Assim nasceu um nome

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

 

A quem dedicou Luis de Camões este lindo soneto de amor?

E tantas outras poesias e canções, através das quais, o poeta nacional, galanteador e brigão, como o definem os seus biógrafos, se dirige, apaixonado, à sua amada, sem nunca ter conseguido, consumar esse fogo ardente, que o consumia?

 

Dizem que foi uma tal Caterina de Ataíde, dama da corte, a inspiradora desse tão grande amor, por causa do qual o poeta sofreu vários degredos, os quais o levariam a escrever mais tarde a grande epopeia do Povo Português – «Os Lusíadas» .

 

Há um certo consenso em relação ao nome da amada de Camões.

Já o mesmo não sucede quanto à sua verdadeira identidade.

É que na corte existiam, pelo menos, três damas com o mesmo nome.

 

Não vou entrar na polémica, pois para tanto me faltam os conhecimentos.

 

Mas vou arriscar-me a suportar uma chuva de protestos, referindo que foi desse grande amor do poeta que nasceu um bonito nome próprio feminino, desde então muito em voga.

 

A única vez que o poeta atribuiu um nome à sua amada Caterina, usou, mesmo assim de um anagrama, inventando um novo nome, em que utilizou todas as letras, que compunham o da sua paixão C-A-T-E-R-I-N-A.

 

Vejam então o que resultou:

 

 

Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.

Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam;
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.

Quando Liso Pastor, num campo verde,
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama?
(suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

 

Já viram? Pois com as letras de C-A-T-E-R-I-N-A ele construiu N-A-T-É-R-C-I-A.

 

Caterina, ou em outras línguas Catherine, tornou-se mais tarde em português, CATARINA.

 

A etimologia deste nome é incerta.

Dão-lhe alguns o significado de “casta, pura”, derivando-o do grego “katharos”.

Já outros relacionam-no com uma deusa pagã, da magia e do encantamento – Hecaté.

 

Natércia é também o nome de um município brasileiro, no Estado de Minas Gerais.

E também aqui temos uma história curiosa, que merece ser contada.

O nome teve origem nas minas de ouro, conhecidas por “Descoberto da Pedra Branca”.

Depois de muito disputada a sua posse, o proprietário de uma das suas ramificações, que residia, com sua esposa, num engenho chamado de Santa Catarina, deu à propriedade o nome de “Arraial do Ribeirão de Santa Catarina da Pedra Grande”.

Nome muito comprido, efectivamente, que, quando ali foi criada uma paróquia, foi encurtado para… “Paróquia de Santa Quitéria”!

Engano involuntário? Trama de algum/a devoto/a desta santa?

 

O certo é que houve quem insistisse o suficiente para que o erro fosse rectificado e a Paróquia voltou a ser encomendada a Santa Catarina.

 

Mas aí não parou a curiosa história do lugar.

 

Em meados do século passado, a população de Santa Catarina sofria prejuizos desagradáveis, porque uma parte da correspondência postal, que lhe era dirigida, era “desviada” … para o Estado da Santa Catarina.

 

Então reuniu-se a vereação da Câmara Municipal, para tomar uma decisão. Algum amante da tradição vernácula, fez uma proposta para que o nome da povoação fosse mudado, sem lhe mudar o sentido, seguindo a tradição do grande poeta português.

 

Desde 1953 – quem quiz que a sua correspondência fosse entregue na antiga Santa Catarina, teve que pasar a escrever no envelope, não o nome antigo, mas NATÉRCIA.

 

Se quizerem ver onde se situa, vejam aqui um mapa e algumas bonitas fotografias

http://www.bussolanet.com.br/cidades/mapa.asp?id=119         

11 Responses to “Assim nasceu um nome”


  1. 1 Anabela Négrier 14 Setembro 2008 às 5:17 am

    O soneto “Alma Minha Gentil que te partiste”, de Luís Vaz de Camões, foi dedicado a DINAMENE, dama chinesa com quem Camões viveu maritalmente durante todo tempo que esteve exilado na China e a quem ele dedicou os mais belos sonetos de sua produção lírica.
    (consultar crítica literária sobre a diferença entre a produção lírica dos anos da corte, antes do exílio, e a dedicada a DINAMENE, produzida na Índia e depois da morte dela).
    Camões decidiu levar sua companheira para Portugal, quando teminou o degredo.
    A nau em que viajavam sofreu um naufrágio no Golfo de Bengala, próximo à costa da Índia; DINAMENE morreu afogada no naufrágio; Camões salvou-se, nadando até a costa.

    Camões adoeceu gravemente em Moçambique; até o fim de sua vida nunca se recuperou dessa perda.

  2. 2 Inácio 26 Setembro 2008 às 5:58 pm

    Obrigado pela correcção.
    Tem razão, foi erro meu.
    O segundo soneto que citei é que foi dedicado a D. Caterina de Ataide.
    Claro que Dinamene não era o nome real da dama chinesa. Era o de uma ninfa.

    Inácio

  3. 3 Al Cardoso 4 Outubro 2008 às 9:29 pm

    Caro Inacio:

    Finalmente voltou a escrever por aqui e logo com tres postes de seguida! Bem haja por voltar.
    Ja quanto ao grande amor do nosso Camoes, de acordo com o historioador Hermano Saraiva, nao foi a Catarina ou “Natercia” mas sim Violante de Andrade!
    Quem e que estara certo, o “Poeta” nao nos pode dizer quem, ficamos sempre com a duvida.
    Ja me esquecia “Shana Tova”, ou feliz Ano Novo!

    Shalom
    al cardoso

  4. 4 Natércia Catarine 28 Novembro 2008 às 1:59 am

    Amei Ver Tudo A História O Sonetos …Isso mostra q meu nome não serve só de chacota na escola ¬¬°.História Linda …

  5. 5 Natércia Dantas 9 Fevereiro 2009 às 1:35 am

    Conhecia a história do meu nome. Mas nunca havia lido um artigo tão aprofundado e concreto sobre o assunto.
    Fui chamada assim, em homenagem à minha avó materna, já falescida. Por sua vez, minha avó foi chamada de “Natércia” pelo meu bisavô Luíz, porque ele era completamente apaixonado por literatura. Todas as filhas dele receberam nomes de musas de importantes poetas.

  6. 6 Natércia Cavalcante 28 Setembro 2009 às 7:46 pm

    Nossa adorei o artigo……PERFEITO!!!!!

    meu nome também é uma homenagem a minha avó paterna, e o nome dela ja era homenagem a uma tia….no caso eu sou a 3ª da familia….nunca tinha lindo algo tão completo assim… parabéns!!!!!lindo d+♥

  7. 7 Natércia Catarine 22 Fevereiro 2011 às 5:23 pm

    Aii meu Deus adorei A História, o poema Tudo *-*
    Que coisa linda Tudo isso,que amor😀

  8. 8 Natércia Paulos 10 Abril 2012 às 4:29 pm

    Já tinha ouvido falar da história do meu nome, mas desconhecia a versão do Brasil, gostei…

  9. 9 Italo ribeiro 19 Novembro 2012 às 7:06 pm

    Vi este nome estrnho numa conta médica e fui atraz do sentido>bela história de senssibilidade que hoje esta se perdendo,é pena

  10. 10 Natércia Suassuna Dutra 19 Março 2014 às 10:41 pm

    Natércia Suassuna

    Meu nome herdei do meu pai Natércio. A história do meu nome tomei conhecimento em uma viagem a Portugal, contada pelo General Arnaldo. Era para mim, até ali, completamente desconhecida. Sabia que o nome havia sido criado por Camões, mas não sabia da sua história. que se segue: Camões mantinha um caso amoroso com uma dama da nobreza portuguesa chamada CATERINA. Ela era casada. Em uma das viagens da amada, ele foi ao porto e de longe assistiu a sua partida. Acontece, porém, que a pouca distância do cais, a nau afundou. Camões, ali, assistindo a morte da mulher amada, sem nada poder fazer. Esse grande desgosto inspirou o poeta a fazer esse belíssimo soneto NATÉRCIA. Para não ser descoberto o seu segredo, usou as letras do nome CATERINA, formando o título do soneto – NATERCIA.

  11. 11 Gustavo Rocha da Silva 24 Junho 2016 às 11:21 pm

    Prezado Senhor:
    Em “Reflexos do Baile”, romance (excelente!) de Antonio Callado, há uma ou outra referência a Natércia que, na minha ignorância, pensei que fosse personagem da História de Portugal. Devo concluir que se trata apenas de um anagrama de Catarina? Muito obrigado.


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