Kosher ou cacher

Vamos tentar acabar, de uma vez para sempre, com as dúvidas sobre o termo a utilizar para designar os produtos alimentares cujo consumo é permitido pela religião judaica?

Em Portugal produzem-se hoje cada vez mais produtos tradicionais, sob supervisão rabínica, que se destinam a ser vendidos, no mercado interno ou para exportação, com certificado de que não infringem as regras a que os judeus religiosos são obrigados a obedecer.

Esses produtos são designados em hebraico como “cacher” (כשר), palavra que significa “próprio”, no sentido de adequado, apropriado, apto, conveniente. Não se aplica apenas a produtos alimentares, mas também a outros produtos do dia-a-dia, para os quais hajam regras especiais de consumo (por exemplo os tecidos do vestuário).

Também os muçulmanos têm uma designação especial para os produtos que lhes é permitido consumir, e que eles designam como ḥalal (حلال).[i]

Ora, se a palavra hebraica para esses produtos é cacher, porque razão, em textos em inglês escrevem kosher? A explicação é simples: é este o nome que lhes dão, nos Estados Unidos. A palavra kosher não existe na língua hebraica, falada em Israel. É apenas uma variante de pronúncia usada, fora de Israel, por alguns judeus originários da Europa Oriental. Há entre os judeus algumas variantes regionais para a leitura de algumas consoantes e sinais diacríticos (aqueles pontinhos que se colocam nas letras, em diversas posições). Quem não lê hebraico não tem que se preocupar com isso. Mas vou dar-vos alguns exemplos, como ideia geral. Um sinal diacrítico que em Israel se lê “a”, no Iémen é lido “o”.  Baruḥ (Spinosa), os iemenitas dizem Boruḥ. Na Polónia, o mesmo sinal é “u” – Bureḥ, e na Alemanha é “o”, como no Iémen. Porquê? Nas diferentes línguas semíticas do Próximo Oriente existiam essas diferentes pronúncias, e os judeus que se espalharam pelo mundo levaram a pronúncia da região em que viviam. Há uma letra que, em hebraico, varia, conforme um dos seus pontos diacríticos, ou se lê B ou se lê V (lembra o português do Porto, não é?), mas para os judeus da Península Ibérica e de Marrocos é sempre B. Há outra letra que em Israel é sempre T, e que para os judeus da Europa oriental umas vezes é T, outras abranda em S. Sábado (que significa “dia de descanso), é Chabat, em hebraico, e como tal chegou à língua portuguesa, por via eclesiástica. Mas na Polónia e na Rússia era Chabess. Mas nós, em Portugal, não dizemos “a guit Chabess”, pois não? Dizemos “Chabat Chalom”[ii]

Da mesma forma não dizemos “cocher” nem escrevemos “kosher”.

Os americanos receberam o vocábulo dos imigrantes judeus da Europa e até o inseriram nos seus dicionários – Kosher! Os ingleses também escrevem assim e pelas mesmas razões. Portanto, quando escrevemos em inglês devemos mesmo escrever “kosher” se quisermos ser entendidos e sobretudo se quizermos vender os nossos produtos para aquele país. Justifica-se absolutamente que os comerciantes desses produtos os designem como “kosher”, para exportação. Agora que uma casa de abate do Alentejo venda aos judeus de Lisboa “frangos kosher”, desculpem mas está errado! Tão errado como já ouvi dizer também a um alentejano que tal dia ia haver “sexita”, quando estava a tentar ler a palavra “Cheḥita” que lhe escreveram “Shechita”, não conhecendo valor para o h que se segue ao s. Ele estava a ler bem, quem errou foi quem escreveu!

Não digo isto por pretensão, acreditem. É que, quando ouço portugueses dizer “Salon chaverim” ou “Chanucá”(ch de chapéu) fico com pena por estarmos a difundir ignorância.

[i] Não estranhem esta letra ḥ (h com um ponto em baixo) que não existe em português. É uma adaptação minha para indicar o h gutural, um fonema para o qual não existe letra no alfabeto português. Darei a minha explicação e apontarei para as alternativas noutro artigo. Por agora basta que notemos que corresponde ao som da letra “j” em espanhol, como em Juan.

[ii] Já sei que me vão dizer que Chabat e Chalom se escreve  com Sh. Mas essa combinação de letras Sh não existe na língua portuguesa. Não escrevemos Shapeu, pois não? Então devemos de escrever Chabat e Chalom.

4 Responses to “Kosher ou cacher”


  1. 1 alcard8 24 Janeiro 2015 às 1:27 pm

    Muitissimo agradecido amigo Inacio, e, ja agora: Chabat Chalom!
    Infelizmente tambem tenho difundido alguns desses erros!

    Um grande abraco.
    Chalom

  2. 2 Luiz galebe 24 Janeiro 2015 às 4:29 pm

    Inacio
    Você é demais, adorei, excelente explicação.
    Abraços

  3. 3 antonio Mendes 24 Janeiro 2015 às 6:50 pm

    Gostei da explicação e também me pergunto muitas vezes porque e que em Portugal têm que dizer Kocher e não Cacher,

  4. 4 Moisés Mordecai Levi 6 Junho 2015 às 6:45 pm

    Muito interessante. Mas porque não usar X em vez de ch? Em Trás-os-Montes e no passado o ch denota o som tx, tal como inglês. Escreve-se xaile e não chaile. Chapéu era precisamente o exemplo que gramáticos de outros tempos davam de palavra mal pronunciada pela gente do sul, quando o som ch deixou de ser pronunciado e se confundiu com o do x de xaile.


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