Arquivo de 24 de Janeiro, 2015

Subsídios para a ortografia do H (agá) gutural em português

A oitava letra do nosso alfabeto, o agá (h), não tem som algum em palavras nativas da língua portuguesa.

Nós dizemos otel (por hotel), ospital (hospital), oje (hoje), Erminia (Hermínia), etc.

O tão contestado Acordo Ortográfico de 1991, faz uma tentativa para mandar definitivamente o h inicial “fazer tijolo”, suprimindo-o.

Quando, porém, o h provem da etimologia da palavra, a sua supressão torna-se escandalosa.

E, no meio da palavra, ele é imprescindível quando faz parte dos dígrafos ch, nh, lh.

Tudo bem, quando se trata de palavras nativas.

Mas que fazer quando queremos transcrever palavras estrangeiras? Se na língua original a palavra se escreve em caracteres latinos, não há problema. Mas, se na língua original, ela se escreve com caracteres diferentes dos latinos, então teremos que utilizar o carácter mais próximo do respectivo fonema.

E se esse fonema não existe na língua portuguesa? Aí temos um problema.

O agá gutural é um desses casos.  Em português não temos palavras com agá gutural. Em muitos casos nem somos capazes de pronunciar palavras estrangeiras, que contêm esse fonema. Se a palavra se escreve com caracteres latinos (Juan, em espanhol, Ich em alemão) então mantemos a ortografia original e pronunciamos o mais próximo possível do que ouvimos. É frequente servimo-nos do fonena rr (duplo r), uvular sonoro.

Um caso típico é da letra Het da língua hebraica, e da sua equivalente na língua árabe.

Na Idade Média, em Portugal, adoptava-se a sua substituição pela letra F. Al-Hayat deu Alfaiate. Al-Hama (quente, fonte de água quente) deu Alfama; Al-buhera (lagoa) deu Albufeira, Mordehai (Mardoqueu) deu Mordofai, Hasson e Haim (nomes próprios) deram Fasson e Fayim. Vejam-se as referências nas Chancelarias dos nossos reis.

Este caso do nome próprio hebraico é curioso. Quase todos os judeus portugueses com o nome hebraico Haim estão registados actualmente com o nome português Jaime, e não Faim, como na Idade Média. Jaime em latim deriva do hebraico Jacob, e não de Haim. Porém, na moderna comunidade judaica de Portugal, as famílias que vieram de Marrocos espanhol, escreviam o J espanhol  por H, assim os Haim ficaram Jaime.

Os Haim ashkenazis, que escreviam à maneira alemã, com Ch, ficaram Chaim, e então os portugueses liam ch como em chapéu – Chaim (xaim).

Uma das primeiras associações  de beneficência criadas pelos judeus vindos de Marrocos foi a Someh Nofelim  (Amparo dos que caem). Em espanhol escreviam Somej Nofelim, e assim ficou até aos dias de hoje em Lisboa. A Associação da Juventude Israelita, criada em Lisboa inicialmente por judeus polacos, escrevia o seu nome Hechawer (o amigo). Mas logo se associaram judeus sefarditas e então passaram a escrever Hehaver.

No Brasil predominou a influência os imigrantes judeus da Alemanha e da Polónia, e mantiveram a grafia do alemão para as palavras hebraicas. Esse erro brasileiro está agora a contaminar Portugal. Os lisboetas que vêem a “Chanukiah”, que o movimento “Chabad” acende todos os anos no Parque Eduardo VII, lêem na respectiva placa, logicamente, o “ch” de chapéu, e então sai asneira. Os espanhóis não fazem assim, porque escrevem na sua grafia local Januquia, Jabad e Janucá, e pronunciam como originalmente em hebraico.

A pronúncia rr persiste na fala e não na escrita. Tenho ouvido “sorrnut” (Agência), “ratul” (gato), Rein (nome próprio feminino), Raifa (Haifa) etc.

Como solucionar o problema? Eu lancei uma sugestão: utilizar um carácter que não existe na língua portuguesa, mas facilmente produzido nos computadores, o Ḥ (agá com ponto em baixo) e convencionar que ele serviria para escrever o H gutural das línguas semíticas. E então teríamos  Ḥabad, Ḥaim, Ḥanucá, etc.

E ficariam resolvidos problemas comuns  de escrita como Chaḥarit (oração da manhã), Minḥá (e não minha, tua), Cheḥitá (degolação de animais), e não Shechita = sechita).

Para isso seria necessária uma decisão da Academia de Ciências. E vozes de burro não chegam à Academia.

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Kosher ou cacher

Vamos tentar acabar, de uma vez para sempre, com as dúvidas sobre o termo a utilizar para designar os produtos alimentares cujo consumo é permitido pela religião judaica?

Em Portugal produzem-se hoje cada vez mais produtos tradicionais, sob supervisão rabínica, que se destinam a ser vendidos, no mercado interno ou para exportação, com certificado de que não infringem as regras a que os judeus religiosos são obrigados a obedecer.

Esses produtos são designados em hebraico como “cacher” (כשר), palavra que significa “próprio”, no sentido de adequado, apropriado, apto, conveniente. Não se aplica apenas a produtos alimentares, mas também a outros produtos do dia-a-dia, para os quais hajam regras especiais de consumo (por exemplo os tecidos do vestuário).

Também os muçulmanos têm uma designação especial para os produtos que lhes é permitido consumir, e que eles designam como ḥalal (حلال).[i]

Ora, se a palavra hebraica para esses produtos é cacher, porque razão, em textos em inglês escrevem kosher? A explicação é simples: é este o nome que lhes dão, nos Estados Unidos. A palavra kosher não existe na língua hebraica, falada em Israel. É apenas uma variante de pronúncia usada, fora de Israel, por alguns judeus originários da Europa Oriental. Há entre os judeus algumas variantes regionais para a leitura de algumas consoantes e sinais diacríticos (aqueles pontinhos que se colocam nas letras, em diversas posições). Quem não lê hebraico não tem que se preocupar com isso. Mas vou dar-vos alguns exemplos, como ideia geral. Um sinal diacrítico que em Israel se lê “a”, no Iémen é lido “o”.  Baruḥ (Spinosa), os iemenitas dizem Boruḥ. Na Polónia, o mesmo sinal é “u” – Bureḥ, e na Alemanha é “o”, como no Iémen. Porquê? Nas diferentes línguas semíticas do Próximo Oriente existiam essas diferentes pronúncias, e os judeus que se espalharam pelo mundo levaram a pronúncia da região em que viviam. Há uma letra que, em hebraico, varia, conforme um dos seus pontos diacríticos, ou se lê B ou se lê V (lembra o português do Porto, não é?), mas para os judeus da Península Ibérica e de Marrocos é sempre B. Há outra letra que em Israel é sempre T, e que para os judeus da Europa oriental umas vezes é T, outras abranda em S. Sábado (que significa “dia de descanso), é Chabat, em hebraico, e como tal chegou à língua portuguesa, por via eclesiástica. Mas na Polónia e na Rússia era Chabess. Mas nós, em Portugal, não dizemos “a guit Chabess”, pois não? Dizemos “Chabat Chalom”[ii]

Da mesma forma não dizemos “cocher” nem escrevemos “kosher”.

Os americanos receberam o vocábulo dos imigrantes judeus da Europa e até o inseriram nos seus dicionários – Kosher! Os ingleses também escrevem assim e pelas mesmas razões. Portanto, quando escrevemos em inglês devemos mesmo escrever “kosher” se quisermos ser entendidos e sobretudo se quizermos vender os nossos produtos para aquele país. Justifica-se absolutamente que os comerciantes desses produtos os designem como “kosher”, para exportação. Agora que uma casa de abate do Alentejo venda aos judeus de Lisboa “frangos kosher”, desculpem mas está errado! Tão errado como já ouvi dizer também a um alentejano que tal dia ia haver “sexita”, quando estava a tentar ler a palavra “Cheḥita” que lhe escreveram “Shechita”, não conhecendo valor para o h que se segue ao s. Ele estava a ler bem, quem errou foi quem escreveu!

Não digo isto por pretensão, acreditem. É que, quando ouço portugueses dizer “Salon chaverim” ou “Chanucá”(ch de chapéu) fico com pena por estarmos a difundir ignorância.

[i] Não estranhem esta letra ḥ (h com um ponto em baixo) que não existe em português. É uma adaptação minha para indicar o h gutural, um fonema para o qual não existe letra no alfabeto português. Darei a minha explicação e apontarei para as alternativas noutro artigo. Por agora basta que notemos que corresponde ao som da letra “j” em espanhol, como em Juan.

[ii] Já sei que me vão dizer que Chabat e Chalom se escreve  com Sh. Mas essa combinação de letras Sh não existe na língua portuguesa. Não escrevemos Shapeu, pois não? Então devemos de escrever Chabat e Chalom.