Abandono

Escreveu-me um leitor – arvorado em representante dos restantes – perguntando-me se vos abandonei.

Claro que não abandonei os meus assiduos leitores, que amavelmente não só me visitam com frequência como ainda fazem propaganda do meu modesto blog, junto dos seus amigos.

Mas concordo que tem razão este leitor, quando chama a minha atenção para um facto inegável: se eu não escrever aqui coisas novas com uma certa regularidade, os leitores acabam por se cansar de aqui vir em vão.

A verdade é que o tempo nem sempre abunda, mas isto é afinal uma desculpa de mau pagador – como dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate – porque as pessoas ocupadas são as únicas que sempre encontram uns minutos para as tarefas a que se comprometem.

 O “avô” Jacinto também dizia que “quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele”.     Se eu não tinha tempo para blogar, quem me mandou começar? 

Por falar em abandonar , é evidente que a palavra veio para o português do francês abandonner. 

Mas até aqui não estou a contar história nenhuma.

 História é quando se vai rebuscar um antepassado remoto de uma família, e se seguem os destinos dos seus diversos decendentes, cada um para seu lado, até que, passadas algumas gerações, a relação de uns com os outros já não é evidente. 

Falando de palavras, o antepassado, neste caso, nasceu no latim vulgar sob a forma de bannum, bandum, que significava simplesmente “proclamação”.

Querem conhecer um descendente bastante conhecido?

Quando um homem e uma mulher decidem casar, não têm que publicar os “banhos”?     Estes banhos não têm nada que ver com a banheira.    São simplesmente uma proclamação que se faz de que fulano e fulana pretendem casar-se e quem tiver alguma objecção, tem um prazo para vir a público apresentá-la.

Ora quem faz mais proclamações são os governantes, aqueles que tomam conta de nós e do que nós fazemos.  

Volta, não volta, lá veem eles proclamar mais uma proibição ou mais um imposto.     Em francês antigo quem estava nessa posição era o bandon.

Portanto, se eu me cansava de tomar conta de ti, e tu só me fazias problemas, eu resolvia deixar-te a bandon.    Quem manda, que tome conta de ti.

 Tu ficavas a bandon , ou seja abandonné.       Até aqui entendido? 

Agora vejamos o que sucede quando alguém tenta fazer passar uma mercadoria pela fronteira, sem pagar os direitos devidos ao bandon?

 Ele está a cometer uma falta contra bandon.  É um contrabandista!  Viram como do velho bannum, bandum  descenderam tanto os banhos para o casamento como os Malboro de contrabando? 

Não senhores, não abandonei ninguém.

4 Responses to “Abandono”


  1. 1 steinhardts 27 Março 2007 às 5:27 pm

    Li o seu comentário no forum Portugal em língua alemã, e tem razão:
    Em Portugal também se diz “correr os banhos”.
    É mesmo mais comum do que “publicar os banhos”.
    É possível que actualmente esta diligência pre-nupcial já não seja obrigatória.
    Os leitores portugueses me dirão.

    Inácio

  2. 2 al cardoso 29 Março 2007 às 12:05 pm

    E ainda bem que nao nos abandonou, eu tambem sou daqueles que sempre por ca passo a saber de novas.

    Shalom.


  1. 1 Was bedeutet "publicar os banhos" ? Sich oeffentlich in Badewannen aufbieten lassen ? - Das deutschsprachige Portugal Forum Trackback em 27 Março 2007 às 2:54 pm
  2. 2 Há banhos e banhos… « História das Palavras Trackback em 18 Maio 2008 às 11:42 am

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