Do lápis à carroça

Pois bem, para quem não soube responder, aqui vai a explicação que me deu, há 60 anos, o meu mui amado professor de francês, Dr. Alexandre Martins Correia: 

Карандаш – Karandach – é russo, sim senhor, e significa naquela língua, muito simplesmente “lápis”.

Mas não, o meu mestre não me quis chamar “lápis”, não senhor. (Se não se lembram, vejam a entrada anterior)  Quem deu, pela primeira vez  ao vocábulo russo a grafia afrancesada foi o caricaturista Emmanuel Poiré, nascido em 1859, em Moscovo, onde seu avô francês havia chegado como oficial das tropas de Napoleão, e por lá se deixou ficar.O neto, Emmanuel, quando chegou à maioridade, decidiu emigrar para a terra dos seus antepassados e fazer lá o seu serviço militar, para recuperar a nacionalidade francesa, para ele e para o pai, pois ambos a tinham perdido.Foi também em França que ele começou a utilizar o lápis para desenhar “histórias sem palavras”, que publicou em vários jornais, sob o pseudónimo de “Caran d’Ache”. Desenhador humorístico era sinónimo em francês de “caricaturista” – do italiano “caricare” (carregar, e já vamos conversar sobre esta palavra, mais adiante), de onde também o francês (e o inglês) “charge”, que além do significado de “carga”, tem também o de “troça”. Mas não,  o professor não quis fazer troça de mim, quando me disse: “Que vous êtes caran d’ache aujourd’hui”.  Em 1924, foi fundada em Genebra, na Suíça, uma fábrica de lápis, que julgo ser ainda hoje a única naquele país. E se não é a única, será pelo menos a maior e a mais famosa, com seus lápis de cor, que todos conhecemos. Aproveitando a fama do caricaturista francês, falecido em 1909, em Paris, adoptou como marca o termo russo, com a grafia que Poiré deu ao seu pseudónimo: “Caran d’Ache”. Um dos slogans publicitários da fábrica de lápis era “Caran d’Ache à toujours bonne mine”. Tem sempre boa “mina”, ou seja o cilindro de grafite no interior do lápis. 

Mas “bonne mine” em francês é também “boa cara”, “boa expressão”, “boa disposição” e foi esse o jogo de palavras que o Dr. Correia quis fazer. Eu estava com boa cara naquele dia, ao entrar para a aula de francês. Com “bonne mine”, como o lápis da Caran d’Ache  Era sempre um prazer a boa disposição do nosso professor de francês. Um dia, um colega nosso, contou que nas férias tinha ido de avião a Paris. Viajar de avião, naquela altura, era um luxo. O cidadão comum, se já ia a Paris, viajava de comboio, no “Sud-Express”.  Mandado contar em francês as sua impressões de viagem, o nosso colega, a certa altura, perguntou ao professor: “Avez-vous déjà volé, Monsieur le Professeur?”  E logo lhe atalhou o Dr. Correia, fingindo uma expressão zangada: “Par qui me prenez-vous?” .  Agora expliquem lá este jogo de palavras, seus francófonos! Esta já vai longa, mas eu ameacei mais acima voltar a falar do italiano “carricare”, que, tal como o nosso “carregar”, vem do latim “carrus”, veiculo de duas rodas, de onde nos vem evidentemente o “carro”.   PS- Para mifares castellan – seia
Se não me der um endereço electrónico, não lhe poderei responder, pois não?

4 Responses to “Do lápis à carroça”


  1. 1 Manuel Sampaio 31 Outubro 2006 às 12:53 pm

    Aujourd’hui je suis aussi caran d’ache ao redescobrir a “HISTÓRIA DAS PALAVRAS” que havia perdido desde o post “Vasco Santana – in memoriam”. Redescobri-o ao passar (e passear) pela Rua da Judiaria.

    Já sentia falta desta sensação tão agradavel que é a de todos os dias (ou quase todos) aprender algo sobre a vida das palavras e… sobre a vida das coisas… e das pessoas. Está tudo, afinal, tão ligado! Bem haja!

    Uma pequenina “reclamação”: o tamanho da letra dos útimos dois posts é tão pequenino! Não é minha reclamação… É das minhas dioptrias…

  2. 2 joão moreira 31 Outubro 2006 às 1:19 pm

    Bonjour!

    Alors, ça va?

    “volé”, non! Volée, c’est bien.

  3. 3 Xantipa 1 Novembro 2006 às 10:55 am

    Sugerir que o Dr. Alexandre Martins Correia era um ladrão! Por quem o tomava o aluno??🙂
    Gostei muito do seu blogue! Voltarei!🙂

  4. 4 madrid 11 Dezembro 2006 às 9:47 pm

    Karandach não é uma palavra Russa mas sim Turca!!
    É a junção de duas palavras Kara + Ach. Kara significa a cor negra em turco (akadeniz=mar negro) e ach significa pedra. Assim temos pedra negra que os Russos incorporaram no seu vocabulario, pois as minas de grafite ficavam no caucasus e era de la que ele importavam a Karandach para escrever e desenhar


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