Proletários de todo o Mundo…

Tanto como me é grato constatar o número bastante razoável de visitantes, que honram este blogue com a sua presença, (vejam o contador aqui à vossa direita) me preocupa o facto de alguns deles insistirem em me considerar uma “autoridade” em etimologia.

Nunca será demais insistir que esta não é a minha especialidade. Posto que palavras são a ferramenta com que trabalho, tenho uma natural inclinação para aprender a sua história.  É tudo!  Além de que tenho gosto em partilhar convosco o que vou aprendendo, e aprendo mais com os vossos amáveis comentários, que muito agradeço.

Um dos aspectos aliciantes deste interesse comum é o facto de que muitas vezes lidamos com uma palavra quase todos os dias, aceitamo-la como facto consumado, e nem sequer reparamos na inesperada origem que está ali mesmo perante os nossos olhos.   Até que ela nos dá um sinal de vida, acena para nós e diz: “Olá, estou aqui!”

A palavra de que me quero ocupar hoje chegou à nossa língua no século XIX, pela pena dos escritores, como Eça de Queiroz, por exemplo: “Jesus foi um proletário, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galileia…”   (Correspondência de Fradique Mendes).

Entrou no uso vulgar depois de que Marx e Engels publicaram o célebre «Manifesto Comunista”, em 21 de Fevereiro de 1848.  “Proletários de todo o Mundo  uni-vos”.  Até em russo, o vocábulo é quase o mesmo: Пролетарии каждого, я объединил вас!”.  “Proletarii”

No dicionário é sinónimo de “trabalhador”, e quantos de nós nos demos antes ao trabalho de ler a continuação do verbete?

Confesso que, até ontem, ao ler uma notícia de um jornal em hebraico, que até não tinha nada que ver com o manifesto, nunca tinha reparado no componente que salta mesmo à vista em proletário – prole!

E prole, diz o mesmo dicionário, é descendência, geração.  

Prole, por sua vez, também tem a sua história.  Deriva da raiz “-ol”, que significava nutrir, e que nos deixou outros derivados, como adolescente e prolífero, por exemplo. Quem diria?

A nossa prole são, pois, os filhos e os netos que temos.  E que tem que ver os filhos com os trabalhadores?

Pois aí é que vem a parte mais interessante da história.

Na antiga Roma, os cidadãos importantes eram aqueles que se salientavam nas letras, na filosofia, na política, mas sobretudo na guerra: os soldados das legiões romanas.

E a gente das classes mais baixas, para que servia? Ah, pois servia, sim senhor, foi-lhes reconhecido um valor: gerar filhos, para aumentar a população, substituir os soldados que morriam nas campanhas, e fornecer novos legionários.

O seu contributo para o Estado romano era a sua prole. Chamavam-lhes, por isso, os prõletãrius.

Os franceses, salvo erro, criaram o proletariado, como classe de trabalho, para os distinguir dos que arrecadavam o dinheiro, produto desse trabalho.

Por isso, Marx e Engels apelaram para a união dos “proletários de todo o Mundo”.

2 Responses to “Proletários de todo o Mundo…”


  1. 1 al cardoso 30 Dezembro 2007 às 1:47 pm

    Eu bem me queria parecer, que essa palavra nao tinha nada a ver com o comunismo e ainda bem!

    Embora o nosso ano novo ja tivesse sido ha uns meses atraz, nao deixo de lhe desejar um bom 2008.

    Um abraco do d’Algodres.
    Shalom

  2. 2 Ladybird 2 Janeiro 2008 às 12:42 am

    Bom 2008!!!!
    E muitos posts sobre a origem das palavras.
    Obrigada


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s





%d bloggers like this: