Arquivo de Julho, 2007

A história da palavra “palavra”

Palavra, palavrinha, que me tinha esquecido desta, o que é imperdoável.

Então eu aqui a alinhavar histórias de palavras, e tinha-me esquecido da história da palavra PALAVRA.

Dei, por acaso, com ela, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do meu douto amigo, Dr. José Pedro Machado, um grande mestre das Palávras.

Palavra – vem do grego parabolé, através do latim paraböla, ae, que significava originalmente “comparação”.

Daí a figura de retórica “parábola”, que conhecemos, por exemplo, das Parábolas de Cristo, em que uma história é contada, para servir de comparação a uma situação real – A Parábola do Bom Samaritano.

]Os Samaritanos são os habitantes da Samaria, hoje uma parte da Palestina. Actualmente este povo está reduzido a cerca de 500 pessoas, metade dos quais habita no Monte Guerizim, na Samaria, e a outra metade, em Holon, Israel, onde vive o seu Sumo Sacerdote. São poucos, mas têm uma vida comunitária muito activa[

Também em geometria se usa a palavra parábola, para designar uma secção cónica.  Ainda se usam muito por aí, para captar emissões de TV via satélite, as chamadas antenas parabólicas, a que já tenho ouvido chamar, com pouco acerto, mas muita graça, as paranoicas”.

Mas demos a palavra, com a devida vénia, ao Dr. Machado:

]Parábola[… depois, na Vulgata, ]tomou o significado de[ palavra (assumpta palavra) «tendo tomado a palavra», em Números, XXIII, 7».    Esta última accepção espalhou-se pelos romances (à excepção do romeno) conseguindo superar verbum ]= palavra [.Parece que no latim vulgar da Hispânia houve uma forma *parabla, postulada por alguns romances locais.» 

Tradutori – traditori dizem os italianos. (Os tradutores são traidores). Eu não diria tanto, neste caso.    O significado do versículo bíblico está certo, tomou a palavra.    Mas a palavra hebraica que lá está, mashal, significa mesmo parábola.

Só por isso, não dizemos hoje verbo, por palavra, e este blogue não se chama «História dos Verbos».

Uma doença é uma encrenca

Esta história eu tive (e tenho) alguma dificuldade em engolir,  mas parece que os factos a confirmam.   E “contra factos não há argumentos” – não esta não dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate; seria demasiado para a sabedoria popular dele.

Procurei nos dicionários e não encontrei nenhuma etimologia para a palavra “encrenca”.

 Mas já encontrei em várias fontes esta explicação bizarra:

Quando começou a imigração judaica da Europa oriental para o Brasil em finais do século XIX, princípios do século XX, algumas mulheres dedicaram-se à profissão a que se usa qualificar de “mais antiga do mundo”.

Tornou-se moda fazer uma visita “às polacas”.

Nessa época as doenças venéreas eram muito comuns. Então, quando se aproximava um cliente que alguma já conhecia como portador do mal, ela avisava as outras em yiddish, a língua judaico – alemã, que falavam entre si: “Ein Krenk” (uma doença ou um doente).   Daí ficou “encrenca”.

Será verdade? Como dizem os italianos, “se não é verdade, é bem achado!”.

Como disse, já encontrei isto referido em várias fontes.  Mas a única que aparenta uma investigação séria, é o livro «Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição», da autoria da escritora brasileira, de origem judia, Beatriz Kushnir. [Dissertação de Mestrado em História, publicada pela Editora Imago, 1996].

A autora debruça-se também sobre as irmandades, associações de auxílio mútuo, fundadas por essas mulheres, em várias cidades brasileiras, com o nome de Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita (SFRBI), que exerciam também as funções funerárias conhecidas como “Hevra Kadisha”.   

Como as comunidades judaicas oficiais as votavam ao abandono, e não lhes permitiam sequer ser sepultadas nos seus cemitérios, elas criaram as suas próprias instituições, assistência para os filhos e para os idosos, e cemitérios próprios.

A verdade é que não encontrei o vocábulo antes de finais do século XIX, e achei-o precisamente no Brasil.

O escritor Emílio de Meneses (1866-1918) usou-o num artigo de jornal e classificou-o como gíria, o que é mais uma indicação positiva, pois hoje essa reserva já não aparece nos dicionários.

“E agora? Como é que se vai deslindar esta.. esta.. esta encrenca! (Não nos encabule o Jornal por usarmos desta gíria: os maus exemplos pegam)”

Portanto, a “encrenca” adquiriu entretanto foros de cidadania na língua portuguesa, dos dois lados do Atlântico..

O doutor da mula ruça

Conversámos ontem sobre os médicos e hoje vamos debruçar-nos sobre os doutores.

Mais propriamente sobre a história do título de doutor, como é jus da índole deste blogue.

Usa-se principalmente para nos dirigirmos aos médicos, mas diz o meu dicionário que a definição geral é “Aquele que recebeu supremo grau em uma faculdade universitária”.

Há já muitos anos que não vou a Coimbra, mas “no meu tempo” na cidade universitária, “doutor” era qualquer pessoa que se sentasse à mesa de um café.    “É então um cafezinho, senhor doutor?” – perguntava-me logo o solícito empregado de mesa, tinha eu os meus 16 anos, mais ano, menos ano.

Na sua origem, em latim, doctor era um professor.   Derivou de doctus, particípio passado de docere, ensinar.

Mas sem irmos novamente à tal língua mãe  indo-europeia não nos desobrigamos do nosso estudo histórico.

Pois a raiz indo-europeia era DOK ou DEK, que deu o grego dokein (pensar) e didaskein (aprender).

Já adivinharam que  didáctico também é parente próximo de DOK ou DEK.

Mas não só.  Este antepassado do doutor encontra-se presente em muitas palavras, que usamos todos os dias, e nem damos por isso: documento, dogma, ortodoxo (com orthos, certo, correcto) e paradoxo (para, em latim, quer dizer contrário a, portanto contrário ao pensamento, ao ensino), e também doutrina, que começou por ser doctrina.  

O médico precisa de viver…

Começarei hoje por vos dar um conselho de amigo: “Nunca queiram estar doentes”.      Porque – dizia o meu avô Jacinto, de Camarate – que “estar doente não é saudável.”  

Se ainda não sabem, ele tinha carradas de razão. 

Contava uma vez o Raul Solnado, que foi ao médico, e que este abriu o «Catálogo das doenças» e escolheu lá umas duas ou três para ele.

Desde então, a essência não mudou.    Em vez do tal catálogo, o médico procura no computador, e facilmente encontra lá as tais duas ou três doenças, para cada paciente que marcou consulta. 

Só que as doenças têm uns nomes mais sofisticados, que as nossas avós, ainda não conheciam, para aplicarem as suas abençoadas mezinhas.

No tempo das avós delas, era o “físico” que lhes fazia concorrência.     Hoje já não lhe chamam assim.    É o médico, para quem o Júlio Dinis cunhou uma figura, que nunca mais desapareceu da nossa linguagem: o “João Semana”.

Vejamos agora como chegámos ao médico, historicamente falando.

Recuemos até à vetusta língua indo-europeia original, da qual mesmo os entendidos sabem ainda muito pouco, mas o suficiente para afirmarem que dela derivam as principais línguas europeias.

Nessa língua existia a raiz MED, que, ao que parece, tinha o significado de “pensamentos equilibrados”.

Encontramos a sua expressão na MEDitação, por exemplo.

Para chegar à meditação, e a meditar, serviram-se os latinos de outra raiz indo-europeia, IES (movimento rápido), que deu o verbo iasthai, que significava dar forças.

Med + isasthai deu medesthai, pensar sobre o assunto, concentrar-se, aconselhar.    O sujeito da acção em latim era o meditor, o que sabe, está ao corrente, está consciente.    Daí meditar, e meditação, no sentido corrente que lhes damos hoje.

O passo decisivo de acalmar, aplacar, amenizar, consolar, tudo isto componentes da ideia de curar, traduzia-se no verbo medeor. 

O agente da acção era o medeorcus, que, com o tempo, se simplificou em MÉDICO.

 Portanto, não tinha razão o Raul Solnado, não senhor.  Os nossos médicos  não se limitam a consultar o «Catálogo das Doenças».    Eles analisam os nossos sintomas, pensam com tudo quanto aprenderam, qual a causa dos nossos males, e receitam-nos o melhor remédio para os aliviar, eliminando as causas.    E quase sempre conseguem.

O que o meu “avô” Jacinto queria dizer, na sua lógica simples de pedreiro, é que os remédios curam umas doenças, mas por vezes provocam outras.

Conheci um sujeito que, quando a mulher o obrigou a ir ao médico, obedeceu, trouxe a receita, foi aviá-la na farmácia, e, quando chegou a casa, à vista da mulher, deitou os remédios todos na pia.

 E explicou: “Fui à consulta, porque o médico precisa de viver. Aviei os remédios, porque o farmacêutico precisa de viver.  E então eu? Não preciso de viver também? Vai tudo para a pia, mas não para o meu corpo!”