” “

Não, não é erro tipográfico. O título da minha história de hoje é mesmo assim: ”   “.

Mas, antes de prosseguir, tenho uma declaração a fazer.   Diz um preceito judaico que “Quem publica alguma coisa, indicando o nome de quem a disse, traz salvação ao Mundo”.

E, se tenho uma oportunidade para contribuir para a tão almejada salvação deste espaço em que vivemos, é meu dever aproveitá-la.

O tema do meu artigo de hoje é baseado quase integralmente num artigo publicado, na passada sexta-feira, 2 de Fevereiro, pelo meu amigo Ioram Melzer, na sua coluna semanal, no diário “Haaretz”.

Voltando agora ao meu título.   Qual é a palavra que vêem entre as duas aspas? Isso mesmo, um espaço vazio!

É sobre o carácter espaço que quero conversar hoje convosco.

Como artesão, cuja matéria-prima são principalmente as palavras, concordo inteiramente com o Ioram no muito respeito que devemos ao espaço. Senãohouvesseespaçosqueméqueconseguirialersemmuitotrabalhooque nósescrevemos?

Portanto a história do carácter espaço faz parte integrante da história das palavras.   E tanto assim é que já tive de escrever três vezes as duas linhas acima, pois o meu Word teimava sempre em acrescentar automaticamente os espaços que eu não escrevia entre as palavras.   E, se repararem, no mesmo Word, na ferramenta que conta as palavras do texto, há duas opções para a contagem dos caracteres: com espaços e sem espaços. Isso tem duas explicações.

Uma eu já conhecia: os editores dos jornais e das revistas exigem normalmente que o artigo não exceda N caracteres, incluindo os espaços.   Importante para eles, pelo espaço que a minha prosa vai ocupar no papel.

A outra, eu não conhecia: escreve o Ioram, que também é tradutor, mas de livros, e não como eu de textos mais pragmáticos, que muitos editores agora pagam as traduções pelo número de caracteres, sem contar os espaços.   Estes são gratuitos

Se fosse comigo, mandava-lhes as traduções como na frase exemplo que escrevi acima, sem os espaços, que eles não querem pagar.    E eles que imprimissem assim os livros, para ver quem os comprava!   

A verdade é que o espaço a separar as palavras é uma invenção relativamente recente.    Apareceu algures entre os anos 600 e 800 DC.   

Se prestarem atenção, nas inscrições gregas e latinas, as palavras eram escritas pegadas umas às outras, sem espaços entre elas.

O mesmo sucedia nos textos escritos em pergaminhos. Normalmente eram para ser lidos em voz alta, pelo próprio que os escrevia, ou pelas poucas pessoas que sabiam ler, e que, pela sua cultura, conheciam os textos e sabiam separar as palavras, à medida que as liam

Nas línguas semíticas, hebraico e árabe por exemplo, o espaço apareceu muito cedo, porque nessas línguas só se escrevem as consoantes; as vogais são subentendidas.

E então estão a ver a barafunda que seria se as palavras não estivessem separadas.

Msmnsssm = mais ou menos assim.

Também em escritas hieroglíficas, como o egípcio antigo, ou mais modernamente no chinês ou no japonês, os sinais designam ideias e portanto os espaços são um luxo dispensável.

Parece que foram os irlandeses os primeiros a servir-se do espaço para separar as palavras.

É que eles tinham necessidade de ler as tais inscrições latinas.

Repetindooexercícioquefizacima – um indivíduo que saiba qualquer língua de origem latina, mesmo não compreendendo português, seria capaz de, com algum trabalho e paciência, pelo menos, dividir as palavras.   Mas a língua irlandesa não tem nada de latina, e eles viam-se gregos para distinguir as palavras do latim.

Conclui o Ioram Melcer que os espaços são sobretudo uma contribuição importante para a leitura íntima, em voz baixa, ou mental.    Ler mentalmente um texto, tendo necessidade de, ao mesmo tempo, separar as palavras, é impossível de se fazer sem perder o fio da meada.

Aprendamos, pois, a prestar o devido respeito ao ” “, que se não lê, mas que, se não existisse, as palavras não teriam história.    E os livros, se existem hoje em profusão, como existem, devem a sua existência à leitura tornada possível pelo ” “.

Os senhores editores, que “inventaram” a nova técnica de adquirir gratuitamente os espaços que os tradutores escrevem, deverão ter em conta que saber colocar os espaços nos sítios devidos também é uma arte e um saber.

2 Responses to “” “”


  1. 1 Le Rachelet 28 Fevereiro 2007 às 10:22 pm

    Que engraçado. Como tradutora, estou acostumada a trabalhar contabilizando os caracteres sem espaços e a considerar tal prática mais honesta que a anterior contabilização de palavras ou de páginas, que dava azo («dar azo» – ora eis uma expressão que talvez pudesse tratar um dia destes, se lhe aprouver) a muita especulação. Não tinha pensado que o espaço, como a pontuação, também tem o seu papel na escrita. Uma omissão de tinta pensada, digamos. Obrigada.

  2. 2 KLATUU o embu硤o 8 Março 2007 às 12:50 am

    Excelente este espaço!

    Os melhores cumprimentos.

    P. S. Cheguei aqui pela «Rua da Judiaria».


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