Arquivo de Abril, 2008

Divagando no Estreito do Bósforo…

Istanbul Bids for 2008 Olympics

 
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        Mesmo não tendo nunca estado na Turquia, todos aprendemos na escola que o Estreito de Bósforo é um estreito que liga o Mar Negro ao Már de Mármara e marca, na Turquia, o limite dos continentes asiático e europeu.

Bosphorus é um nome de origem grega, composto de duas palavras: bos (que significa boi) e phorus, foros, (passagem, transporte). Queriam os gregos significar com isso que o estreito era tão estreito que podia ser atravessado por um boi a nado. Ou, segundo outros, que podia ser atravessado sentado num odre, feito da pele de um boi, cheio de ar. Escolham!

Bos é também o nome latino da espécie zoológica a que pertence o boi, ou bove, e todo o resto do gado a que chamamos bovino.

Também se chama gado vaccum, em honra da meia-metade feminina: a vaca.   Já os latinos chamavam ao boi bove e à vaca vacca, e se alguém souber explicar-me porquê, agradeço, pois não encontrei a explicação.

Nos talhos, em Lisboa, chamava-se carne de vaca sem distinção tanto à de vaca como à de boi. Já no Alentejo só vi “talhos de carne de boi”. Era o macho que dominava na designação. Não sei se ainda é assim, nem sei também a razão.

O que se prova, mais uma vez, é que a história dos nomes dos bichos varia consoante o pronto de vista de quem os dá.

Já vimos aqui, há tempos (“Bifes de Peru”) que, na língua inglesa, os mesmos animais tem dois nomes: quando vivo o boi é ox, palavra de origem saxónica, dado por quem os criava; no prato, o boi é beef, de origem francesa, dado pelos normandos, que os comiam…

E da mesma forma porco, carneiro, etc. tinham nomes saxónicos enquanto vivos, e franceses depois de mortos… e cozinhados.

O mesmo sucedia entre nós com o peixe, que só o era enquanto vivo, dentro de água. Cá fora, candidato a mudar-se para o nosso prato, era pescado.  Hoje, em português, já não se usa pescado, como substantivo, mas em espanhol ainda se mantém a distinção.

 

Para saber mais, clique aqui: 

Estambul, Bosforo Y Dardanelos/ Istanbul

A hóstia e o pão ásimo

Este ano, os judeus comemoram a festividade de Pessah, de 20 a 26 de Abril.

Portanto, como os dias do calendário judaico começam sempre ao por do sol (na criação, primeiro foi escuridão, ou seja a noite, e só depois nasceu a luz), a tradicional ceia de Pessah, terá lugar esta noite, 19 de Abril, data em que estou escrevendo esta história.

Pessah significa, na língua hebraica: “passagem”. E comemora, na realidade, diversas passagens, mas sobretudo a passagem da escravidão no Egipto para a liberdade na Terra de Israel.  Isto na vertente nacional da festividade. No ciclo anual, é a passagem do inverno para a primavera.

Pessah dos judeus e a Páscoa dos cristãos estão intimamente relacionadas.  Na realidade, são a mesma festividade, mas encarada sob pontos de vista históricos diferentes.  Os judeus lembram a libertação da escravidão do Egipto; os cristãos recordam a morte e a ressurreição de Jesus.

Segundo os Evangelhos, Jesus estava precisamente a celebrar a ceia judaica de Pessah, com os seus discípulos, quando foi preso pelos soldados romanos.

Teoricamente até coincidem nas datas em que são comemoradas: segundo o calendário lunar judaico, a festividade tem uma data fixa: principia no dia 14 do mês de Nissan. Como os meses lunares principiam com a lua nova, o dia 14 será mais ou menos o da lua cheia. Em relação ao calendário solar, que todos seguimos na vida laica, é uma festa móvel.

A data da Páscoa cristã foi fixada no primeiro concílio de Niceia, no ano 325.  É comemorada no primeiro domingo, depois da lua cheia da Primavera (no Hemisfério Norte, ou do Outono, no Hemisfério Sul).  Portanto, teoricamente, será no domingo mais próximo do tal 14 de Nissan dos judeus, em Março ou Abril do calendário solar.

Este ano, não foi assim. A Páscoa cristã foi exactamente um mês antes do Pessah judaico. A explicação é simples. Como 12 meses lunares são menos do que um ano solar, o calendário judaico, em determinados anos, tem que ser ajustado com um mês adicional – tem treze meses.  Foi o que aconteceu este anos, e, por isso, Pessah é celebrado um mês depois da Páscoa..

Para ambas as religiões é uma das principais, se não a principal festividade do ano.

Os principais símbolos do Pessah são o cordeiro pascal (sacrifício do animal, que passou a ser apenas simbólico desde que o Templo de Jerusalém deixou de existir), o pão ázimo, chamado Matsá, pão sem levedura, o único que os judeus podem comer durante os oito dias de Pessah, em recordação de que, quando os seus antepassados fugiram dos egípcios, que os perseguiam, levaram apenas a massa, que tinham preparado para o pão, e que não teve tempo de levedar, e quatro copos de vinho, a cada um dos quais corresponde uma bênção, bebidos nas paragens que o pai da família faz, enquanto conta aos filhos, durante a ceia, a história do Êxodo, ou saída do Egipto.

Ora era precisamente isso que Jesus estava a fazer, durante a ceia daquela noite, a que se costuma chamar a Santa Ceia do Senhor.

O lugar onde isso se passou é conhecido, poderão visita-lo quando, se Deus quiser, vierem um dia a Jerusalém: é o Cenáculo (sala da ceia), no Monte Sião.

Podem então ler, no Evangelho de Marcos (14:22-26): “Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho, e todos beberam dele. E disse-lhes: isto é o meu sangue.”.

O significado mais profundo do acto de Jesus naquela ceia, foi a transformação das orações tradicionais judaicas sobre o pão e o vinho, instituindo com elas a Eucaristia.   Eucaristia veio-nos do grego, através do latim, e significa “gratidão”  (eu, significa “bem”, e kharizesthai, mostrar favor; de eu deriva por exemplo, eucalipto – bem coberto – e de kharis, favor, graça, vem o carisma).

Pão e vinho. 

Que pão era esse que Jesus e os seus discípulos comiam na ceia de Pessah? Era a matsá, pão não levedado, tal como a hóstia, é pão ázimo. Não levedado. Hóstia significa em latim “vítima”, “sacrifício”, lembrando o cordeiro pascal.

E o vinho era um dos quatro cálices que todos bebem em volta da mesa da ceia de Pessah, logo à noite.

É esta a história da ceia da Páscoa judaica e da Eucaristia cristã.

Um blogue de baixo quilate

Há blogues de alto quilate e há os mais modestos, como o meu.

O que é um quilate afinal?

Pois há quilates e quilates, duas palavras que facilmente se confundem:  em diamantes e outras pedras preciosas, o quilate é uma unidade de peso; nos metais preciosos, como o ouro, é uma unidade de pureza.

Comecemos por este: convencionou-se que o ouro puro tem 24 quilates.  Portanto, quando se diz que uma determinada jóia é feita de ouro de 21 quilates, isso significa que a sua liga  tem 87,5%  (21/24) de ouro e o resto são outros metais não preciosos;  se for de 18 quilates (18/24) tem 75%  de ouro, e assim por diante.

Em sentido figurado, um blogue de  “alto quilate” é aquele que tem alta percentagem de conteúdo com valor. O resto tem menos ou nenhuma importância.

            A outra acepção, nas pedras preciosas, é uma unidade de peso, igual a 200 miligramas. Um diamante de 20 quilates, significa que pesa 4 gramas.

            Porque lhe chamamos “quilate”?

Isso é que tem uma história, que vale a pena contar: as batatas vendem-se e compram-se aos quilos, mas os diamantes (tirando talvez a Elizabeth Taylor e os seus ex-maridos) não se compram aos quilos, mas sim em unidades muito pequenas, que têm de ser pesadas em balanças de alta precisão. Antes de haver balanças electrónicas, era preciso encontrar um peso padrão muito pequeno. 

Os comerciantes decidiram-se então pelas sementes da alfarroba, não só por serem muito leves (mais ou menos os tais 0,2 gramas) como porque antigamente pensavam que tinham a qualidade de serem todas exactamente iguais em peso umas às outras.   Hoje sabe-se que isto não é exacto.  Mas as diferenças eram muito pequenas. Comprar ou vender um diamante ou um rubi, consoante o número de sementes de alfarroba que pesava, acabava por ser suficientemente exacto.

O nome da alfarroba, em português, ficou-nos da ocupação árabe, com a habitual conversão do h aspirado, que por vezes se escreve kh, em f.   Al-kharub, em árabe, é a nossa alfarroba. Aqui em Israel chamamos-lhe Harub.  Em inglês, como sabem, diz-se “carob”.

A semente da alfarroba também vem do árabe “qirat”.  Mas a sua origem é grega. Na Grécia, as sementes da alfarroba chamavam-se keration e daí passou para os árabes..

Do árabe “qirat”, talvez através do francês “carat”, ou do italiano “carato”, nós fizemos “quilate”.

O outro “quilate”, que, como vimos designa a pureza do ouro, tem exactamente a mesma origem. Apenas que não é uma unidade de peso.

Na língua inglesa é costume distinguir duas grafias: carat para o peso dos diamantes e karat para a pureza do ouro.