Arquivo de Março, 2007

O Vendedor de Palavras

Hoje, como é sábado, deixo-vos apenas uma sugestão útil.

Um história, não de palavras, mas sobre palavras, de que gostei muito.

Aqui vai o endereço… http://www.releituras.com/ne_freynol_vendedor.asp

e depois digam-me coisas.

Bom fim de semana e boas Páscoas, a cristã e a judaica, para todos

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Abandono

Escreveu-me um leitor – arvorado em representante dos restantes – perguntando-me se vos abandonei.

Claro que não abandonei os meus assiduos leitores, que amavelmente não só me visitam com frequência como ainda fazem propaganda do meu modesto blog, junto dos seus amigos.

Mas concordo que tem razão este leitor, quando chama a minha atenção para um facto inegável: se eu não escrever aqui coisas novas com uma certa regularidade, os leitores acabam por se cansar de aqui vir em vão.

A verdade é que o tempo nem sempre abunda, mas isto é afinal uma desculpa de mau pagador – como dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate – porque as pessoas ocupadas são as únicas que sempre encontram uns minutos para as tarefas a que se comprometem.

 O “avô” Jacinto também dizia que “quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele”.     Se eu não tinha tempo para blogar, quem me mandou começar? 

Por falar em abandonar , é evidente que a palavra veio para o português do francês abandonner. 

Mas até aqui não estou a contar história nenhuma.

 História é quando se vai rebuscar um antepassado remoto de uma família, e se seguem os destinos dos seus diversos decendentes, cada um para seu lado, até que, passadas algumas gerações, a relação de uns com os outros já não é evidente. 

Falando de palavras, o antepassado, neste caso, nasceu no latim vulgar sob a forma de bannum, bandum, que significava simplesmente “proclamação”.

Querem conhecer um descendente bastante conhecido?

Quando um homem e uma mulher decidem casar, não têm que publicar os “banhos”?     Estes banhos não têm nada que ver com a banheira.    São simplesmente uma proclamação que se faz de que fulano e fulana pretendem casar-se e quem tiver alguma objecção, tem um prazo para vir a público apresentá-la.

Ora quem faz mais proclamações são os governantes, aqueles que tomam conta de nós e do que nós fazemos.  

Volta, não volta, lá veem eles proclamar mais uma proibição ou mais um imposto.     Em francês antigo quem estava nessa posição era o bandon.

Portanto, se eu me cansava de tomar conta de ti, e tu só me fazias problemas, eu resolvia deixar-te a bandon.    Quem manda, que tome conta de ti.

 Tu ficavas a bandon , ou seja abandonné.       Até aqui entendido? 

Agora vejamos o que sucede quando alguém tenta fazer passar uma mercadoria pela fronteira, sem pagar os direitos devidos ao bandon?

 Ele está a cometer uma falta contra bandon.  É um contrabandista!  Viram como do velho bannum, bandum  descenderam tanto os banhos para o casamento como os Malboro de contrabando? 

Não senhores, não abandonei ninguém.

Panaceias para vida longa e saudável

Li hoje no jornal que caminhar em passo rápido, pelo menos 40 minutos, três vezes por semana, é panaceia para todas as doenças, pois combate a principal causa delas – o excesso de peso.

Com o devido respeito pelo médico, autor do artigo, parece-me haver aqui um pleonasmo, pois “panaceia”, diz o meu dicionário, já significa “remédio para todas as doenças”.

Antigamente, não tão antigamente que não fosse ainda no meu tempo, os médicos, quando acabavam de se formar, faziam um juramento, chamado o Juramento de Hipócrates, muito comprido, que começava assim:

” Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: etc.

Mais modernamente, entenderam que não fazia sentido jurar em nome de deuses gregos e a fórmula mudou.

Na mitologia grega, Esculápio, o deus da medicina, filho de Apolo, teve duas filhas, Hígia e Panaceia.    Higia era a deusa da saúde.     Do seu nome derivou a palavra higiene.    Panaceia tinha a seu cargo a pasta da cura.

Depois que Pandora, por ordem dos deuses, abriu a caixa, que continha todos os males que apoquentam o género humano (lembram-se da “caixa de Pandora”), Panaceia recebeu o encargo de curar todos os esses males.

O seu nome deriva precisamente de “pan” (todo) e “akus” (remédio).     Portanto, uma “panaceia” é um remédio que cura todas as doenças.

Dizem os médicos que o excesso de peso é a principal causa da morte nos nossos dias.     Infelizmente é, pelo menos, o sintoma mais frequente, que hoje já começa na infância.

A minha “avó” Maria, de Camarate, que não ficava atrás do “avô” Jacinto, na sabedoria popular, dizia que “cautela e caldos de galinha não fazem mal a doentes.”.     Ao que ele retorquia que “vale mais coração alegre do que a botica”.     Eu acredito piamente nos dois. 

Mas também não ponho em dúvida a receita de longevidade que o tal médico escreveu hoje no meu jornal.

Uma pessoa que caminhar rapidamente ao ar fresco, três vezes por semana, durante cem anos, com certeza que não morre novo!

Senão, ouçam esta:   Um vizinho meu, que nunca tinha estado doente, sentiu-se indisposto e foi ao médico.     Este não lhe encontrou nada de especial, e até o felicitou pelo excelente estado físico na sua provecta idade.

“Com é que o senhor conseguiu isso?”.

“Vou lhe dizer, senhor doutor.    Quando a minha mulher e eu nos casámos, fizemos um acordo.    Sempre que surgisse entre nós alguma discussão, um de nós saía para a rua, ia dar uma volta, e, quando regressasse a casa, já tudo estaria esquecido.

E o senhor doutor não acha que um homem que passa 60 anos ao ar livre tem de gozar de boa saúde!”

O simpósio e os potes

O meu “avô” Jacinto, de Camarate, vivia numa casa construída por ele, por suas próprias mãos, ajudado pelos filhos, que todos foram pedreiros como ele.  

Quando chegou à aldeia, comprou uma casa em ruínas, e começou logo a ajeita-la, para lá viverem.   À minha “avó” adoptiva, chamavam, lá em Camarate, a “Ti Maria das ruínas.”

Depois a pouco e pouco, quando vinha das obras, onde trabalhava, começou a construir.   Sem arquitecto, nem engenheiro, claro.    Nem queiram saber o estilo daquilo.    A casa ainda lá está.

Água canalizada só tiveram muitos anos depois, quando eu já era um rapazinho e lá ia visitar de quando em quando.    Mas tinham um poço, dentro de casa.

Quando eu era pequeno, os meus “avós” diziam-me para beber só água do pote, que era boa para beber.    E daí, quando aprendi na escola a dizer “água potável”, fiquei a pensar que se chamava assim por ser “água do pote”, que se podia beber.

A verdade é que ambas as palavras vêem da mesma origem: o Indo-Europeu “po”, que nos chegou através do grego e do latim, e que significa simplesmente beber. 

O pote é portanto uma vasilha onde se guarda um líquido para beber.     Há também, como sabem, o “pote do vinho”.

Daqui em diante podemos começar a puxar as “cerejas”, e nunca mais acabar: poção, por exemplo, também é um remédio que se bebe, e potassa, vem do inglês potash (cinzas do pote), etc.

Mas a razão que me fez pensar no pote do “avô” Jacinto, foi o convite que recebi para participar num simpósio na Universidade de Bar-Ilan, aqui em Israel, em Ramat Gan.

É que os gregos antigos faziam uns festins para beberem na companhia uns dos outros.    “Sum” , em companhia, e “potes”, beber, deu o “sumpótěs”, companheiro da pinga.    E com o “sumpótěs” iam ao festim “sumpósion”, onde todos bebiam juntos, e que em latim deu “symposium”.

Por extensão, uma grande reunião, em que, além de beberem juntos, também discutiam assuntos de interesse para todos os participantes, passou a chamar-se um “simpósio”.

Portanto, terei que ir ao tal simpósio, beber alguma coisinha com os restantes convidados e discutir assuntos mais importantes do que pinga…

Quero aproveitar o ensejo para agradecer a simpatia dos muitos leitores, que me escrevem e me encorajam a inventar tempo livre, de que tenho muito pouco, para vir aqui partilhar convosco as histórias, que vou aprendendo.

“Simpatia” é evidente o mesmo “sum” ou “sim” (juntos) mais “pathos” (sentir), ou seja simpatizar com alguém, é sentir o mesmo que a outra pessoa.

E se sentir o contrário da outra pessoa, então tem por ela “antipatia”.    Ou pode não sentir nada, e, nesse caso, tem “apatia”.    

Aquela senhora, ali no fundo, perguntou se “patologia” também vem de “pathos”.     Pois vem sim, minha senhora, então não se sente?    E “pateta” também..

Mas tenham paciência, parem de puxar as cerejas, que são como as palavras; vêem umas atrás das outras.