Fazer tijolo

Nos meus tempos de estudante do liceu, eu morava em Lisboa, na rua dos Anjos e frequentei a Escola Portugália (hoje Externato Portugália), na Rua Palmira.

A Escola ficava quase no extremo sul da rua, no que então se chamava o Bairro Andrade, por onde passava a linha do “elétrico” para a Graça. Para norte, passado o Jardim dos Anjos, que envolvia a igreja do mesmo nome, e antes de chegar ao Bairro das Colónias, a Rua Palmira cruzava-se com o Caminho do Forno do Tijolo. Hoje creio que se chama Rua do Forno do Tijolo.

Obviamente, houve ali, em tempos idos, um forno para o fabrico de tijolos.

No fim dessa rua, cruzavamos a linha do elétrico, que depois subia a Angelina Vidal (escritora, republicana e feminista), até à Graça.

Se, em vez de subirmos pela Angelina Vidal, tomassemos à direita a Rua de Damasceno Monteiro (que foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa), iriamos ter à Calçada do Monte e às Olarias (rua e largo).

Forno de Tijolo e Olarias sugerem a existência de barro naquela zona. Efectivamente o terreno ali é argiloso. Por isso, se instalaram ali, no passado, as indústrias de fabrico de louça de barro, e de tijolos para a construção.

Se recuarmos no tempo, até aos séculos XIV e XV, quando em Lisboa havia uma significativa população de mouros e de judeus, sabemos que estes eram obrigados a viver em bairros separados. Os mouros nas Mourarias, a de Lisboa na área ainda hoje designada por esse nome; e os judeus nas Judiarias, das quais a principal ficava numa zona desaparecida durante o terramoto de 1755, mais ou menos entre a igreja da Madalena, e as ruas da actual Baixa. Ambas as comunidades tinham os seus cemitérios próprios, afastados das zonas de habitação.

Existem diversas grafias do termo árabe, almocavar, usado para designar os cemitérios. O dos judeus ficava onde hoje se situam a Rua do Benformoso e o Largo do Intendente Pina Manique, subindo pelas ruas da Bela Vista do Monte e do Terreirinho (actuais), até quase ao Largo das Olarias, onde provavelmente confinava com o almocavar dos mouros, que descia das Olarias pela vertente do Monte de S.Gens.

Os mouros foram expulsos de Portugal em 1497, quase ao mesmo tempo que os judeus foram forçados ao batismo cristão. Os dois cemitérios deixaram de ter uso. Mas também não houve nenhum respeito humano pelo repouso eterno dos finados ali sepultados. D. Manuel decretou que ambos os terrenos fossem usados como logradouros públicos. Com uma excepção: não se deviam  usar as pedras dos túmulos e cabeceiras, porque destas o rei Venturoso havia feito mercê à “fábrica” do Hospital de Todos-os-Santos, que havia mandado construir, e iria demarcar definitivamente o limite oriental do Rossio, do lado onde se encontra hoje a Pastelaria Suissa.

Quando da construção do Metropolitano de Lisboa, em vão procurei informar-me se nas obras haviam sido encontradas algumas inscrições sepulcrais hebraicas. Só tive conhecimento de uma única pedra em árabe, que manifestamente provinha do almocavar mouro.

Portanto, quando do terramoto de 1755, já não existiam aqueles dois cemitérios de Lisboa Antiga.

Depois da violenta destruição resultante do sismo, houve uma falta enorme de materiais de construção, sobretudo de tijolos, o material mais empregue nas  obras de reconstrução da cidade.

O Forno do Tijolo teve de funcionar em ritmo acelerado, produzindo o mais possível, e aproveitando toda a argila disponível, onde quer que a houvesse.

Não se estranhará pois que, dentro desses tijolos, fossem encontradas, com uma certa frequência, restos de ossadas humanas.

Isso tornou-se do domínio público e alvo de muitas conversas. Daí que, quando alguém falecia, se começou a dizer, na linguagem popular, “já está a fazer tijolo”.

É esta a origem da expressão popular usada já em todo o país.

Paz às almas dos mortos, cujos despojos humanos os humanos não souberam respeitar.

6 Responses to “Fazer tijolo”


  1. 1 Manuel Poppe 23 Agosto 2011 às 4:28 pm

    Um texto interessantíssimo e importante. Um estilo vivo, carregado de humanidade,

  2. 2 abraham peer plocker 23 Agosto 2011 às 10:10 pm

    História imortantissima,muito bem escrita .
    Abraham Peer Plocker

  3. 3 Lea Gordon Lipszyc 23 Agosto 2011 às 11:44 pm

    Muito interessante, educacional, e extrremamente bem escrito .
    Lili

  4. 4 José Carp 24 Agosto 2011 às 9:17 am

    Não podendo estar juntos na vida, juntámo-nos na morte… por isso o cemitèrio Judaico nos Açores tem o nome de ‘Campo da igualdade’. Que a Paz um dia possa juntar-nos a todos na vida.

  5. 5 albino cardoso 25 Agosto 2011 às 4:49 am

    Como sempre o meu amigo escreve artigos muito bem documentados e interessantes.
    Um abraco de amiozade.

    Shalom

  6. 6 Maria J. Falcão 27 Agosto 2011 às 9:13 pm

    Gostei imenso! Desconhecia, claro… Traz sempre coisas interessantes e muito bem explicadas! Um grande abraço


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