As avelãs do Prudêncio

“Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele”  – dizia o meu “avô” Jacinto, de Camarate.

Eu meti-me nisto de me interessar pelo percurso que as palavras fazem na história, e agora os meus leitores pensam que eu sei responder a todas as perguntas sobre a matéria. Longe disso.

Se eu fosse Mestre, aplicar-se-me-ia a máxima talmúdica que diz que “as perguntas dos discípulos aguçam a sabedoria dos mestres”.

Mestre não sou, mas se me ajudam a aprender alguma coisa, só tenho que corresponder com a minha gratidão.

O amigo Konrad – Ralf Alexander Konrad Paul Wokan, de sua graça, como aprendi agora – pede-me o meu parecer sobre: ”Lusitania” vem do hebraico e diz “Terra das Amendoeiras” ?como ele encontrou citado no site do meu amigo Hélio Cordeiro.

Há que ter em conta que o nome de Lusitanos, atribuído aos portugueses, é relativamente recente, do século XV.  Geograficamente o termo fez um percurso muito grande, para além do que tenha tido na sua origem.

Estrabão coloca os “lusones” junto das fontes do Tejo: “Lusones ad fontes Tagi pertingentes” (Livro 3). 

Pois, amigo Konrad, (Conrado ou Prudêncio, se tivesse que aportuguesar o seu nome), eu li essa, pela primeira vez, nos meus tempos de menino e moço, na «História de Portugal”, de Alexandre Herculano.

Ele não diz que é hebraico, mas sim “de origem fenícia”. “Luz” significa efectivamente “amendoeira” ou “avelaneira” nas línguas semíticas, e “tan” é uma terminação púnica, comum na Península, que talvez esteja relacionada com o “stan”, significando “terra de”, encontrado na composição de nomes de alguns países, no nosso tempo.

Herculano não se assume a paternidade dessa teoria, pois diz que foi busca-la a Samuel Bochard (1599-1667), um pastor protestante, de Rouen, muitíssimo erudito, com profundos conhecimentos de hebraico, siríaco, caldaico, árabe, e julgo que também de etíope, tudo línguas semíticas. Bochard foi acusado pelos seus críticos de ver origens fenícias em tudo.

Para nós, que não somos sábios, temos que ler essas especulações etimológicas com uma boa pitada de sal. Não que sejam impossíveis, mas não me parece que alguma vez tenham sido provadas.

Bochard também disse que Tagus (o nosso Tejo) vem do fenício, onde teria a forma Dagus (piscoso), e o rio Ana (Wadi Ana, ou Guadiana, dos árabes), seria “ovelha”, e Lisboa – Alisubbo (Baía amena). Tudo isso é possível, muito possível, só faltam as provas. 

A evolução posterior do nome de Lisboa é mais fácil de seguir. Não sabemos, ao certo, de quem vem o nome Ulissipona (Ulisses? Elisha?), mas os árabes, quando o receberam atribuíram ao “Ul”, de Ulissipona, o valor do artigo definido “Al”. Como nós dizemos “o Porto”, e os ingleses fizeram disso “Oporto”. Portanto “Al-Lissipona”. E, como os árabes têm dificuldade em pronunciar o fonema “P”, o nome da cidade Ulissipona soava “Al-Lissibona”. O suposto artigo caiu, como não podia deixar de ser, e o “n” intervocálico também, e pronto ficou a “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa… dos alfacinhas. E ainda havemos de conversar sobre estes. 

E também Espanha teria vindo do fenício I-Span, “terra de coelhos”. Um tema que “dá pano para mangas”, como dizia o me “avô” Jacinto. 

Uma curiosidade pseudo-etimológica mais sobre “Luso”: Voltaire, o célebre Voltaire, escreveu um poema épico em honra de Henrique IV, de França, em versos alexandrinos, numa imitação de Vergílio. E chamou-lhe “Henriade”, de Henri, o nome do rei..

Precedeu a obra de um ensaio sobre a poesia épica.   E aproveitou para desacreditar o nosso Luís de Camões, um poeta que teve facilidade em descrever a viagem de Vasco da Gama à Índia, simplesmente porque acompanhou o almirante português nessa viagem!  E tão vaidoso era, que em vez de dar ao seu poema o nome do rei, ou do almirante, deu-lhe o seu próprio nome “Luisiadas”!

Na edição do “Henriade” que possuo, Voltaire retrata-se da primeira afirmação. Foi erro dele, Camões não acompanhou Vasco da Gama à Índia. Mas nada diz sobre a segunda bojarda. . 

5 Responses to “As avelãs do Prudêncio”


  1. 1 Manuel Moura 15 Novembro 2006 às 2:22 am

    Questao interessante.

    Uma das pessoas que saberia concerteza mais sobre a origem da palavra “Lusitania” seria o Prof. Moises Espirito Santo.
    Um dos (unico ?) academicos portugueses que domina o fenicio.

    O Prof. Moisés Espírito Santo não é um linguista mas sim antropólogo e
    sociologo das religioes. Alguns recordar-se-ao de ha uns 10 ou 15 anos atras ter aparecido na televisao portuguesa quando associou o “milagre” de Fatima e o culto Mariano, com Fatima a filha de Maome e a passagen dos mouros fatimidas por aquela regia do Oeste portugues.

    Como nao vivo em Portugal nao sei se o que e feito dele ? Sera que ainda
    leciona e investiga ?

    Os seus estudos sobre as raízes da religião popular portuguesa são um marco
    incontornável para os investigadores do território antigo. O seu profundo
    conhecimento do terreno, das tradições e da antropologia e história religiosas
    contribuiu imenso para a Toponimia, Antroponimia e Epigrafia.

    Tal como o Bochard que foi acusado pelos seus críticos de ver origens fenícias
    em tudo, o Prof. Espirito Santo e um semitista “radical”, encontrando
    etimologias semito-fenícias para as palavras mais correntes e transparentes do
    português usadas na toponímia.

    Explica por exemplo a nomenclatura de inúmeras localidades lusitanas a partir
    de raízes púnico-hebraicas como Paredes (de pardes, “parque real”), Tires (de
    tirish, “gente de Tiro”), Alfir (de Ofir), Abóbada (de avodat, “trabalho”).

    Titulos interessantes:

    Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga
    Assírio & Alvim, 1988
    http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/049730.html

    Dicionário Fenício-Português, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões
    Universidade Nova de Lisboa, sem data.

    Fontes remotas da cultura portuguesa, 1989

    O título mais recente deste controverso mestre é:

    Cinco mil anos de cultura a Oeste. Etno-história da religião popular numa região da Estremadura
    Assírio & Alvim, Lisboa 2004.

  2. 2 steinhardts 15 Novembro 2006 às 8:37 am

    Caro Manuel Moura e caros amigos todos,

    Eu espero que tenha ficado bem claro na minha explicação que eu só aceitaria estas etimologias se houvessem provas factuais das mesmas.
    Citei as propostas do Bochard, porque me perguntaram, mas esclareci que, sem provas, não passam, para mim, de meras hipóteses, por muito pausíveis que sejam.
    Não conheço o Prof. Moisés Espírito Santo, mas li alguns dos seus artigos e até tenho um dos seus livros. Respeito muito o seu saber e o seu trabalho de investigador. Mas, como leigo na matéria que sou, não encontrei neles, até hoje, nenhuma etimologia que me convecesse, sem que se apoie em textos fenícios.

    Também não creio que haja alguém no mundo que DOMINE A LÍNGUA FENÍCIA. Há grandes especialistas que a estudaram e a estudam. Talvez o Prof. Espírito Santo seja um deles.
    Mas, por tudo quanto tenho lido, ainda há muita polémica entre os especialistas na interpretação de quase todas as inscrições fenícias até hoje encontradas.

    Vamos passar a ocupar-nos com palavras cuja história seja realmente conhecida e possa ser acompanhada. Está bem?

  3. 4 madrid 11 Dezembro 2006 às 9:30 pm

    Shapham não significa(va) coelho. Pela simples razão que não existiam coelhos na zona do próximo oriente. Estes, tiveram origem na Peninsula Ibérica e até há alguns seculos atrás eram exclusivos desta. Assim sendo esta palavra foi atribuida ao coelho mas por ignorancia dos fenicios que apenas conheciam lebres, essas sim shapham, e que por isso chamaram lebres aos coelhos da peninsula ibérica.
    Ainda hoje shapham é a raiz da palavra arabe, hebraico e turco para lebre…

  4. 5 Yossim Thomas Niedhardt 29 Março 2012 às 4:51 pm

    O amigo Fernando Shabat, lisbonense, do Recife, apresentou-me
    a sua matéria, diretamente de Tel Aviv (?), Acaso tens estudado o
    Talmud, a Torah, Tanach, Cabala, Al Corão, etc.?
    Gosto muito de raízes, pois, como engenheiro e professor, sempre
    costumo chegar mais próximo do “SOD”, sempre que possível…
    Estudo a Torah em Hebraico, ( Haifa ), via teleconferência, com o
    alvo de aprofundar-me nas Verdades do Eterno, antes do encontro!.
    Sds.: Thomas Niedhardt // V. Conquista – BA – Brasil.


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