Arquivo de Maio, 2008

Há banhos e banhos…

Há palavras que, através da sua história, se aproximam tanto umas das outras, que acabam por nos parecer da mesma família, e não são tal.

Já aqui vos contei sobre a relação – apenas aparente e não real -entre os banhos, que tomamos na banheira, e os “banhos”, que antigamente os noivos eram obrigados a publicar, anunciando o seu próprio casamento, para que, quem tivesse justificada objecção à sua união, se pronunciasse.

E expliquei que, estes últimos têm relação com “abandono, abandonar” (do latim bannum =  proclamação) e nenhuma relação com os banhos de lavagem.

Ou, se têm, não é etimológica, e sobre isso, só por graça, falaremos adiante.

Podem ler outra vez, se quiserem, sobre abandono, em https://steinhardts.wordpress.com/2007/03/27/70/

Hoje quero debruçar-me mais sobre a outra vertente – os banhos na banheira (ou no duche).

Banho vem do latim baneu, que é, por sua vez, uma corrupção de balneu. Por isso, um estabelecimento de banhos se chama balneário.

Em Portugal, foi costume chamar caldas (=quentes) aos balneários de águas minerais, isto porque normalmente eram águas quentes naturais (“Caldas da Rainha”).

Por curiosidade, já que o saber não ocupa lugar – como dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate  – “água quente”, na língua árabe (e também em hebraico) diz-se hamá (pronuncia-se khamá com um h-gutural).  Na cidade de Tibérias (junto ao Mar da Galileia ou Lago Tiberíades) há uma nascente de águas sulfúricas naturais quentes, a que chama Hamat Tveria. E no lado oriental do mesmo lago há outra fonte semelhante, muito frequentada, chamada em árabe Al-Hamá (al é, como sabem, o artigo definido, em árabe) e, em hebraico Hamat Gader.

Em Lisboa, também há uma nascente de água quente natural, a que os mouros chamavam Al-Hamá. Como a língua portuguesa não tem o som gutural Kh, antigamente todas as palavras árabes e hebraicas que se escreviam com esta letra eram transcritas com um f . (Al’hayat deu alfaiate, Harum deu Faro, Albuhera deu Albufeira, etc.).  Assim também Al-Hamá deu Alfama.  Sim senhor, os banhos de águas quentes de Alfama, hoje já em desuso.

Prometi acima voltar a falar dos banhos (de banheira) e da sua relação com o casamento.

Pois aqui vai, e não se riam, porque nem tudo quanto hoje é óbvio, parecia assim nos tempos mais remotos.

A Idade Média é conhecida na história também pela falta de hábitos higiénicos. Tomar banho era visto na sociedade medieval como um acto de vaidade, e até de deboche (pela fama que tinham as caldas romanas). Por isso, só se praticava três ou quatro vezes por ano.

Uma anedota urbana, que tem foros de verdade, é que os casamentos se realizavam normalmente em Junho, porque Maio era mês de banhos e assim os corpos dos noivos ainda conservavam um cheiro mais ou menos suportável.

Isso não era extensivo aos judeus, porque a Bíblia está cheia de preceitos sobre a lavagem obrigatória das mãos, em várias ocasiões, durante o dia, assim como banhos rituais de imersão com grande frequência.

Nem oito nem oitenta – dizia também o meu “avô” Jacinto.  A lavagem também pode ser uma obsessão, doença mental conhecida.

Num dos processos da Inquisição de Lisboa, consta a prisão de um indivíduo que, coitado, sofria dessa doença, e passava os dias lavando-se copiosamente no Chafariz que hoje se chama o Chafariz de Dentro, em Alfama. Foi preso e acusado de… suspeitas de judaísmo.  Por se lavar demasiado… 

Contou-me isto, há muitos anos, um amigo português, professor de medicina, com base na descrição do caso, como exemplo dos sintomas, numa revista científica de medicina.

Aliás, na lista de indícios de judaísmo, para os quais era obrigatória a denúncia e fazia parte de todos os interrogatórios do Santo Ofício, constava sempre: “lavar-se e vestir camisa lavada às sextas-feiras”. Era crime contra a religião…

 

E, já agora,  vem à mão de semear o “banho-maria”.  Isso mesmo, o processo de aquecer um produto, geralmente um alimento, produto farmacêutico, cosmético, etc., dentro de uma vasilha, que se coloca por sua vez dentro de outra vasilha com água quente.  Evita-se assim que o produto seja aquecido a mais de 100º, porque, para cima dessa temperatura, a água se evapora.

A atribuição do nome também se deve a uma lenda… e a um erro de tradução.

Diz a lenda que Maria, ou Miriam, irmã de Moisés, do Egipto, se dedicava a experiências de alquimia. Para essas experiências, ela inventou um aparelho, a que os gregos chamavam kaminos Marias (a chaminé de Maria).  Alguém traduziu erradamente, do grego para o latim, como balneum Mariae, o banho da Maria.  Por isso, os franceses chamaram ao tal instrumento bain-marie. Era assim no século XV.

No princípio do século XIX, quando o termo foi adoptado, na versão francesa, para outros idiomas, já não designava o instrumento da química, mas sim o processo de aquecimento que hoje se chama assim.

Em português “banho-maria” só aparece por essa altura.

Tolerar o sofrimento

Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter amigo já a quem faça dano;
E assim não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da Pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede”

(Luis de Camões – “Os Lusíadas”)

 

 

Assisti, nos últimos três dias, aqui, na Universidade de Bar-Ilan, a um simpósio sobre o tema «Tolerância e Intolerância nas sociedades ocidentais».

Participaram muitos historiadores israelitas e estrangeiros, e entre estes a professora Elvira de Azevedo Mea, da Universidade do Porto.

Na ocasião, o apresentador do simpósio lembrou que tolerância vem do latim tolerare, com o significado de suportar. Suportar, aceitar, o outro, o que é diferente de nós.

E o que é suportar, pergunto agora eu?

Suportar é sub-portare, ou seja transportar, segurando por baixo (sub).

Também sofrer, no sentido em que Camões empregou a palavra na estrofe acima, significa suportar. «Não sofre o peito forte, usado à guerra, não amigo já a quem faça dano». Não se refere a sofrer dores no peito, mas sim a não suportar a falta de oportunidade para combater.

Efectivamente, sofrer, do latim sufferre, significa exactamente o mesmo su(b) = por baixo e ferre = carregar.

E tol, a palavra inicial latina de onde derivou tolerar, também significava levantar, carregar.

Claro que quem tem um sofrimento não tem outro remédio se não suporta-lo.

Ou “dar de beber à dor é o melhor – já dizia a Mariquinhas” pela linda voz da saudosa Amália Rodrigues.

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