Vasco Santana – in memoriam

Aqui vai o prometido. O diálogo do saudoso actor Vasco Santana sobre reformas ortográficas.
Com alguma dificuldade e certas falhas, pois o som original já está muito gasto.

“Olha o doutor Coca-bichinhos! Como tem passado Vossa Excelência?
– Ora ainda bem.
– Olhe que ando muito atrapalhado com as línguas. V. Exa. conhece a linguística, tem relações com a fonética?
– Eu conheço uma data de raparigada, mas dessas nunca ouvi falar, não senhor.
– Quer dizer que V. Exa. é um ignorante como os outros.
– Não é para me gabar, mas já me têm chamado ignorante.
– V. Exa. não conhece os preceitos da reforma ortográfica, indispensáveis para evitar as discrepâncias da escrita, que estão a comprometer muito a língua.
– Ò senhor doutor, eu aí nunca tive discrepâncias. Tenho tido aftas, mas nunca tive discrepâncias.
– Ora vamos lá a saber uma coisa. Como é que o senhor se chama?
– Oh, senhor doutor, eu tenho um nome muito compriiiiido. Na intimidade chamam-me Zé…
– Ora diga-me lá: Zé tem acento ou não tem?
– Lá ter, tenho. Faço é muito pouco uso dele…
– Pois faz mal. V. Exa. tem por força que pôr o acento no Zé.
– Isso agora, mais devagar. Ponho se quiser!
– E diga-me lá uma coisa: V. Exa. é de opinião que se deixe ficar o acento antes do…….
– Sim, senhor. Pelo menos um quarto de hora.
– Perdão, não é nada disso.
– É sim, senhor doutor, alfavacas…
– Qual vaca, nem vaca nem meia vaca, nem carneiro… por exemplo, na palavra “Cúmulo”, tem que ter um acento muito aberto, para se ouvir bem: cú-mu-lo.
– Ah, tem que se abrir o …
– Exactamente. Em compensação, em “irmão colaço”, colaço não precisa de acento.
– Pois não! “Cú lasso” já é aberto, por sua natureza!
– E nas miudezas, o que é que o senhor costuma pôr?
– Conforme, senhor doutor, ervilhas, cenouras, arroz…
– Oh, senhor! Dá-me a impressão de que estou falando a um cozinheiro.
– Ah, ah, ah! Cozinheiro não sou, não senhor doutor. Sou capaz de fazer um jantar. E sou capaz de o comerrrr!
– E o senhor sempre com a comida. E nas miudezas põe um trema, não é verdade? Assim como tem que o pôr na linguiça!
– Ò senhor doutor, mas então fico com a linguiça… tremada.
– É preciso muito cuidado com as letras que foram eliminadas. “Capa”, por exemplo, já não há.
– Ah, pois não, agora anda toda a gente de gabardina.
– Com o valor das letras é necessário o máximo cuidado; o “xis” tem sempre o valor de “xe” e não de “ecse”.
– E o “ch” já não se usa?
– Não, o “h” é inútil.
– Mas então, se o “ch” tem só o valor de “que”, eu já não posso dizer é a minha morada. Sou logo multado.
– Ora essa! Onde mora o senhor?
– Moro na Travessa das …
– Diga, diga!
– Bem… das Chagas, “ch” Chagas, 24-3.º Dto., uma casa às suas ordens.
– Muito obrigado!

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