Poste

No meu artigo de ontem (“Nabo”) referi-me “à expressão que eu usei, no meu “poste” anterior”. E vi logo que me metia em trabalhos. Em português não se diz “poste”. Mas decidi deixar a explicação para hoje.

Eu bem sei que estamos a viver numa espécie de “época da Torre de Babel ao contrário”. Na nossa aldeia global está a nascer todo um vocabulário novo, que deixou de ter tradução. No meu trabalho de tradutor hesito sempre se vale a pena traduzir termos como software, site e outros quejandos, que já se vão tornando naturalmente parte de um futuro léxico internacional comum.
Mas “poste” tem muito que se lhe diga.
Se houvesse necessidade de provar, com um exemplo, que “as palavras, como os homens e as nações também têm a sua história”, esta poderia ser uma das escolhidas. As palavras têm vida própria: Nascem num sítio, com um destino, viajam, evoluem, “casam-se” com outras, mudam de destino e de profissão, e os seus descendentes, se por ventura se encontram na vida, muitas vezes não se conhecem. E até a sua ascendência se confunde muitas vezes.
Em “post”, e as suas muitas derivadas, há duas origens que se cruzam e se confundem. O latim “postis”, uma peça erecta de madeira, de pedra, de metal, etc.” e o verbo também latino ponere, pôr. Ambas provavelmente terão um antepassado comum.
De postis derivou o nosso “poste”, de telégrafo (se ainda existe!) de electricidade, de sinal de trânsito, por exemplo.
Era também um poste que marcava as estações de muda de cavalos das diligências, onde se juntava gente, e eram portanto sítios ideais para pendurar anúncios de qualquer espécie, para essas pessoas lerem. Portanto um anúncio colocado no poste era um “poster”. Há muito que há concursos de posters, e há alguns bem bonitos.
Era também o lugar onde os corredores a cavalo paravam para recolherem as cartas para as levarem ao destino, e deixarem as que traziam para aquelas paragens. Daí “post” , do italiano, através do francês, ser também o correio, o nosso serviço postal e os respectivos bilhetes-postais. Mais tarde o correio passou a vir em malas, transportadas pelas diligências, as “mala-postas”. Lembram-se do “Postino”, do filme italiano, o carteiro?
De ponere veio também o nosso verbo pôr, cujo particípio passado, por semelhança de som, através do latim vulgar postum, e depois através do italiano, deu posto. Como o posto clínico, o posto da polícia, o posto militar e, por associação de ideias, emprego, cargo, como o posto de general.
E temos o verbo reflexo “apostar-se”, colocar-se no seu posto. Também a “aposta” tem a sua relação, mas através de outro membro da família: “appostareª.
Antes de eu ir buscar um pionés (este é que eu não sei de onde nos chegou, parece francês, mas não está no dicionário. Virá de peon, pião?) antes de eu ir buscar um pionés, dizia eu, para pregar esta prosa no poste da História da Palavras, um pequeno aviso: o prefixo post- (depois), não está relacionado; vem da preposição latina “post”, com o significado de “depois”.
E agora, com esta me vou, pois a minha mulher já está a pôr na mesa as postas de peixe para o jantar. Ah! Faltava mais esta, as “postas” de peixe, de carne, etc. são cortadas de modo a poderem ser postas na mesa para se comerem. Daí o seu nome.
E não, não são as tais “postas de pescada” da expressão popular que se refere aos presunçosos que falam muito nos seus teres e haveres.

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