Arquivo de Dezembro, 2006

Protocolo

Um amigo meu, diplomata israelita reformado, contou-me que, quando exerceu as funções de Chefe do Protocolo do Estado, foi receber a bordo do avião o Papa João Paulo II.  quando da sua visita à Terra Santa.

Por outro lado, quando eu exercia as funções de presidente da Liga de Amizade Israel-Portugal (cargo de que me “reformei” este mês) recebi uma carta de um grupo folclórico de Portugal, que pretendia fazer um intercâmbio com um grupo similar israelita, e nos propunha assinar um protocolo.

Confesso que, vivendo fora de Portugal há 30 anos, embora todos os dias fale, leia e escreva português, há “regras de uso” que já não são do meu tempo.

Uma delas, por exemplo: no meu tempo, “via-se” uma cassete de vídeo; agora parece que se “visiona” o vídeo. “Aprender até morrer” – sabem quem dizia? Exactamente! O meu “avô” Jacinto de Camarate.

Mas assinar um protocolo para um simples intercâmbio entre dois grupos folclóricos, pareceu-me um assunto demasiado sério…

A secretária da nossa Liga escreve protocolos das nossas reuniões, sim senhor.    Mas para a actividade que nos propunham pareceu-me que um simples acordo bastava.

Não me estivesse a escapar-me qualquer coisa de mais grave, perguntei a quem está mais actualizado do que eu e recebi a explicação: agora não se assinam acordos, mas sim protocolos. É assim que manda o protocolo da língua.

Pronto! Aqui temos já três significados, pelo menos, da palavra “protocolo” e sobre a sua história, nada!

Para isso é que vós, meus amigos, me aturais, não é verdade?

Pois aqui vai: “protocolo” é uma palavra composta de dois elementos da língua grega: proto, que significa primeiro, e kollon, colado.

Antigamente, antes de haver papel, os livros eram escritos em folhas de papiro, que depois se colavam umas às outras, pelas margens laterais, e, no final enrolavam-se, para formar uma espécie de tubo, que se desenrolava para a leitura.

Na primeira folha, escrevia-se normalmente o título do livro, se de um livro se tratava, os nomes do autor e do escriba, e mais elementos para identificar o trabalho.    Sendo uma carta, um tratado, um protocolo diríamos hoje, também se escrevia, na primeira folha, a respectiva identificação.

Essa era, portanto, a primeira folha, que se colava às seguintes, a folha “proto kollon”. Por isso se chamava “protocolo” do livro.

Está explicada a origem e a história está à vista: como a palavra foi alargando o seu domínio semântico.

E está explicada também, da mesma assentada, a origem de “cola”, no sentido de material adesivo, pois também pode significar “cauda”.

E ainda ficamos a saber de onde vem “protótipo”, o primeiro objecto que se fabrica de determinado tipo. E outros quejandos vocábulos da nossa língua, em que “proto” é prefixo.

Esta ficou económica, não foi? Duas palavrinhas pequenas, que deram tantas voltas na vida.

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Quem pediu beterrabas?


 Desculpem a curta ausência, e aqui vai esta para a vossa consoada: Estranha o leitor Mendinho:“Eu sempre me perguntei como é que em castelhano beterraba pode ser remolacha, quando em inglês é beetroot, em francês é betterave e em italiano é barbabietola.” 

Ora com franqueza, ó Mendinho, então queria que os castelhanos ficassem iguais a nós? Para que é a padeira trabalhou tanto com a pá em Aljubarrota.

Está boa a moenga! (quem foi que disse aí que já dizia o meu “avô” Jacinto? Não o meu “avô” Jacinto não falava assim, por que nã era alentejano. Por acaso até era ribatejano, de Mouriscas!) Agora a sério: os espanhóis também já usaram betarava e betarraga. Todos os exemplos que você menciona, vêem fundamentalmente da palavra beta, o nome botânico da acelga (beta vulgaris), com as diversas variações ortográficas.

Já era conhecida pelos povos dos primórdios da história, e crescia como planta selvagem, perto do mar.

Era utilizada apenas pelas suas folhas, para salada, ou cozida.

Quando começou a ser cultivada, para esse fim, houve alguém que se lembrou de se servir da raiz vermelha, para dar sabor à sopa. Depois de cozida, deitavam-na fora. Um dia aperceberam-se que a raiz continha grande percentagem de sacarose, sabia bem, e deixaram de a deitar fora. A parte final foi primeiro rave, raiz, também usada para designar o nabo. Daí também a terminação root (raiz), em inglês. No século XVI começaram a extrair da beterraba um xarope. E mais tarde desse xarope começaram a fazer açúcar. A produção industrial de açúcar de beterraba só teve início no século XIX.

E existem várias espécies, consoante as diversas espécies de beterrabas.  Agora, respondendo directamente à sua pergunta: os alemães já usavam meerretich (literalmente rábano do mar) para designar o rabanete. E foram busca-lo em tradução literal, ao latim armoracium, derivado, por sua vez, do gaulês are more, perto do mar.  Armoracium era a planta que nascia perto do mar. De armoracium  os italianos fizeram ramolaccio, de onde “nuestros hermanos” foram buscar a “remolacha”. . Assim deixaram de usar beterraga. E obrigado à Martha pela boa ajuda. Não deve ter sido para irritarem o amigo Mendinho, mas talvez para se vingarem da grande queda do Miguel de Vasconcellos, em 1640. Bem diferentes dos portugueses, pelo menos nas beterrabas.

Os italianos chamavam à acelga – bietola. Barba bietola, é a acelga cultivada, beterraba. Barbabietola acabou por ser mais usado do que ramolaccio.  

E já agora, em português também podíamos mudar para Beethoven, não é? Hoven é jardim, campo cultivado, portanto “plantação de beterrabas”?   Não! Embora haja quem faça esse erro. Beet, aqui, é bétula., a árvore. Vêem como a etimologia é traiçoeira. Jardim de bétulas. 

As voltas que a fruta deu…

Se eu tivesse juízo, não me metia nesta.   Porque, como me meto sei eu, mas como me vou sair, não vai ser fácil.

Comecemos por um encontro com dois casais amigos, há muitos anos, à entrada da casa do meu falecido Pai qDt, na Ericeira.    Junto ao portão do jardim tinha o meu Pai um belo marmeleiro.

“Ah!” exclamou uma das senhoras, italiana de origem – “mele cotogne“. Logo atalhou a outra senhora, que italiano não sabia, mas havia vivido alguns anos em Espanha: “Não, estes não são melocotónes, são marmelos. Melocotónes são os pêssegos”.

Uma e outra tinham razão.   Em italiano “mele cotogne” são marmelos, e em Espanha “melecotónes” são pêssegos.   A etimologia é precisamente a mesma: “melon“, no grego e “Melo” em latim, significavam “maçã“. E tanto a penugem fina que cobre o marmelo, como a que cobre o pêssego, parecem algodão.

E em árabe “kutun” ou “al-kutun” precedido do artigo definido,  já adivinharam, significam algodão.Voltando ao melon-melo, daí vem também o nosso “melão” , que começou por chamar-se “melo-pepon” (maçã madura) e também a “melancia“.

(Para aqueles de vós que também sabem hebraico, também o “melafefon” (pepino) vem de “Melo-pepon”. No hebraico antigo chamava-se “kishua”. Por precipitação de alguém que atribuiu, por engano, este nome, no hebraico moderno, à abóbora-menina, abóbora de jardim, ficou o pepino destituído de nome.   E então pegaram no “melafefon” e deram-no ao pepino, à laia de compensação.)

Assim como estes foram buscar o grego-latim “melon/melo” para designar a maçã, os franceses optaram pelo latim “poma, pomum“, que significava “fruto“.

E os ingleses e os alemães, holandeses, etc, foram buscar ao antigo germânico “Apple” e “Apfel” respectivamente.

Dai, como já vimos num artigo anterior, a batata, que foi cultivada primeiro na Alemanha, como “Erdapfel” (maçã da terra) chegou a França como “pomme de terre”.

Não, não vamos meter aqui o computador Appel, senão o Bill zanga-se comigo e fecha-me o blog…  O tomate, fruto a que foram atribuídos efeitos afrodisíacos, talvez por pertencer à mesma família que a mandrágora, chamou-se primeiro “pomme d’amour”, “pomme de Vénus” e também “pomme d’or”.  

Em hebraico, agvaniah também está ligado com agavim, mas não vem aqui a propósito. 

Os árabes ainda hoje o chamam pommedor assim, mas deturpando-lhe a pronúncia, pela dificuldade em expressar o som “p”, dizem agora “bandorra”.   O nome “tomate” é de origem asteca, de onde foi trazido pelos espanhóis.E também a “laranja” começou por ser para os alemães “Apfelsinen”  (maça da China, de onde chegou pela mão de Marco Pólo).   Na Índia, em sânscrito era naranga, passando para os persas como narang, e para os árabes (da Arábia) naranj.    Estes por sua vez, quando encontraram a laranja na Espanha, usaram o mesmo nome, que deu naranja em espanhol..Os franceses, esses tinham que chamar o fruto pomme de… não é? mas pomme de quê? Fácil. Tinham uma cidade com um nome parecido: Orange.   Portanto era a pomme d’Orange, que com o tempo ficou só Orange, e assim transitou para o inglês e outras línguas.   Para os italianos ficou arancia.

Cada qual lhe deu uma volta, para ficar mais ao seu jeito de falar.   Por exemplo, em idishe,  a língua popular dos judeus da Europa oriental, ainda hoje é pomeranz., ou simplesmente marantz. E na outra língua popular judaica, dos judeus sefarditas dos Balcãs, o judeu – espanhol, por vezes confundida com o ladino?  Pois aí diz-se portucale, acreditem!

Nós em Portugal fomos buscar o nome aos espanhóis, mas não podíamos ficar iguais, para não nos confundirem com “nuestros hermanos”.   De naranja fizemos laranja.

Porém, foi um árabe de Jaffa, chamado Yussuf Efendi, que trouxe pela primeira vez as laranjeiras para o Império Otomano. E de onde as trouxe? Pois foi mesmo de Portugal.   As Yaffo Oranges hoje famosas em todo o Mundo, vieram do nosso jardim da Europa à beira-mar plantado, mas já foram enxertadas com outras espécies..

Como era fruta nova, vinda de Portugal, foi esse o nome que lhes ficou, não só no judeu – espanhol, mas também no turco, no romeno, no búlgaro, no grego moderno, por todo o Império Otomano: portucale.  Na década de 1950, quem dissesse em Israel a um judeu dos Balcãs que era de Portugal, era alvo de risota, com certeza: “Então você é laranja?”. Nessa altura, no conhecimento do povo, se já tinha ouvido o nome do país, Portugal ou era na América do Sul, ou estava ligado com o Eusébio e com a Amália.

Os árabes aqui desta região, tiveram a habitual dificuldade com o “p” e então, em vez de dizer naranj , como nos dialectos irmãos dos outros países árabes, dizem bordukal. Ora viram as voltas que a fruta deu?  E a ginástica que este vosso amigo teve que fazer para se sair desta alhada?