Unetané tokef

 Todos nós tempos os nossos símbolos individuais, imagens de um objecto, ou de um pensamento, que para toda a gente tem um determinado significado, mas, para nós, tem um significado especial e uma evocação.

Em Rosh Hashaná e Kipur, entre Shaharit e Mussaf, quando o oficiante recita o piut “Unetané Tokef”, vem-me imediatamente a recordação dos meus tempos de menino, na sinagoga Shaaré Tikva, em Lisboa, sentado ao lado do meu descansado Pai.

Quando chegamos à hora daquela oração, o meu Pai, mostrou-me no livro de orações o texto em caracteres Rashi, que estava logo abaixo das palavras da oração e não fazia parte do ritual. Até era estranho que figurasse nos livros ditos “de Livorno”, sefarditas, tratando-se de uma oração tipicamente ashkenazi. E então contou-me a história:

 

“No século XI vivia em Mogúncia (Meinz) na Alemanha, um judeu muito sábio e muito piedoso. Rabi Amnon era um dos principais conselheiros do bispo de Mogúncia, que o estimava muito.

Um dia o bispo quis convencer o judeu Amnon a converter-se ao Cristianismo, como condição para ser nomeado para um alto cargo.

Amnon pediu ao Bispo que lhe concedesse três dias para ele reflectir sobre a proposta.

Mas, logo no caminho para casa, se arrependeu por não ter recusado imediata e perentóriamente aquela traição à religião dos seus pais. Então pediu perdão a Deus, e humildemente fez penitência, decidindo não voltar à presença do bispo. Este, porém, estranhando que Amnon não tivesse aparecido, ao fim de três dias, para lhe dar a resposta pretendida, mandou que o trouxessem à sua presença.

Na presença do bispo, o judeu acabrunhado confessou o seu erro, acrescentando que decidira ele próprio o castigo merecido: o bispo deveria mandar cortar a língua que havia ousado exprimir a sua hesitação em continuar sempre fiel ao seu Deus.

Irado, o bispo mandou que não lhe cortassem a língua, mas sim os pés e as mãos e o levassem paga casa.

Amnon sentiu-se muito fraco e sentiu que ia morrer.

Mas, como estava em vésperas de Rosh Hashaná, o dia em que os judeus fazem o balanço dos seus pecados, pediu que o levassem na sua cama até à sinagoga.

Aí, quando o oficiante se preparava para dizer a Kedushá, a oração em que a comunidade exalta a santidade de Deus, Amnon pediu-lhe que esperasse um pouco e lhe permitisse declara publicamente a sua fé inabalável no Deus único.

Então, com as últimas forças que lhe restavam, ele começou “Unetané tokef kedushat Haiom, ki hu norá vehayom”.

E ao terminar deu o seu último suspiro.

 

Uma lenda publicada dois séculos depois conta que rabi Amnon de Mogúncia apareceu, dois dias depois, em sonho a rabi Kalonymus ben Meshulam, também de Mogúncia, e lhe ditou as palavras da sua oração, que desde então é recitada nas sinagogas, na mesma parte do serviço, em Rosh Hashaná e Kipur.

 

“Relatemos o poder da santidade deste dia, porque ele é terrível e assustador. Nele será exaltado o Teu Reino; o Teu trono será firmado com bondade e senta-Te-ás nele em verdade. ´´E certo que só Tu és Aquele que julga, prova, sabe e testemunha; que escrevas e selas (contas e fazes os cálculos); Que lembras tudo quanto foi esquecido. Tu abrirás o Livro da Crónica, que será lido e nele estará a sentença de cada um. Soará nele o grande Shofar, e ouvir-se-á o som de um silêncio muito fino. Os anjos apressar-se-ão, e serão tomados por um tremor e pelo terror, e dirão, “Eis que este é o Dia do Julgamento, em que será passado em revista o exército celestial, para julgamento – porque nem mesmo eles podem escapar aos Teus olhos no julgamento.”

 

Esta é apenas a primeira das três partes da oração, que poderão ouvir aqui numa versão musicada por Yair Rosenblum, sobre uma melodia tradicional dos cantores das sinagogas. (Lamento mas não sei como inserir aqui um mp3. Tentarei no Facebook)

 

Passaram-se muitos anos desde aquele dia de Rosh Hashaná, em que meu Pai me contou esta história.  Hoje eu sei que a oração é muito anterior ao século XI, pois foi encontrada uma versão entre os manuscritos da Guenizá do Cairo. Portanto, pelo menos parte da história é uma lenda.

 

Apesar disso, eu não posso evitar os calafrios ao escutar a oração pela boca do modesto oficiante da sinagoga do meu bairro, aqui em Israel, e de “ver”, com os olhos da alma, a cena com meu Pai, nos bancos da sinagoga de Lisboa, e a cama do rabi Amnon na sinagoga de Mogúncia.

 

 

 

 

 

2 Responses to “Unetané tokef”


  1. 1 Joao Moreira 16 Setembro 2012 às 11:00 pm

    Feliz Ano Novo!


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