Idiotas e privados

Passei aproximadamente uma semana a perseguir um “verme”, que se me introduziu no computador, e no final ficou só o que me apareceu ser um problema: um programa que se lançava sozinho, sem ninguém o encomendar.

Só hoje cheguei à conclusão de que o programa que eu teimava em impedir que corresse, era absolutamente necessário para o funcionamento de outro programa.

Resolvido o problema, lembrei-me do provérbio bastante conhecido em todo o mundo: «Deus ajuda sempre as crianças e os idiotas».

Idiota, em qualquer matéria, é uma pessoa comum, que não tem conhecimentos especializados nessa matéria. Por isso me incluo na categoria.

Senão, vejamos: originalmente, na língua grega, ídios, significava “particular, privado”, que não exercia nenhum cargo oficial.  Por extensão veio a designar uma pessoa comum, que não se distingue de todas as outras.

Em meados do século XV, o frade agostinho inglês John Capgrave (1393 – 1464), refereia-se aos apóstolos de Jesus como “twelve idiots”, ou sejam as doze pessoas comuns, que seguiram Jesus.  Já vêem que não tinha naquela altura o sentido derrogatório que hoje tem, de indivíduo rústico, pouco instruído ou pouco inteligente. 

  Esse sentido chegou-nos através do francês medieval idiote, que, no século XIII chegou também à língua inglesa, como idiot.

Na língua latina havia outra palavra sinónima do grego ídios: dizia-se privatus, como substantivo, designativo do que pertence a si próprio, não desempenha nenhum cargo oficial.    É o particípio passado do verbo privare, de onde nos chegou o nosso verbo privar, no sentido de impedir, tirar a alguém o uso de qualquer coisa.

Assim do grego ídios chegou-nos o “idiota”, do latim privare chegou o privar alguém de um uso ou de um direito, e de privatus o “privado”, para se escrever à porta de um gabinete, onde não queremos que entregue ninguém sem autorização especial.

5 Responses to “Idiotas e privados”


  1. 1 al cardoso 3 Setembro 2007 às 11:45 am

    Ainda bem que “idiota”, nao e tao depreciativo como se imagina! Estamos sempre a aprender!
    Logo vi que tem andado a lutar com vermes, ja estranhava a ausencia.

    Shalom.

  2. 2 Pessoana 7 Setembro 2007 às 3:20 pm

    Este blogue é, no mínimo, interessante! Tem qualquer coisa de altruísta e conquistador (um pouco com o Vendedor de Palavras, mas de graça)!
    Quanto ao “verme”, há realmente os que se impõem sem serem chamados (assim como há pessoas que se metem onde não são chamadas). Os chamados vermes idiotas!:-)

  3. 3 Justo 26 Setembro 2007 às 8:15 pm

    Caro Senhor; Tomei a liberdade de indica-lo em meu pequenino blog do Brasil. E vez por outra irei, se me permite, reproduzir seus postados.
    Abraços.
    Justo

  4. 4 Luiz Cesar Saraiva Feijó 24 Outubro 2007 às 7:51 pm

    Prezado filólogo.
    Chamar o que provoca o defeito em nossas máquinas cibernéticas, como os computadores, de VÍRUS, VERMES, etc é uma forma interessante de se expressar(um giro, como diriam os portugueses), pois é uma personificação lingüística, num mundo de parafusos, fios, eletricidade, chapas de ferro, circuitos integrados, capacitores, botões, etc. Desconhecia essa designação (VERME) de vocês (portugueses) para esse incômodo da nossa era virtual. Aliás, um incômodo “bestial”…
    Parabéns pelo SITE (Sítio) e pela sua aplicação aos estudos diacrônicos da Língua Portuguêsa.

  5. 5 Justo 8 Novembro 2007 às 7:09 pm

    “À misteriosa Teresa C. do Sem Pénis nem Inveja” endereçou o Manuel S. Fonseca o desafio da página 161, parágrafo quinto. A jeito estavam os “Contos da Montanha” do Miguel Torga. Raro é o Outono em que o não releio. Pelas memórias que do escritor tenho por ter privado com ele, pelas raízes beirãs, mal os dias encurtam apetece-me prolongá-los na companhia dele. Escreveu: “No ramerrão da Igreja, a gosma acabou por já nem causar impressão aos fiéis.” Palavras sem tempo no tempo. Por isso tanto preciso delas. Se da primeira vez foram cinco mulheres as desafiadas, agora faço semelhante com o Bruno Sena Martins, o James Stuart, o Justo, o Rui Cerdeira Branco e o Shark. Se acaso os mencionados se dão ao trabalho de me lerem, sejam uns queridos e façam a fineza de não quebrar o elo. Obrigada.

    Pois bem, lá vai o meu:
    “Quando geramos uma percepção profunda da verdadeira natureza da realidade e eliminamos estados mentais aflitivos, tais como a ganância e o ódio, podemos atingir um estado mental totalmente purificado, livre do sofrimento.”
    Pagina 161 – Quinto paragrafo inteiro.
    Livro: A arte da felicidade. (Um manual para a vida)
    Sua Santidade , o Dalai Lama e Horward C. Cutller.
    ISBN 85-336-1201-x

    Caro Senhor, peço que seja um dos cinco a continuar esta corrente de cultura.
    Um livro. Pagina 161. Quinto paragrafo.
    Abraços


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s





%d bloggers like this: