Cosmopolitismo linguístico

Esta não é exactamente uma entrada de “História das Palavras”, mas apenas uma chamada para algumas expressões populares, cujas origens exactas desconheço, ainda que algumas permitam especulação.

Não sei se algum de vós ainda é do tempo em que qualquer condutor de carro eléctrico era um fonseca.

Quando um colega meu, no liceu, apareceu com uma árvore genealógica cheia de ligações com famílias nobres, um outro, de apelido Almeida, insistiu com o pai, pessoa de muitas posses, mas com antecedentes humildes – ter antecedentes humildes não é nenhuma vergonha; vergonha é envergonharmo-nos disso – para que também mandasse investigar a história dos seus antepassados.

Passado muito tempo, o investigador contratado trouxe-lhes a notícia de que um seu antepassado tinha dado origem ao uso de se chamar Almeida a qualquer varredor de ruas.

Novamente, não sei se algum de vós ainda é desse tempo. Andavam os varredores, pelas ruas de Lisboa, empurrando um carrinho com duas caixas cilíndricas, uma vassoura e uma pá, ambos de cabo comprido, varriam o chão e levavam o lixo nos dois depósitos. Eram os almeidas. Hoje provavelmente já não existe essa profissão em Portugal, e talvez faça falta.

Porquê fonseca? Porquê almeida? Talvez estejam relacionados com quaisquer peças de teatro, que se tenham representado nessa época. Eu ainda me lembro de se dizer, por brincadeira! “Ó Fonseca, olha o troley!”.

Se alguém me puder elucidar, agradeço.

Lembrei-me destes dois termos, porque recebi esta manhã, por email, o texto que segue, e que, de certa maneira, se relaciona também com a origem de certas expressões populares.

Eu não gosto de citar textos, sem indicar o nome do autor. Mas este chegou-me anónimo, pelo que, desde já peço desculpa ao autor, por não referir o seu nome:

O cariz internacionalista do povo português é inegável.

Senão vejamos: – Quando um português tem um grande problema pela frente costuma dizer que…se vê grego;
– Se uma coisa é extremamente difícil de compreender, ele afirma que… isso é chinês ;
– Quem trabalha de manhã à noite…é um mouro de trabalho;
– Uma invenção moderna e mais ou menos inútil…é uma americanice;
– Quem mexe em alguma coisa em que se não queira que ele mexa…é como o espanhol;
– Quem vive com luxo e ostentação…vive à grande e à francesa;
– Se se faz algo para causar boa impressão aos outros…é só para inglês ver;
– Se tentas “regatear” o preço de alguma coisa…és pior que os marroquinos. 

7 Responses to “Cosmopolitismo linguístico”


  1. 1 joão moreira 19 Outubro 2006 às 4:24 pm

    Viva!

    “almeidas” – sim, conheço a expressão. Era usada em modo depreciativo.

    Hoje existem! Cruzo-me sempre com varredores de lixo,em carros puxados à mão, com dois cilindros cinzentos, uma pá e uma vassoura. Todas as manhã o fazem na minha terra. começam às 5.30 (eu cruzo-me com eles uma hora depois).

  2. 2 a. cardoso 20 Outubro 2006 às 7:01 am

    De “fonsecas” nunca tinha ouvido, ja quanto aos “almeidas”, sempre ouvi referi-los como os varredores de ruas.
    Na minha familia existia o apelido Almeida, vinha do meu Bisavo paterno, o ultimo a usa-lo na minha familia foi o meu pai, recentemente falecido, nunca me senti desprestigiado por ter esse apelido na familia, muito pelo contrario.

  3. 3 T 20 Outubro 2006 às 9:43 am

    Almeidas, segundo a versão que conheço, tinha a ver com a origem geográfica dos varredores de ruas, pelo menos na Câmara de Lisboa. Não sei se é um facto confirmado que os cantoneiros eram de facto de Almeida. Mas posso tentar saber.

  4. 4 Eduardo Figueiredo 10 Novembro 2006 às 12:43 am

    Olá, companheiros de blogagem!
    Lembro-vos, a propósito de nomes e profissões, que convém recordar a chamada “Revista portuguesa”, de que o Parque Mayer era exemplar. É que, nessas revistas brejeiras e populares,se associavam nomes a figuras, na grande válvula de escape que representavam. Ora o povo “pegava” nesses ditos, como ainda hoje faz,e aplicava aos elementos dessa profissão. Aliás era, e acho que é, apesar das modernas sondagens, uma forma de avaliar audiências,o atentar na imitação popular…E termino perguntando:
    “TENS CÁ DISTO,Ó EVARITO?”
    EMMF

  5. 5 Inácio Steinhardt 30 Agosto 2008 às 5:56 pm

    Lembro-me do Vasco Santana, a perguntar ao droguista Evaristo, com um fraquinho na mão: “Oh Evaristo, tens cá disto?” e o outro atirava-lhe já não me lembro com quê!

    Inácio

  6. 6 Almeida 3 Maio 2014 às 8:29 pm

    Caro amigo,
    Como é tradicional nos hábitos portugueses, as verdadeiras razões pelas quais devemos ser conhecidos/valorizados, perdem-se no tempo e diluem-se dando por vezes lugar ao escárnio falta de consideração.
    Como alguém dizia aqui atrás, “lembrava-se de chamarem aos Almeidas de varredores, com algum desprestigio”.
    Porém, pasme-se, a origem da alcunha de varredores é bastante nobre. “Dom Payo Guterres Amado foi o responsável por derrotar os Mouros tomando o Castelo de Almeida de Riba Coa (Ribacôa), sendo ele conhecido como Almeidão por este feito, recebendo do Rei Dom Sancho I o titulo de Senhor do Castelo de Almeida. Dom Payo Guterres Amado legou o Castelo aos seus descendentes que tomaram o nome Almeida como sobrenome de família”. Por ter VARRIDO os Mouros do castelo da Almeida.

    Eu como Almeida sou, ainda que fosse varredor sentiria muito orgulho. Aliás com o lixo que nos governa cada vez mais fazem falta varredores.


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