“Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter amigo já a quem faça dano;
E assim não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da Pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede”
(Luis de Camões – “Os Lusíadas”)
Assisti, nos últimos três dias, aqui, na Universidade de Bar-Ilan, a um simpósio sobre o tema «Tolerância e Intolerância nas sociedades ocidentais».
Participaram muitos historiadores israelitas e estrangeiros, e entre estes a professora Elvira de Azevedo Mea, da Universidade do Porto.
Na ocasião, o apresentador do simpósio lembrou que tolerância vem do latim tolerare, com o significado de suportar. Suportar, aceitar, o outro, o que é diferente de nós.
E o que é suportar, pergunto agora eu?
Suportar é sub-portare, ou seja transportar, segurando por baixo (sub).
Também sofrer, no sentido em que Camões empregou a palavra na estrofe acima, significa suportar. «Não sofre o peito forte, usado à guerra, não amigo já a quem faça dano». Não se refere a sofrer dores no peito, mas sim a não suportar a falta de oportunidade para combater.
Efectivamente, sofrer, do latim sufferre, significa exactamente o mesmo su(b) = por baixo e ferre = carregar.
E tol, a palavra inicial latina de onde derivou tolerar, também significava levantar, carregar.
Claro que quem tem um sofrimento não tem outro remédio se não suporta-lo.
Ou “dar de beber à dor é o melhor – já dizia a Mariquinhas” pela linda voz da saudosa Amália Rodrigues.
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