Arquivo de Abril, 2007

A queda e o acidente

Tive hoje uma desagradável notícia.

Uma senhora nossa amiga, em Portugal, teve um acidente.   Puxada pelo cão, com muita força, caiu no chão, com consequências graves.

Na nossa linguagem de hoje, um acidente não é necessariamente uma queda.

Acidente é qualquer coisa que acontece inesperadamente.   É também sinónimo de desgraça, desastre.   E há também acidentes de terreno e acidentes ou derivações gramaticais.

Na história, isto é na certidão de nascimento da palavra “acidente”, vemos que ela nasceu para designar apenas uma queda.

Os pais dela, isto é, os termos latinos de que derivou, foram o verbo cadere, que significa cair, e o prefixo ad- , que significa “em”.

Portanto accidere, significava em latim “cair em”.

Outros derivados do mesmo verbo latino são:

“Caso” – da forma casus, uma coisa que caiu, que aconteceu; e daí também que aconteceu por acaso.

 “Cadência”, “decadência” e estrelas “cadentes”

 E até “cadáver” é uma metáfora latina para um corpo que caiu, morreu.

 E evidentemente “cair” é hoje  o mesmo que era originalmente o “acidente” 

Se quisermos, encontraremos ainda não poucas palavras na nossa língua que nos chegaram do mesmo verbo latino.

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Os algarismos também têm história

  No meu texto de ontem contei-vos o que aprendi sobre a história da palavra álgebra. 

Aí fiz referência ao livro Al-Kitab al-Jabr wa-l-Muqabala, ou seja o “Livro de Juntar e de Equalizar“, da autoria do matemático persa Muammad ibn Mūsā al-Khwārizmī (780-850).

A propósito contei-vos também que foi do nome deste al-Khwārizmī que nos veio a palavra algarismo.

Sabem porquê?   Por causa de uma interpretação errada da tradução de um título:

O mesmo al-Khwārizmī escreveu outro livro sobre a maneira de usar os numerais indianos, porque foram os indianos os primeiros a criar um sistema simples  de notação dos números, com base no complicado sistema dos brâmanes.

O livro de al-Khwārizmī, escrito em 825, foi traduzido para latim no século XII (mais ou menos aquando da independência de Portugal).   O tradutor pôs-lhe o título de Algoritmi de numero Indorum , querendo significar “Sobre os números indianos”, de Algoritmi (forma latinizada do nome do autor do original em árabe).   O título foi mal compreendido, e a partir daí nasceram duas palavras algoritmo, para significar “método de cálculo” e algarismo, em português, directamente do árabe, significando o dígito.

Dígito, de dedo, porque o sistema é decimal.   E é decimal porque a mais antiga forma de contar foi pelos dedos.   Salvo as excepções que justificam a regra, o ser humano tem 10 dedos nas mãos.   Eu tive um colega que nasceu com onze!

Uma das grandes invenções dos matemáticos foi o zero, que em árabe se diz sifr, de onde também o nosso cifra.   Foi a invenção do zero que permitiu a notação posicional dos números.    Até aí só se podiam representar os números de 1 a 9. Para cima de nove eram necessários artifícios, variando de povo para povo, para representar números superiores.    O zero permitiu utilizar de novo os nove algarismos, acrescentando-lhes um zero à direita, para as dezenas, dois zeros para as centenas e assim por aí adiante.

Um “zero à esquerda” tem outro significado, mas eu não quero aqui ofender ninguém…

Antes dos árabes terem adoptado os algarismos indianos, todos os povos semitas, e depois deles os gregos, utilizavam as letras do alfabeto para denotar os números.

Na Europa os romanos difundiram o seu sistema, baseado nas letras I, V, X, C, M por um sistema também posicional.

Vejamos  a evolução na grafia dos números indo-arábicos que nós usamos hoje. Adaptado, com a devida vénia, da Enciclopédia Britânica:

algarismos1.gif

Como vêem, havia uma diferença entre a grafia dos algarismos entre os árabes do Médio Oriente e os árabes ou mouros da Andaluzia e do Maghreb. Foi deste que derivou a forma que nós usamos hoje.

Conclusão: não são só as palavras que têm história… os números também.  

Álgebra dos ossos e dos números

Já aqui falámos em alguma das muitas palavras que nos chegaram através do árabe?    Parece-me que não.

Hoje proponho-vos conversarmos sobre uma delas: a álgebra.

A língua árabe é uma língua semítica e portanto de flexão interna, isto é, a raiz da palavra é formada só por consoantes, normalmente três consoantes, e os derivados são formados com o uso das vogais que articulam essas consoantes.

Assim, a raiz “jbr”  tem o significado de juntar, reunir. “jabara”  é o verbo, e “Al jabr”  é o substantivo, precedido do artigo, isto é “o acto de juntar”.

Como curiosidade, mais do que outra coisa, contar-vos-ei que, na língua espanhola, a palavra álgebra, herdada dos árabes, que ocuparam a península, tinha primitivamente o significado de “juntar os ossos”.

Senão vejam como a usou Cervantes (D. Quixote, II parte, capítulo XV) sobre o algebrista que curou as costas do malfadado Sansón Carrasco.

Também nos dicionários de português, aparece este significado “cirúrgico” de álgebra.

Mas os árabes já há muito que utilizavam Al jabr para designar a arte de simplificar a resolução de problemas aritméticos, substituindo os valores numéricos por letras do alfabeto.

Foi o matemático persa Muammad ibn Mūsā al-Khwārizmī (780-850) que escreveu o primeiro tratado sobre o assunto em língua árabe, a que chamou Al-Kitab al-Jabr wa-l-Muqabala, ou seja o “Livro de Juntar e de Equalizar“.        Por isso trabalhamos em álgebra com equações.

 E já agora, como bónus, reparem que foi do nome deste senhor al-Khwārizmī, que nos chegou a palavra “algarismo”.

Aqui têm uma página desse tratado.

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Amigos de Peniche

Em 31 de Janeiro de 1580, faleceu em Almeirim, sem deixar descendência, o décimo – sétimo rei de Portugal, Cardeal D. Henrique.

Na crise de sucessão, que se seguiu, apresentavam-se como pretendentes três netos de D. Manuel I: Filipe II, rei de Espanha, D. Catarina de Bragança e D. António, Prior do Crato.

Filipe tinha a força das armas em seu favor –  um exército espanhol, comandado pelo Duque de Alba, invadiu o Alentejo, e Filipe foi proclamado rei de Portugal, com o título de Filipe I.

D. António, porém, não o reconheceu, e pediu o auxílio de Isabel Tudor, rainha de Inglaterra.   Em 16 de Maio de 1589, uma armada inglesa, constituída por 170 navios, fez desembarcar em Peniche cerca de 20 mil homens, comandados pelo general John Norris..

Os ingleses tomaram a praça de Peniche, enquanto a esquadra que os trouxera rumou a Cascais, sob o comando do almirante Francis Drake.

Os Antonistas, partidários do Prior do Crato, receberam com muitas esperanças a notícia do desembarque dos seus amigos ingleses, em Peniche.

O exército invasor, constituído principalmente por mercenários, a quem havia sido prometido que seriam recebidos de braços abertos, em Lisboa, e não teriam necessidade de lutar, avançaram para a capital, ao mesmo tempo que devastavam e roubavam as povoações por onde passavam – Atouguia, Lourinhã, Torres Vedras, Loures… até que chegaram a Lisboa e acamparam nos altos do Monte Olivete.

Pouco depois, com grande surpresa dos ingleses, os canhões do Castelo de S. Jorge, por ordem de D. Gabriel Niño, começaram a despejar metralha sobre eles.

O acampamento foi, por isso, mudado várias vezes para outros lugares, até que, depois de um breve recontro com os castelhanos, as tropas inglesas acabaram por se abrigar em Cascais, na mesma esquadra que os tinha trazido para Peniche.

Os partidários de D. António, Prior do Crato, viram assim esvair-se todas as esperanças que tinham depositado nos seus AMIGOS DE PENICHE.

Aqui está a explicação porque se aplica esta expressão a “amigos” traiçoeiros, falsos ou hipócritas.

Nem Peniche nem os seus naturais têm que ver com essa ideia de falsidade.

Pelo contrário, os meus pais tiveram em Peniche amigos muito sinceros e dedicados, na pessoa do senhor José Aguas Serra e seus familiares, cuja memória lembro com muita saudade.

Forretas e silhuetas

Ontem chamaram-me a atenção para o blogue Clube dos Pinguins , onde se fazia referência a um artigo meu.

Fui ver e encontrei que o simpático autor, desconhecido para mim, me chamava “o histórico Ignácio Steinhardt”.      Achei piada ao eufemismo, embora eu não seja ainda tão “histórico”, pois, quando nasci, já não se escrevia “Ignácio” com um “g”.

Esta deveria ser aliás a forma correcta, pois Ignácio vem de “ignis” = fogo.    Lembrem-se disso quando a “ignição” do carro não pegar, pois talvez seja preciso limpar as velas.

Mas já tenho uma longa história, sim senhor, e quanto mais longa mais pronunciado se torna este meu vício de contar histórias.

“História”, aliás, começou por ser na língua grega um derivado do verbo historein, com o significado de inquirir, examinar, relatar.

Só em fins do século XV aparece definida como “uma relação lógica de acontecimentos significantes, muitas vezes acompanhada por uma explicação das suas causas.”

Um século depois já era também “um tratado que relata sistematicamente certos fenómenos naturais.”  Por exemplo “a história natural.”

Mas já no século XII os franceses tinham pegado na história, sob a forma de estoire, estoire, como “relato dos acontecimentos da vida de uma pessoa” e, mais tarde, não só dos acontecimentos reais da humanidade, como para um relato de acontecimentos fictícios: “uma história” em contraste com “a história”.

A história que vos quero contar hoje começa com uma empregada, que tínhamos em casa, quando eu era garoto, e que costumava cantar uma modinha, que começava assim:

“Os do Porto são portugueses/  os de Lisboa, lisboetas / porque será que aos de Santa Comba/ todos lhes chamam forretas?

Todos nos chamam forretas/ com vontade de embirrar/ nós somos de Santa Comba / não temos jeito para dar!”

Mais uma daquelas expressões ingénuas, que o povo simples sempre encontrava para se referir ao primeiro-ministro Salazar, sem se sujeitar ao que sucedia a quem se atrevia a usar de formas mais “politicamente incorrectas”.

Salazar era pois “forreta” (amigo de meter o dinheiro no forro”).    Um eufemismo de “forreta” é dizer-se que era poupado.    Não gostava de fazer grandes despesas, nem na sua vida pessoal, quanto mais na economia do país, que, por isso, não progrediu nada durante os 48 anos da sua administração.

Dizem que também era assim  o Controlador Geral das Finanças em França, em meados do século XVIII, Étienne de Silhouette.

Também ele, no princípio da sua carreira como responsável pelas finanças do Estado, teve a inteira confiança da corte.

Mas isso só durou enquanto se não tornou aparente que ele era tão agarrado ao seu dinheiro pessoal, como o era com o do país.      Tão agarrado que, em França, quando se queria dizer que alguma coisa era “do mais baratinho”, dizia-se ” à la Silhouette”.

Quando uma pessoa dá nas vistas, pela sua maneira de viver ou de agir, ou pelo cargo que ocupa, contam-se sempre histórias, verdadeiras ou inventadas, a seu respeito.

 Sobre Étienne de Silhouette contava-se que, para não gastar dinheiro em quadros para decorar as paredes, desenhava ele próprio umas figuras, só com os contornos,sem nada por dentro, e as pendurava nas paredes.   Silhouettes! 

Também as modas e os estilos têm as suas histórias.   Não só as palavras.

Com o tempo, desenhar “Silhouettes” (silhuetas, em português) tornou-se também uma forma de arte.

 E agora, que o calor vem aí, e dentro em pouco já estaremos nas praias (aqui no meu sítio elas já estão cheias nalguns dias!), recomendo às minhas gentis leitoras que se não preocupem demasiado com as silhuetas, pois isso pode ser prejudicial para a saúde.