Arquivo de Fevereiro, 2009

Fazer sinagoga

Que as palavras têm cada uma a sua história já aqui vimos.

E que se passa com as línguas, cada uma das quais é constituída por palavras? Pois as línguas também têm as suas histórias, mas estas devem ser analisadas sobre prismas diferentes dos que nos mostram as palavras.

Consoante a sua hegemonia e o papel que representam para atender à necessidade de um determinado número de pessoas de se entenderem com outras e para se cultivar – assim é mais ou menos importante a história de cada língua.

Quando o mundo girava à volta da cultura clássica e da filosofia, e quando a religião cristã representava um papel importante na hegemonia política do mundo, era indispensável dominar a língua latina para ter acesso à vida cultural.

Quando esta passou para os salões de Versalhes e para os círculos literários e artísticos de Paris – era indispensável falar francês.

Hoje, que a tecnologia de ponta domina a nossa vida, e em que tudo se consegue através da Internet, o inglês passou a ser a língua universal consagrada.

E há outras línguas, menos conhecidas da maioria das gentes, confinadas a populações mais pequenas, dominadas por outras línguas mais importantes. As pessoas que nasceram e foram criadas no seio desses idiomas lutam, enquanto podem, com a esperança de preservar a cultura da língua que mamaram.

É o caso das duas principais línguas judaicas (além do hebraico), o idish e o ladino.

É o caso da língua basca.

O hebraico, que durante dois milénios se manteve sempre como língua litúrgica e língua clássica sem aplicação na vida corrente, conseguiu nos últimos dois séculos um ressurgimento inédito, tornando-se numa língua viva, em tudo adaptada à civilização do século XXI, à investigação e à tecnologia de ponta.

Tenho uma grande admiração pelas pessoas que persistem em manter vivas as línguas ameaçadas de desaparecimento.

Por isso, nos últimos dias, tive uma grande alegria encontrando um blogue inteiramente escrito no dialecto mirandês, que se fala nas Terras de Miranda (do Douro), em Trás-os-Montes. Já tinha lido, há muitos anos, um pequeno texto em mirandês, mas era um texto um pouco “artificial”, escrito propositadamente para um acto oficial.

No blogue de AMADEU FERREIRA fui encontrar uma série de textos, muito interessantes pelo seu conteúdo, mas sobretudo porque foram escritos no dialecto mirandês, com muita naturalidade e como idioma de uso corrente.

Foi num desses textos que encontrei uma expressão que não conhecia, e que se liga directamente com outra vertente, talvez a mais importante, das minhas pesquisas.

Aprendi de Amadeu Ferreira uma expressão usada em Sendim, que reproduzo na versão original, para lhe não tirar o sabor:

“… quando algues mulhieres s’ajúntan a cumbersar, diç-se que ‘stan a fazer la sinagoga’. Quando la mulhier chega algo tarde a casa i sin se saber por adonde andubo, stá sujeita a oubir de la boca de l home: ‘Mas onde ye que caralhos andubiste a fazer la sinagoga?…”

A expressão tem origem nos processos da infamada inquisição, onde aparece quejandas vezes a acusação contra cristãos-novos, isto é, judeus forçados a converter-se ao cristianismo, que se reuniam em determinadas casas, para fazer, às escondidas, as orações da sua religião ancestral.

Em termos da linguagem inquisitorial, chamava-se a isso “fazer sinagoga”. “Sinagoga” é o a casa onde os judeus celebram o seu culto e fazem as suas orações. Naquela época, séculos XVI-XVIII, era proibido não só construir edifícios para servirem de sinagoga, como seguir de qualquer modo a religião judaica.

Segundo o Regimento da Inquisição de 1640 – que Amadeu Ferreira também cita – “as casas em que se provar que faziam sinagoga, e ajuntamento para ensinarem seus erros, serão arrasadas, postas por terra e salgadas e no chão que ficar delas se levantará um padrão de pedra, com letreiro, no qual se declare a causa por que se mandaram arrasar e salgar”.

A apoiar o seu artigo, o autor refere os nomes de várias pessoas daquela região mirandesa, que foram queimadas vivas, em fogueiras públicas, por “fazerem sinagoga” e seguirem outros ritos da religião judaica.

Quando já os homens não tinham tempo e meios para estudar a religião “proscrita”, ou porque eram perseguidos por isso pela inquisição, eram as mulheres que mais porfiavam em mantê-la viva e transmiti-la às suas filhas. E isso manteve-se assim secretamente até ao fim do século XX.

Aproveitando o velho costume das mulheres se reunirem num sítio apropriado, num lance de escadas ou apanhando uma nesga de sol de inverno, para conversarem, enquanto faziam malha ou cosiam as roupas da família, essas mulheres cristãs-novas reuniam-se para rezar e pedir a Deus pelo fim das perseguições de que eram vítimas.

Hoje, cristãs-novas e velhas, já não se reúnem para rezar. As conversas são outras, há sempre muito que contar sobre as vizinhas, aquilo a que, no meu tempo, se chamava “dar à língua”.fazer-sinagoga-21

Pois ficam sabendo que, em terras de Miranda, isso se chama “fazer sinagoga”.

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner

fotografia por amabilidade de Frederic Brenner