Arquivo de Maio, 2007

Uma bica bem cheia

Os meus amigos brasileiros, muito ciosos dos seu cafezinho, quando vão a Portugal, voltam sempre a fazer troça da nossa bica.

É o caso do meu bom amigo e distinto jornalista Nahum Sirotsky, a quem dedico cordialmente esta prosa.

 Hoje outro amigo, este alfacinha,  mandou-me uma suposta explicação do termo tão popular em Portugal.  

Diz ele o seguinte:” Quando o café “A Brasileira” vendeu os primeiros “expressos” em Lisboa, o público achou-os amargos e daí que o proprietário da casa tivesse inventado o slogan para ajudar nas vendas: “Beba Isto Com Açúcar”.     E pegou!! Hoje, a palavra foi reduzida às suas iniciais: BICA!     Afinal, a BICA tem uma razão forte de existir !!..

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Si no è vero … è ben trovatodizia, sabem quem?   Não, não era o meu “avô” Jacinto, de Camarate, porque esse não sabia italiano !

Analisemos:   primeiro, não é expresso que se deve escrever, mas sim espresso, uma palavra italiana, que pretende designar uma bebida de café preparada através da passagem de água muito quente sob alta pressão.     Daí o nome espresso.

A Itália foi o país onde nasceu o espresso, que até à década de 1940 era preparado sob pressão de vapor.      Nessa altura apareceu a máquina profissional, que prepara o café à pressão de 9 a 10 atmosferas.

O café espresso, como se diz em Itália, tem uma maior consistência do que o café coado, e contem uma quantidade maior de sólidos dissolvidos por volume.

A máquina profissional tem uma bica, por onde sai sob pressão do vapor.

Foi por isto, e apenas por isto, que na Brasileira, e em quejandos cafés lisboetas, lhe passaram a chamar um café feito na bica, e depois simplesmente bica.

Bem cheia? 

Recordar é viver

“Recordar é viver” – dizem os antigos.

E eu, que já não sou dos mais modernos, sirvo-me deste blogue, entre outros meios, para recordar factos passados da minha vida.

Hoje sabemos – ou pensamos saber, porque os homens estão sempre a descobrir que noções que durante séculos mantivemos como seguras, afinal não correspondem à realidade – que a memória reside no cérebro.

Os antigos romanos tinham a certeza de que a memória tinha o seu assento no coração.

Não admira: os antigos hebreus pensavam que a consciência estava nos rins, imaginem.  E, ao referirem-se a Deus, diziam que ele sabia sempre o que o homem tinha nos rins e no coração. Nada se pode esconder dele.  Pois, para os romanos, todas as nossas memórias estavam no coração.Para se lembrarem de alguma coisa, tinham que a trazer de novo ao coração. Coração, em latim, é cor.   Portanto, recordar é fazer passar novamente pelo cor, coração.

Da mesma origem é o inglês to record, registar, que nos chegou também com o anglicismo recorde.

Voltas que as palavras dão.

Hocus Pocus

O amigo brasileiro Washington Silva Guedes perguntou-me sobre as origens da expressão “Hocus Pocus”, que teve artes de atrair a atenção do seu filhinho de sete anos.

Eu conhecia a expressão, e até o seu significado através do seu uso (minha descansada Mãe usava-a muito amiúde) mas tive que responder honestamente ao estimado visitante deste blogue que não sabia a sua origem.

Os juristas, porém, dizem que a ignorância não é desculpa.   E o meu avô Jacinto, de Camarate, com sua sabedoria popular, acrescentava que “o saber não ocupa lugar”.

Não tive outro remédio senão tentar esclarecer-me um pouco melhor.

“Hocus Pocus”  não é uma expressão portuguesa, mas sim universal.

É utilizada em muitas línguas pelos artistas, profissionais ou amadores, que executam truques de magia, e têm necessidade de distrair a atenção do público, para que não reparem no verdadeiro truque que ele está fazendo.

Nada melhor do que uma frase exótica, que as pessoas tentam compreender e não compreendem, que não significa nada.

Já nos tempos do Ali Babá aprendemos a dizer “Abre-te, Sésamo”.

Uma palavra muito comum, alegadamente com origem na Cabala, é ABRACADABRA.    Esta palavra deveria ser escrita em forma de triângulo para poder ser lida da mesma forma em todas as direcções.

 A B R A C A D A B R A
A B R A C A D A B R
A B R A C A D A B
A B R A C A D A
A B R A C A D
A B R A C A
A B R A C
A B R A
A B R
A B
A
 

“Hocus Pocus” – com sua aparência de latim – servia o mesmo propósito.

Em tempos passados, os fazedores de magia chegaram a usar uma frase mais elaborada, que soava latim, mas nada significava: “hax pax max Deus adimax”.     Estão a ver?

Há quem diga que havia um padre, de poucas letras em latim, que na altura da consagração da hóstia, em vez de dizer “hoc est corpus meum”   “Este é o meu corpo”, dizia rapidamente “hocus pocus meum”.    Mas isto deve ser, provavelmente, da autoria de alguém que quis troçar da eucaristia. (reconhecimento, acção de graças).

Por extensão, a expressão “hocus pocus”  é usada, tanto na linguagen comum, como na literária, para explicar uma acção pouco séria, destinada a enganar o próximo.

Diz-se, por exemplo, de um político que finge actuar para o bem do público, mas, na realidade, tudo quanto ele faz é “hocus pocus”. 

Ou para responder a um pedido exagerado do filho: “Pensas que é só eu dizer hocus pocus  e o dinheiro aparece?”

 Isto, como disse inicialmente, é universal.   Minha Mãe trazia a expressão da sua língua natal, o húngaro. Encontrei um artigo bem escrito sobre este tema, num blogue que não conhecia, e recomendo a sua leitura:  http://www.worldwidewords.org/weirdwords/ww-hoc1.htm

P.S. – Com certeza já vos sucedeu receberem um email de um amigo, que vos avisa sobre o aparecimento de um novo virus, ou de um perigo iminente de outra origem.   Quase sempre esse amigo recebeu esse aviso em cadeia, e apressa-se a avisar-nos com toda a boa vontade.

Se formos procurar num site de confiança (o da Symantec/Norton, por exemplo) encontramos lá a informação de que esse perigo não existe, e que se trata de um hoax, palavra inglesa, que significa patranha. Pois a origem de hoax  é exactamente a mesma que hocus pocus.

Mas, nunca fiando, vale sempre a pena verificar, pois pode ser mesmo um aviso verdadeiro.