Arquivo de Fevereiro, 2007

Moreno

Uma história simples, hoje.

O adjectivo MORENO, que deu origem ao apelido igual.   Qual foi a sua origem?

Pois veio de MORA, uma forma antiga de Amora, que em grego era moron e em latim moru(m).   Em português deu-se a prótese, tão comum entre nós, e ficou amora.   Em espanhol e italiano é simplesmente mora.

E aquele que tem a cor da amora, a dar para o escuro, é moreno..

“Morena, morena de olhos castanhos… ” era a filha do boticário nas “Pupilas do Senhor Reitor”, do Júlio Dinis.

E Moreno era o apelido do meu “avô Jacinto” – o tal de Camarate – que provavelmente seria de origem moura.   Ele até nasceu em Mouriscas, no Ribatejo.

No meu tempo de estudante, usávamos no liceu os dicionários de francês do professor Augusto Moreno.   Só passados muitos anos, nas minhas deambulações pelo norte de Portugal, vim a saber que o professor era de Lagoaça, onde ainda existe o solar da família, e que esta era de origem cristã-nova, ou seja de judeus forçados a converter-se ao cristianismo em 1497.

Bem perto de Lagoaça, em Freixo de Espada à Cinta, havia outros membros da família Moreno, entre eles um Norberto Moreno, que foi professor no Instituto Teológico Israelita, do Porto.   E, como em hebraico “morenu” significa “nosso professor”, houve especulações de que fosse essa a origem do apelido.  Pode ter havido alguma coincidência, mas não necessariamente.

O apelido é também muito conhecido em várias províncias espanholas. 

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” “

Não, não é erro tipográfico. O título da minha história de hoje é mesmo assim: ”   “.

Mas, antes de prosseguir, tenho uma declaração a fazer.   Diz um preceito judaico que “Quem publica alguma coisa, indicando o nome de quem a disse, traz salvação ao Mundo”.

E, se tenho uma oportunidade para contribuir para a tão almejada salvação deste espaço em que vivemos, é meu dever aproveitá-la.

O tema do meu artigo de hoje é baseado quase integralmente num artigo publicado, na passada sexta-feira, 2 de Fevereiro, pelo meu amigo Ioram Melzer, na sua coluna semanal, no diário “Haaretz”.

Voltando agora ao meu título.   Qual é a palavra que vêem entre as duas aspas? Isso mesmo, um espaço vazio!

É sobre o carácter espaço que quero conversar hoje convosco.

Como artesão, cuja matéria-prima são principalmente as palavras, concordo inteiramente com o Ioram no muito respeito que devemos ao espaço. Senãohouvesseespaçosqueméqueconseguirialersemmuitotrabalhooque nósescrevemos?

Portanto a história do carácter espaço faz parte integrante da história das palavras.   E tanto assim é que já tive de escrever três vezes as duas linhas acima, pois o meu Word teimava sempre em acrescentar automaticamente os espaços que eu não escrevia entre as palavras.   E, se repararem, no mesmo Word, na ferramenta que conta as palavras do texto, há duas opções para a contagem dos caracteres: com espaços e sem espaços. Isso tem duas explicações.

Uma eu já conhecia: os editores dos jornais e das revistas exigem normalmente que o artigo não exceda N caracteres, incluindo os espaços.   Importante para eles, pelo espaço que a minha prosa vai ocupar no papel.

A outra, eu não conhecia: escreve o Ioram, que também é tradutor, mas de livros, e não como eu de textos mais pragmáticos, que muitos editores agora pagam as traduções pelo número de caracteres, sem contar os espaços.   Estes são gratuitos

Se fosse comigo, mandava-lhes as traduções como na frase exemplo que escrevi acima, sem os espaços, que eles não querem pagar.    E eles que imprimissem assim os livros, para ver quem os comprava!   

A verdade é que o espaço a separar as palavras é uma invenção relativamente recente.    Apareceu algures entre os anos 600 e 800 DC.   

Se prestarem atenção, nas inscrições gregas e latinas, as palavras eram escritas pegadas umas às outras, sem espaços entre elas.

O mesmo sucedia nos textos escritos em pergaminhos. Normalmente eram para ser lidos em voz alta, pelo próprio que os escrevia, ou pelas poucas pessoas que sabiam ler, e que, pela sua cultura, conheciam os textos e sabiam separar as palavras, à medida que as liam

Nas línguas semíticas, hebraico e árabe por exemplo, o espaço apareceu muito cedo, porque nessas línguas só se escrevem as consoantes; as vogais são subentendidas.

E então estão a ver a barafunda que seria se as palavras não estivessem separadas.

Msmnsssm = mais ou menos assim.

Também em escritas hieroglíficas, como o egípcio antigo, ou mais modernamente no chinês ou no japonês, os sinais designam ideias e portanto os espaços são um luxo dispensável.

Parece que foram os irlandeses os primeiros a servir-se do espaço para separar as palavras.

É que eles tinham necessidade de ler as tais inscrições latinas.

Repetindooexercícioquefizacima – um indivíduo que saiba qualquer língua de origem latina, mesmo não compreendendo português, seria capaz de, com algum trabalho e paciência, pelo menos, dividir as palavras.   Mas a língua irlandesa não tem nada de latina, e eles viam-se gregos para distinguir as palavras do latim.

Conclui o Ioram Melcer que os espaços são sobretudo uma contribuição importante para a leitura íntima, em voz baixa, ou mental.    Ler mentalmente um texto, tendo necessidade de, ao mesmo tempo, separar as palavras, é impossível de se fazer sem perder o fio da meada.

Aprendamos, pois, a prestar o devido respeito ao ” “, que se não lê, mas que, se não existisse, as palavras não teriam história.    E os livros, se existem hoje em profusão, como existem, devem a sua existência à leitura tornada possível pelo ” “.

Os senhores editores, que “inventaram” a nova técnica de adquirir gratuitamente os espaços que os tradutores escrevem, deverão ter em conta que saber colocar os espaços nos sítios devidos também é uma arte e um saber.

As horas, os miúdos e o mais que se segue

Dizem que as pessoas felizes não têm relógio.

Portanto, nas civilizações mais antigas, todos os homens devem ter sido mais felizes do que nós, porque contavam (quando contavam!) apenas os dias e as noites, e não tinham noção da sua divisão em períodos mais pequenos.

Os babilónios foram os primeiros a dividir o dia em doze partes.    Cada uma dessas partes representava portanto o dobro de uma das nossas horas.     Depois deles, os gregos, adoptaram o sistema da divisão do dia em doze partes, mas apenas o período do dia em que havia luz.

A palavra grega hora significava inicialmente “período de tempo”.     E os romanos seguiram-lhes o exemplo, mantendo a designação de hora, com o mesmo significado de qualquer “período de tempo”.     Para se compreender melhor que assim era, refira-se que, da mesma raiz que hora, havia na língua Avesta (antigos persas) jare, que tinha o mesmo significado, e dela derivou depois o anglo-saxónico year e Jahr, que vieram a significar “ano”.     Por sua vez, os termos anglo-saxónicos tide e stund tinham também o significado de “período de tempo”

Como a duração da luz diurna varia consoante as estações do ano, também a extensão da hora, sempre um duodécimo do período que vai do nascer do sol ao poente, variava em extensão.    O tempo nocturno simplesmente não se contava.

A hora era portanto um período de tempo indefinido.    Só na Idade Média começámos a distinguir entre um “período de tempo” mais ou menos indefinido e um “período de tempo definido.”    Vejamos, por exemplo, que o termo acima referido tide, (que persiste em inglês para designar determinados tempos, ou estações, como Whitsuntide, a semana que começa no domingo do Pentecostes), deu em inglês moderno time, que significa simplesmente tempo, mas em sueco Timme, que significa hora.    E em alemão, stund, que, como vimos também significava apenas tempo indefinido, passou a significar hora.

Então ainda se distinguia entre as horas temporais (variáveis em duração) e as horas siderais, ( marcadas pelas estrelas), de duração fixa.

Para isso houve que dividir o dia (parte iluminada e parte escura) em 24 partes iguais.

Para facilitar a contagem, houve que dividir a hora em miúdos. E isso dizia-se em latim minuto, uma coisa pequena.

Com o tempo, surgiu a invenção de dividir as unidades em sexagésimos.    O círculo, por exemplo, foi dividido em graus, e cada grau em 60 miúdos, em latim, 60 pequenas partes miúdas, que se dizia pars minuta prima, a primeira parte pequena.

Daí que, por exemplo, o papel onde se detalha, por miúdos, os diferentes pratos que o cliente pode escolher no restaurante, se chamasse em francês menu, termo que depois derivou para o inglês e se internacionalizou, derivando por extensão para a primeira linha do programa informático que estou a utilizar que escrever isto.    O menu das opções do programa.

Mais tarde surgiu a necessidade de dividir ainda mais o tempo, assim como os graus da circunferência.

Necessidade?  Ou tendência masoquista para cercear ainda mais a felicidade do homem que nasceu sem relógio?

Assim, à pars minuta prima (primeira parte pequena), seguiu-se (sequi, em latim) a secunda minuta (a parte pequena seguinte, ou segunda).    Daí derivaram os segundos do relógio, e da circunferência, o segundo artigo do blog, o segundo corredor a chegar à meta, etc.

Sempre o que segue ao primeiro.

Então tornou-se necessário inventar um instrumento de tortura, para nos dizer as horas a cada momento.

Hora + lego (digo) deu horologiu(m) e daí com pequena corrupção, em português – Relógio

Educação em círculos

Escrevem-me comentando que para se manter um blog sobre a história das palavras é necessário um saber enciclopédico.Seria, se o blog tivesse pretensões a englobar todo o saber sobre esta matéria.Não é o meu caso, como já constataram.Já na antiguidade, muitos escritores, como Aristóteles e outros, conceberam a ideia de reunir toda a sabedoria humana num só lugar. Teria sido também essa a intenção com que foram criadas as grandes bibliotecas universais, como a de Alexandria e de Pérgamo.A primeira tentativa para compilar conhecimentos gerais úteis, o que hoje se chamaria talvez cultura geral, pertenceu ao inglês John Harris, através da sua obra Lexicon Technicum (1704).Entre 1768 e 1771, foi publicada uma tanto ou quanto modesta obra, em três volumes, com o formato que hoje apresentam as enciclopédias. Era a venerável Enciclopédia Britânica.Mas a obra que deu mais fama ao novo género literário foi a Encyclopedie, em francês, de Denis Diderot, terminada em 1772.  

Não façam troça de mim, mas a palavra enciclopédia é composta dos elementos gregos en+kuklos+paideia.Comecemos pela parte final. Paideia significa educação.Mais propriamente educação das crianças, dos jovens, educação elementar que qualquer criança deve adquirir. Criança dizia-se país e dai derivaram pediatra, pedagogo, pedante, pajem e pedofilia, etc.De Kuklos derivou círculo, e todas as palavras derivadas de círculo.Portanto ENCICLOPÉDIA é a educação em círculo, ou seja geral, englobando todas as matérias de interesse.Uma enciclopédia é pois uma obra que engloba, de forma facilmente consultável, informação de interesse para qualquer ser humano, atemporal, isto é, que não se desactualiza, e resumida de forma a ocupar um espaço manuseável.Mas há, sim, senhor, indivíduos que são verdadeiras enciclopédias ambulantes.Eu conheci dois homens assim. Não há assunto de que se fale, que eles não desenvolvam logo, com uma autoridade e uma sabedoria de fazer inveja.E como ambos trabalharam na mesma empresa, um colega deles comentava: “O que me desespera não é o não saber tanto como eles. É não saber o suficiente para ter a certeza de que o que eles dizem está certo!”