Arquivo de Agosto, 2011

O crime da camisa lavada

Camisa é uma palavra árabe (kemiz) que entrou não só no português como em várias línguas latinas.

É uma palavra muito citada nos processos da Inquisição, onde os cristãos-novos, judeus forçados a converter-se ao judaísmo, no século XV, eram frequentemente acusados pelos seus vizinhos de “vestirem camisas lavadas na sexta-feira”, e isso era interpretado como sinal de que “judaizavam”.

Não é que aos cristãos fosse proibido vestir camisa lavada, em qualquer dia. Mas os judeus guardavam o sábado, seu dia santo, e, por isso, tomavam banho na sexta-feira, e mudavam de camisa, para entrarem no dia santo puros e limpos.

Não se riam por alguém tomar banho uma vez por semana (pelo menos), porque naquela época ainda não havia o hábito de tomar banho. Tomar banho todas as semanas era pelo menos estranho, se não condenável.

Nos séculos XVI e XVII, tomar banho regularmente era uma afronta para a saúde, desaconselhada pelos médicos. Hoje dizemos que nos devemos lavar com frequência, para limpar e alargar os poros da pele, por onde o corpo respira. Naquela época, a classe médica pensava que os poros abertos eram um convite às doenças malignas, para entrarem no corpo humano.

Um banho por ano, com muito cuidado, por alturas da primavera, já era uma concessão. Por isso foram inventados os perfumes. Mas isso é outra conversa…

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, acharam muito estranho, e faziam troça dos indígenas, que se lavavam muitas vezes ao dia.

Também num dos processos da Inquisição há uma denúncia contra um indivíduo, por tal sinal cristão-velho, que sofria de uma doença maníaco-obcessiva, e estava o dia inteiro no Chafariz de Dentro, em Lisboa, a lavar-se.

Os muçulmanos têm hábitos absolutamente diferentes, como se sabe, e ao lado de cada mesquita há sempre um chafariz público, para se lavarem as mãos e os pés, antes de entrar. Na Guiné, por exemplo, era costume os indígenas andaram por toda a parte com uma cafeteira de água na mão.

Os judeus tinham obrigatoriamente os seus banhos públicos, não só para a preparação para o sábado, mas para diversas outras ocasiões, mandatórias pela Torah. E a lavagem das mãos é obrigatória sempre, antes da comida, e depois de fazer as suas necessidades.

Assim, depois dos judeus terem sido convertidos pela força, deveriam também deixar de tomar banho e de mudar de camisa na sexta-feira. Esse era um dos quesitos dos interrogatórios e, a provar-se, era sinal de que o réu, apesar de cristão, continuava a praticar costumes judaicos.

Os vizinhos cristãos-velhos, sobretudo se lhes tinham ódio ou inveja, se os viam mudar de camisa na sexta-feira, corriam logo a denunciá-los.

Frases como esta (copiada de um blogue): “Ouviu dizer que Vila Nova de Cerveira ia ter um orçamento participativo e como não pode ver “uma camisa lavada” no vizinho….” têm precisamente a origem neste antigo costume.

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Caiu como a sopa no mel

Algum de vocês já comeu sopa de mel? Eu não. Penso mesmo que, se existe, deve ser enjoativa. Pelo menos no sentido que hoje damos à palavra “sopa”, tal como a encontramos nos cardápios dos restaurantes.

“Caldo gordo ou magro de legumes, ou outras substâncias, que se serve no começo das duas principais refeições.” (Dicionário Priberam).

Nem me parece muito natural a sopa cair no mel. O contrário vá que não vá: Uma colher de mel cair na sopa… é possível, mas estraga a sopa.

Contudo lemos e dizemos com frequência que tal coisa ou tal acontecimento “caiu como sopa no mel”, isto é, aconteceu como nos convinha, estava mesmo a calhar.

Explicação? Pois tudo tem sempre uma explicação. É que o significado original de “sopa” não é o caldo, mas aquilo que o caldo ensopa. Mais propriamente o pedaço de pão, que se come molhado num líquido.

Nos meus tempos de menino, em Camarate, eram comum os trabalhadores do campo e da construção, ao “mata-bicho” (aquilo a que nós chamamos o “pequeno almoço” ou o “cafezinho da manhã”), ao saírem para o trabalho, ainda antes do sol nascer, comerem uma “sopa de cavalo cansado” – uma malga bem cheia de pedaços de pão da véspera, embebidos em vinho tinto.

“Fazer sopas” era deitar pedaços de pão dentro de um líquido.

Temos, pois, que cair o pedaço de pão dentro do mel é realmente muito agradável e desejado, que combina muito bem.

Eis a segunda definição da Priberam para “sopa”:

 Qualquer pedaço de pão embebido em caldo ou em outro líquido.”

 

Que tudo quanto vos aconteça caia sempre como a sopa no mel.

Fazer tijolo

Nos meus tempos de estudante do liceu, eu morava em Lisboa, na rua dos Anjos e frequentei a Escola Portugália (hoje Externato Portugália), na Rua Palmira.

A Escola ficava quase no extremo sul da rua, no que então se chamava o Bairro Andrade, por onde passava a linha do “elétrico” para a Graça. Para norte, passado o Jardim dos Anjos, que envolvia a igreja do mesmo nome, e antes de chegar ao Bairro das Colónias, a Rua Palmira cruzava-se com o Caminho do Forno do Tijolo. Hoje creio que se chama Rua do Forno do Tijolo.

Obviamente, houve ali, em tempos idos, um forno para o fabrico de tijolos.

No fim dessa rua, cruzavamos a linha do elétrico, que depois subia a Angelina Vidal (escritora, republicana e feminista), até à Graça.

Se, em vez de subirmos pela Angelina Vidal, tomassemos à direita a Rua de Damasceno Monteiro (que foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa), iriamos ter à Calçada do Monte e às Olarias (rua e largo).

Forno de Tijolo e Olarias sugerem a existência de barro naquela zona. Efectivamente o terreno ali é argiloso. Por isso, se instalaram ali, no passado, as indústrias de fabrico de louça de barro, e de tijolos para a construção.

Se recuarmos no tempo, até aos séculos XIV e XV, quando em Lisboa havia uma significativa população de mouros e de judeus, sabemos que estes eram obrigados a viver em bairros separados. Os mouros nas Mourarias, a de Lisboa na área ainda hoje designada por esse nome; e os judeus nas Judiarias, das quais a principal ficava numa zona desaparecida durante o terramoto de 1755, mais ou menos entre a igreja da Madalena, e as ruas da actual Baixa. Ambas as comunidades tinham os seus cemitérios próprios, afastados das zonas de habitação.

Existem diversas grafias do termo árabe, almocavar, usado para designar os cemitérios. O dos judeus ficava onde hoje se situam a Rua do Benformoso e o Largo do Intendente Pina Manique, subindo pelas ruas da Bela Vista do Monte e do Terreirinho (actuais), até quase ao Largo das Olarias, onde provavelmente confinava com o almocavar dos mouros, que descia das Olarias pela vertente do Monte de S.Gens.

Os mouros foram expulsos de Portugal em 1497, quase ao mesmo tempo que os judeus foram forçados ao batismo cristão. Os dois cemitérios deixaram de ter uso. Mas também não houve nenhum respeito humano pelo repouso eterno dos finados ali sepultados. D. Manuel decretou que ambos os terrenos fossem usados como logradouros públicos. Com uma excepção: não se deviam  usar as pedras dos túmulos e cabeceiras, porque destas o rei Venturoso havia feito mercê à “fábrica” do Hospital de Todos-os-Santos, que havia mandado construir, e iria demarcar definitivamente o limite oriental do Rossio, do lado onde se encontra hoje a Pastelaria Suissa.

Quando da construção do Metropolitano de Lisboa, em vão procurei informar-me se nas obras haviam sido encontradas algumas inscrições sepulcrais hebraicas. Só tive conhecimento de uma única pedra em árabe, que manifestamente provinha do almocavar mouro.

Portanto, quando do terramoto de 1755, já não existiam aqueles dois cemitérios de Lisboa Antiga.

Depois da violenta destruição resultante do sismo, houve uma falta enorme de materiais de construção, sobretudo de tijolos, o material mais empregue nas  obras de reconstrução da cidade.

O Forno do Tijolo teve de funcionar em ritmo acelerado, produzindo o mais possível, e aproveitando toda a argila disponível, onde quer que a houvesse.

Não se estranhará pois que, dentro desses tijolos, fossem encontradas, com uma certa frequência, restos de ossadas humanas.

Isso tornou-se do domínio público e alvo de muitas conversas. Daí que, quando alguém falecia, se começou a dizer, na linguagem popular, “já está a fazer tijolo”.

É esta a origem da expressão popular usada já em todo o país.

Paz às almas dos mortos, cujos despojos humanos os humanos não souberam respeitar.