Abram alas ao retrónimo! e à aditância!

Hoje estou excitado, porque aprendi duas palavras novas.Não serão propriamente novas, mas para mim são, que só hoje as li pela primeira vez. Na verdade, quando tropecei na primeira – retrónimo – hesitei um momento, porque, segundo aprendi, já fez 26 anos. E perguntei a mim mesmo que tinha isso que ver com o tema deste blog: “História das Palavras”? 

Considerei, porém, que o nascimento de um neologismo também faz parte da sua história, e embora este já esteja em idade de constituir família, talvez alguns dos meus leitores ainda não o conheçam. Portanto, acho que faz sentido, registá-lo aqui. Mas, quando ia abrir o blog, para fazer o registo de mais esta história, o meu email atirou-me à cara com outro termo, que eu não conhecia.  Este é brasileiro, mas, como sabem, parafraseando o que Churchill disse da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, também Portugal e o Brasil são duas nações irmãs, separadas apenas por uma língua comum. 

Começarei, pois, por esta segunda palavra, cuja explicação me parece mais fácil: aditância. Sabem o que é? Nos dicionários não encontrei, mas pelo contexto foi fácil: aditância é o serviço de adidos diplomáticos. Há a aditância militar, aditância de imprensa, cultural, etc. Retrónimo exige mais conversa. 

Eu sou do tempo em que uma guitarra era uma guitarra. Não precisava de adjectivos para se compreender que nos estávamos a referir a um instrumento de cordas, indispensável para acompanhar o fado, mas senhor da sua nobreza própria. Para não ficar a dever mais uma história, deixo aqui registado que a guitarra e a cítara são etimológica e historicamente irmãs, ambas filhas da lira. E os padrinhos foram os gregos, com kithara, que em latim abrandou para cithara.Depois apareceu a guitarra eléctrica; e então era necessário apor-lhe o adjectivo “eléctrica”, para a distinguir da sua congénere acústica.  Hoje em dia é diferente: nas gerações de hoje, quem diz guitarra está logo a pensar na guitarra eléctrica, pelo que o adjectivo é absolutamente dispensável.  Mas que fazer quando nos queremos referir ao antigo instrumento de madeira e cordas? Aí sim, temos que lhe apor o adjectivo e dizer “guitarra acústica”, e não podemos dizer só guitarra. 

Ora aí está, “guitarra acústica” é um retrónimo, que vem designar um objecto que já existia, pela mesma palavra já existente, mas que agora, só por si, designa um objecto diferente. O primeiro a usar este neologismo foi em 1980, o jornalista Frank
Mankiewicz, então presidente da National Public Radio,
 

Querem mais exemplos de retrónimos? Peguem no correio e no telefone. Para já não falar na diligência e na mala-posta, quando a Candidinha  ia botar cartas ao correio, toda a gente percebia o que ela ia fazer. Hoje não! Temos o correio electrónico, o serviço de mensagens directas, o SMS, o correio oral, todos eles substituídos pelos equivalentes em inglês. Agora, se nos quisermos referir àquele serviço que tira as cartas do antigo “marco do correio”, e depois as vai entregar a casa ou ao apartado do destinatário, temos que ser explícitos “mandei os documentos por correio-lesma” (snail mail). “Mandei” por mail é electrónico, evidentemente. Já não sou do tempo do telefone de manivela, embora tenha visto alguns a funcionar.Mas ainda me lembro de se ligar para os arredores de Lisboa, através da telefonista, que amavelmente nos respondia “Troncas” (termo que a APT-Anglo Portuguese Telephone nos trouxe provavelmente do inglês “trunk call”).E logo nós lhe pedíamos: “Dê-me por favor Queluz 2256”. E a resposta dela podia ser, por exemplo: “É para o senhor Hermengildo? Olhe que ele não está em casa, porque lhe levaram ontem a mulher para o hospital.”  E a telefonista também tinha o direito e a obrigação de intervir numa chamada urbana, para nos avisar: “Por favor pousem os auscultadores, porque tem uma chamada de troncas à espera,”. 

Pois isso é história que já lá vai. Quais auscultadores, qual quê? Veio o telefone de marcador de disco, e esse é que foi o “telefone” durante muitos anos e mais nada. Agora, se eu disser telefone, toda a gente tem a certeza de que estou a falar num aparelho com muitos botões, que já não funciona com pulsos, mas sim com tons, e sem hesitar me dizem para carregar no asterisco e naquele sinal de número #, que eu não sei como se chama na gíria do dia-a-dia em Portugal.E mais, “telefone”, só “telefone” é o telemóvel ou telefone celular. Para que me compreendam, eu tenho de ser explícito: “telefone fixo” ou se for ainda menos actualizado, tenho que explicar que não tenho asterisco, pois o meu é um “telefone de disco”. 

A palavra “telefone” deixou de ter o significado que tinha, para ser agora um “retrónimo”, palavra que voltou para trás, para assumir novo significado. E se eu não estiver em casa para atender, entra em acção: “Aqui serviço de voice mail de… por favor deixe a sua mensagem”. 

Ao que eu responderei: “Diga-me isso na língua do Bocage, se não atiro-lhe com um retrónimo.” 

3 Responses to “Abram alas ao retrónimo! e à aditância!”


  1. 1 joão moreira 9 Janeiro 2007 às 1:06 am

    Caríssimo,

    Mais um excelente artigo!
    O sinal “#” chama-se cardinal.

    Cumprimentos.

  2. 2 a. cardoso 9 Janeiro 2007 às 1:40 pm

    “…O verdadeiro sabio e aquele que aprende, com todos…”

    Bem haja por ensinar-nos!

    Shalom.
    al

  3. 3 Emídio Carlos de Albuquerque 13 Setembro 2008 às 8:55 pm

    No Brasil, chamamos ao sinal # de “jogo da velha”


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