Arquivo de Janeiro, 2007

O bom humor

HUMOR significa em latim “humidade”. Portanto também esta palavra portuguesa deriva do latim humor.

Daí até ao gosto pelas piadas, é o percurso histórico da palavra, que se integra no espírito deste blog.

Na Idade Média acreditava-se que tudo quanto existe no nosso planeta derivava de diferentes combinações de quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Estes elementos, por sua vez, compunham-se de combinações de quente, frio, húmido e seco.

O temperamento das pessoas, por sua vez, era também determinado pela combinação desses elementos, em proporções harmónicas ou desarmónicas: a cólera era uma combinação de quente e seco, o sangue, de quente e húmido; a melancolia, de seco e frio; e a fleuma, de frio e húmido.

Por extensão, essas combinações passaram a ser chamadas os humores.   E a harmonia entre os humores era o seu temperamento – humores bem ou mal temperados.

Evidentemente que uma pessoa de temperamento colérico, quente e seco, tinha mau humor.   Assim como o melancólico, frio e seco.   Já os temperamentos húmidos, sanguíneo e fleumático, tinham bom humor.

O termo humor manteve em português todos esses significados, de humidade, líquidos do corpo, etc.

O sexto significado consignado no meu dicionário é “Capacidade de compreender, apreciar ou expressar coisas cómicas, engraçadas ou divertidas”.

Dizem os médicos que uma boa risada é o melhor remédio para todas as doenças, e, mais do que isso, a melhor garantia para uma vida sã. Portanto, desejo a todos os meus amigos que desfrutem sempre de bom humor e bom temperamento.

Contar uma história com humor, ou “piar” a mesma história, como os passarinhos – tem piada, não tem?

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Abram alas ao retrónimo! e à aditância!

Hoje estou excitado, porque aprendi duas palavras novas.Não serão propriamente novas, mas para mim são, que só hoje as li pela primeira vez. Na verdade, quando tropecei na primeira – retrónimo – hesitei um momento, porque, segundo aprendi, já fez 26 anos. E perguntei a mim mesmo que tinha isso que ver com o tema deste blog: “História das Palavras”? 

Considerei, porém, que o nascimento de um neologismo também faz parte da sua história, e embora este já esteja em idade de constituir família, talvez alguns dos meus leitores ainda não o conheçam. Portanto, acho que faz sentido, registá-lo aqui. Mas, quando ia abrir o blog, para fazer o registo de mais esta história, o meu email atirou-me à cara com outro termo, que eu não conhecia.  Este é brasileiro, mas, como sabem, parafraseando o que Churchill disse da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, também Portugal e o Brasil são duas nações irmãs, separadas apenas por uma língua comum. 

Começarei, pois, por esta segunda palavra, cuja explicação me parece mais fácil: aditância. Sabem o que é? Nos dicionários não encontrei, mas pelo contexto foi fácil: aditância é o serviço de adidos diplomáticos. Há a aditância militar, aditância de imprensa, cultural, etc. Retrónimo exige mais conversa. 

Eu sou do tempo em que uma guitarra era uma guitarra. Não precisava de adjectivos para se compreender que nos estávamos a referir a um instrumento de cordas, indispensável para acompanhar o fado, mas senhor da sua nobreza própria. Para não ficar a dever mais uma história, deixo aqui registado que a guitarra e a cítara são etimológica e historicamente irmãs, ambas filhas da lira. E os padrinhos foram os gregos, com kithara, que em latim abrandou para cithara.Depois apareceu a guitarra eléctrica; e então era necessário apor-lhe o adjectivo “eléctrica”, para a distinguir da sua congénere acústica.  Hoje em dia é diferente: nas gerações de hoje, quem diz guitarra está logo a pensar na guitarra eléctrica, pelo que o adjectivo é absolutamente dispensável.  Mas que fazer quando nos queremos referir ao antigo instrumento de madeira e cordas? Aí sim, temos que lhe apor o adjectivo e dizer “guitarra acústica”, e não podemos dizer só guitarra. 

Ora aí está, “guitarra acústica” é um retrónimo, que vem designar um objecto que já existia, pela mesma palavra já existente, mas que agora, só por si, designa um objecto diferente. O primeiro a usar este neologismo foi em 1980, o jornalista Frank
Mankiewicz, então presidente da National Public Radio,
 

Querem mais exemplos de retrónimos? Peguem no correio e no telefone. Para já não falar na diligência e na mala-posta, quando a Candidinha  ia botar cartas ao correio, toda a gente percebia o que ela ia fazer. Hoje não! Temos o correio electrónico, o serviço de mensagens directas, o SMS, o correio oral, todos eles substituídos pelos equivalentes em inglês. Agora, se nos quisermos referir àquele serviço que tira as cartas do antigo “marco do correio”, e depois as vai entregar a casa ou ao apartado do destinatário, temos que ser explícitos “mandei os documentos por correio-lesma” (snail mail). “Mandei” por mail é electrónico, evidentemente. Já não sou do tempo do telefone de manivela, embora tenha visto alguns a funcionar.Mas ainda me lembro de se ligar para os arredores de Lisboa, através da telefonista, que amavelmente nos respondia “Troncas” (termo que a APT-Anglo Portuguese Telephone nos trouxe provavelmente do inglês “trunk call”).E logo nós lhe pedíamos: “Dê-me por favor Queluz 2256”. E a resposta dela podia ser, por exemplo: “É para o senhor Hermengildo? Olhe que ele não está em casa, porque lhe levaram ontem a mulher para o hospital.”  E a telefonista também tinha o direito e a obrigação de intervir numa chamada urbana, para nos avisar: “Por favor pousem os auscultadores, porque tem uma chamada de troncas à espera,”. 

Pois isso é história que já lá vai. Quais auscultadores, qual quê? Veio o telefone de marcador de disco, e esse é que foi o “telefone” durante muitos anos e mais nada. Agora, se eu disser telefone, toda a gente tem a certeza de que estou a falar num aparelho com muitos botões, que já não funciona com pulsos, mas sim com tons, e sem hesitar me dizem para carregar no asterisco e naquele sinal de número #, que eu não sei como se chama na gíria do dia-a-dia em Portugal.E mais, “telefone”, só “telefone” é o telemóvel ou telefone celular. Para que me compreendam, eu tenho de ser explícito: “telefone fixo” ou se for ainda menos actualizado, tenho que explicar que não tenho asterisco, pois o meu é um “telefone de disco”. 

A palavra “telefone” deixou de ter o significado que tinha, para ser agora um “retrónimo”, palavra que voltou para trás, para assumir novo significado. E se eu não estiver em casa para atender, entra em acção: “Aqui serviço de voice mail de… por favor deixe a sua mensagem”. 

Ao que eu responderei: “Diga-me isso na língua do Bocage, se não atiro-lhe com um retrónimo.” 

Sertão

Um leitor do Nordeste Brasileiro, André Feitosa, teve a gentileza de comentar uma das minhas entradas neste despretensioso blog, e ao mesmo tempo pede-me comentários ao termo “sertão”.

Pois, como em muitos outros casos semelhantes, devo confessar: não sei! Por isso ficaremos ambos gratos, o André e eu, se algum leitor amável e sabedor nos quiser esclarecer. Cá ficamos aguardando.

Geralmente, quando não sei uma coisa, sei geralmente onde encontrar resposta. Neste caso, não me valeu de muito. Sertão já aparece na literatura portuguesa no século XIV, portanto não foi termo criado depois da descoberta do Brasil.

Hoje, o sertão brasileiro, salvo erro, é uma terra de florestas. Na primitiva, era simplesmente o termo para designar terra do interior, mas sobretudo terra árida e seca.

Em relação a isso encontrei uma única explicação, que não me parece muito convincente, mas pelo sim, pelo não, aqui fica: No princípio, diziam “é uma terra de desertão”, ou seja um grande deserto, ou muito deserta. A repetição da sílaba “de” fez com que uma caísse e ficasse “terra de sertão”.

Boicotar as vitaminas?

Fez em Novembro passado 40 anos que faleceu, em Albany, nos Estados Unidos, o professor Casimir Funk.Funk nasceu em 1884, em Varsóvia, Polónia, filho de um médico dermatologista. Doutorou-se em bioquímica, na Universidade de Berna na Suíça, trabalhou no Instituto Pasteur, em Paris, no Hospital Municipal de Wiesbaden, na Alemanha, na Universidade de Berlim, e no Instituto Listre, de Londres.Em 1915, emigrou para os Estados Unidos, onde faleceu, embora em 1923 tenha regressado a Varsóvia, para dirigir um instituto profissional, e depois tenha vivido na Europa, até 1939.  

Por volta de 1912, no decorrer dos seus trabalhos de investigação na Alemanha, Funk descobriu que certos factores alimentares eram indispensáveis à vida humana, e a sua falta provocava determinadas doenças, como o beribéri, o escorbuto, etc. Pensou, na altura, que essas substâncias eram aminoácidos.  Como verificou que eram indispensáveis para a vida, chamou-lhes vita+aminas, ou, numa palavra só vitaminas.  Mais tarde, quando se chegou à conclusão que não eram aminoácidos, encurtaram o nome, em algumas línguas, para “vitamin”.  Em português, mais ao nosso jeito, ficou “vitamina”.Há as vitaminas naturais, contidas nos alimentos, e há as sintéticas, que vamos comprar à farmácia. 

Vamos comprar vitaminas à farmácia, mas não todos. Porque o professor Casimir Funk era um judeu polaco. 

Portanto, aquelas pessoas que entendem que se deve boicotar os produtos dos judeus, estão avisadas por certo que não devem ingerem vitaminas!

Bons figos e maus fígados

O género ficus, na botânica, designa cerca de mil tipos de árvores e arbustos e plantas, com diferentes aspectos físicos e utilidades.O que nós melhor conhecemos será provavelmente o saboroso fruto da figueira – o “figo”.Outros termos se introduziram nas línguas latinas, com base no nome deste fruto. Por exemplo, a “figa”, que por sua vez também se aplica em diversas acepções. 

Esta de que vos quero falar hoje, talvez poucos tenham reparado nela. 

No antigo Egipto, e depois na Grécia, era costume alimentar os gansos com figos secos. Nalgumas épocas e civilizações, utilizavam-se os figos para alimentar outros animais, bem diferentes, como por exemplo, os porcos. 

Aos gansos, já no século IV antes de Cristo, reparem bem, há 2400 anos havia o costume de empanturrar aquelas aves tão elegantes, com exageradas quantidades de figos secos. 

E para quê? Para lhes aumentar exageradamente as vísceras glandulares que produzem o fel.  Têm os pobres bichos a pouca sorte do Homem ter descoberto, cedo na história, que essa glândula tinha uma contextura amanteigada, que depois de cozinhada, produz uma pasta (um paté) de sabor muito delicado. 

Hoje em dia há em muitos países, grupos de protecção aos animais, que chamam a atenção do público e das autoridades, para a crueldade dos métodos de alimentação usados pelos criadores dos gansos. Realmente, é horrível assistir-se ao espectáculo: introduzem uma espécie de funil pelo bico da ave, e empurram a comida à força, enquanto ela aguenta. 

Aqui em Israel já há uma lei que proíbe a alimentação forçada dos animais, mas os produtores exercem forte pressão, alegando os prejuízos económicos (para os seus negócios, claro) da interrupção da exportação de “foie gras”, nome recolhido da culinária francesa, número um na excelência do produto. 

“Foie gras” em francês; e em português vernáculo, para quem lhe repugna utilizar estrangeirismos, simplesmente fígado gordo. 

Os gansos foram alimentados com figos, por isso ficaram com o fígado gordo. Estão a ver a etimologia? Fígado, porque foi alimentado a figos. 

Em grego, a glândula chamava-se hepar, e daí nos veio no vocabulário médico, a hepatite. 

Mas os espanhóis chamam ao fruto higo – e ao órgão higado.Os italianos fico e fegato.E os portugueses figo e fígado. 

Há quem tenha bons fígados e outros que têm maus fígados. É verdade que, em Portugal, os fígados da vaca e do porco facilmente se transformam em boas iscas. Mas isso é outra conversa. Há iscas para caçar o peixe e há iscas de peixe, de bacalhau, de beringela, de qualquer produto gastronómico, que se corte às iscas.