As voltas que a fruta deu…

Se eu tivesse juízo, não me metia nesta.   Porque, como me meto sei eu, mas como me vou sair, não vai ser fácil.

Comecemos por um encontro com dois casais amigos, há muitos anos, à entrada da casa do meu falecido Pai qDt, na Ericeira.    Junto ao portão do jardim tinha o meu Pai um belo marmeleiro.

“Ah!” exclamou uma das senhoras, italiana de origem – “mele cotogne“. Logo atalhou a outra senhora, que italiano não sabia, mas havia vivido alguns anos em Espanha: “Não, estes não são melocotónes, são marmelos. Melocotónes são os pêssegos”.

Uma e outra tinham razão.   Em italiano “mele cotogne” são marmelos, e em Espanha “melecotónes” são pêssegos.   A etimologia é precisamente a mesma: “melon“, no grego e “Melo” em latim, significavam “maçã“. E tanto a penugem fina que cobre o marmelo, como a que cobre o pêssego, parecem algodão.

E em árabe “kutun” ou “al-kutun” precedido do artigo definido,  já adivinharam, significam algodão.Voltando ao melon-melo, daí vem também o nosso “melão” , que começou por chamar-se “melo-pepon” (maçã madura) e também a “melancia“.

(Para aqueles de vós que também sabem hebraico, também o “melafefon” (pepino) vem de “Melo-pepon”. No hebraico antigo chamava-se “kishua”. Por precipitação de alguém que atribuiu, por engano, este nome, no hebraico moderno, à abóbora-menina, abóbora de jardim, ficou o pepino destituído de nome.   E então pegaram no “melafefon” e deram-no ao pepino, à laia de compensação.)

Assim como estes foram buscar o grego-latim “melon/melo” para designar a maçã, os franceses optaram pelo latim “poma, pomum“, que significava “fruto“.

E os ingleses e os alemães, holandeses, etc, foram buscar ao antigo germânico “Apple” e “Apfel” respectivamente.

Dai, como já vimos num artigo anterior, a batata, que foi cultivada primeiro na Alemanha, como “Erdapfel” (maçã da terra) chegou a França como “pomme de terre”.

Não, não vamos meter aqui o computador Appel, senão o Bill zanga-se comigo e fecha-me o blog…  O tomate, fruto a que foram atribuídos efeitos afrodisíacos, talvez por pertencer à mesma família que a mandrágora, chamou-se primeiro “pomme d’amour”, “pomme de Vénus” e também “pomme d’or”.  

Em hebraico, agvaniah também está ligado com agavim, mas não vem aqui a propósito. 

Os árabes ainda hoje o chamam pommedor assim, mas deturpando-lhe a pronúncia, pela dificuldade em expressar o som “p”, dizem agora “bandorra”.   O nome “tomate” é de origem asteca, de onde foi trazido pelos espanhóis.E também a “laranja” começou por ser para os alemães “Apfelsinen”  (maça da China, de onde chegou pela mão de Marco Pólo).   Na Índia, em sânscrito era naranga, passando para os persas como narang, e para os árabes (da Arábia) naranj.    Estes por sua vez, quando encontraram a laranja na Espanha, usaram o mesmo nome, que deu naranja em espanhol..Os franceses, esses tinham que chamar o fruto pomme de… não é? mas pomme de quê? Fácil. Tinham uma cidade com um nome parecido: Orange.   Portanto era a pomme d’Orange, que com o tempo ficou só Orange, e assim transitou para o inglês e outras línguas.   Para os italianos ficou arancia.

Cada qual lhe deu uma volta, para ficar mais ao seu jeito de falar.   Por exemplo, em idishe,  a língua popular dos judeus da Europa oriental, ainda hoje é pomeranz., ou simplesmente marantz. E na outra língua popular judaica, dos judeus sefarditas dos Balcãs, o judeu – espanhol, por vezes confundida com o ladino?  Pois aí diz-se portucale, acreditem!

Nós em Portugal fomos buscar o nome aos espanhóis, mas não podíamos ficar iguais, para não nos confundirem com “nuestros hermanos”.   De naranja fizemos laranja.

Porém, foi um árabe de Jaffa, chamado Yussuf Efendi, que trouxe pela primeira vez as laranjeiras para o Império Otomano. E de onde as trouxe? Pois foi mesmo de Portugal.   As Yaffo Oranges hoje famosas em todo o Mundo, vieram do nosso jardim da Europa à beira-mar plantado, mas já foram enxertadas com outras espécies..

Como era fruta nova, vinda de Portugal, foi esse o nome que lhes ficou, não só no judeu – espanhol, mas também no turco, no romeno, no búlgaro, no grego moderno, por todo o Império Otomano: portucale.  Na década de 1950, quem dissesse em Israel a um judeu dos Balcãs que era de Portugal, era alvo de risota, com certeza: “Então você é laranja?”. Nessa altura, no conhecimento do povo, se já tinha ouvido o nome do país, Portugal ou era na América do Sul, ou estava ligado com o Eusébio e com a Amália.

Os árabes aqui desta região, tiveram a habitual dificuldade com o “p” e então, em vez de dizer naranj , como nos dialectos irmãos dos outros países árabes, dizem bordukal. Ora viram as voltas que a fruta deu?  E a ginástica que este vosso amigo teve que fazer para se sair desta alhada? 

3 Responses to “As voltas que a fruta deu…”


  1. 1 mendinho 14 Dezembro 2006 às 12:05 pm

    Eu sempre me perguntei como é que em castelhano beterraba pode ser remolacha, quando em inglês é beetroot, em francês é betterave e em italiano é barbabietola.

  2. 2 al lopes cardoso 19 Dezembro 2006 às 7:53 am

    Caro Inacio:
    Uma boa continuacao de um feliz “Chanucah”.

    Shalom.
    al

  3. 3 Eliezer 15 Novembro 2008 às 9:32 am

    Agvania does not come from “agav”… it comes from “aguv”, which means “lust”. It was an invention in modern Ivrit by ben Yehudah


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