Arquivo de Setembro, 2006

Chá

Uma coisinha mais leve para hoje, se não se importam: uma conversa para a hora do chá
Linguisticamente, em relação a esta bebida, o mundo divide-se aparentemente em duas partes: as línguas em que o nome da planta tem a forma chá, ou semelhante, e aqueles em que tem a forma té, tea, ou semelhantes. E há as variantes mistas: “Tchai”, “Tai”; em russo chaleira diz-se “Tchainik”.
O nome científico é Thea sinensis ou Camellia theifera.
Entre as primeiras conheço apenas o português, o japonês, o russo e o árabe, mas pode ser que haja mais, que não sejam do meu conhecimento.
A verdade é que ambas as formas têm a mesma origem, na língua chinesa, o mesmo símbolo, cuja pronúncia varia apenas de dialecto para dialecto.
As muitas histórias e lendas sobre a “invenção do chá” dariam para escrever um livro,
A mais corrente – e também verosímil – é que o imperador chinês Chen Nung (cerca de 2740 a.C.) ordenou à população que, por uma questão de higiene, fervesse sempre a água, antes de a beber.
Quando um dia o próprio imperador cumpria essa determinação, debaixo de um arbusto selvagem, a brisa arrastou algumas folhas do mesmo, que foram cair dentro da água fervente. O imperador provou a água, gostou, e assim nasceu o Culto do Chá,
Foram os japoneses que criaram a encantadora e mística cerimónia da preparação do chá, a que tive o gosto de assistir, e provar, sem nunca ter ido ao império do Sol Nascente.
Foi na Galileia, em casa de uma senhora japonesa, casada com um israelita. Para que ela não tivesse demasiadas saudades da sua terra natal, o marido plantou um jardim em redor da casa, na mais pura tradição japonesa, com plantas aquáticas, nos carreiros de acesso. Também dentro da casa predomina o ambiente japonês, com a cerimónia diária do chá, de que participam os convidados. Além disso a senhora dedica-se a costurar por encomenda riquíssimos kimonos.

Tudo indica que foram os portugueses que trouxeram para a Europa a planta do chá e o seu uso, pois já na segunda metade do século XVI se faz referência ao chá em documentos escritos na nossa língua.
O “five o’clock tea” é hoje um símbolo indispensável da cultura social britânica.
E foi uma portuguesa, D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV e de Dona Luísa de Gusmão, que introduziu o chá na Inglaterra, quando casou com Carlos II, soberano daquele país.
E não só o chá, como o uso do garfo à mesa, a marmelada, os vinhos do Porto e da Madeira… e as tangerinas, outro fruto da China. Mas das tangerinas e das laranjas falarei noutra ocasião.
Lembro-me de ter lido uma vez, há muitos anos, quando era ainda mais jovem do que hoje, que Dona Catarina, quando chegou à corte britânica, entregou aos criados um pacotinho de chá, que trouxera consigo e pediu que lhe preparassem um chá. Eles nunca tinham visto tal coisa e perguntaram como se preparava aquilo. Dona Catarina explicou que era muito simples: “Ferve-se água e deita-se a água a ferver em cima das folhas.”
Daí a bocado trouxeram-lhe um prato com as folhas molhadas e quentes. A água tinham-na deitado fora… Quem não sabe…

Nessa altura também se chamou “chá” em Inglaterra. Mas cedo o comércio do chá foi desenvolvido pelos ingleses e pelos holandeses da “Companhia das Índias” e a pronúncia malaia foi absorvida pela língua inglesa, começando por se pronunciar “tai” e só depois “ti” (tea).

Actualmente, os “classificadores de chá encartados”, no porto de Londres, usam o mesmo sistema. De cada remessa de folhas que chegam à alfândega, eles tiram uma amostra, deitam-lhes água fervente de uma chaleira, que trazem consigo, e, depois de provar a bebida, decidem qual a sua classificação comercial no mercado.

Há também uma receita de bolo, “Maids of Honour”, a que em Inglaterra se atribuem hoje as mais diversas origens, e alguns estabelecimentos se assumem de possuir a única receita original, mas que, segundo consta, foi introduzido em Inglaterra pelas duas damas de honor de Dona Catarina de Bragança: as condessas de Penalva e de Pontével. Os mesmos bolos chamavam-se em Portugal, não sei se ainda se chamam, “londrinos” ou “pasteis de Londres”.

Outro aspecto que se relaciona com Dona Catarina de Bragança é o bairro Queens, em Nova Iorque.
Carlos II de Inglaterra, ao receber as terras da antiga New Amsterdam, deu à cidade o nome de New York, em honra de seu irmão o Duque de York, e aos dois principais bairros da cidade os de Kings e Queens, em honra dele próprio e de sua mulher, a rainha Dona Catarina.
Li há tempos uma história, que talvez os nossos amigos dos Estados Unidos me possam aclarar.
Ed Koch, quando foi Mayor de Nova Iorque, “revelou” ao presidente da Câmara de Lisboa (qual?) o que acima referi.
O chefe do Município português decidiu então promover a colocação em Queens de uma estátua da princesa portuguesa, cujo custo seria suportado pelo governo português e por donativos particulares.
A estátua chegou a ser encomendada ao escultor Audrey Flack, e uma réplica da mesma foi colocada em Lisboa, na Expo.
Mas, nos Estados Unidos, levantou-se uma polémica entre dois grupos rivais o “Friends of Queen Catherine” e o “Friends Against Queen Catherine”. Estes opunham-se à colocação da estátua no “Bairro da Rainha”, por ter sido uma portuguesa, um país que se dedicou durante muitos anos à escravatura.
Parece-me um argumento um pouco hipócrita. Qual foi o país colonialista que se não dedicou à escravatura?
Teria sido colocada a estátua em Queens?
As palavras são como as cerejas… e a história delas também.
Desta vez vou ter por certo muitos comentários para me responderem às muitas perguntas que aqui deixo em aberto.
Estou sempre a aprender!

Flocos ao pequeno-almoço

Hoje apeteceu-me conversar convosco sobre uma das muitas invenções, que nasceram de erros e da vontade de os remediar.
Os cereais do pequeno-almoço, em flocos, que hoje se vendem num sem número de variedades, que só servem para dificultar a escolha, são uma dessas invenções.
Os flocos “prontos para comer” são normalmente de milho, ou “corn-flakes”, um nome que normalmente aparece associado com a marca “Kellogg’s” (passe a propaganda).
“Kellogg’s of Battle Creek” é o nome original da empresa. E aqui cabe um pequeno parêntese para explicar este nome.
Em 1825 dois agrimensores travaram uma pequena batalha com dois índios do Michigan, junto de um pequeno riacho. Aparentemente ganharam os funcionários brancos, e o lugar ficou a ser conhecido por “Battle Creek”, ou “riacho da batalha”.
Não foi, porém, por essa batalha, que a cidade, que ali se formou, ficou conhecida na história.
Em meados do século XIX, a Igreja Adventista da América, estabeleceu ali a sua sede e o seu Centro de Publicações.
Um dos princípios daquela comunidade religiosa era a alimentação racional e vegetariana. Por isso, criaram, no mesmo complexo, uma espécie de sanatório, onde os pacientes recebiam tratamento baseado na nutrição natural e na medicina preventiva.
Dirigia esse sanatório o Dr. John Harvey Kellogg, já então conferencista famoso em matéria de nutrição. Com ele trabalhava um seu irmão, chamado Will Keith Kellogg. Ambos dirigiam um projecto de selecção de alimentos nutritivos para o pequeno-almoço.
Um dia, em 1894, os irmãos prepararam uma massa de farinha de trigo e, tendo que ir atender a uma emergência, deixaram-na ficar crua e destapada durante muito tempo. Quando foram por ela, tiveram a triste surpresa de ver que a massa tinha secado e estava intragável.
Como tinham uma máquina para esticar a massa e torna-la muito fina, pensaram salvar a situação, passando a massa, que se estragara, entre os dois rolos metálicos aquecidos, esperando obter uma massa semelhante à que os pasteleiros usam para os bolos “mil-folhas”, muito fina, que pudessem servir aos pacientes.
O resultado, porém, foi inesperado: as folhas de massa estalaram entre os rolos metálicos, e o que saiu foram flocos. Desilusão.
O orçamento da casa era muito frugal, deitar fora o trabalho era um prejuízo que queriam evitar e os irmãos Kelloggs decidiram, mesmo assim, aproveitar esses flocos, e servi-los tostados aos doentes.
Os pacientes simplesmente adoraram-nos e pediram para lhes servirem mais vezes aqueles flocos ao pequeno-almoço.
Pouco tempo depois Will Keith Kellogg registou a patente e deixou o trabalho no sanatório, para fundar ali mesmo, a “Kellogg’s of Battle Creek”, uma fábrica que fornecia cereais de pequeno-almoço, em flocos torrados, para toda a América.
Hoje, como sabem, a Kellogg’s tem filiais e fábricas em quase o mundo inteiro.

Terminada a validade da patente, muitas outras empresas começaram a fabricar cereais de pequeno-almoço, baseados mais ou menos no mesmo princípio. Como se pode ver nos supermercados.
Bom proveito.

A história dos flocos de aveia da “Quaker Oats” – que nada tem que ver, a não ser o nome, com a organização religiosa dos Quakers – ficará para uma próxima oportunidade, se ainda estiverem interessados.
Uma nota final, para todos os simpáticos visitantes, que têm escrito aqui comentários e me enviam dezenas de emails. Peço-lhes que continuem a faze-lo, pois me permitem aumentar os meus parcos conhecimentos da matéria. Faço o possível por responder, ainda que sucintamente às interessantes perguntas que me fazem. Mas infelizmente o tempo de que disponho é pouco, pois tenho que trabalhar também em assuntos mais úteis. Não fiquem aborrecidos comigo se as respostas levaram mais tempo do que seria delicado da minha parte.
Manuel Moura, dê-me o seu email, para lhe poder responder directamente. Já o fiz, mas voltou.

Eleições

Bom. Finalmente, vamos conversar hoje sobre a história de alguns termos relacionados com política e eleições.
Comecemos já com POLÍTICA. Política chegou-nos do grego antigo politéia, que foi o título original dado por Platão à sua obra famosa, que viria a ser traduzida para nós como “A República”.
Politéia (que derivou para o latim como “polítia“) era tudo quanto se relacionava com a “polis“, a cidade-estado. Politês era o cidadão. Politikós, o que se relacionava com a administração da cidade e do cidadão,
A nossa Polícia, o órgão da autoridade, cuja função é a de repressão ao crime e manutenção da ordem pública, tem exactamente a mesma origem.
Eleição, do latim electione é simplesmente o acto de escolher. Também em Roma, quando o seu regime foi democrático, se realizavam eleições. É um verbo composto de “legere“, escolher e do prefixo “ex“, fora, o que deu èligere, escolher, tirar para fora um de entre dois ou mais candidatos.
Estes, por sua vez, vestiam uma toga branca, sinal de pureza de intenções, e que também os distinguia para que os eleitores os conhecessem.
Candidum“, em latim, significava simplesmente “ser branco”. Por extensão, também brilhar. Com alguma imaginação podemos notar que o mesmo verbo deu origem ao adjectivo e nome próprio “Cândido” (como o herói de Voltaire), a nossa “candeia” que vai à frente para alumiar duas vezes. E até aquela aborrecida doença causada pelo fungo “Cândida” com suas manchas brancas. Os homens da toga branca eram os “candidatos“.
Portanto, temos os nossos “candidatos“, vestidos de togas brancas, a fazer a sua campanha eleitoral, de reunião em reunião, de círculo em círculo, na sua ambição de conquistar os nossos votos.
O prefixo “ambi-“ (dois) conhecemos nós de “ambos”, de “ambivalente”, etc.. Juntemos-lhe o verbo “ire” (isso mesmo “ir”) e temos “ambire“, ir de um lado para o outro. Na sua declinação nominal “ambitio” adquiriu o sentido de “andar de um lado para o outro a solicitar votos”. A ambição do candidato.

Uma importante parte da campanha eleitoral consiste em aparecer em lugares públicos, mercados, convenções, apertar as mãos dos eleitores, dizer-lhes uma palavra simpática, para atrair simpatia e votos.
E é importante conhecer cada um, ou pelo menos fingir que se conhece, dirigindo-se a cada um pelo seu nome. Mas quem é que tem memória para decorar os nomes de todos os cidadãos de Roma?
Para isso eram escolhidos escravos, especialmente treinados para aprenderem e se lembrarem do maior número de nomes. Eles caminhavam discretamente ao lado dos candidatos, e sussurravam-lhes ao ouvido o nome da pessoa por quem passavam. Assim evitavam o embaraço do esquecimento ao apertar-lhe a mão.
A esses escravos chamavam “nomenclator“, o que diz os nomes.
Daí derivaram as nossas “nomenclaturas“.

Acabam aqui, por hoje, as ambições políticas deste pacato “politês“.

Judeu

“O homem põe e Deus dispõe” – diz o nosso ditado.

Há dois dias escrevi aqui que tinha um tema à frente da lista, para escrever sobre ele, e adiei-o para dar preferência ao Calendário, que se apresentava como oportuno.
Afinal também não vai desta vez.
Quem escreve, sabe como eu que é assim: nós não escolhemos os temas; eles é que nos escolhem, a nós, e se apresentam, pedindo, por vezes insistindo mesmo, para escrevermos sobre eles. É uma espécie de “Providência” dos que passam a vida, ou grande parte dela, a fustigar o teclado.
Com grande surpresa minha – e com a ajuda amiga do Nuno Guerreiro, de “Rua da Judiaria” e outros amigos – este blog já excedeu em 9 dias o meio milhar de visitantes.

Muitos dezes visitantes me têm encorajado com comentários, com alguns dos quais já aprendi mais. Não sei ainda como lhes agradecer directamente, pois chegam-me com endereços que não permitem resposta.

Há um, porém, muito especial, que serviu, desta vez de “mensageiro da Providência”, enviando um comentário, curto e singelo, que implicitamente “pede para ser tratado”.
Assina-se o amável visitante “Acoral” e as poucas palavras, que me escreveu dizem muito: “Mais judeus na net!!!!”

Primeiro – embora o meu blog não se destine especialmente a visitantes judeus, é simpático, da parte deste visitante, salientar a minha filiação religiosa, de que evidentemente muito me orgulho.
Segundo – sou levado a admitir que o fez por um impulso de confraternização, talvez por se considerar também judeu, o que me não surpreenderia, porque é um “estigma” de que se queixam ou regozijam muitos portugueses. Por isso também aqui o saúdo.
Há outro ditado português, com algumas variantes, que diz que “de preto, de judeu e de mouro, todos temos um pouco”.
Se considerarmos que em 1496, de cada cinco portugueses um era judeu, temos que D. Manuel I, cuja intenção talvez tenha sido expulsar os judeus de Portugal (talvez, repito!), mas – cá vem novamente o “O homem põe e Deus dispõe” – o que conseguiu afinal foi entranhar o judaísmo entre os portugueses.
Poderia ainda comentar o papel relevante da Inquisição em propagar o cripto-judaísmo em Portugal, e as 11 famílias “puritanas” da legislação pombalina. Mas não são estes os temas deste blog. Tudo isto apenas para renovar os meus agradecimentos ao visitante senhor Acoral, que aqui será sempre bem-vindo, por me sugerir o tema “Judeu”.

Diz o meu dicionário que judeu “é aquele que, ou é natural da Judeia, ou segue os preceitos e ritos da religião judaica; o homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador.”
A primeira definição veio-nos etimologicamente do latim judaeu, que por sua vez se baseou no hebraico yehudi, que significa pertencente ou descendente da tribo de Yehudah, em português Judah, ou Judas, um dos 12 filhos do patriarca Jacob.
Nos templos bíblicos os judeus eram conhecidos apenas por Hebreus ou por Bnei Israel, ou seja, filhos de Israel, sendo este o segundo nome atribuído ao patriarca Jacob. Depois da morte do rei Salomão, dez das doze tribos separaram-se formando um reino à parte, o Reino de Israel e os seus habitantes eram os Israelitas. As duas restantes tribos, Judah e Levi, formaram o Reino de Judah, cujos habitantes se chamavam Judeus.
O Reino de Israel foi o primeiro a ser destruído e espalhado pelo mundo fora. Ainda hoje aparecem tentativas para identificar este ou aquele povo com os antigos israelitas, mas sem que haja até agora provas conclusivas.
O Reino de Judah subsistiu porque tinha a sua capital em Jerusalém, onde se encontrava o magnífico Templo construído pelo rei Salomão, e esse foi o factor religioso que serviu de catalisador ao pequeno reino, que só deixou de existir quando da conquista de Jerusalém pelos Romanos.
Quando da independência do actual Estado judaico, os seus fundadores hesitaram no nome que lhe haviam de por: “Estado da Judeia” ou “Estado de Israel“. Prevaleceu esta última opção.

A segunda e terceira acepções lexicológicas: “homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador” entraram na língua portuguesa por via eclesiástica, ou melhor por via de prègadores fanáticos cristãos, que acusavam os judeus da morte de Jesus.
Há por aí muito quem proponha que se decida excluir estas duas definições pejorativas dos dicionários da Língua Portuguesa. Eu sou contra essa proposta, pois a sua exclusão tornaria impossível a interpretação de textos em que a palavra “judeu” está escrita com esses sentidos. É tudo uma questão de educação, e o papel dos dicionários não é educar.

Poderia contar-vos aqui diversos episódios caricatos, de que fui protagonista em Portugal, desde o comerciante da província que se recusou a acreditar que eu era judeu, porque não apresentava os sinais que lhe haviam ensinado (cauda e cornos), até ao ex-estudante de Coimbra que sempre que, nas suas cartas para mim escrevia a palavra “judeu”, acrescentava entre parênteses “peço desculpa“, passando pela pobre noiva que, no dia do seu casamento, apanhou uma bofetada do tio, por dizer que não servissem ao senhor Inácio carne de porco, “porque ele é judeu”. Como se atreveu ela a chamar uma coisa dessas ao convidado da família?

Mas a resposta mais expressiva que ouvi, pela sua candidez, e pelo significado que ela queria dar a cada palavra, foi de uma mulher simples, no “Bairro de Baixo“, em Argozelo, conhecido por ser habitado exclusivamente por descendentes endogâmicos dos judeus forçados à conversão. E que, evidentemente, apesar de apontados a dedo pelo resto da população, ainda muitos o negam:

Eu não sou judia, mas, se o fosse, não o negava, porque até Deus, antes de ser português, foi judeu”.

Isto não diz tanta coisa?”

Resta-me tentar esclarecer aqui um erro semântico que surgiu em Portugal nas últimas três décadas.
Quando se constituiu a primeira Comunidade judaica em Portugal do século XIX, foi decidido evitar o termo “judaica”, que para muitos ainda tinha apenas o sentido pejorativo e optar por Comunidade Israelita de Lisboa. Era de bom tom, de boa educação, referir-se aos indivíduos de religião judaica como israelitas e não como judeus. (Curiosamente os cripto-judeus, que continuavam a viver semi-segregados nas aldeias portuguesas, foram sempre chamados “judeus”).
O mesmo fizeram os do Porto, ao fundar a “Comunidade Israelita do Porto”. A primeira comunidade a usar o nome certo foi a “Comunidade Judaica de Belmonte”, cujos membros, apesar da Inquisição, mantiveram a sua tradição judaica, no íntimo dos seus lares, durante quase cinco séculos.
E, só por ironia do destino, não posso deixar de salientar, que os cristãos-novos portugueses, que se estabeleceram no sul da França nos séculos XVII e XVIII eram conhecidos por “Messieurs les portugais” . Português como sinónimo de judeu.

Quando foi criado o Estado de Israel, parecia lógico que os seus habitantes fossem designados em português por “israelitas”. Mas o termo já estava tomado para os portugueses de religião judaica.
No Brasil encontraram a solução adoptando para aqueles o termo “israelense”. Em Portugal, não sei porque birra, adoptou-se a designação de “israeliano”, a qual, até onde eu percebo de derivação, não faz muito sentido. Mas esta foi a designação usada pela imprensa portuguesa entre 1948 e cerca de 1980. A partir daí, alguém cometeu o erro de chamar “israelitas” tanto aos judeus como as habitantes de Israel. E o uso pegou.

A Sociedade da Língua Portuguesa confirma-me que é um erro e que se deveria fazer um esforço na imprensa portuguesa para corrigir esse erro. Mas quem? Já deve ser tarde.

Como jornalista, sinto um certo embaraço quando tenho que referir-me a alguém como “árabe cristão israelita”, mas é a definição exacta de dezenas de milhares de cidadãos de Israel, e não lhes posso chamar “árabes cristãos israelianos”, porque as redacções não o aceitariam.

Calendário

Para hoje eu tinha planeado um tema completamente diferente, sobre termos agora empregues na política, e que, na sua origem, tinham significados muito diferentes.
Mas depois lembrei-me que nos próximos dois dias não vou poder escrever o meu registo diário, porque esta noite começam as festividades de Rosh Hashaná, o ano novo judaico, que se prolongam por sábado e domingo.
Os dias do calendário começam aqui com o aparecimento das estrelas e terminam ao por do sol do dia seguinte. Porquê? É uma questão de ponto de vista. Segundo o relato bíblico, primeiro houve trevas e depois foi criada a luz. Portanto primeiro foi noite e depois foi dia.
Pareceu-me, pois, que seria apropriado conversarmos hoje sobre o CALENDÁRIO, um tema que dá pano para mangas.
Comecemos pela etimologia: o termo calendário chegou-nos através do latim calendarium, que era simplesmente o “log” dos prestamistas, o livro em que eles assentavam os empréstimos que faziam e o dia em que se venciam.
O nome veio-lhe de calendae, o primeiro dia do mês romano, que era oficialmente o dia em que se venciam todas as dívidas. E porquê calendae? Kal era o verbo que designava anunciar, proclamar, e o início de cada mês era proclamado, para conhecimento do público. Não havia calendários…

Os gregos não tinham calendas. Por isso, quando dizemos que qualquer coisa vai acontecer “para as calendas gregas” referimo-nos a uma data que não existe, ou na linguagem popular, “no dia de S. Nunca à tarde“.

O calendário que hoje usamos em quase todo o mundo, pelo menos para assuntos civis e fiscais, mesmo nos países que usam um calendário religioso diferente, é um calendário solar, que tem como unidade principal o ano, cuja duração se aproxima o mais possível do ano tropical da Terra, ou seja o tempo que leva um ciclo completo de estações e a rotação do nosso planeta à volta do Sol. Assim facilita o planeamento das actividades agrícolas. Está dividido em 12 meses, de 30 ou 31 dias, excepto Fevereiro, que conta apenas com 28 dias ou 29 nos anos chamados bissextos, para acertar, mais ou menos, a diferença de algumas horas no ciclo solar.

A minha professora da 2.ª classe, a querida D. Manuela, ensinou-me assim a decorar o número de dias de cada mês:

Trinta dias têm Novembro,
Abril, Junho e Setembro;
De vinte oito há só um
Os mais outros trinta e um!

Novembro, dissemos, e vemos que deriva do número nove, o nono mês. Pelo mesmo raciocínio Setembro é sétimo mês, Outubro é o oitavo mês, e Dezembro o décimo.
Mas isto, então, não bate certo, pois Setembro é o nono mês, Novembro o décimo primeiro, etc.
A explicação é simples: no princípio o ano começava no mês de Março.

Também na Bíblia o primeiro mês do ano, o mês de Nissan, começava na primavera.
Então como é que os judeus comemoram agora, no Outono, o Ano Novo. Por estranho que pareça, o Velho Testamento manda celebrar o Rosh Hashaná (“cabeça do ano”) no primeiro dia do 7.º mês, o mês de Tishri.
É que antigamente a concepção do ano era diferente.
O Talmud explica que há quatro (!) princípios do ano:

1 de Nissan – é o principio do ano para os meses, para a contagem dos reinados de cada monarca, e para os festivais religiosos.
1 de Elul – é o princípio do ano para o pagamento das dízimas aos levitas no Templo, sobre as cabeças de gado;
1 de Tishre – é o dia em que o Mundo foi criado, e portanto o dia para a contagem dos anos.
1 de Shevat (segundo Rabi Shamai) ou 15 de Shevat (segundo Rabi Hilel) é o ano novo das árvores, em que se pagava aos levitas a dízima dos frutos e produtos agrícolas.

O ano judaico é lunar. Cada mês tem início na noite em que aparece a Lua Nova. Daí que os meses são mais curtos, não chegam para completar um ciclo solar. Para os agricultores não perderem a cabeça, há um sistema complicado que acrescenta aos doze meses, mais um em determinados anos de um ciclo de 19 anos.
Daí que as datas do calendário judaico variam de ano para ano em relação ao calendário comum, mas acertam com o ciclo das estações..
E daí também a razão das chamadas “festas móveis” do Cristianismo, que estão relacionadas com festividades que já existiam no Judaísmo, como a Páscoa e o Pentecostes, cujas datas, por isso, se regulam pela lua.

Já os maometanos também regulam o seu calendário pelo ciclo lunar, mas não dispõem de um mecanismo de acerto com o ciclo solar, como os judeus.
Por isso, as festividades da religião muçulmana ocorrem, cada ano, numa época diferente.
O mês do Ramadão, o mês do Jejum de 30 dias, ocorre, por vezes, na época do Natal, outras, como este ano, na altura no Ano Novo Judaico, com muitas outras variantes.
Ramadão é o nono mês do calendário lunar do Islão. O seu nome deriva da raiz árabe ramd, significando queimar, provavelmente porque, jejuando durante trinta dias e comendo somente à noite, os fieis do Islão esperam assim “queimar” os pecados que cometeram durante o ano.
O dia de início do Ramadão é anunciado tradicionalmente a partir de Meca, na Arábia Saudita, no momento que a lua nova é vista fisicamente. Por isso a data nunca é anunciada antes dessa comunicação.

Também o Ano Novo judaico é o primeiro dos Dez Dias de Penitência, que termina no dia de Kipur, ou da Expiação. São dez dias de meditação e de arrependimento, para que os pecados passados sejam perdoados.

Para os meus possíveis leitores judeus, desejos de SHANÁ TOVÁ.
Para os meus possíveis leitores muçulmanos RAMADAN MUBARAK.
E para todos os outros possíveis leitores, MUITA SAUDE E FELICIDADE em todos os dias de todos os anos.

Os ares de Buenos Aires

Houve em tempos, na Praça do Príncipe Real, em Lisboa, um estabelecimento de vinhos, cujo proprietário tinha vivido durante alguns anos na Argentina.
Regressando a Lisboa, com algum capital, fruto do seu labor nas terras do Eldorado, abriu aquele modesto estabelecimento, na esperança de poder viver, ele e a sua família, dos lucros que lhe adviessem do negócio.
Na parte superior da porta da entrada, havia um caixilho envidraçado, a que vulgarmente se chamava “bandeira”. Nesse vidro, em forma de meia-lua, ele mandou pintar um céu azul, com algumas estrelas douradas, e no meio um touro.
Perguntaram-lhe os clientes o significado daquele “vitral”, se é que tinha algum significado simbólico.
“Claro, é a capital da Argentina: “Buey nos Aires!”

Navegando em busca de uma possível passagem do Atlântico para o Pacífico, Juan Diaz de Solis encontrou, em 1516, o vasto estuário do Rio de la Plata. Vinte anos mais tarde , em 1536, Pedro de Mendoza fundou, no estuário, uma cidade a que deu o nome de Santa Maria del Buen Aire.
Essa primeira instalação dos espanhóis foi depois destruída pelos indígenas.
Só em 1580, Juan de Garay, fundou novamente uma cidade naquele local, e desta vez definitivamente, para se tornar na magnífica capital da Argentina de hoje..
O nome que lhe pôs não foi demasiado curto: Ciudad de la Santissima Trinidad y Puerto de Santa Maria de Buenos Aires. Para os amigos, “Buenos Aires”.
Mas, em todos os documentos oficiais tinha que figurar o nome oficial completo. Como, por exemplo, neste documento notarial:
“en esta dha Ciudad de la Trinidad Puerto de Santa Maria de Buenos ayres en doze dias del mes de Henero de mil y seis cientos y cinquenta y siete años ante mi y dos testigos q’lo firmaron…”

Batata

Segundo Leite de Vasconcelos, a primeira vez que a palavra batata apareceu num dicionário da língua portuguesa foi em 1647, no “Thesouro da língua portuguesa”, de Bento Pereira.
No entanto, no anúncio para a venda de uma propriedade em Trás-os-Montes, na Internet, vi a indicação de que foi no terreno anexo à mesma que se semearam pela primeira vez batatas em Portugal, em 1780.
Devemos, pois, aos nossos compatriotas trasmontanos as indispensáveis batatas fritas para acompanhar o bife com o ovo a cavalo. E também os pacotinhos (já pacotões) de fritas para comer na praia.
Efectivamente, consta dos anais que em 1797, a Academia Real de Ciências atribuiu, por motivo desse pioneirismo, a D. Teresa de Sousa Maciel Girão, mãe do primeiro Visconde de Vilarinho de S. Romão, uma medalha de ouro, no valor de 50 mil reis.
A primeira colheita obtida por aquela senhora foi de 200 quintais.
Foram os soldados de Francisco Pizarro, explorador espanhol que conquistou o Peru, em 1531, que encontraram este tubérculo, que os incas já cultivavam e consumiam desde tempos imemoriais. E chamavam-lhe pappa.
Um companheiro de Pizarro, Pedro Cieça, mandou alguns exemplares da pappa peruana para a Espanha. Aí causou curiosidade e mandaram-nos de presente para o Papa, em Roma.
Os espanhóis puseram-lhe o nome de patata, (nome de outro tubérculo peruano), embora em alguns dialectos castelhanos continuem a chamar-lhe pappa, como os antigos incas.
Foi o cientista francês Charles de l’Écluse, em Viena de Áustria, que fez o estudo botânico da planta, que baptizou de “Solanum tuberosum”. Na descrição do tubérculo escreveu que era uma pequena Trufa, “tartufoli” , nome que os italianos adoptaram na sua língua.
Na sequência, com pequena deturpação passou na língua alemã para Kartofel, e em russo com grafia ligeiramente diferente para kortopfel.
Hoje é um elemento essencial e indispensável na culinária, em quase todo o mundo.
Mas, nos primeiros séculos, mesmo em Espanha, a batata era um alimento para pobres, e de último recurso. Cozinhava-se nos asilos, e na tropa, para os soldados.
Em tempo de guerra, na Irlanda, como durante a guerra dos Trinta Anos, os camponeses comiam-nas à falta de outro alimento.
Noutras alturas, davam-nas ao gado, que normalmente não é esquisito de boca.
Tanto na Prússia, como em França, houve tentativas para incentivar a população a consumir a batata.
Um engenheiro agrónomo e nutricionista francês, Antoine Augustin Parmentier, tendo participado, como farmacêutico militar, na guerra dos Sete Anos, contra a Inglaterra e a Prússia, teve a desdita de ser feito prisioneiro na Alemanha.
Aí descobriu as qualidades nutritivas daquela planta.
Regressado a França, participou em 1771 num concurso, aberto pela Academia de Besançon, para identificar um possível substituto para o trigo, no fabrico de pão, posto que a “solução” da rainha Marie Antoinette ( “Se não há pão dêem-lhes brioches”) não solucionou o problema.
Parmentier apresentou um brilhante ensaio sobre o valor nutritivo da batata, que o tornou famoso.
Foi logo encarregado pelo soberano Louis XVI de lançar uma campanha publicitária, para vencer os preconceitos da população.
Para isso, o rei concedeu-lhe um terreno na planície de Sablons, en Neuilly, para o cultivo experimental da batata.
Parmentier concebeu então a ideia de despertar a curiosidade da população, mandando cercar a propriedade e colocando soldados de sentinela para a guardarem.
Claro que o povo estava ansioso por espreitar e ver, pelos seus próprios olhos, que tesouro tão importante estava a ser guardado.
Quando as redondas batatinhas estavam prontas para consumo, os soldados receberam ordens para fechar os olhos e deixarem alguns curiosos entrarem.
Foi assim, através do roubo, que os franceses aprenderam a comer batatas.
O “lançamento oficial” realizou-se em 24 de Agosto de 1785, em Versailles, com a presença de toda a corte, a quem foi oferecida uma refeição, na composição de cujos pratos todos, participa a nova estrela – a batata.
Vitorioso, Parmentier ofereceu ao rei e à rainha ramos de flores da batateira, afirmando que, daí em diante, já não havia motivos possíveis para a fome!
Na língua francesa o tubérculo usou, durante a sua história, nomes derivados dos que já indiquei para outros idiomas. Mas o que predominou foi “pomme de terre” (maçã do chão), que parece ter sido utilizado, pela primeira vez, em 1762, pelo botânico Henri Louis Duhamel du Monceau.
No dialecto alemão da Áustria usa-se também a mesma semântica – Erdapfel, que quere dizer o mesmo – e também na língua hebraica moderna a batata se chama da mesma maneira “Tapuah Adamá” (maçã da terra). O apelido de patata está reservado para a muito consumida batata doce.

Voltando ao que sucedeu em Portugal, o Visconde de Vilarinho de S. Romão, filho da primeira promotora do cultivo da batata, a que já me referi, escreveu o provavelmente primeiro “Manual Prático da Cultura da Batata”.
Aquilino Ribeiro queixava-se de que a batata, cozida sem casaca, fica espapaçada e desenxabida.
Pessoalmente confesso que não tenho habilidade nenhuma para tirar a casca à batata cozida, para a comer.
Mas, agora que penso em espapaçada, pergunto aos entendidos se a palavra portuguesa “papa” (qualquer substância mole, desfeita quando cozida), apesar de lhe atribuírem etimologia latina, não terá relação com o nome que os incas davam à batata, com que os espanhóis presentearam o Papa.