Arquivo de Setembro, 2008

A esperança chamada Nadja

A nossa amiga Nadja estava prestes a perder a esperança de encontrar aqui a resposta à sua pergunta sobre a origem do seu nome.

Pois aqui vai com os meus protestos renovados de que nem sempre posso responder, porque não sei tudo. Sei até muito pouco.:

Nadja – que em algumas línguas se escreve Nadia – é um nome de aqui, do Médio Oriente, com origem no Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Na língua árabe, significa “o arauto, o anunciador de Deus”. Por extensão, significa também “o princípio, o primeiro”. E escreve-se assim: ندية.

Importado para o Ocidente, Nadia significa “o desapontar de uma flor” e, por extensão, “a esperança”.

O Corão usa a palavra Nadja, como nome de uma deusa adorada pelos árabes, antes de ter surgido o Islão.

Na mitologia grega era uma das sete ninfas de Péricles, a ninfa honesta.

Em russo, usa-se como diminutivo de Nadezhda.

Em francês, o nome Nadine, deriva do diminutivo russo.

Valeu, Nadja?

 

O amigo do meu amigo, meu amigo é…

Temos uma nova amiga brasileira, a Nadja.

Amiga porque visitou este blogue, em que nos encontramos, e fez perguntas. Quem faz perguntas, ajuda-nos a aprender mais alguma coisa. E quem nos ajuda a aprender é nosso amigo.

A Nadja pergunta duas coisas: a origem da palavra “amigo” e o significado do seu nome.

Vou tentar.

Este poste será sobre a palavra “amigo”, que vem do vocábulo latino “amicus”, que tem exactamente o mesmo significado, e cuja raiz é o verbo “amo”, que significa “gostar de”, “amar”.

Amigo é, portanto, uma pessoa de quem se gosta, que se ama.

O que é que isto nos faz lembrar? O antiquíssimo preceito bíblico: «Amarás o próximo como a ti mesmo».

Este preceito é muito mais profundo do que as sete palavras com que se enuncia. Não vamos analisar aqui o contexto em que ele foi enunciado. Quem estiver interessado, abrirá a sua Bíblia e encontrá-lo-á no livro “Levítico”, capítulo 19, versículo 18.

Limitar-me-ei a apresentar aqui um aspecto deste preceito, em que poucas vezes reparamos, porque também não nos ensinam, geralmente.

Devemos amar o nosso próximo e por isso ele é o nosso amigo.

E devemos amá-lo  como nos amamos a nós próprios.

Ora eu conheço algumas pessoas que têm uma péssima opinião de si próprios. Estão sempre a criticar-se, falando para consigo, acham que são pouco inteligentes, que são baixos, que são altos, que são gordos, que são magros, que são feios, que não servem para nada, que nunca chegarão a ser alguma coisa na vida. É óbvio que essas pessoas não se amam a si próprias. Antes pelo contrário, detestam-se. Estão constantemente a criticar-se por tudo e por nada.

Deus nos livre, pois, de sermos o “próximo” dessas pessoas. Se elas nos amarem como vimos que se amam a si próprios, então detestam-nos, criticam-nos por tudo e por nada!

E quanto mais essas pessoas se dizem a si próprias o que pensam, mais se tornam feias, más, pouco inteligentes. Porque a vida ensina-nos que sempre  “o que pensamos acontece-nos”.  

Se pensamos que somos pouco inteligentes, não usamos a nossa inteligência, que é um dom divino a todas as suas criaturas. Se pensamos que somos feios, descuraremos a nossa aparência ao ponto de pareceremos feios aos olhos dosoutros. Se pensarmos que somos gordos, tudo quanto fizermos nos conduzirá a engordar.

Mas se, pelo contrário, soubermos sempre perdoar os nossos erros e as nossas falhas, se aceitarmos ser como somos, emendando esses erros, certos de que temos suficiente inteligência e força de vontade para usar nessa tarefa. Se, em vez de nos criticarmos, nos amarmos a nós próprios, então quando amarmos ao nosso próximo como a nós próprios, estaremos trazendo a salvação ao Mundo.

E, se formos nós, primeiro que tudo, o nosso melhor amigo conquistaremos novos amigos, em cada dia.

É isso, Nadja, o verdadeiro significado de “amigo”.

 

 

 

 

Assim nasceu um nome

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

 

A quem dedicou Luis de Camões este lindo soneto de amor?

E tantas outras poesias e canções, através das quais, o poeta nacional, galanteador e brigão, como o definem os seus biógrafos, se dirige, apaixonado, à sua amada, sem nunca ter conseguido, consumar esse fogo ardente, que o consumia?

 

Dizem que foi uma tal Caterina de Ataíde, dama da corte, a inspiradora desse tão grande amor, por causa do qual o poeta sofreu vários degredos, os quais o levariam a escrever mais tarde a grande epopeia do Povo Português – «Os Lusíadas» .

 

Há um certo consenso em relação ao nome da amada de Camões.

Já o mesmo não sucede quanto à sua verdadeira identidade.

É que na corte existiam, pelo menos, três damas com o mesmo nome.

 

Não vou entrar na polémica, pois para tanto me faltam os conhecimentos.

 

Mas vou arriscar-me a suportar uma chuva de protestos, referindo que foi desse grande amor do poeta que nasceu um bonito nome próprio feminino, desde então muito em voga.

 

A única vez que o poeta atribuiu um nome à sua amada Caterina, usou, mesmo assim de um anagrama, inventando um novo nome, em que utilizou todas as letras, que compunham o da sua paixão C-A-T-E-R-I-N-A.

 

Vejam então o que resultou:

 

 

Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.

Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam;
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.

Quando Liso Pastor, num campo verde,
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama?
(suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

 

Já viram? Pois com as letras de C-A-T-E-R-I-N-A ele construiu N-A-T-É-R-C-I-A.

 

Caterina, ou em outras línguas Catherine, tornou-se mais tarde em português, CATARINA.

 

A etimologia deste nome é incerta.

Dão-lhe alguns o significado de “casta, pura”, derivando-o do grego “katharos”.

Já outros relacionam-no com uma deusa pagã, da magia e do encantamento – Hecaté.

 

Natércia é também o nome de um município brasileiro, no Estado de Minas Gerais.

E também aqui temos uma história curiosa, que merece ser contada.

O nome teve origem nas minas de ouro, conhecidas por “Descoberto da Pedra Branca”.

Depois de muito disputada a sua posse, o proprietário de uma das suas ramificações, que residia, com sua esposa, num engenho chamado de Santa Catarina, deu à propriedade o nome de “Arraial do Ribeirão de Santa Catarina da Pedra Grande”.

Nome muito comprido, efectivamente, que, quando ali foi criada uma paróquia, foi encurtado para… “Paróquia de Santa Quitéria”!

Engano involuntário? Trama de algum/a devoto/a desta santa?

 

O certo é que houve quem insistisse o suficiente para que o erro fosse rectificado e a Paróquia voltou a ser encomendada a Santa Catarina.

 

Mas aí não parou a curiosa história do lugar.

 

Em meados do século passado, a população de Santa Catarina sofria prejuizos desagradáveis, porque uma parte da correspondência postal, que lhe era dirigida, era “desviada” … para o Estado da Santa Catarina.

 

Então reuniu-se a vereação da Câmara Municipal, para tomar uma decisão. Algum amante da tradição vernácula, fez uma proposta para que o nome da povoação fosse mudado, sem lhe mudar o sentido, seguindo a tradição do grande poeta português.

 

Desde 1953 – quem quiz que a sua correspondência fosse entregue na antiga Santa Catarina, teve que pasar a escrever no envelope, não o nome antigo, mas NATÉRCIA.

 

Se quizerem ver onde se situa, vejam aqui um mapa e algumas bonitas fotografias

http://www.bussolanet.com.br/cidades/mapa.asp?id=119