Borda d’Água

Obrigado aos muitos visitantes que publicaram comentários, ou me escreveram directamente, esclarecendo-me que o Borda d’ Água continua a exercer a sua função social.
E também aos que me lembraram a existência do outro almanaque, de funções idênticas, o”Seringador”, que optou o tom jocoso, e concorre no vasto mercado que parece existir.
Segundo me informam, o Borda d’ Água para 2006 atingiu uma venda de mais 350 mil exemplares. E ainda há quem diga que a indústria da edição de livros em Portugal está muito por baixo…

Não, não me mandem nenhum exemplar. Agradeço aos amigos visitantes que se ofereceram gentilmente para isso, mas a verdade é que tenho, nos meus arquivos um exemplar de cada um, Borda d’ Água e Seringador, e já me chega.

Assim como assim, não me seriam muito úteis aqui. Comprei-os, como complemento das minhas investigações sobre os usos e costumes dos cripto-judeus portugueses contemporâneos. Como eles não tinham calendários judaicos, que, já disse, são lunares, começando os meses na lua nova, a única forma de determinarem as datas das principais festas religiosas era contar o número de dias a partir da lua nova, e então sabiam quando era o dia 14 de Nissan ou o 10 de Tishri.
Quando eu os conheci, em 1963, eles já não precisavam de observar a lua. Sabiam a data da lua nova, com bastante antecedência, através do que eles chamavam os “reportórios”, e está certo, pois também esse nome é usado para designar os almanaques.
A propósito, “al-manak” significa em árabe simplesmente “calendário”.

A primeira publicação impressa desse género, que apareceu em Portugal com a intenção de ser regular foi em 1811, na Imprensa Régia de Lisboa, e trazia um nome muito comprido, que começava por “Lunário…” E era isso mesmo, como é ainda hoje, um livrinho para se saber das luas, que tanto influenciam a agricultura.
Mas havia séculos que certos astrólogos compunham umas folhinhas com as principais informações e iam pendura-las nas margens dos rios navegáveis, para que os barqueiros, ao passarem por ali, recebessem informações frescas.
É isso que significa o “velho da cartola”, na capa do almanaque. É um astrólogo que leva as folhinhas de baixo do braço, para as ir pendurar à “Borda d’ Água”.
A segunda publicação do Lunário já trazia o subtítulo “Borda d’ Água”.
A actual publicação do “Verdadeiro Borda d’ Água” (pois imitações já houve muitas, como para os deliciosos “Verdadeiros Pasteis de Nata de Belém” e outras mais verdades, ou “verdadades” que por aí circulam) já ultrapassou os 140 anos e continua a prestar bons serviços a muita gente.
Sem desprimor para o “Seringador”, jocoso por intenção, que surgiu mais ou menos pela altura desta segunda versão, para “seringar o pobre, o rico e o lavrador”.

Almanaques, folhinhas, reportórios e Borda d’ Águas não foram invenção portuguesa, existiram e existem em muitos países. Personagens famosos, como Benjamin Franklin, estiveram ligados a alguns, que ainda hoje são citados.

Mas eu não vos vou “seringar” mais com isto. Ficamos por aqui.

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