecimentos dos confessores da fé”  (Inglês de Sousa, em “O Missionário” , 1891).

Dizia-se menoscabar o valor de um trabalho, menoscabar o prestígio de alguém, menoscabar a autoridade.

E, na continuação, menoscabar era reduzir a menos, tornar imperfeito, deixar incompleto.

Foi nesta última acepção que o açúcar, antes de ser refinado, se chamava “menoscabado”, o que se simplificou para “mascabado” e depois para “mascavado”.

Portanto foi ao português que as outras línguas vieram buscar o “mascavado”, depois deturpado em diversas grafias, como o “muscovado” que encontrei no texto inglês.

 E porquê ao português? Porque foram os portugueses que mais contribuíram para a produção do açúcar no ocidente, e sua subsequente comercialização. Há notícia de se utilizar a cana do açúcar e o açúcar desde tempos muito recuados, no Oriente. Aparentemente na Índia, em sânscrito, chamavam-lhe “sarkara”, que significava “areia grossa”.

Depois os árabes trouxeram-no para o Mediterrâneo, chamando-lhe “sukar“, ou precedido do artigo definido “al”, “as-sukar“, porque o “l” do artigo “al”, antes de uma sibilante, se assimila a esta. Veja-se o exemplo de “az-zait”, de “zait” (azeite).

 Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama, o comércio das especiarias e dos produtos do Oriente, passou para os portugueses que, trouxeram não só o pó, como a cana, que o Infante D. Henrique teve a feliz ideia de mandar plantar nos Açores e na Madeira.

Nos Açores, a planta pegou, mas houve problemas com o clima. Na Madeira desenvolveu-se e deu lugar à instalação de “engenhos” para a transformação da “cana doce” em açúcar.  Nessa altura, ainda o açúcar era um produto muito caro e de luxo. Adoçar o café e o chá era um mimo, em que o comum dos mortais não tinha sequer pensado. Quem podia dar-se a esse luxo, usava o mel para adoçar as bebidas e a comida. Na corte sim, os reis e os fidalgos, começaram a usar, ainda que parcimoniosamente, o açúcar, quando ele chegou a Lisboa. Vendia-se também no boticário (como então se chamavam as farmácias). Os médicos receitavam-nos, em pequeníssimas doses, como hemostático.“Ouro branco” chegaram a chamar-lhe.  Parece provado que foram os cristãos-novos portugueses, que foram para a Madeira, para se afastarem da Inquisição, que mais se dedicaram à indústria da cana do açúcar. Quando acossados também ali, procuraram novo abrigo no Brasil. E para lá foram também as “mudas” da cana. Calcula-se que a cana já existisse, como planta selvagem, no Novo Mundo. Mas foram as “mudas” trazidas da Madeira que fizeram expandir a indústria.E contribuiram também os escravos, trazidos de África, que eram empregues, não só pelos agricultores, que cultivavam a cana, como pelos donos de engenho.

Por volta de 1584, havia no Brasil cerca de 115 engenhos, funcionando graças ao esforço de 10 000 escravos, que produziam mais de 200.000 arrobas de açúcar por ano, cerca de 3000 toneladas.

Os holandeses, portadores de tecnologia de ponta, deram nessa época um grande impulso à fabricação do açúcar no Brasil. As melhores condições de clima e solo do nordeste brasileiro e a maior proximidade com o continente europeu favoreceram o desenvolvimento do açúcar naquela região. 

Também ao Brasil chegou o braço longo do Santo Ofício, e veja-se nos seus arquivos, na Torre do Tombo, quantos acusados de judaísmo são identificados como “senhores de engenho”. Foi esse também o motivo por que muitos desses “judaizantes” acompanharam os holandeses, quando estes foram expulsos do território brasileiro.E surgiram então os engenhos de açúcar no Suriname e nas Antilhas, fazendo concorrência ao produto brasileiro na Europa. 

O açúcar tornou-se um produto popular de consumo, acessível a todas as bolsas, com a invenção das máquinas a vapor, no século XIX. 

E, quando finalmente, a tecnologia chegou ao ponto de nos proporcionar um açúcar refinado, branco e puro (eu ainda sou do tempo de ir à mercearia comprar açúcar amarelo, preferido por quem não tinha dinheiro para o branco) vieram os aderentes da vida natural e ensinaram-nos que os materiais usados na refinação são venenos para a nossa saúde.   O amarelo, e até o mascavado, é que devem ser utilizados. Mascavado, “menoscabado”, mas agora deveria chamar-se antes “maiscavado”, pois vende-se com uma variedade de nomes, qual deles o mais caro.  Quem quiser vida saudável… que pague.

Gravata

Durante o reinado de Luis XIV, na segunda metade do século XVII, formou-se em França um regimento de Hussardos de elite, constituído por cavaleiros croatas.

Esses soldados lutaram ao lado dos franceses, na Guerra da Grande Aliança, que opôs os Bourbons aos Habsburgos, sobre q questão da sucessão em Espanha.

O fardamento destes Hussardos causou muito boa impressão num país em que vestir bem era um sinónimo de cultura.

Todos os regimentos de hussardos franceses usavam uniformes cinzentos e os croatas também,    Mas estes distinguiam-se dos outros regimentos pela cor dos casacos, que não eram cinzentos como os outros, mas sim azuis, de um tom forte, conhecido como “azul real”.

Por isso o seu regimento tomou o nome de Royal Croate, ou Royal Cravatte, na pronúncia então usual em França..

Além do bonito casaco, os cavaleiros croatas (ou cravattes) usavam um lenço atado ao pescoço.

Aconteceu então que, na batalha de Steenkerque, na Flandres, em 1692, os ingleses surpreenderam os franceses no seu próprio campo.    Estavam muito próximos da vitória, não tivessem os hussardos franceses saltado, sem hesitar, para cima dos seus cavalos, e repelido os assaltantes.

A maior parte dos hussardos que tomaram parte nessa batalha eram os croatas.

Sem tempo para se demorarem a compor os seus lenços de pescoço, e para que estes não lhes voassem com o vento, os hussardos croatas deram-lhes rapidamente um nó especial.

O lenço com esse nó, nascido do acaso, agradou muito aos parisienses, que lhe deram o nome de “Cravatte à la Steenkerke”.

 Pouco depois já era moda na corte de Luís XIV usar ao pescoço os “cravattes” copiados dos hussardos croatas.  Na altura era um substantivo masculino, pois, como vimos, significava “os croatas”. 

Foi assim que dos croatas nasceu um novo acessório do vestuário masculino, cujo uso se espalhou por todo o mundo, e na nossa língua se chama “gravata”, 

Cosmopolitismo linguístico

Esta não é exactamente uma entrada de “História das Palavras”, mas apenas uma chamada para algumas expressões populares, cujas origens exactas desconheço, ainda que algumas permitam especulação.

Não sei se algum de vós ainda é do tempo em que qualquer condutor de carro eléctrico era um fonseca.

Quando um colega meu, no liceu, apareceu com uma árvore genealógica cheia de ligações com famílias nobres, um outro, de apelido Almeida, insistiu com o pai, pessoa de muitas posses, mas com antecedentes humildes – ter antecedentes humildes não é nenhuma vergonha; vergonha é envergonharmo-nos disso – para que também mandasse investigar a história dos seus antepassados.

Passado muito tempo, o investigador contratado trouxe-lhes a notícia de que um seu antepassado tinha dado origem ao uso de se chamar Almeida a qualquer varredor de ruas.

Novamente, não sei se algum de vós ainda é desse tempo. Andavam os varredores, pelas ruas de Lisboa, empurrando um carrinho com duas caixas cilíndricas, uma vassoura e uma pá, ambos de cabo comprido, varriam o chão e levavam o lixo nos dois depósitos. Eram os almeidas. Hoje provavelmente já não existe essa profissão em Portugal, e talvez faça falta.

Porquê fonseca? Porquê almeida? Talvez estejam relacionados com quaisquer peças de teatro, que se tenham representado nessa época. Eu ainda me lembro de se dizer, por brincadeira! “Ó Fonseca, olha o troley!”.

Se alguém me puder elucidar, agradeço.

Lembrei-me destes dois termos, porque recebi esta manhã, por email, o texto que segue, e que, de certa maneira, se relaciona também com a origem de certas expressões populares.

Eu não gosto de citar textos, sem indicar o nome do autor. Mas este chegou-me anónimo, pelo que, desde já peço desculpa ao autor, por não referir o seu nome:

O cariz internacionalista do povo português é inegável.

Senão vejamos: – Quando um português tem um grande problema pela frente costuma dizer que…se vê grego;
– Se uma coisa é extremamente difícil de compreender, ele afirma que… isso é chinês ;
– Quem trabalha de manhã à noite…é um mouro de trabalho;
– Uma invenção moderna e mais ou menos inútil…é uma americanice;
– Quem mexe em alguma coisa em que se não queira que ele mexa…é como o espanhol;
– Quem vive com luxo e ostentação…vive à grande e à francesa;
– Se se faz algo para causar boa impressão aos outros…é só para inglês ver;
– Se tentas “regatear” o preço de alguma coisa…és pior que os marroquinos. 

Ainda os cereais do pequeno-almoço -II

Tenho uma dívida para convosco, que hoje vou pagar. No texto sobre os cereais para o pequeno-almoço, prometi escrever ainda sobre os Quaker. 

Pois bem, Quaker e Quaker Oats (Aveia Quaker) são marcas registadas da Quaker Oats Company, uma empresa americana, com sede em Chicago,  fundada em 1901, pela fusão de três companhias, que trabalhavam já com produtos da aveia. Além destas, faziam parte do grupo fundador, alguns pioneiros americanos. Actualmente, além de cereais semi-preparados para o pequeno almoço, dedica-se também ao fabrico e comércio de outros produtos, alguns com muito pouca relação, como brinquedos. Ultimamente está ligada também aos fabricantes da Pepsi Cola. 

Os produtos da Quaker distinguem-se facilmente nas prateleiras pela sua marca registada, que contem a figura de um membro da religião conhecida pela designação de Quaker. Aliás, há séculos, que os Quakers já se não vestem assim. Contudo era essa a antiga imagem dos Quakers e foi escolhida pela empresa pela reputação que tinham de honestidade e de conduta exemplar. Contrariamente ao que muita gente pensa, a Quaker Oats Company não tem qualquer relação com a Sociedade Religiosa dos Amigos, a que vulgarmente se chama Quakers (pessoas que tremem), porque antigamente, nas suas práticas religiosas, entravam em êxtase e tremiam muito. Veja-se, por comparação o termo inglês “earthquake”, significando “tremor de terra”. Era, na altura, uma forma de os ridicularizar.Criada em 1652, pelo inglês George Fox, a Sociedade dos Amigos foi uma forma de reacção contra os abusos da Igreja Anglicana (Church of England), colocando-se sob a inspiração directa do Espírito Santo.

Os membros desta sociedade rejeitam qualquer organização clerical, para viver, no recolhimento, na pureza moral e na prática activa do pacifismo, da solidariedade e da filantropia. Perseguidos na Inglaterra por Carlos II, os Quakers emigraram em massa para a América, onde, em 1681, criaram sob a égide de William Penn, a colónia da Pensilvânia, hoje um dos estados membros dos Estados Unidos.  

Uma parte dos membros da Sociedade de Amigos considera um abuso, por parte da Quaker Oats Company usarem do nome Quaker e da figura que imita um dos seus membros, como marca para os seus produtos. Possivelmente nunca puderam fazer nada contra isso, uma vez que Quaker foi um apodo que lhes puseram e não faz parte do nome da sua Sociedade.  Por curiosidade, nos arquivos da Inquisição, há um relatório emitido pelos visitadores que, nos Açores, iam a bordo dos navios estrangeiros ancorados, vistoriar se não haveria lá livros proibidos, imagens indecentes (que não fossem de santos católicos) ou indivíduos suspeitos de propagarem heresias. De um desses navios, registaram o facto de que capitão “era cueca” (sic)! Quaker, evidentemente, portanto herege e suspeito. Não, não vou explicar aqui a etimologia do verdadeiro termo “cueca” em português, pois não quero ser acusado à Inquisição por usar de linguagem pouco própria. 

Poste

No meu artigo de ontem (“Nabo”) referi-me “à expressão que eu usei, no meu “poste” anterior”. E vi logo que me metia em trabalhos. Em português não se diz “poste”. Mas decidi deixar a explicação para hoje.

Eu bem sei que estamos a viver numa espécie de “época da Torre de Babel ao contrário”. Na nossa aldeia global está a nascer todo um vocabulário novo, que deixou de ter tradução. No meu trabalho de tradutor hesito sempre se vale a pena traduzir termos como software, site e outros quejandos, que já se vão tornando naturalmente parte de um futuro léxico internacional comum.
Mas “poste” tem muito que se lhe diga.
Se houvesse necessidade de provar, com um exemplo, que “as palavras, como os homens e as nações também têm a sua história”, esta poderia ser uma das escolhidas. As palavras têm vida própria: Nascem num sítio, com um destino, viajam, evoluem, “casam-se” com outras, mudam de destino e de profissão, e os seus descendentes, se por ventura se encontram na vida, muitas vezes não se conhecem. E até a sua ascendência se confunde muitas vezes.
Em “post”, e as suas muitas derivadas, há duas origens que se cruzam e se confundem. O latim “postis”, uma peça erecta de madeira, de pedra, de metal, etc.” e o verbo também latino ponere, pôr. Ambas provavelmente terão um antepassado comum.
De postis derivou o nosso “poste”, de telégrafo (se ainda existe!) de electricidade, de sinal de trânsito, por exemplo.
Era também um poste que marcava as estações de muda de cavalos das diligências, onde se juntava gente, e eram portanto sítios ideais para pendurar anúncios de qualquer espécie, para essas pessoas lerem. Portanto um anúncio colocado no poste era um “poster”. Há muito que há concursos de posters, e há alguns bem bonitos.
Era também o lugar onde os corredores a cavalo paravam para recolherem as cartas para as levarem ao destino, e deixarem as que traziam para aquelas paragens. Daí “post” , do italiano, através do francês, ser também o correio, o nosso serviço postal e os respectivos bilhetes-postais. Mais tarde o correio passou a vir em malas, transportadas pelas diligências, as “mala-postas”. Lembram-se do “Postino”, do filme italiano, o carteiro?
De ponere veio também o nosso verbo pôr, cujo particípio passado, por semelhança de som, através do latim vulgar postum, e depois através do italiano, deu posto. Como o posto clínico, o posto da polícia, o posto militar e, por associação de ideias, emprego, cargo, como o posto de general.
E temos o verbo reflexo “apostar-se”, colocar-se no seu posto. Também a “aposta” tem a sua relação, mas através de outro membro da família: “appostareª.
Antes de eu ir buscar um pionés (este é que eu não sei de onde nos chegou, parece francês, mas não está no dicionário. Virá de peon, pião?) antes de eu ir buscar um pionés, dizia eu, para pregar esta prosa no poste da História da Palavras, um pequeno aviso: o prefixo post- (depois), não está relacionado; vem da preposição latina “post”, com o significado de “depois”.
E agora, com esta me vou, pois a minha mulher já está a pôr na mesa as postas de peixe para o jantar. Ah! Faltava mais esta, as “postas” de peixe, de carne, etc. são cortadas de modo a poderem ser postas na mesa para se comerem. Daí o seu nome.
E não, não são as tais “postas de pescada” da expressão popular que se refere aos presunçosos que falam muito nos seus teres e haveres.