Obscenidade ou candidez

A minha história de hoje não é uma história.

É uma especulação linguística pessoal, e um desafio aos possíveis leitores – se é que os tenho – para que me ajudem com comentários e contribuições sobre o tema que me intriga.

A minha curiosidade foi provocada por um texto que o meu amigo professor Paulo Valadares, de Campinas, publicou ontem no Facebook. O texto é bonito, e podem lê-lo em https://www.facebook.com/paulo.valadares.9?hc_ref=ARSRJACTQVHTnYDo4l7j5nf1rdnfionW6c71peal18J4xhfjri4HwlYuazq0bmYAaI8&fref=nf.

A ideia surgiu-me de duas palavras recolhidas nesse texto, que assumo como sinónimas:

– “o fulano é um psico”  (psíquico diríamos nós em português, mas o Paulo é brasileiro)

– “resgatar uns caras presos”

 “Fulano” é uma palavra que herdámos do árabe fulan, e que significa “uma pessoa qualquer”, alguém cujo nome desconhecemos ou não queremos mencionar. Existe também em aramaico (plan) e em hebraico (ploni) e na Bíblia, na expressão “Ploni Almoni” (um fulano anónimo).

“Cara” é uma palavra da gíria brasileira, que não existe em Portugal: Qualquer pessoa, não determinada: “conheci um cara ontem”.

São, portanto sinónimos.

 Ora eu conheço uma palavra de uso semelhante, em Hakitia, dialeto judeu-espanhol de Marrocos, muito em uso pelos judeus marroquinos, que, tendo fugido à conversão forçada em 1496, regressaram a Portugal no século XIX. Nas gerações atuais esse dialeto está a cair em desuso, mas ainda há quem empregue alguns dos seus termos ao falar português. Essa palavra é “Sakhen” (que em Espanha, onde o J tem o valor do H gutural do árabe e do hebraico, se escreve Sajen)

Sakhen siginificava precisamente isso: fulano.

“Conheci um sakhen”, “o sakhen trazia uma gravata encarnada”, “disse-me o sakhen”, ou a sakhena, no feminino. Dir-me-ão aqueles que ainda se lembram de como se falava o Hakitia em Portugal, que sakhen e sakhena se empregavam mais para designar não judeus. Também é verdade, como a palavra hebraica “goi”, que significa “povo” e se usa geralmente para designar povos (ou indivíduos) não judeus

Portanto, sakhen é o mesmo que fulano, em português, ou cara na gíria brasileira.

Etimologia? Não é muito clara, mas a versão mais aceite é que seria a palavra hebraica chakhen, que significa vizinho. Talvez esteja certo. Este é um dos nossos, judeu, e aquele é um vizinho, não judeu.

Que foi que me veio à ideia, quando li as duas expressões no texto supracitado? Que em português também temos uma palavra muito parecida e com o mesmo significado. Exemplificando: lembro-me de ter assistido em pequeno, em Lisboa, no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, no prédio ao lado daquele onde nós morávamos e onde eu ia por vezes tratar de assuntos para o meu avô adotivo Jacinto Moreno, que era pedreiro e morava em Camarate, desabafar assim: “Anda um sacana a trabalhar de sol a sol, e não ganha mais do que uns patacos…” E logo uma funcionária o mandou calar, porque sacana era supostamente uma palavra obscena. E o homem defendeu-se logo, dizendo “Sacana é um homem novo, que tem isso de mal”. O que o pedreiro queria dizer era isso mesmo: “Anda um fulano a trabalhar nas obras…”

Sacana tem hoje, de facto, por extensão, um uso pejorativo e talvez obsceno. Procurei averiguar a sua origem e como veio para o vocabulário português. Ninguém sabe ao certo, mas a versão mais corrente, é que foi trazida pelos exploradores portugueses do Japão, onde significa “peixe”. Os portugueses assistam à descarga do peixe e ouviam os pescadores usarem essa palavra.

Salvo melhor opinião, não estou a ver a relação entre o peixe dos pescadores japoneses e o uso atual da palavra sacana na gíria portuguesa.

Estou a lembrar-me que um dia, em Ramat Gan, assisti, da tribuna da imprensa, a um jogo de futebol entre Portugal e Israel. No intervalo, queixou-se-me um colega português: “Aquele locutor israelita, que está a fazer o relato, é um malcriado. De cada vez que um dos nossos avança para rede deles, o homem grita ao microfone sacana, sacana!” Não pude deixar de me rir e expliquei ao colega que, em hebraico, sacaná significa “perigo.” O que o colega israelita estava a relatar eram as situações de perigo para a equipa local.

A palavra “sacana”, com o seu significado e uso original, só é atestada em português a partir do século XIX.  Os dicionários de português de setecentos não lhe fazem referência. Foi precisamente no princípio do século XIX que chegaram os retornados de Marrocos Espanhol, que falavam hakitia entre si e se estabeleceram em Faro, e depois em Lisboa.

Não terá sido o caso que ouvindo dizer: “Está ali um sakhen para falar contigo” a palavra tenha “pegado” e evoluído para “Está ali um sacana para falar contigo?”

Ou seja “um fulano para falar contigo”

Senão, será mesmo sacana, o peixe dos pescadores japoneses?

Aguardo, e agradeço desde já, as vossas ideias e a vossa ajuda.

 

 

Anúncios

0 Responses to “Obscenidade ou candidez”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s





%d bloggers like this: