Subsídios para a ortografia do H (agá) gutural em português

A oitava letra do nosso alfabeto, o agá (h), não tem som algum em palavras nativas da língua portuguesa.

Nós dizemos otel (por hotel), ospital (hospital), oje (hoje), Erminia (Hermínia), etc.

O tão contestado Acordo Ortográfico de 1991, faz uma tentativa para mandar definitivamente o h inicial “fazer tijolo”, suprimindo-o.

Quando, porém, o h provem da etimologia da palavra, a sua supressão torna-se escandalosa.

E, no meio da palavra, ele é imprescindível quando faz parte dos dígrafos ch, nh, lh.

Tudo bem, quando se trata de palavras nativas.

Mas que fazer quando queremos transcrever palavras estrangeiras? Se na língua original a palavra se escreve em caracteres latinos, não há problema. Mas, se na língua original, ela se escreve com caracteres diferentes dos latinos, então teremos que utilizar o carácter mais próximo do respectivo fonema.

E se esse fonema não existe na língua portuguesa? Aí temos um problema.

O agá gutural é um desses casos.  Em português não temos palavras com agá gutural. Em muitos casos nem somos capazes de pronunciar palavras estrangeiras, que contêm esse fonema. Se a palavra se escreve com caracteres latinos (Juan, em espanhol, Ich em alemão) então mantemos a ortografia original e pronunciamos o mais próximo possível do que ouvimos. É frequente servimo-nos do fonena rr (duplo r), uvular sonoro.

Um caso típico é da letra Het da língua hebraica, e da sua equivalente na língua árabe.

Na Idade Média, em Portugal, adoptava-se a sua substituição pela letra F. Al-Hayat deu Alfaiate. Al-Hama (quente, fonte de água quente) deu Alfama; Al-buhera (lagoa) deu Albufeira, Mordehai (Mardoqueu) deu Mordofai, Hasson e Haim (nomes próprios) deram Fasson e Fayim. Vejam-se as referências nas Chancelarias dos nossos reis.

Este caso do nome próprio hebraico é curioso. Quase todos os judeus portugueses com o nome hebraico Haim estão registados actualmente com o nome português Jaime, e não Faim, como na Idade Média. Jaime em latim deriva do hebraico Jacob, e não de Haim. Porém, na moderna comunidade judaica de Portugal, as famílias que vieram de Marrocos espanhol, escreviam o J espanhol  por H, assim os Haim ficaram Jaime.

Os Haim ashkenazis, que escreviam à maneira alemã, com Ch, ficaram Chaim, e então os portugueses liam ch como em chapéu – Chaim (xaim).

Uma das primeiras associações  de beneficência criadas pelos judeus vindos de Marrocos foi a Someh Nofelim  (Amparo dos que caem). Em espanhol escreviam Somej Nofelim, e assim ficou até aos dias de hoje em Lisboa. A Associação da Juventude Israelita, criada em Lisboa inicialmente por judeus polacos, escrevia o seu nome Hechawer (o amigo). Mas logo se associaram judeus sefarditas e então passaram a escrever Hehaver.

No Brasil predominou a influência os imigrantes judeus da Alemanha e da Polónia, e mantiveram a grafia do alemão para as palavras hebraicas. Esse erro brasileiro está agora a contaminar Portugal. Os lisboetas que vêem a “Chanukiah”, que o movimento “Chabad” acende todos os anos no Parque Eduardo VII, lêem na respectiva placa, logicamente, o “ch” de chapéu, e então sai asneira. Os espanhóis não fazem assim, porque escrevem na sua grafia local Januquia, Jabad e Janucá, e pronunciam como originalmente em hebraico.

A pronúncia rr persiste na fala e não na escrita. Tenho ouvido “sorrnut” (Agência), “ratul” (gato), Rein (nome próprio feminino), Raifa (Haifa) etc.

Como solucionar o problema? Eu lancei uma sugestão: utilizar um carácter que não existe na língua portuguesa, mas facilmente produzido nos computadores, o Ḥ (agá com ponto em baixo) e convencionar que ele serviria para escrever o H gutural das línguas semíticas. E então teríamos  Ḥabad, Ḥaim, Ḥanucá, etc.

E ficariam resolvidos problemas comuns  de escrita como Chaḥarit (oração da manhã), Minḥá (e não minha, tua), Cheḥitá (degolação de animais), e não Shechita = sechita).

Para isso seria necessária uma decisão da Academia de Ciências. E vozes de burro não chegam à Academia.

Kosher ou cacher

Vamos tentar acabar, de uma vez para sempre, com as dúvidas sobre o termo a utilizar para designar os produtos alimentares cujo consumo é permitido pela religião judaica?

Em Portugal produzem-se hoje cada vez mais produtos tradicionais, sob supervisão rabínica, que se destinam a ser vendidos, no mercado interno ou para exportação, com certificado de que não infringem as regras a que os judeus religiosos são obrigados a obedecer.

Esses produtos são designados em hebraico como “cacher” (כשר), palavra que significa “próprio”, no sentido de adequado, apropriado, apto, conveniente. Não se aplica apenas a produtos alimentares, mas também a outros produtos do dia-a-dia, para os quais hajam regras especiais de consumo (por exemplo os tecidos do vestuário).

Também os muçulmanos têm uma designação especial para os produtos que lhes é permitido consumir, e que eles designam como ḥalal (حلال).[i]

Ora, se a palavra hebraica para esses produtos é cacher, porque razão, em textos em inglês escrevem kosher? A explicação é simples: é este o nome que lhes dão, nos Estados Unidos. A palavra kosher não existe na língua hebraica, falada em Israel. É apenas uma variante de pronúncia usada, fora de Israel, por alguns judeus originários da Europa Oriental. Há entre os judeus algumas variantes regionais para a leitura de algumas consoantes e sinais diacríticos (aqueles pontinhos que se colocam nas letras, em diversas posições). Quem não lê hebraico não tem que se preocupar com isso. Mas vou dar-vos alguns exemplos, como ideia geral. Um sinal diacrítico que em Israel se lê “a”, no Iémen é lido “o”.  Baruḥ (Spinosa), os iemenitas dizem Boruḥ. Na Polónia, o mesmo sinal é “u” – Bureḥ, e na Alemanha é “o”, como no Iémen. Porquê? Nas diferentes línguas semíticas do Próximo Oriente existiam essas diferentes pronúncias, e os judeus que se espalharam pelo mundo levaram a pronúncia da região em que viviam. Há uma letra que, em hebraico, varia, conforme um dos seus pontos diacríticos, ou se lê B ou se lê V (lembra o português do Porto, não é?), mas para os judeus da Península Ibérica e de Marrocos é sempre B. Há outra letra que em Israel é sempre T, e que para os judeus da Europa oriental umas vezes é T, outras abranda em S. Sábado (que significa “dia de descanso), é Chabat, em hebraico, e como tal chegou à língua portuguesa, por via eclesiástica. Mas na Polónia e na Rússia era Chabess. Mas nós, em Portugal, não dizemos “a guit Chabess”, pois não? Dizemos “Chabat Chalom”[ii]

Da mesma forma não dizemos “cocher” nem escrevemos “kosher”.

Os americanos receberam o vocábulo dos imigrantes judeus da Europa e até o inseriram nos seus dicionários – Kosher! Os ingleses também escrevem assim e pelas mesmas razões. Portanto, quando escrevemos em inglês devemos mesmo escrever “kosher” se quisermos ser entendidos e sobretudo se quizermos vender os nossos produtos para aquele país. Justifica-se absolutamente que os comerciantes desses produtos os designem como “kosher”, para exportação. Agora que uma casa de abate do Alentejo venda aos judeus de Lisboa “frangos kosher”, desculpem mas está errado! Tão errado como já ouvi dizer também a um alentejano que tal dia ia haver “sexita”, quando estava a tentar ler a palavra “Cheḥita” que lhe escreveram “Shechita”, não conhecendo valor para o h que se segue ao s. Ele estava a ler bem, quem errou foi quem escreveu!

Não digo isto por pretensão, acreditem. É que, quando ouço portugueses dizer “Salon chaverim” ou “Chanucá”(ch de chapéu) fico com pena por estarmos a difundir ignorância.

[i] Não estranhem esta letra ḥ (h com um ponto em baixo) que não existe em português. É uma adaptação minha para indicar o h gutural, um fonema para o qual não existe letra no alfabeto português. Darei a minha explicação e apontarei para as alternativas noutro artigo. Por agora basta que notemos que corresponde ao som da letra “j” em espanhol, como em Juan.

[ii] Já sei que me vão dizer que Chabat e Chalom se escreve  com Sh. Mas essa combinação de letras Sh não existe na língua portuguesa. Não escrevemos Shapeu, pois não? Então devemos de escrever Chabat e Chalom.

Unetané tokef

 Todos nós tempos os nossos símbolos individuais, imagens de um objecto, ou de um pensamento, que para toda a gente tem um determinado significado, mas, para nós, tem um significado especial e uma evocação.

Em Rosh Hashaná e Kipur, entre Shaharit e Mussaf, quando o oficiante recita o piut “Unetané Tokef”, vem-me imediatamente a recordação dos meus tempos de menino, na sinagoga Shaaré Tikva, em Lisboa, sentado ao lado do meu descansado Pai.

Quando chegamos à hora daquela oração, o meu Pai, mostrou-me no livro de orações o texto em caracteres Rashi, que estava logo abaixo das palavras da oração e não fazia parte do ritual. Até era estranho que figurasse nos livros ditos “de Livorno”, sefarditas, tratando-se de uma oração tipicamente ashkenazi. E então contou-me a história:

 

“No século XI vivia em Mogúncia (Meinz) na Alemanha, um judeu muito sábio e muito piedoso. Rabi Amnon era um dos principais conselheiros do bispo de Mogúncia, que o estimava muito.

Um dia o bispo quis convencer o judeu Amnon a converter-se ao Cristianismo, como condição para ser nomeado para um alto cargo.

Amnon pediu ao Bispo que lhe concedesse três dias para ele reflectir sobre a proposta.

Mas, logo no caminho para casa, se arrependeu por não ter recusado imediata e perentóriamente aquela traição à religião dos seus pais. Então pediu perdão a Deus, e humildemente fez penitência, decidindo não voltar à presença do bispo. Este, porém, estranhando que Amnon não tivesse aparecido, ao fim de três dias, para lhe dar a resposta pretendida, mandou que o trouxessem à sua presença.

Na presença do bispo, o judeu acabrunhado confessou o seu erro, acrescentando que decidira ele próprio o castigo merecido: o bispo deveria mandar cortar a língua que havia ousado exprimir a sua hesitação em continuar sempre fiel ao seu Deus.

Irado, o bispo mandou que não lhe cortassem a língua, mas sim os pés e as mãos e o levassem paga casa.

Amnon sentiu-se muito fraco e sentiu que ia morrer.

Mas, como estava em vésperas de Rosh Hashaná, o dia em que os judeus fazem o balanço dos seus pecados, pediu que o levassem na sua cama até à sinagoga.

Aí, quando o oficiante se preparava para dizer a Kedushá, a oração em que a comunidade exalta a santidade de Deus, Amnon pediu-lhe que esperasse um pouco e lhe permitisse declara publicamente a sua fé inabalável no Deus único.

Então, com as últimas forças que lhe restavam, ele começou “Unetané tokef kedushat Haiom, ki hu norá vehayom”.

E ao terminar deu o seu último suspiro.

 

Uma lenda publicada dois séculos depois conta que rabi Amnon de Mogúncia apareceu, dois dias depois, em sonho a rabi Kalonymus ben Meshulam, também de Mogúncia, e lhe ditou as palavras da sua oração, que desde então é recitada nas sinagogas, na mesma parte do serviço, em Rosh Hashaná e Kipur.

 

“Relatemos o poder da santidade deste dia, porque ele é terrível e assustador. Nele será exaltado o Teu Reino; o Teu trono será firmado com bondade e senta-Te-ás nele em verdade. ´´E certo que só Tu és Aquele que julga, prova, sabe e testemunha; que escrevas e selas (contas e fazes os cálculos); Que lembras tudo quanto foi esquecido. Tu abrirás o Livro da Crónica, que será lido e nele estará a sentença de cada um. Soará nele o grande Shofar, e ouvir-se-á o som de um silêncio muito fino. Os anjos apressar-se-ão, e serão tomados por um tremor e pelo terror, e dirão, “Eis que este é o Dia do Julgamento, em que será passado em revista o exército celestial, para julgamento – porque nem mesmo eles podem escapar aos Teus olhos no julgamento.”

 

Esta é apenas a primeira das três partes da oração, que poderão ouvir aqui numa versão musicada por Yair Rosenblum, sobre uma melodia tradicional dos cantores das sinagogas. (Lamento mas não sei como inserir aqui um mp3. Tentarei no Facebook)

 

Passaram-se muitos anos desde aquele dia de Rosh Hashaná, em que meu Pai me contou esta história.  Hoje eu sei que a oração é muito anterior ao século XI, pois foi encontrada uma versão entre os manuscritos da Guenizá do Cairo. Portanto, pelo menos parte da história é uma lenda.

 

Apesar disso, eu não posso evitar os calafrios ao escutar a oração pela boca do modesto oficiante da sinagoga do meu bairro, aqui em Israel, e de “ver”, com os olhos da alma, a cena com meu Pai, nos bancos da sinagoga de Lisboa, e a cama do rabi Amnon na sinagoga de Mogúncia.

 

 

 

 

 

O verão de S. Martinho

D. Natália Bispo, senhora da «Casa do Castelo“, ex-líbris da cidade de Sabugal, brindou-nos, este ano, com uma vívida série de reportagens diárias, sobre o decorrer das festas do Magusto, no adro daquela histórica fortaleza.

Que mais incentivo precisava eu, para empreender um breve estudo histórico-etimológico sobre os termos próprios desta época, na nossa língua.

O magusto comemora-se em várias épocas do ano. Mas é sobretudo no final do “verão de S. Martinho”, que as festas atingem o seu auge.

Porquê “verão” e porquê “S. Martinho”?

O verão, do latim veranu, também chamado estio, é o período do ano em que as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. No hemisfério norte, principia a 21 de março e finda com o equinócio de Outono por volta de 23 de setembro. Por essa altura começam o frio e as chuvas. Não raro, em Outubro,  as chuvas já são torrenciais e nos países nórdicos, as terras cobrem-se de neve.

Então, repentinamente, por alturas de 1 de novembro, o frio, as chuvas e a neve param, o sol volta a banhar as terras. A gente do campo aproveita para realizar umas últimas atividades agrícolas, antes que volte o inverno. Não estivessem eles habituados a este fenómeno meteorológico, e dir-se-ia que o verão tinha voltado.

Antigamente, quando os arrendamentos rurais eram anuais, os contratos faziam-se com pagamento das rendas pelo S. Miguel (29 de Setembro) ou pelo S. Martinho (11 de Novembro), em função da época das colheitas

 Mas é sol de pouca dura, pois passados onze dias de bonança regressa o inverno, desta vez mesmo a sério.

Explicado o primeiro termo da expressão, vejamos agora por quê de S. Martinho.

Martin de Tours era um soldado romano, nascido por volta do ano 316, na Hungria. Era pagão, educado na religião romana dos seus pais. Um dia, segundo a lenda, em pleno inverno europeu, ele deparou com um mendigo, tiritando de frio, que lhe pediu esmola. Martim não tinha nada para lhe dar, mas logo ali puxou da espada, cortou ao meio a sua capa de soldado, e deu uma das partes ao mendigo, para que se abrigasse do frio.

Agora era ele que sentia o frio nos ossos. Mas, nesse preciso momento, a neve deixou de cair e o sol tornou a banhar a terra, como se tivesse voltado o verão. Martim viu nisso um milagre e decidiu definitivamente converter-se ao Cristianismo, como já tinha em mente desde a sua juventude. Mais tarde foi escolhido para bispo de Tours, em França, e realizou outros milagres, pelo que foi canonizado.

O “verão de S. Martinho” é comemorado em quase todos os países da Europa. Nos países eslavos e na Hungria tem o nome alternativo de “verão das velhas”.

Mas o fenómeno não se verifica somente na Europa. Também no continente americano ele é conhecido. No tempo dos primeiros colonizadores europeus, os índios aproveitavam esse período de “falso verão” para fazerem a colheita da abóbora e do milho. Parece que foi por isso que lhe deram o nome de “Indian summer” (verão do índio). Há outras versões para a origem do termo, mas aqui só nos interessa a nossa versão europeia.

No primeiro dia de novembro, quando oficialmente principia o verão de S. Martinho, é comemorado em todo o mundo o “Dia de Todos os Santos” (conhecidos e desconhecidos). A comemoração foi iniciada em 13 de maio de 609 ou 610, quando o Papa Bonifácio IV dedicou o Panteão romano, onde até aí “residiam” todos os deuses pagãos dos romanos, a Maria, mãe de Jesus, e a todos os mártires da Igreja.

A data foi mudada para 1 de novembro, pelo Papa Gregório III (731-741), não se sabe bem porquê. Supõe-se que a razão tenha sido a cristianização dos celtas, na Inglaterra. Nessa data eles tinham antes uma festa popular, a que chamavam o Samhain. O Samhaim era a época em que se acreditava que as almas dos mortos voltavam às suas casas para visitar os familiares, para buscar alimento e se aquecerem no fogo da lareira. As tradições populares têm muita força e persistência na memória coletiva dos povos. Quando se converteram ao Cristianismo, eles continuaram a celebrar o Samhain. Era, pois forçoso, “cristianizar” também o Samhein. Por isso foi transferida a data do “Dia de Todos os Santos” para 1 de novembro.

Os mortos não foram esquecidos, sobretudo aqueles cuja data de falecimento não era conhecida. Os crentes rezavam pelos seus mortos em diversas datas, mas séculos depois da fixação da data para “Todos-os-Santos”, foi escolhido o dia seguinte, 2 de novembro, para “Dia de Finados”, ou dos “Fieis Defuntos.”

Uma tradição semelhante, baseada também no Samhain dos pagãos celtas, encontrou o seu caminho de Inglaterra para os Estados Unidos. É a “noite das bruxas” (All Hallows’ Eve ou Halloween) e comemora-se na véspera do “Dia de Todos os Santos”. É comemorado com mascarados, histórias de terror, cerimónias religiosas (alguns fazem jejuns) e as crianças vão de porta em porta a pedir presentes, doces e bolos. Algo de muito semelhante com o pedir do “pão-por-deus” nas nossas aldeias.

Com tudo isto, acham que me esqueci do magusto?

Pois não me esqueci, não senhores: O magusto vem do latim “magnus ustos” (grande fogueira), que se acende na noite de S. Martinho, para assar castanhas e em alguns sítios também bolotas. Ambos os frutos eram, no passado, alimento dos pobres. Portanto, inicialmente o magusto era o lume, não a comida que se assava com ele. Na Galícia e nas Astúrias é o magosto.

Aliás, até ao século XVII comiam-se em Portugal mais castanhas do que pão ou batatas.

Etimologia de “castanha”? Parece fácil – cor do fruto. Pois não é! O contrário é a verdade: a cor vem do nome do fruto. Em francês, ambos são “marron”, nome derivado da palavra lígure (língua romana galo-italiana) “mar”, que significa “pedra”

Antigamente, os franceses diziam “chesteine”. De chesteine, tiraram os ingleses “chest”, e “noz de Chest” é chestnut, o nome que eles dão à castanha.

Em grego era Castanea, nome de uma terra na Grécia, de onde veio o fruto que inicialmente se chamava “nós de Castanea”.

Do grego, através do latim, castanea chegou até nós como “castanha”… e castanholas. Tudo da mesma família etimológica.

Não me esqueci de nada?

Esqueci.  “No S. Martinho, castanhas e vinho”

No S. Martinho, prova-se o vinho que foi feito em setembro. Além do vinho, ainda se vai ao bagaço da uva (pé), durante a fermentação, e se lhe deita por cima água, para retirar o pouco de mosto que ainda lá tenha ficado. É a água-pé, com muito pouco álcool.

Era o que me deixavam beber, em pequeno, quando assistia ao magusto na aldeia.

Para os mais velhos, em vez de deitar água no mosto, deitavam-lhe aguardente (água+ardente).

E então ficava uma bebida mais alcoólica e mais doce do que o vinho – a jeropiga.

Créditos:

Fotografias: Internet e Drª. Maria João Lopes Cardoso

Recomendações:

Para ver, clique sobre o link:

«Ben-Rosh, uma biografia do Capitão Barros Basto, Apóstolo dos Marranos»- Elvira de Azevedo Mea e Inácio Steinhardt

Dicionário Moderno da Língua Portuguesa (com o novo acordo ortográfico)

Quem era a Maria das bolachas?

A minha história de hoje foi inspirada num artigo do «Diário de Notícias”, com o título de «Bolacha Maria: Uma bolacha perfeita».

Este título tinha que me trazer à memória reminiscências da minha primeira infância, esse período tão ligado ao meu saudoso “avô” adotivo, Jacinto, de Camarate, sobre o qual já escrevi aqui várias vezes.  Sempre senti no “avô Jacinto” uma dedicação tão amorosa, como se eu fosse realmente seu neto. Estou a falar nos meus primeiros dois anos de vida, pois com a idade de 3 anos já nos mudámos de Camarate para Tremês.

Operário da construção civil, como se diz agora, pedreiro na fala daquela época, Jacinto mourejava todos os dias, de sol a sol, saindo de casa antes do sol nascer, para ir para o trabalho, percorrendo muitos quilómetros a pé, pela “estrada militar”, em direção a Sacavém, ou pela estrada da Charneca, até Lisboa.

O sábado era o dia da “jorna”, assim se dizia então o magro salário auferido diariamente pelo duro trabalho de muitas horas, e que era pago semanalmente, para o trabalhador poder pagar as dívidas ao merceeiro da aldeia, e lhe merecer o crédito para mais uma semana de “fiados”.

Mas, assim que se achava com algum dinheiro no bolso, e antes de empreender o caminho de regresso a Camarate, o “avô” Jacinto procurava a primeira mercearia, onde quer que se encontrasse, para comprar uma guloseima para o seu “neto”, sempre a mesma.

Quando chegava, cansado, com a pela ressequida pelo sol e pelo pó da estrada, eu corria a abraça-lo. Era na casa dos “avós” Jacinto e Maria que eu passava a maior parte do meu tempo.

No sábado, sempre os olhos do “avô” brilhavam de felicidade. “Ò Inácio, que dia é hoje?”. Mesmo que eu não estivesse a par do calendário, esta pergunta sugeria-me logo a resposta certa: “É sábado!”. “E é dia de quê?”. Agora, era já com voz baixa, meio envergonhado, que eu respondia: “É dia de bolos”. Era isso, todos os sábados, ao voltar do trabalho, Jacinto trazia, escondido atrás das costas, um pequeno cartuxo de papel pardo, com “bolachas Maria”. Era o meu luxo e a minha guloseima semanal.

“Bolachas Maria” já existiam há muitos anos e existem ainda hoje em todo o mundo. Não passam de moda. O seu sabor quase neutro, talvez ligeiramente abaunilhado, a sua forma redonda, plana, e consistência seca, fazem com que se torne no bolo ideal para acompanhar o café ou o chá, singela ou barrada com doce, chocolate, etc.

Também a bolacha Maria tem a sua história.

“Bolacha” ou “biscoito” são sinónimos, pese a quem numas terras use um dos termos e noutras o outro para designar variedades diferentes. “Bolacha” vem de “bolo”, com o sufixo diminutivo “-acha”. “Biscoito” veio-nos da língua francesa, onde se diz “biscuit”, ou seja “cozido duas vezes”. Como tudo nasce para servir um propósito, a história é que os padeiros-confeiteiros serviam-se antigamente de uma pequena porção da massa dos bolos para experimentar o calor do forno. Depois coziam o resto dos bolos. Mas aquela primeira massa, que geralmente ficava um pouco húmida, era levada ao forno segunda vez, para secar. Cozida duas vezes – bis-cuit, em francês – ou, pelo mesmo motivo, “cookie” – de “cook” – cozer.

Em português, a palavra “biscoito” já existia desde o século XV, quando os navegantes o levavam como mantimento para as longas viagens. O termo “bolacha” só começou a ser usado no século XIX.

Em 1857, dois padeiros empreendedores, James Peek e George Hander Freans, de Dockhead, um arrabalde de Londres, começaram a fabricar “cookies” e a vende-los para outras áreas. Para isso adquiriram uma carruagem que circulava por todo o país, ostentando o nome “Peek Freans”.

Tornaram-se conhecidos e em breve mudaram para Clements Road, em Bermondsey, onde abriram uma fábrica, que dava trabalho a dezenas de operários.

Quem passava na localidade não podia ignorar o cheirinho a bolo que se espalhava no ar.  Por isso lhe chamam ainda hoje “a terra das bolachas”.

Em 1870, quando da guerra entre a França e a Prússia, a fábrica dos dois sócios, agora já com a firma “Peek Freans & Co. Ltd”,  recebeu das forças armadas uma encomenda de 10 milhões de “cookies”. Isso contribuiu definitivamente para o desenvolvimento do negócio como grande empresa internacional. Hoje existem subsidiárias e licenciadas da Peek Freans em muitos países do mundo, e as suas embalagens de lata são já há muitos anos objeto de coleção.

Maria Alexandrovna

Ora, em 1874, o segundo filho da rainha Vitória, Alfredo, duque de Edimburgo, casou-se com uma grão-duquesa russa, Maria Alexandrovna.

Peek Freans, com o grande prestígio de que já gozavam, como fabricantes de “cookies”, entenderam homenagear a duquesa com um novo biscoito, redondo, com um friso decorativo, e, no centro, gravaram o nome da homenageada: “Maria”.

Como sucede ainda hoje com os casamentos reais britânicos, o casamento dos príncipes foi seguido com grande interesse em toda a Europa, . Toda a gente quis provar as bolachas com o nome da noiva.

Um pouco por toda a parte, industriais locais começaram a imitar o produto. Portugal e a Espanha foram dos primeiros, mas até no Japão se produzem hoje bolachas iguais, com o nome “Maria” gravado no centro, e o imprescindível “Made in Japan”.

Mas o país onde as “bolachas Maria” entraram francamente na cultura nacional foi a Espanha do século XX. Durante o período de fome que se seguiu à guerra civil espanhola, a falta de pão era tanta que o governo empreendeu uma campanha para a produção de trigo. O resultado foi uma fartura tal do cereal que, para lhe dar vazão, os padeiros começaram a fabricar grandes quantidades de bolacha. Tornou-se habitual nos cafés colocar em cima do balcão pratos com bolachas “Maria” (com o nome estampado), para os clientes se servirem, acompanhando o café. Era também um símbolo da recuperação da economia espanhola. E tornou-se um biscoito favorito.

Dizem as estatísticas que, 40% dos cartões com biscoitos que se vendem em Espanha são “galletas Maria”.

Podem começar, meus amigos, a olhar para a bolacha Maria com outro respeito…

Onde está o rato?

Já alguma vez sentiram ratos debaixo da pele? Não, pois não! Quem é que pode ter ratos, debaixo da pele? Debaixo da pele temos músculos.

Nem ratos, nem mexilhões. Mexilhões também não.

Em latim rato dizia-se mus.

De mus chegou-nos o inglês mouse (rato), termo com que estamos todos familiarizados, por via do mouse/rato do computador.

E no diminutivo, um rato pequeno, era musculus.

Aos antigos terá parecido que os músculos salientes do corpo humano, nos braços e nas pernas, tinham a forma e os movimentos de pequenos ratinhos. Por isso criaram a palavra músculo, na anatomia humana.

Em francês e inglês ficou muscle (com pronúncias diferentes).

E a que propósito vem aqui o mexilhão?

É que a etimologia é a mesma. Provavelmente a carne do pequeno molusco, debaixo da concha, terá dado a ideia de um pequeno músculo. Em inglês é mussel e em francês moule. De onde, quase irreconhecível, o nosso mexil>mexilhão, que é quem mais sofre quando o mar está bravo, segundo a sabedoria popular, num aviso para o Zé Povinho.

Não fica por aqui a contribuição do rato para a nossa fala.

Conhecem o almíscar?, uma substância de origem animal, proveniente de uma bolsa situada perto do umbigo do almiscareiro, uma espécie de cabrito sem cornos, que habita os vales e as serras do Himalaia, do Tibete e da Sibéria. Com esta explicação é natural que não conheçam. Mas nas perfumarias, por exemplo nos aftershave (loções para depois de barbear), encontramos a designação de musk, um perfume feito à base do almíscar, nome que nos veio da língua árabe, com a mesma origem –al musk. A etimologia aqui é indireta. Veio do sânscrito muska, que significava testículo, novamente porque a forma desta glândula masculina lembrará (talvez, vamos lá!), um rato – mus. Mas já ouvi dizer que a ingestão do mexilhão favorece a fertilidade. Terá ligação?

A glândula, pela qual o tal cabrito segrega o almíscar, pareceu aos persas um testículo. Então pegaram no nome do testículo em sânscrito, e fizeram mushk para o perfume.

Já chega de palavras de origem esquisita? Ficamos por aqui?

Antes, porém, vamos tomar um cálice do delicioso vinho Moscatel de Setúbal.

Quando eu era pequeno, pensava que a uva moscatel tinha que ver com as moscas que pousavam nela, por ser doce.

Mas não tem que ver, não senhor. Nas outras línguas é muscat ou muskat. Tem que ver com a noz moscada (almiscarada), que em inglês se chama nutmeg. Este meg vem do latim muscus, novamente relacionado com o ratinho… Mas através do musk/almíscar, por causa do perfume da noz e da uva…

Muscat, ou Mascate em português, é a capital do sultanato de Oman, e já foi possessão portuguesa. Mas aí já não sei se há ligação.

Entretanto, se lhes perguntarem o que tem que ver o rato do computador, com os vossos bíceps e com o vinho moscatel, já não podem dizer que não sabem.

Os nossos dedos

Hoje em dia, vivemos num mundo digital. Temos relógios digitais, fotografias digitais, televisão digital… provavelmente já se pode ir a um café e beber uma bica digital.

A palavra “digital” chegou-nos do latim, onde significava “dedo”, aquilo que nós e muitos outros animais temos nas extremidades das mãos e dos pés. Como era fácil contar pelos dedos, a palavra “dígito” evoluiu para designar “algarismo”. Um número de telefone, em Portugal, tem agora, nove dígitos.

Antes de chegar ao latim, a palavra existiu na língua comum indo-europeia (de que derivou a maioria das línguas da Europa, além do sânscrito na Índia e suas ramificações), onde se dizia deik, e significava “apontar”. Com os dedos aponta-se.

Mas, da mesma palavra derivou o verbo “dizer” (originalmente “dizer” era apontar, mostrar).

Um sistema digital é um conjunto de dispositivos de processamento, armazenamento e transmissão de dados, usando valores discretos (descontínuos). Utilizam-se para isso sistemas de numeração binários, ou seja em que os únicos dígitos empregues são o “0” e o “1”, com os valores de “sim” ou “não”, “aceso” ou “apagado”.

O sistema a que estávamos habituados antes era o analógico, que usa um intervalo contínuo de valores, para representar informação. Temos relógios digitais e relógios analógicos, como temos televisão analógica e televisão digital.

Ora quase todos nós nascemos com 5 dedos em cada mão. Digo quase todos, porque um colega meu no liceu tinha 6 dedos numa mão. Mas isso são excepções: polegar, indicador, médio, anelar e mínimo.  Com excepção de “polegar”, que veio do latim “pollicaris”, cuja origem não encontrei, todos os outros têm significados claros para nós.

Detenhamo-nos apenas no “anelar”, o dedo da mão esquerda onde, nas culturas ocidentais, se coloca o anel de casamento. Porquê precisamente nesse dedo e na mão esquerda.

Para aprendermos isso temos que recuar até à civilização egípcia, onde se simbolizava a união entre marido e mulher, através de pulseiras e correntes. Com o andar dos tempos, passaram a usar, para esse efeito, o anel que tinha um significado religioso, relacionado com o sol e a lua. Quando Alexandre da Macedónia conquistou o Egipto, em 332 A.C., o costume espalhou-se pela Europa e pelo Ocidente.

Os cientistas egípcios, que estudaram a anatomia humana, revelaram que no quarto dedo da mão esquerda nasce um nervo que vai ter directamente ao coração Portanto o “nervo do amor”. Também houve quem dissesse que era a “veia do amor”. Por isso, nos ficou a tradição de usar a “aliança de casamento” no dedo anelar da mão esquerda.

Em latim, o dedo anelar (digitus annularis) também foi chamado “digitus medicinalis” (o dedo do médico). Esta última designação foi conservada na língua alemã – “arztfinger”. Os etimologistas estão muito divididos em relação à origem deste nome. Muito provavelmente não teria que ver com médicos, mas sim com curandeiros, que atribuíam a esse dedo qualidades mágicas de cura. Talvez pelo mesmo motivo do nervo ou da veia que vai para o coração.

Quanto ao dedo mínimo, também o povo lhe chama “o dedo da orelha”, por razões óbvias apropriadas às suas pequenas dimensões.



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