Arquivo de Novembro, 2006

Eterno repouso

“Koiman”, em grego, significa “por a dormir”. Daí “koimeterion”, dormitório. 

Para o latim passou com a forma de “coemeterium”. E dai, o dormitório deu eufemisticamente “cemitério”.  

História curtinha e fácil, não é?  Depois temos necrópole, do grego nekros, corpo. E sepulcrário, lugar dos sepulcros, do latim sepelire, enterrar.

Anúncios

“Desculpe, mas não sou de cá…”

Já vimos com que facilidade se geram lendas à volta da origem de palavras, cuja verdadeira história não se conhece ou não está comprovada.  Uma dessas palavras, cuja origem verdadeira se não conhece, é o nome da península do Yucatão, no México.  Há muitas versões para a origem do nome, que provavelmente seria afinal igual ou parecido ao que os indígenas davam à sua terra.

A lenda é que, quando os espanhóis lá chegaram, perguntaram aos nativos como se chamava aquela terra. Os nativos, que não os compreendiam, responderam simplesmente: “O que é que você quer?” o que na língua Maya seria: “Ma c’ubah than” .Assim afirma G.Baudot, no seu livro sobre o México, editado pela UNESCO. E daí Yucatan.  Outra história semelhante é a dos cangurus.

Os primeiros a mencionar o “kangooroo”, em inglês, foram o célebre capitão James Cook (então tenente) e o botânico Joseph Banks.

Ambos mencionaram, nos seus diários, o animal até então desconhecido, acrescentando que os nativos lhe chamavam “Kangooroo”. 

Muita boa gente tem levantado dúvidas sobre ser esse de facto o nome indígena do animal.

Até porque, na língua deles, “Kan Ghu Ru” significa simplesmente “não compreendo”.  Teriam respondido assim quando os estrangeiros lhes perguntaram o nome do animal.

 A verdade? Há quem diga que os aborígenes já chamavam “Gan Ghu Ru” ao canguru cinzento.  Uma expressão que entrou já há muito no vocabulário internacional é o “OK”.

O meu amigo Acácio Inácio insistia em pronunciar “Oh, capa!”.    E contava-se, no após guerra (1939 – 1945) que o ministro dos negócios estrangeiros russo, cansado de ouvir os seus colegas responderem “O key” em todas as votações na ONU, e pretendendo usualmente votar contra, começou a usar “no key”.. 

Há um ror de explicações para a origem desta suposta abreviatura. Uma que valerá tanto como as outras, é que, nos relatórios de combate, durante a segunda guerra mundial, usavam mencionar o número de soldados caídos em batalha, com a abreviatura nK, significando n killed. Quando o relatório dizia 0K, zero mortos, estava tudo bem. E já agora, mais uma que parece ter sido aceite por muitos etimologistas : snob.

Como se sabe, havia na Inglaterra escolas destinadas exclusivamente aos filhos dos nobres. Nos livros de registo dessas escolas havia uma coluna para se escrever o título de nobreza da família do aluno.Surgiu, porém, a necessidade de admitir nesses colégios filhos de gente rica, mesmo não sendo nobres.  Então, na coluna do título de nobreza, escreviam a abreviatura: “s.nob”, significando em latim “sine nobilitate”, sem título de nobreza.

Há uma outra explicação que, neste caso, parece ser ela a lenda.    No dicionário de inglês da Oxford figura a palavra “Snab”,  de origem escocesa, retirada de um documento de 1781, com o significado de sapateiro.   Os estudantes da Universidade de Cambridge usavam o termo “snob”,  nessa acepção, para designar um simplório, uma pessoa que não tinha estudado na universidade, um sapateiro.  E assim surgiu também o termo “nob”, para designar uma pessoa com educação superior.

Na inauguração da biblioteca pública de Manchester, em 1849, realizaram-se duas cerimónias: uma para a gente do povo, para os trabalhadores, e outra só para os “nobs”.  

De onde se pode concluir que os ingleses não são snobs (ou esnobes, como há quem escreva!), não são, não senhor… 

. 

O plural de João

Esta é oferecida, com a devida vénia, ao assíduo leitor João Moreira. 

Dissemos que os nomes das ruas também têm história?   Pois também os nomes próprios a têm e merece ser mencionada. 

João é um nome universalmente usado e conhecido, com variantes nas diversas línguas e diversos países. Ele é João, Juan, Ivan, Janos, Jean, Ioannes, Johannes, Ioannis, John …. e, como dizia o meu “avô” Jacinto: “Ainda a procissão vai no adro”. 

Todos sabemos que chegou aos países cristãos por via de S. João Baptista e de S. João Evangelista. 

O que me levou a escrever hoje aqui sobre o nome João foi o lembrar-me de uma interessante série de revistas, em fascículos coleccionáveis, que apareceu nos meus tempos do liceu.   O responsável era um professor, cujo nome real eu já soube na altura, mas que assinava com o pseudónimo de Frei… qualquer coisa, não me lembro. 

Destinava-se essencialmente a ensinar línguas, de uma forma agradável e humorística, cada versão com seu nome ªDominus Tecum”, “Ho capito”, etc. e permitia aos leitores fazer perguntas. 

Um dia surgiu a pergunta, a respeito do plural das palavras terminadas em “ão” : capitão -capitães; irmão – irmãos, peão – peões. Qual é o plural de João? 

Sabem responder? Aparentemente, o tal Frei Qualquer Coisa também não tinha a certeza. E então saiu-se com uma resposta surpreendente: “O plural de João é Aníbais!” 

E não deixou os leitores sem uma explicação lógica. 

João – escreveu ele – é, na sua origem, um nome hebraico. Nessa língua é derivado de duas palavras: “Jeho (vah) hanan” . Jeho é uma forma curta do nome de Deus, para não se pronunciar o nome inefável.. Hanan, “é misericordioso”.  

E como é que se dizia o mesmo em fenício? O nome dos deuses fenícios era “Baal” , e “Hani” , da mesma raiz que “Hanan”– “misericordioso”.  Daí, na ordem inversa, o nome próprio púnico, que nos aparece em Cartago: “Hanibaal”,  “Misericordioso é o Baal”, que deu em português Aníbal. 

Ora, escreveu o douto professor, Joãos, Joães, Joões, daria lugar a polémica e nunca mais sairíamos daqui. Com Aníbais não há dúvidas nem discussões, e como significa exactamente o mesmo, temos o problema resolvido. 

De acordo, amigo Aníbal Moreira, perdão… João Moreira? 

É uma brincadeira, mas tem a sua graça e é uma maneira de explicar a origem do nome. 

 

 

 

Poço das Patas

Pergunta-me o amigo João Moreira, a propósito de uma entrada da minha lavra no blog Rua da Judiaria, onde ficava a Rua do Poço das Patas, em cujo n.º 37 funcionou a primeira sinagoga da moderna Comunidade Israelita do Porto.

Pergunta também se a rua tem agora outro nome e se a sinagoga ainda existe.

Estas perguntas apanharam-me um pouco desprevenido, porque conheço mal o Porto.

E, vamos lá, também está um pouco fora do âmbito da “História das Palavras”, pelo que o João Moreira me dirigiu as perguntas directamente, deixando-me, como é devido, um endereço de email para a resposta.

Mas, como os nomes das ruas também têm história, vamos a ver se consigo desenvencilhar-me desta, aqui mesmo. 

Eu não sei se a Rua do Poço das Patas ainda existe.

Mas existe sim, segundo vejo no mapa da cidade, uma Travessa do Poço das Patas, entre a Rua de Santo Ildefonso e a Rua de Coelho Neto.

Encontro duas referências à Rua do Poço das Patas: uma dizendo que ficava à estrada de Valongo, e outra que ficava onde principiava a Via Sacra, que terminava no Bonfim.

Os amigos portuenses dirão de sua justiça, se isto faz sentido e se a área é a mesma. 

O sítio onde é hoje a Travessa do Poço das Patas, já se chamou “Campo do Poço das Patas”, porque era um terreno alagadiço, que formava grandes poças, onde os patos (e as patas) costumavam pousar. Na Idade Média – com vossa licença – chamou-se Campo de Mijavelhas.

Depois de se chamar Campo do Poço das Patas, realizava-se lá um importante mercado de gado bovino, por alturas de 1833, e então era conhecido por “Campo da Feira do Gado”.

Acabou-se a feira, e ficou conhecido por “Campo Grande”. E em 1860 passou a chamar-se “Campo 24 de Agosto”, ficando entre as ruas de Santos Pousada, Fernandes Tomás, Bonfim e Avenida de Fernão de Magalhães.Creio que ainda hoje se chama assim. A verificar in loco. 

Quanto à sinagoga, ela não estava situada em edifício próprio, mas sim numa casa alugada, pelo que não existe hoje, pelo menos como tal. 

Saloios e alfacinhas

Muita gente já fez a pergunta a quem tem melhores condições para estar bem informado. Ninguém ainda foi capaz de dar uma resposta abalizada para o facto de ser chamar “alfacinha” ao indivíduo natural de Lisboa, como este ignorante bloguista. 

O certo será que “alfacinha” é um diminutivo de “alface” (Lactuca sativa) planta hortense, indispensável nas saladas.    E só em português se chama assim.Em árabe (e também em hebraico) chama-se Hassa.  Precedida do artigo, em árabe, é “Al-Hassa”.  E como já vimos em entradas anteriores, o H gutural semítico deu F em português, temos “alface”. Por isso, os especialistas são tentados a pensar, e provavelmente com razão, que foi a invasão dos mouros que trouxe para Portugal a alface. 

Haveria muitas alfaces nas hortas das colinas de Lisboa? Teria a alface servido de alimento principal de emergência durante algum dos cercos a que os habitantes da cidade estiveram submetidos?   Será por algum desses motivos que ficámos alcunhados de alfacinhas? Comedores de alface?  É provável. É notável a reminiscência árabe nos arredores de Lisboa e de Sintra, duas praças-fortes dos mouros, que D. Afonso Henriques conquistou. 

Ao que parece, nesses arredores instalou-se uma tribo proveniente do Sahara, que em árabe se chamavam os saharauii.  Daí dizem que nos veio o termo “saloio”.  A mudança do R para L é comum, sahalauii, mas, mesmo assim, é uma etimologia ainda difícil de compreender, para mim pelo menos.  Mas se os entendidos dizem que os saloios vieram do Sahara, talvez também tenham vindo de lá os famosos “queijinhos saloios”, e isso já é uma boa notícia… E por falarmos do espólio árabe na língua portuguesa, tentemos reclamar mais um termo pejorativo. Muito se tem dito e escrito sobre os significados negativos enraizados na língua portuguesa de palavras como “judeu”, “judiaria”, “rabino”, “safardana”, etc.

Das palavras, que poderão ofender os árabes, pouco se diz.

Lembro isto, não só por causa do “saloio”, com seus sentidos positivo e negativo.  “Árabe”, como substantivo designativo do indivíduo, diz-se em árabe “al-arab”. Em português dizia-se “esse é um al-arave”, de onde “alarve”.

E da mesma maneira que “judeu”, também “alarve” é injusto e ofensivo, quando usados no sentido pejorativo.  

Terra de coelhos

Relendo a minha entrada anterior, verifico que deixei no ar uma referência à Espanha, que exige um esclarecimento urgente. 

Espanha – Ibéria – Sefarad  

Comecemos por verificar que o toponímico hebraico Sefarad, só tardiamente foi atribuído à Andaluzia árabe, e, posteriormente, a toda a Península Ibérica, incluindo Espanha e Portugal. 

A origem da palavra é bíblica, e encontra-se apenas no único capítulo do livro de Obadiah: “E os exilados de Jerusalém que estão em Sefarad”.   Pensa-se que geograficamente esse lugar seria Sardes, na Ásia Menor. 

Assim como Ashkenaz, com o significado de Alemanha, nos textos antigos hebraicos, era na Bíblia um simples nome próprio. 

Ambos os termos foram escolhidos pelos autores antigos para designar áreas geográficas diferentes, que deram também origem à designação de judeus sefarditas e ashkenazitas.

Como se deduz facilmente, também “safardana”  tem a mesma origem.

A Espanha aparece no Talmud, mas designada como Ispâmia. Curiosamente numa expressão, “Sonhos em Ispâmia”, que nos lembra, pelo seu significado, a expressão francesa: “Bàtir dês chateaux en Espagne”, cuja origem é provavelmente muito diferente. 

E Ispàmia tem sido explicada – atenção à aconselhada pitada de sal – outra vez ao fenício, palavra composta de “I”, que hoje significa em hebraico “ilha” , mas que originalmente significa “terra, continente” e “Shapham”, significando “coelho”. 

Terá sido a abundância de coelhos na Península Ibérica que mais impressionou os precursores fenícios, ao ponto de lhe darem esse nome? 

Se encontrarem algum, perguntem-lhe e depois não se esqueçam de me informar.   Obrigado.

As avelãs do Prudêncio

“Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele”  – dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate.

Eu meti-me nisto de me interessar pelo percurso que as palavras fazem na história, e agora os meus leitores pensam que eu sei responder a todas as perguntas sobre a matéria. Longe disso.

Se eu fosse Mestre, aplicar-se-me-ia a máxima talmúdica que diz que “as perguntas dos discípulos aguçam a sabedoria dos mestres”.

Mestre não sou, mas se me ajudam a aprender alguma coisa, só tenho que corresponder com a minha gratidão.

O amigo Konrad – Ralf Alexander Konrad Paul Wokan, de sua graça, como aprendi agora – pede-me o meu parecer sobre: ”Lusitania” vem do hebraico e diz “Terra das Amendoeiras” ?como ele encontrou citado no site do meu amigo Hélio Cordeiro.

Há que ter em conta que o nome de Lusitanos, atribuído aos portugueses, é relativamente recente, do século XV.  Geograficamente o termo fez um percurso muito grande, para além do que tenha tido na sua origem.

Estrabão coloca os “lusones” junto das fontes do Tejo: “Lusones ad fontes Tagi pertingentes” (Livro 3). 

Pois, amigo Konrad, (Conrado ou Prudêncio, se tivesse que aportuguesar o seu nome), eu li essa, pela primeira vez, nos meus tempos de menino e moço, na «História de Portugal”, de Alexandre Herculano.

Ele não diz que é hebraico, mas sim “de origem fenícia”. “Luz” significa efectivamente “amendoeira” ou “avelaneira” nas línguas semíticas, e “tan” é uma terminação púnica, comum na Península, que talvez esteja relacionada com o “stan”, significando “terra de”, encontrado na composição de nomes de alguns países, no nosso tempo.

Herculano não se assume a paternidade dessa teoria, pois diz que foi busca-la a Samuel Bochard (1599-1667), um pastor protestante, de Rouen, muitíssimo erudito, com profundos conhecimentos de hebraico, siríaco, caldaico, árabe, e julgo que também de etíope, tudo línguas semíticas. Bochard foi acusado pelos seus críticos de ver origens fenícias em tudo.

Para nós, que não somos sábios, temos que ler essas especulações etimológicas com uma boa pitada de sal. Não que sejam impossíveis, mas não me parece que alguma vez tenham sido provadas.

Bochard também disse que Tagus (o nosso Tejo) vem do fenício, onde teria a forma Dagus (piscoso), e o rio Ana (Wadi Ana, ou Guadiana, dos árabes), seria “ovelha”, e Lisboa – Alisubbo (Baía amena). Tudo isso é possível, muito possível, só faltam as provas. 

A evolução posterior do nome de Lisboa é mais fácil de seguir. Não sabemos, ao certo, de quem vem o nome Ulissipona (Ulisses? Elisha?), mas os árabes, quando o receberam atribuíram ao “Ul”, de Ulissipona, o valor do artigo definido “Al”. Como nós dizemos “o Porto”, e os ingleses fizeram disso “Oporto”. Portanto “Al-Lissipona”. E, como os árabes têm dificuldade em pronunciar o fonema “P”, o nome da cidade Ulissipona soava “Al-Lissibona”. O suposto artigo caiu, como não podia deixar de ser, e o “n” intervocálico também, e pronto ficou a “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa… dos alfacinhas. E ainda havemos de conversar sobre estes. 

E também Espanha teria vindo do fenício I-Span, “terra de coelhos”. Um tema que “dá pano para mangas”, como dizia o me “avô” Jacinto. 

Uma curiosidade pseudo-etimológica mais sobre “Luso”: Voltaire, o célebre Voltaire, escreveu um poema épico em honra de Henrique IV, de França, em versos alexandrinos, numa imitação de Vergílio. E chamou-lhe “Henriade”, de Henri, o nome do rei..

Precedeu a obra de um ensaio sobre a poesia épica.   E aproveitou para desacreditar o nosso Luís de Camões, um poeta que teve facilidade em descrever a viagem de Vasco da Gama à Índia, simplesmente porque acompanhou o almirante português nessa viagem!  E tão vaidoso era, que em vez de dar ao seu poema o nome do rei, ou do almirante, deu-lhe o seu próprio nome “Luisiadas”!

Na edição do “Henriade” que possuo, Voltaire retrata-se da primeira afirmação. Foi erro dele, Camões não acompanhou Vasco da Gama à Índia. Mas nada diz sobre a segunda bojarda. .