Uma bica bem cheia

Os meus amigos brasileiros, muito ciosos dos seu cafezinho, quando vão a Portugal, voltam sempre a fazer troça da nossa bica.

É o caso do meu bom amigo e distinto jornalista Nahum Sirotsky, a quem dedico cordialmente esta prosa.

 Hoje outro amigo, este alfacinha,  mandou-me uma suposta explicação do termo tão popular em Portugal.  

Diz ele o seguinte:” Quando o café “A Brasileira” vendeu os primeiros “expressos” em Lisboa, o público achou-os amargos e daí que o proprietário da casa tivesse inventado o slogan para ajudar nas vendas: “Beba Isto Com Açúcar”.     E pegou!! Hoje, a palavra foi reduzida às suas iniciais: BICA!     Afinal, a BICA tem uma razão forte de existir !!..

250px-espresso_01.jpg

Si no è vero … è ben trovatodizia, sabem quem?   Não, não era o meu “avô” Jacinto, de Camarate, porque esse não sabia italiano !

Analisemos:   primeiro, não é expresso que se deve escrever, mas sim espresso, uma palavra italiana, que pretende designar uma bebida de café preparada através da passagem de água muito quente sob alta pressão.     Daí o nome espresso.

A Itália foi o país onde nasceu o espresso, que até à década de 1940 era preparado sob pressão de vapor.      Nessa altura apareceu a máquina profissional, que prepara o café à pressão de 9 a 10 atmosferas.

O café espresso, como se diz em Itália, tem uma maior consistência do que o café coado, e contem uma quantidade maior de sólidos dissolvidos por volume.

A máquina profissional tem uma bica, por onde sai sob pressão do vapor.

Foi por isto, e apenas por isto, que na Brasileira, e em quejandos cafés lisboetas, lhe passaram a chamar um café feito na bica, e depois simplesmente bica.

Bem cheia? 

15 Responses to “Uma bica bem cheia”


  1. 1 al cardoso 4 Maio 2007 às 10:39 am

    Duas excelentes explicacoes para a nossa “bica”, tambem concordo mais com a ultima, no entanto a primeira e deveras engracada!

    Shalom

  2. 2 bruxinha 4 Maio 2007 às 12:33 pm

    …para mim era uma bica curta, se faz favor!

    Caro Inácio, adorei o texto, como aliás gosto imenso de todas as suas contribuições para este ciber-espaço. E pronto!, assim fica registado o meu primeiro comentário, já que aqui venho todos os dias e nunca tinha dito nada.

    Caro al cardoso, a primeira não é uma explicação, é mais uma brincadeira (algo a que hoje a malta nova chamaria de “urban legend”), que já ouço contar desde os meus tempos de menina… castiça, mas não passa de um jogo com as letras! Nós portugueses somos muito criativos nestas coisas e gostamos de dar largas à imaginação.

    Um bom fim-de-semana a todos (leitores do blogue incluídos), com ou sem bicas!

  3. 3 Eduardo Figueiredo 16 Maio 2007 às 3:28 am

    Meus caros,
    muito me admira o não relacionamento vosso com a verdade das bicas,
    isto é, aqueles fontanários que jorram água por uma…bica!
    Vai daí, os alfacinhas, tinham de ser eles, associaram-na ao “espresso”,que o deita por uma…bica,
    para distinguir do ” café de saco”. Aqui no Norte, houve sempre resistência a imitar as modas lisboetas, pelo que se ficaram pelo pedido dum “café de saco”,ou optaram pelo nome da primeira máquina italiana, a La Cimbali,pedindo orgulhosos, um “cimbalino”.
    Modernamente, olha-se e, não vendo saco, sai um “Um café”!
    Ainda podia explorar a parafrenália de outras manias, como o café curto, o comprido, a chávena quente, a chávena fria, com açucar, sem açucar,etc., que tem a ver com o eterno desejo da diferença ou do individualismo.O meu abraço a todos e o eterno Shalom!
    EMMF

  4. 4 joao moreira 19 Maio 2007 às 12:06 am

    Ao senhor Eduardo Figueiredo,

    E o “pingo”? Qual a sua origem?

    Cumprimentos e Shalom para todos.

    João Moreira

  5. 5 uaíma 19 Maio 2007 às 1:14 pm

    Prezado Inacio Steinhardt,

    entre uma bica e outra, ou um cafezinho e outro, ouro negro ou espresso, foi que li o teu texto. Como todos nós – uns mais, outros menos – somos dados a abreviar a coisa/palavra (apócopes e aféreses e outros tipos de supressões), não duvido que a origem de “bica”, no sentido de se beber um cafezinho, tenha vindo deste aviso natural: Bebam Isto Com Açúcar.
    Há poucos dias, recebi aqui em casa (Belo Horizonte, MG, Brasil)uma amiga portuguesa, que muito me adoçou com estes riscados.

    Um abraço.
    Darlan M Cunha

  6. 6 Eduardo Figueiredo 27 Maio 2007 às 2:54 pm

    Shalom, Jõao Moreira!
    Eu penso que é devido a ser um pouco de leite a ser vertido,
    isto é, um simples pingo, prevalecendo o sabor do café.
    Quando aumenta já vamos para a meia-de-leite…
    Abraços,
    EMMF

  7. 7 Rafael Reinehr 3 Junho 2007 às 1:26 am

    Muito bom! “Beba isto com açúcar”! Hehehe! Gostei!

  8. 8 Lalage 16 Junho 2007 às 5:11 pm

    As palavras têm uma história mas também uma geografia, diria eu…
    Uma história passada em Braga: Estava com uma amiga no café. Distraidamente ela pediu uma bica. Quando reparou no que a empregada lhe trazia ficou de boca aberta “mas eu não pedi um pão com manteiga!?!!”
    É que aqui em Braga eles chamam bica ao pão de trigo tipo carcaça (ou papo seco ou… lá como se chamam os pãezinhos de trigo).

  9. 9 carreira 27 Junho 2007 às 11:56 pm

    Criei um blogue de opinião que agora estou a divulgar.
    Se tiver interesse, não deixe de fazer uma visita: http://www.cegueiralusa.blogspot.com/
    Caso goste, por favor divulgue, pois pretende ser mais um espaço de discussão em busca de uma cidadania mais activa.
    O meu muito obrigado.
    Com os melhores cumprimentos,
    José Carreira

  10. 10 daniel 21 Julho 2007 às 6:46 pm

    Pois eu, brasileiro, sou de fato cioso do meu cafezinho (aliás cafezinhos, no bom plural) que marcam a cadência do meu dia-a-dia. Me parece claro o que seja bica, assim como espresso, meia (a nossa “média”, creio), o curto, além das nossas variações – o carioca, o pingado, o caipira (doce e ralo). Mas não sei o que seja “alfacinha” (além, óbvio, daquela folha que vai na salada sob os tomates). Alguém ilumina minha ignorância?

  11. 11 Edite Coelho 7 Julho 2009 às 3:47 am

    Caro Inácio: A sua “bica” fez-me lembrar as italianas que eu bebia em Lisboa quando andava no ISLA (Instituto Superior de Línguas e Administração). Bebia muitas por dia e chamava-se assim, porque eram ligeiramente mais curtas. Hoje, quase não bebo café, mas quando me sento a uma mesa com a minha filha, peço um “carioca de café” e ela um café curto,chamo-lhe depois a atenção: “Filha, isso não é nem café, nem italiana, nem café curto, isso é um dedal! Na próxima vez pede uma lupa para veres o café”. Como sempre, ela ri-se com o que digo e na vez seguinte a conversa volta a ser a mesma. Por este andar, qualquer dia servem um grão de café com uma gota de água.
    Realmente nunca me passaria pela cabeça essa versão da origem da palavra bica.
    Tudo de bom para si.
    Edite Coelho

    • 12 Edite Coelho 8 Julho 2009 às 9:20 am

      Shalom
      Esqueci-me de dizer que também sou “acumuladora” de chávenas de bica e de meias de leite. Não sou coleccionadora porque não me dou ao trabalho de as catalogar e de fazer todo esse trabalho que deveria incluir a história das pastelarias onde amavelmente me oferecem chávenas, quando pecço para as comprar ou quando me vendem esses lindos objectos que eu guardo em caixas de plástico gigantescas. De lá, só saíam para ver a luz do dia quando eu era colocada em escolas que tinham vitrines para eu poder fazer exposições de chávenas, de rádios antigos, de relógios, de frascos de perfume e etc., como um culminar de trabalbo com os meus alunos. Há anos que não faço exposições dessas, mas se algum museu precisar de material para exposições temporárias, disponham do que eu tiver.
      Um abraço e até breve.
      Edite Coelho

  12. 14 Jaime Mota 25 Dezembro 2010 às 11:27 pm

    Um dia em Lisboa ao pedir um café fui corrigido pelo empregado “deseja uma bica?”; respondi mudei de ideia desejo um “desbiquinado”! Como calculam o empregado corou; passados uns anos ainda não percebi como devo pedir um descafeinado em Lisboa? Vá lá o mundo perceber estes alfacinhas…

  13. 15 manuela 16 Junho 2012 às 10:10 am

    Achei interessante todos estes comentarios sobre o cafe cada terra cada pessoa tem sua maneira de se expressar por isso temos ter
    mos diferentes.Nao precisamos ir ao Brasil para encontrarmos termos totalmente diferentes ai esta: cada cabeca sua sentenca.


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