Bifes… de peru

Um dia, num voo da El-Al para Lisboa, tive como companheiros de viagem um grupo grande de operários portugueses, que trabalhavam aqui na construção de dois aeroportos no Neguev.

O comissário de bordo veio perguntar-lhes, “em português”, o que queriam para o almoço: bife ou pato. Tentei explicar tanto ao comissário como aos passageiros que aquilo a que um e outros chamavam “bife”, não era a mesma coisa. Tanto o comissário israelita, como os passageiros portugueses, declinaram a minha ajuda. Eles sabiam exactamente do que se tratava.

Quando as hospedeiras vieram servir carne de vaca cozida, chegou a desilusão: “Mas eu pedi bife!” – reclamavam os nossos compatriotas..  Claro que todos nós sabemos que aquilo a que nós chamamos “bife” nos veio do inglês “beef steak” , que traduzido à letra significa “talhada de carne de boi”.

(Em Lisboa não há carne de boi, só de vaca. No Alentejo não há carne de vaca, só de boi.  Isto também faz parte da história das palavras). 

Já aqui conversámos sobre o “shnitzel” vienense, que também significa “talhada”, e que aqui em Israel designa o que em português diríamos “bife de peru”. Portanto, temos que “bife”, “bifana”, e outros parentes linguísticos, designam em inglês “boi”. 

Agora gostaria de chamar a vossa atenção para o facto de que, na história das palavras, também há “naturalizações”.  Vejam no dicionário português-inglês a palavra “boi” e lá encontrarão “ox” e “oxen”. Mas “carne de boi” (ou de vaca) é “beef”. Vamos adiante! Procurem “carneiro” e encontrarão “Sheep”. Mas a “carne de carneiro” é “mutton”, do francês “mouton”..

E “porco”? “Pig” ou “swine” (de onde o nosso “suíno”), mas a “carne de porco” chama-se em inglês “pork”.

“Vitela”? “Calf” evidentemente! Mas no prato é “veal”, do “veau” francês.  E por aí adiante, veremos que na língua inglesa corrente, os animais vivos receberam os seus nomes de etimologia germânica, mas a sua carne, cozinhada e servida no prato, mudou para a etimologia latina. 

E porquê?  Os responsáveis foram os Normandos.   Não vamos aqui pormenorizar a história dos Vikings na Inglaterra.   Foram os franceses que os chamaram “Nord man”, ou seja nas línguas germânicas, “homem do Norte”. .

Quando em 911 o rei de França cedeu aos normandos o ducado de Orleans, estes tornaram-se cristãos, e absorveram a cultura e a língua francesas. Durante o domínio normando na Inglaterra criou-se uma distinção social entre os camponeses saxões, de origem germânica, que cultivavam as terras e criavam os animais, e os normandos, senhores feudais, que comiam à mesa a carne desses animais e cuja cultura já era francesa.

Por isso, os saxões usavam os nomes de origem germânica para designar animais que eles criavam, e os normandos, quando lhes serviam à mesa a carne desses animais, lhes davam o nome mais “culto”, de origem francesa.  Pela mesma razão, a língua inglesa, que é aprendida justamente como germânica, tem no seu vocabulário cerca de 60% de termos de etimologia latina. 

A história das palavras dá muitas voltas.  Estou a lembrar-me de um parente nosso, que havia vivido em Portugal, e voltou de visita muitos anos mais tarde. Ele não queria acreditar nos seus olhos quando viu, pela primeira vez, um aviso num restaurante, em que se lia: “Servem-se pregos e cachorros”! 

1 Response to “Bifes… de peru”


  1. 1 Yukari 23 Agosto 2007 às 3:39 am

    Interessante.. sempre confundo.. me ajudou bastante, obrigada!! =D


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