Arquivo de Setembro, 2011

Onde está o rato?

Já alguma vez sentiram ratos debaixo da pele? Não, pois não! Quem é que pode ter ratos, debaixo da pele? Debaixo da pele temos músculos.

Nem ratos, nem mexilhões. Mexilhões também não.

Em latim rato dizia-se mus.

De mus chegou-nos o inglês mouse (rato), termo com que estamos todos familiarizados, por via do mouse/rato do computador.

E no diminutivo, um rato pequeno, era musculus.

Aos antigos terá parecido que os músculos salientes do corpo humano, nos braços e nas pernas, tinham a forma e os movimentos de pequenos ratinhos. Por isso criaram a palavra músculo, na anatomia humana.

Em francês e inglês ficou muscle (com pronúncias diferentes).

E a que propósito vem aqui o mexilhão?

É que a etimologia é a mesma. Provavelmente a carne do pequeno molusco, debaixo da concha, terá dado a ideia de um pequeno músculo. Em inglês é mussel e em francês moule. De onde, quase irreconhecível, o nosso mexil>mexilhão, que é quem mais sofre quando o mar está bravo, segundo a sabedoria popular, num aviso para o Zé Povinho.

Não fica por aqui a contribuição do rato para a nossa fala.

Conhecem o almíscar?, uma substância de origem animal, proveniente de uma bolsa situada perto do umbigo do almiscareiro, uma espécie de cabrito sem cornos, que habita os vales e as serras do Himalaia, do Tibete e da Sibéria. Com esta explicação é natural que não conheçam. Mas nas perfumarias, por exemplo nos aftershave (loções para depois de barbear), encontramos a designação de musk, um perfume feito à base do almíscar, nome que nos veio da língua árabe, com a mesma origem –al musk. A etimologia aqui é indireta. Veio do sânscrito muska, que significava testículo, novamente porque a forma desta glândula masculina lembrará (talvez, vamos lá!), um rato – mus. Mas já ouvi dizer que a ingestão do mexilhão favorece a fertilidade. Terá ligação?

A glândula, pela qual o tal cabrito segrega o almíscar, pareceu aos persas um testículo. Então pegaram no nome do testículo em sânscrito, e fizeram mushk para o perfume.

Já chega de palavras de origem esquisita? Ficamos por aqui?

Antes, porém, vamos tomar um cálice do delicioso vinho Moscatel de Setúbal.

Quando eu era pequeno, pensava que a uva moscatel tinha que ver com as moscas que pousavam nela, por ser doce.

Mas não tem que ver, não senhor. Nas outras línguas é muscat ou muskat. Tem que ver com a noz moscada (almiscarada), que em inglês se chama nutmeg. Este meg vem do latim muscus, novamente relacionado com o ratinho… Mas através do musk/almíscar, por causa do perfume da noz e da uva…

Muscat, ou Mascate em português, é a capital do sultanato de Oman, e já foi possessão portuguesa. Mas aí já não sei se há ligação.

Entretanto, se lhes perguntarem o que tem que ver o rato do computador, com os vossos bíceps e com o vinho moscatel, já não podem dizer que não sabem.

Os nossos dedos

Hoje em dia, vivemos num mundo digital. Temos relógios digitais, fotografias digitais, televisão digital… provavelmente já se pode ir a um café e beber uma bica digital.

A palavra “digital” chegou-nos do latim, onde significava “dedo”, aquilo que nós e muitos outros animais temos nas extremidades das mãos e dos pés. Como era fácil contar pelos dedos, a palavra “dígito” evoluiu para designar “algarismo”. Um número de telefone, em Portugal, tem agora, nove dígitos.

Antes de chegar ao latim, a palavra existiu na língua comum indo-europeia (de que derivou a maioria das línguas da Europa, além do sânscrito na Índia e suas ramificações), onde se dizia deik, e significava “apontar”. Com os dedos aponta-se.

Mas, da mesma palavra derivou o verbo “dizer” (originalmente “dizer” era apontar, mostrar).

Um sistema digital é um conjunto de dispositivos de processamento, armazenamento e transmissão de dados, usando valores discretos (descontínuos). Utilizam-se para isso sistemas de numeração binários, ou seja em que os únicos dígitos empregues são o “0” e o “1”, com os valores de “sim” ou “não”, “aceso” ou “apagado”.

O sistema a que estávamos habituados antes era o analógico, que usa um intervalo contínuo de valores, para representar informação. Temos relógios digitais e relógios analógicos, como temos televisão analógica e televisão digital.

Ora quase todos nós nascemos com 5 dedos em cada mão. Digo quase todos, porque um colega meu no liceu tinha 6 dedos numa mão. Mas isso são excepções: polegar, indicador, médio, anelar e mínimo.  Com excepção de “polegar”, que veio do latim “pollicaris”, cuja origem não encontrei, todos os outros têm significados claros para nós.

Detenhamo-nos apenas no “anelar”, o dedo da mão esquerda onde, nas culturas ocidentais, se coloca o anel de casamento. Porquê precisamente nesse dedo e na mão esquerda.

Para aprendermos isso temos que recuar até à civilização egípcia, onde se simbolizava a união entre marido e mulher, através de pulseiras e correntes. Com o andar dos tempos, passaram a usar, para esse efeito, o anel que tinha um significado religioso, relacionado com o sol e a lua. Quando Alexandre da Macedónia conquistou o Egipto, em 332 A.C., o costume espalhou-se pela Europa e pelo Ocidente.

Os cientistas egípcios, que estudaram a anatomia humana, revelaram que no quarto dedo da mão esquerda nasce um nervo que vai ter directamente ao coração Portanto o “nervo do amor”. Também houve quem dissesse que era a “veia do amor”. Por isso, nos ficou a tradição de usar a “aliança de casamento” no dedo anelar da mão esquerda.

Em latim, o dedo anelar (digitus annularis) também foi chamado “digitus medicinalis” (o dedo do médico). Esta última designação foi conservada na língua alemã – “arztfinger”. Os etimologistas estão muito divididos em relação à origem deste nome. Muito provavelmente não teria que ver com médicos, mas sim com curandeiros, que atribuíam a esse dedo qualidades mágicas de cura. Talvez pelo mesmo motivo do nervo ou da veia que vai para o coração.

Quanto ao dedo mínimo, também o povo lhe chama “o dedo da orelha”, por razões óbvias apropriadas às suas pequenas dimensões.