Judeu

“O homem põe e Deus dispõe” – diz o nosso ditado.

Há dois dias escrevi aqui que tinha um tema à frente da lista, para escrever sobre ele, e adiei-o para dar preferência ao Calendário, que se apresentava como oportuno.
Afinal também não vai desta vez.
Quem escreve, sabe como eu que é assim: nós não escolhemos os temas; eles é que nos escolhem, a nós, e se apresentam, pedindo, por vezes insistindo mesmo, para escrevermos sobre eles. É uma espécie de “Providência” dos que passam a vida, ou grande parte dela, a fustigar o teclado.
Com grande surpresa minha – e com a ajuda amiga do Nuno Guerreiro, de “Rua da Judiaria” e outros amigos – este blog já excedeu em 9 dias o meio milhar de visitantes.

Muitos dezes visitantes me têm encorajado com comentários, com alguns dos quais já aprendi mais. Não sei ainda como lhes agradecer directamente, pois chegam-me com endereços que não permitem resposta.

Há um, porém, muito especial, que serviu, desta vez de “mensageiro da Providência”, enviando um comentário, curto e singelo, que implicitamente “pede para ser tratado”.
Assina-se o amável visitante “Acoral” e as poucas palavras, que me escreveu dizem muito: “Mais judeus na net!!!!”

Primeiro – embora o meu blog não se destine especialmente a visitantes judeus, é simpático, da parte deste visitante, salientar a minha filiação religiosa, de que evidentemente muito me orgulho.
Segundo – sou levado a admitir que o fez por um impulso de confraternização, talvez por se considerar também judeu, o que me não surpreenderia, porque é um “estigma” de que se queixam ou regozijam muitos portugueses. Por isso também aqui o saúdo.
Há outro ditado português, com algumas variantes, que diz que “de preto, de judeu e de mouro, todos temos um pouco”.
Se considerarmos que em 1496, de cada cinco portugueses um era judeu, temos que D. Manuel I, cuja intenção talvez tenha sido expulsar os judeus de Portugal (talvez, repito!), mas – cá vem novamente o “O homem põe e Deus dispõe” – o que conseguiu afinal foi entranhar o judaísmo entre os portugueses.
Poderia ainda comentar o papel relevante da Inquisição em propagar o cripto-judaísmo em Portugal, e as 11 famílias “puritanas” da legislação pombalina. Mas não são estes os temas deste blog. Tudo isto apenas para renovar os meus agradecimentos ao visitante senhor Acoral, que aqui será sempre bem-vindo, por me sugerir o tema “Judeu”.

Diz o meu dicionário que judeu “é aquele que, ou é natural da Judeia, ou segue os preceitos e ritos da religião judaica; o homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador.”
A primeira definição veio-nos etimologicamente do latim judaeu, que por sua vez se baseou no hebraico yehudi, que significa pertencente ou descendente da tribo de Yehudah, em português Judah, ou Judas, um dos 12 filhos do patriarca Jacob.
Nos templos bíblicos os judeus eram conhecidos apenas por Hebreus ou por Bnei Israel, ou seja, filhos de Israel, sendo este o segundo nome atribuído ao patriarca Jacob. Depois da morte do rei Salomão, dez das doze tribos separaram-se formando um reino à parte, o Reino de Israel e os seus habitantes eram os Israelitas. As duas restantes tribos, Judah e Levi, formaram o Reino de Judah, cujos habitantes se chamavam Judeus.
O Reino de Israel foi o primeiro a ser destruído e espalhado pelo mundo fora. Ainda hoje aparecem tentativas para identificar este ou aquele povo com os antigos israelitas, mas sem que haja até agora provas conclusivas.
O Reino de Judah subsistiu porque tinha a sua capital em Jerusalém, onde se encontrava o magnífico Templo construído pelo rei Salomão, e esse foi o factor religioso que serviu de catalisador ao pequeno reino, que só deixou de existir quando da conquista de Jerusalém pelos Romanos.
Quando da independência do actual Estado judaico, os seus fundadores hesitaram no nome que lhe haviam de por: “Estado da Judeia” ou “Estado de Israel“. Prevaleceu esta última opção.

A segunda e terceira acepções lexicológicas: “homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador” entraram na língua portuguesa por via eclesiástica, ou melhor por via de prègadores fanáticos cristãos, que acusavam os judeus da morte de Jesus.
Há por aí muito quem proponha que se decida excluir estas duas definições pejorativas dos dicionários da Língua Portuguesa. Eu sou contra essa proposta, pois a sua exclusão tornaria impossível a interpretação de textos em que a palavra “judeu” está escrita com esses sentidos. É tudo uma questão de educação, e o papel dos dicionários não é educar.

Poderia contar-vos aqui diversos episódios caricatos, de que fui protagonista em Portugal, desde o comerciante da província que se recusou a acreditar que eu era judeu, porque não apresentava os sinais que lhe haviam ensinado (cauda e cornos), até ao ex-estudante de Coimbra que sempre que, nas suas cartas para mim escrevia a palavra “judeu”, acrescentava entre parênteses “peço desculpa“, passando pela pobre noiva que, no dia do seu casamento, apanhou uma bofetada do tio, por dizer que não servissem ao senhor Inácio carne de porco, “porque ele é judeu”. Como se atreveu ela a chamar uma coisa dessas ao convidado da família?

Mas a resposta mais expressiva que ouvi, pela sua candidez, e pelo significado que ela queria dar a cada palavra, foi de uma mulher simples, no “Bairro de Baixo“, em Argozelo, conhecido por ser habitado exclusivamente por descendentes endogâmicos dos judeus forçados à conversão. E que, evidentemente, apesar de apontados a dedo pelo resto da população, ainda muitos o negam:

Eu não sou judia, mas, se o fosse, não o negava, porque até Deus, antes de ser português, foi judeu”.

Isto não diz tanta coisa?”

Resta-me tentar esclarecer aqui um erro semântico que surgiu em Portugal nas últimas três décadas.
Quando se constituiu a primeira Comunidade judaica em Portugal do século XIX, foi decidido evitar o termo “judaica”, que para muitos ainda tinha apenas o sentido pejorativo e optar por Comunidade Israelita de Lisboa. Era de bom tom, de boa educação, referir-se aos indivíduos de religião judaica como israelitas e não como judeus. (Curiosamente os cripto-judeus, que continuavam a viver semi-segregados nas aldeias portuguesas, foram sempre chamados “judeus”).
O mesmo fizeram os do Porto, ao fundar a “Comunidade Israelita do Porto”. A primeira comunidade a usar o nome certo foi a “Comunidade Judaica de Belmonte”, cujos membros, apesar da Inquisição, mantiveram a sua tradição judaica, no íntimo dos seus lares, durante quase cinco séculos.
E, só por ironia do destino, não posso deixar de salientar, que os cristãos-novos portugueses, que se estabeleceram no sul da França nos séculos XVII e XVIII eram conhecidos por “Messieurs les portugais” . Português como sinónimo de judeu.

Quando foi criado o Estado de Israel, parecia lógico que os seus habitantes fossem designados em português por “israelitas”. Mas o termo já estava tomado para os portugueses de religião judaica.
No Brasil encontraram a solução adoptando para aqueles o termo “israelense”. Em Portugal, não sei porque birra, adoptou-se a designação de “israeliano”, a qual, até onde eu percebo de derivação, não faz muito sentido. Mas esta foi a designação usada pela imprensa portuguesa entre 1948 e cerca de 1980. A partir daí, alguém cometeu o erro de chamar “israelitas” tanto aos judeus como as habitantes de Israel. E o uso pegou.

A Sociedade da Língua Portuguesa confirma-me que é um erro e que se deveria fazer um esforço na imprensa portuguesa para corrigir esse erro. Mas quem? Já deve ser tarde.

Como jornalista, sinto um certo embaraço quando tenho que referir-me a alguém como “árabe cristão israelita”, mas é a definição exacta de dezenas de milhares de cidadãos de Israel, e não lhes posso chamar “árabes cristãos israelianos”, porque as redacções não o aceitariam.

4 Responses to “Judeu”


  1. 1 Herculano 21 Setembro 2007 às 6:21 pm

    Após alguns anos de cristão, sempre tive a curiosidade de saber qual o motivo de o povo de Israel se chamar povo judeu.
    Nesta semana estava preparando uma mensagem a partir do texto do livro de 1Rs – 12, quando suspeitei que o nome Judeu se deu por razões do descrito nesse texto.
    Hoje ao pesquisar na internet achei o texto de vossa senhoria, o que me foi muito útil, aproveitei e divulguei aos meus amigos e irmãos em Cristo Jesus.
    Desde já muito obrigado e que Deus abençõe sua vida.
    Quando houver novos artigos e mensagens, solicito encaminhar para o endereço acima pois me interesso por esses assuntos.

    Um grande abraço.

    Herculano

  2. 2 lady 9 Janeiro 2008 às 6:58 pm

    o que significa a palavra judeu

  3. 3 Edite Coelho 7 Julho 2009 às 2:19 am

    Incrível, como só há pouquíssimo tempo descobri este blog! Com tanto que sempre quis saber e investigar sobre tudo o que diz respeito à causa judaica e aqui com um blog tão completo! Por tudo o que posso aprender aqui, só tenho que dizer: Obrigado Inácio

  4. 4 Henrique 17 Maio 2010 às 8:56 pm

    Estou conhecendo o Judaismo, e a cada dia encontro que me “encanta”.


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