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Um blogue de baixo quilate

Há blogues de alto quilate e há os mais modestos, como o meu.

O que é um quilate afinal?

Pois há quilates e quilates, duas palavras que facilmente se confundem:  em diamantes e outras pedras preciosas, o quilate é uma unidade de peso; nos metais preciosos, como o ouro, é uma unidade de pureza.

Comecemos por este: convencionou-se que o ouro puro tem 24 quilates.  Portanto, quando se diz que uma determinada jóia é feita de ouro de 21 quilates, isso significa que a sua liga  tem 87,5%  (21/24) de ouro e o resto são outros metais não preciosos;  se for de 18 quilates (18/24) tem 75%  de ouro, e assim por diante.

Em sentido figurado, um blogue de  “alto quilate” é aquele que tem alta percentagem de conteúdo com valor. O resto tem menos ou nenhuma importância.

            A outra acepção, nas pedras preciosas, é uma unidade de peso, igual a 200 miligramas. Um diamante de 20 quilates, significa que pesa 4 gramas.

            Porque lhe chamamos “quilate”?

Isso é que tem uma história, que vale a pena contar: as batatas vendem-se e compram-se aos quilos, mas os diamantes (tirando talvez a Elizabeth Taylor e os seus ex-maridos) não se compram aos quilos, mas sim em unidades muito pequenas, que têm de ser pesadas em balanças de alta precisão. Antes de haver balanças electrónicas, era preciso encontrar um peso padrão muito pequeno. 

Os comerciantes decidiram-se então pelas sementes da alfarroba, não só por serem muito leves (mais ou menos os tais 0,2 gramas) como porque antigamente pensavam que tinham a qualidade de serem todas exactamente iguais em peso umas às outras.   Hoje sabe-se que isto não é exacto.  Mas as diferenças eram muito pequenas. Comprar ou vender um diamante ou um rubi, consoante o número de sementes de alfarroba que pesava, acabava por ser suficientemente exacto.

O nome da alfarroba, em português, ficou-nos da ocupação árabe, com a habitual conversão do h aspirado, que por vezes se escreve kh, em f.   Al-kharub, em árabe, é a nossa alfarroba. Aqui em Israel chamamos-lhe Harub.  Em inglês, como sabem, diz-se “carob”.

A semente da alfarroba também vem do árabe “qirat”.  Mas a sua origem é grega. Na Grécia, as sementes da alfarroba chamavam-se keration e daí passou para os árabes..

Do árabe “qirat”, talvez através do francês “carat”, ou do italiano “carato”, nós fizemos “quilate”.

O outro “quilate”, que, como vimos designa a pureza do ouro, tem exactamente a mesma origem. Apenas que não é uma unidade de peso.

Na língua inglesa é costume distinguir duas grafias: carat para o peso dos diamantes e karat para a pureza do ouro.

 

 

Alerta, camaradas!

Vi hoje na televisão um programa em que um vereador de determinada Câmara Municipal se dirigia aos seus Camaradas.   Não teria sido possível eu ver essa cena, se não estivesse lá o cameraman (anglicismo!) com a sua câmara. 

Ora aqui temos nós quatro palavras aparentadas, de entre várias outras pertencentes à mesma família.:  Todas derivam do latim camara ou camera (usaram-se as duas grafias), que, por sua vez derivou do grego kamara, e cujo significado é abóbada ou compartimento.

No português antigo, câmara era simplesmente um quarto numa habitação ou uma sala. 

Havia os conselheiros reais, que se reuniam na “câmara d’el-rei” e exerciam junto do monarca funções semelhantes às dos ministros de hoje.

Com o uso deram origem a outras corporações com o mesmo nome: Câmaras Municipais, Câmaras de Comércio, etc.

No exército, os soldados que dormiam na mesma câmara (quarto, dormitório) referiam-se uns aos outros por seus “camaradas”.    Daí ganhámos um sinónimo para “companheiro”.

No século X, um cientista iraquiano, da cidade de Basra, Abu Ali Al-Hassan ibn Al-Haitham, foi o primeiro a realizar metodicamente experiências sobre uma observação, que já os chineses haviam feito muitos séculos antes, e depois deles também os gregos: a luz que penetra por um pequeno orifício, numa das paredes de um quarto às escuras, projecta-se lá dentro, na parede contrária.   E, se entre essa luz e a parede se interpuser um objecto, a sombra desse objecto fica visível na parede-tela.

Chamou-lhe, na língua árabe, “Al.Bayt al-Muthilim” (a casa escura, ou o quarto escuro).  Traduzido em latim, a língua que utilizavam os cientistas do ocidente, deu camera obscura, ou seja a “câmara escura”.

Graças às observações de Al-Hassan, explicadas num tratado sobre óptica, que ele escreveu, viria a ser inventada a “câmara fotográfica” e a fotografia.

E da fotografia veio o cinema e o vídeo, para os quais se usam aparelhos, a que continuamos a chamar câmara.

Portanto, camaradas da Câmara, olhem bem para a câmara, para ficarem bem no retrato.  

Falar em geometria…

Andaria eu no 1.º ano do liceu, ou talvez no 2.º, e, nas horas livres fazia pequenos recados à minha Mãe, os quais me levavam de quando em quando a uma drogaria, que havia perto de nossa casa.   Quem é que ainda se lembra do que era uma drogaria, no tempo em que ainda não havia detergentes, nem supermercados?

Pois naquela drogaria costumava entrar uma senhora, já de uma certa idade, manifestamente culta, que conversava sempre com os presentes, sobretudo com os mais novos, e contava muitas histórias sobre terras estrangeiras, Paris, Roma, Londres, Viena, a que, naquele tempo muito poucos portugueses viajavam.   Olhando agora para trás, não sei se a senhora tinha mesmo visitado aquelas cidades, se apenas lia muitos livros.

Na candura do meu mundo de estudante recém-chegado ao liceu, disse-lhe um dia:  “A senhora conhece muito bem a Geografia.”.  E a senhora, com um sorriso malévolo, respondeu-me: “Geografia? olhe que não, só passei por lá uma vez, e por pouco tempo.”

Lembrei-me agora deste episódio, porque este vosso amigo, que consegue fazer-se entender em várias línguas, já uma vez teve que falar numa língua chamada Etimologia.~

Não acreditam? Eu conto.

Estive uma só vez na Grécia, por 24 horas, numa escala técnica entre dois aviões.  Cheguei a Atenas a meio do dia, dormi lá, e no dia seguinte, ao princípio da tarde, segui viagem.

À noite, entrei num restaurante e olhei em volta, procurando uma mesa. “Acorreu logo um empregado solícito, perguntando se o “Kirie” (senhor! Lembram-se do ‘Kirie Eleison’, da missa?) se o Kirie achava bem aquele “trapézio” (mesa)?”  Parecia que estava numa aula de Geometria!

Acabei o repasto, o empregado veio mostrar-me o carrinho das sobremesas (por gestos, pois nem ele falava língua que eu soubesse, nem eu falava grego.)  Declinei a sobremesa e então ele pediu o “aritmus” para o “kirie”.  Afinal eu sempre percebia um pouco de grego: “a conta para este senhor”.

Na manhã seguinte aproveitei para ir ver a Acrópole, dei umas voltas por Atenas, e, a certa altura, com receio que se fizesse tarde, pois não sabia bem o caminho, fiz sinal a um táxi e mandei seguir para o hotel. Claro que o taxista também só falava grego.

Já pertinho do hotel, onde tinha as malas, vi um letreiro com o nome de “General Electric”. Ora eu trabalhava em Lisboa, na General Electric Portuguesa, e tinha-me correspondido, por assuntos de negócio, com o representante da firma em Atenas.  Não o conhecia pessoalmente, mas já agora seria simpático cumprimenta-lo.

Pedi ao taxista que parasse ali. Qual quê, felizmente estávamos parados num semáforo, mas ele gesticulava, falava pelos cotovelos, e eu, vendo-me grego, só consegui dizer-lhe: “I don’t understand”.   “Duntandestan? Hotel, hotel…

Ora bolas, eu sabia que ali não era ainda o hotel, mas como é que eu ia explicar aquele filho de Atenas, que queria parar ali e depois iria a pé para o hotel?   Instintivamente comecei a falar etimologicamente. Lembrei-me dos filósofos gregos (filos=amigo sofos=saber) e apontando para a tabuleta da GE, disse-lhe “Filos!”  O homem abriu-se num amplo sorriso, encostou o carro ao passeio, desligou o taxímetro, e cheio de compreensão, disse: “Filos, filos…” Compreendeu que eu tinha ali um amigo.

Veio-me à lembrança esta história, porque um simpático visitante deste meu sítio, o senhor Fernando Quaresma, me escreveu directamente, pedindo para explicar a etimologia dos termos da Geometria.

Eu não sabia.  Mas lembrei-me de que, se, naquela altura, eu tivesse ficado mais alguns dias em Atenas, já estaria a escolher o meu almoço nos restaurantes… em geometria!

A Geometria começou por causa das cheias do Nilo.  Quais são as terras mais férteis do mundo?  As das margens do rio Nilo, claro. Porque o rio as inunda e traz consigo todas as matérias que as fertilizam. Mas não há bela sem senão. Se, por um lado, as cheias as cheias enriquecem os proprietários das terras, por outro, quando baixa a maré, levam consigo todos os postes de demarcação das propriedades.  E para devolver o seu a seu dono, era necessário fazer novas medições. 

Os gregos aprenderam com os egípcios a medir as superfícies da terra. “Geo” é “terra”, “metria” é “medida”, e assim inventámos a arte de medir a terra – a geo…metria.

Aos egípcios ficámos a dever também as pirâmides.  Os gregos chamavam-lhes “puramis”, com base no nome que eventualmente lhes davam os egípcios.

“Cilindro” significava “rolo”.   Quando os livros eram escritos em rolos de papiros egípcios (de papiros nos veio a palavra “papel”) não se dizia livro, mas sim “kilindro”, e do livro enrolado nasceu a forma geométrica do cilindro.

Reparem bem que o som do “c”, para nós soa “ss”, antes de “i” ou de “e”, em grego era sempre “k”, como antes de “a”, “o” “u”, e assim ficou sendo no oriente.  Aqui onde eu vivo, Cícero diz-se “Kikero”, e Cesarea é “Keissária”. Por isso, Cesar (imperador), deu em alemão “Kaiser”.

Círculo era “kiklus”, um anel, para adornar o dedo das damas. Depois, na Geometria, foi só copiar a forma..E na nossa pronúncia latina – círculo, mas também “circo” para as crianças…

Quando um grego, ainda hoje, quer marcar um encontro na esquina de duas ruas, diz: “gonia” (canto). Os Romanos fizeram daí “angulus”, e o que é um ângulo, senão um canto?

A circunferência chegou ao grego e ao latim de uma raiz indo-europeia, “qwel”, que significava “andar à volta”.

Um polígono tem “poli” (muitos) “gonia” (ângulos, cantos, como já vimos). 

A palavra grega “konus” deu o “cone”. Deu também, em português, por causa da sua forma geométrica, uma palavra chula, que me abstenho de repetir aqui. A bom entendedir…

Um “quadrilátero” tem, evidentemente, quatro “latus” (lados).

O “raio” do círculo vem de “radius”, cujo significado primitivo era vara, estaca. Para medir o raio era necessário um pau comprido.

Prisma? Pergunta ainda o senhor Quaresma.   Pois vem de “prizein” que em grego significa serrar. Era preciso serrar para se obter a forma do prisma.

Estão a ver? Agora já podemos mandar “prizein” um “radius” para fazer um “trapézio”, para almoçarmos em cima dele, da próxima vez que formos a Atenas. 

A sesta e o cesto

Hoje, depois do almoço, dormi à sesta.

Tinha que ser, porque estava um bocado cansado. 

Nem precisava de dizer que foi depois do almoço, pois todos sabem que a “hora da sesta” é depois do almoço.

E porquê? Porque os antigos latinos contavam as horas a partir da seis da manhã. Ao meio-dia, era a hora da sexta.    Mas sexta escreve-se com um “xis”, e sesta é com um “esse”!   Pois é. Mas nem sempre foi assim.  

Vejam, por exemplo, este extracto de um texto de cerca de 1300: Mays quando for a ora de sesta deuë tãger todolos sinos da uilla aa missa maior assi como os tãgem enos dias das grandes festas.

E também “sexta-feira” se escrevia “sesta-feira”.

A propósito, lembro-me de uma reportagem na televisão, sobre os abusos de poder no tempo do Estado Novo, a que assisti, pouco depois do 25 de Abril.

Pediram aos membros de um grupo de trabalhadores dos caminhos-de-ferro, a labutar ao sol quente, que contassem as explorações a que tinham sido sujeitos no passado.

Mas os homens pareciam estar ainda pouco à vontade para falar sobre o passado, e a cada pergunta diziam que se defendiam “com o artigo sesto”. 

O entrevistador deve ter feito uma nota mental para ver mais tarde o que dizia esse “artigo sexto”, que tão bem defendia os trabalhadores, pois, a cada nova pergunta, os homens invocavam o mesmo “artigo sesto”.

A certa altura, não se conteve e perguntou: “Artigo Sexto, de que Lei?”.

“Não é da Lei, não senhor, mas resolve todos os problemas. Pelo Natal, pela Páscoa, e de cada vez que o chefe começa a apertar mais com a gente, manda-se um dos miúdos a casa dele com um cesto, e ele fica logo mais amigo!  Questão de ortografia: não era sexto, era cesto.

Eu sei, eu sei, não precisam de dizer que este artigo (o meu) não tem piada (do verbo piar) nenhuma, porque vai já para o “artigo cesto” … dos papéis.

Ou, como também se dizia antigamente… para o “arquivo grande”, um sinónimo de “cesto dos papéis”.  

Tâmaras na palma… da mão

“Ai Mouraria, da velha Rua da Palma…!”  “Reza-te a sina nas linhas traçadas na palma da mão…” 

Em que ficamos? Palma, de palmeira, ou palma das mãos?

Como já deram por isso, se é a mesma palavra, deve ter andado em bolandas na história. 

Pois a verdade é que a mesma palavra nasceu em latim, “palma”, com o significado de “mão”.    Por extensão, como os ramos das palmeiras pareciam estender-se como os dedos da mão, foram esses ramos chamados, ainda em latim, “palma”.  (“Domingo de Ramos”, em inglês, é “Palm Sunday”).

Foi esta acepção botânica a primeira a chegar às nossas línguas, através dos diversos dialectos germânicos – “palma” = ramo da palmeira.

A outra accepção, na realidade a original em latim, como vimos, a da parte da mão, em forma de concha, chegou-nos pelo francês “paume”.

Mão” veio também do latim “manu”.

O uso da mesma palavra para a mão e para o ramo da palmeira já vem de longe. Na língua hebraica, “Kaf” (plural “kapot”) é tanto a “palma da mão” (ou do pé), como o ramo da planta que aqui nos brinda com as deliciosas tâmaras (do hebraico “tamar”).

Ainda no hebraico, e por extensão, qualquer objecto cuja forma lembre a palma da mão, é “kaf” – “caf” é “colher”, e também “pá”.

O membro superior do corpo humano (“braço” em português, é, em hebraico, “yad”.  O membro inferior (a “perna”) é “reguel”.

Portanto a “palma do braço” é “kaf ha-yad” e a “palma da perna” é “kaf ha-reguel”.

Voltando ao nosso português, temos ainda muitos derivados do latim “palma”, desde “palmiforme” (em forma de palma), como o verbo “palmar”, ou seja apanhar com a mão.

E temos também o “palmo” – medida da extensão que vai da ponta do polegar à ponta do mínimo, estando a mão bem aberta. Medida de 0,22 m. 

O homem e a maçã

Uma história curtinha, de que me lembrei hoje, ao fazer mais uma tentativa para catalogar a minha biblioteca.

“Maçã-de-adão” – todos sabemos o que é: aquela cartilagem saliente, que todos temos no pescoço, através da qual se processa também a fala.

Mas porquê “maçã-de-adão”?Por duas razões:

- A primeira baseia-se na lenda popular que conta que quando, no paraíso, Eva convenceu o marido a provar o fruto da árvore da ciência do bem e do mal – supostamente uma maçã – Adão deu uma dentada e engasgou-se, porque o bocado que engoliu ficou entalado na garganta, no lugar onde está a dita cartilagem.

A segunda explicação, científica, é que o crescimento da cartilagem é determinado por hormonas masculinas, sobretudo a testosterona.  Como só nos homens se encontram essas hormonas em quantidade, sobretudo na puberdade, é nos homens que a saliência é mais pronunciada.   E quanto mais altos, mais pronunciada.

Daí o nome de “maçã-de-adão” – e não de Eva.  

Aventuras do tabaco

O Isidoro, aluno da primeira classe, contou na aula que tinha um vizinho novo, o senhor Mindonça.  O professor, que ouviu a conversa, emendou-o: “Não é Mindonça, é Mendonça, que se diz”.  O Isidoro insistiu: “Desculpe, mas o meu vizinho é Mindonça. Sempre que o meu pai vai à rua, ele pede-lhe: ‘Faça-me um favor, senhor Lopes, traga tabaco para mim d’onça!”

Vocês já não são do tempo da onça de tabaco e do papel para cigarros, que se comprava nas tabacarias, e depois se enrolava e fechava com cuspo, para fumar.  Até vai um “gadget” (como se diria hoje) para fazer o cigarro à mão e sa´´ia mais direitinho.   Nem do rapé e das caixinha de rapé. tabaco para cheirar.  Ainda hoje se coleccionam essas caixinhas, algumas de prata e muito artísticas.

Pois o meu “avô” adoptivo Jacinto, de Camarate, pedreiro de profissão, costumava dizer que no inverno  “não ganhava para o tabaco.”

O tabaco e o seu fumo estão agora nas bocas do mundo. 

Fumar ou não fumar em lugares públicos?

Direito dos “fumadores passivos” a proteger a sua saúde?

Direitos dos fumadores activos a desfrutar livremente do seu vício?

Nenhuma destas perguntas se situa no âmbito deste cantinho de conversa.

Mas que dá oportunidade para algumas histórias, ah isso dá! 

O tabaco é originário do Novo Mundo, sobretudo da América do Sul, e foram os espanhóis e os portugueses que o trouxeram para a Europa, ao mesmo tempo que o seu uso e a maioria das palavras com ele relacionadas.

O fumo do tabaco começou por ser um acto sagrado entre os índios das Américas.  Circulam entre eles muitas lendas sobre os espíritos que trouxeram essa tradição para os seres humanos.  A mais consistente em diversas regiões é a do Grande Espírito, que reuniu o povo num alto precipício, de paredes de quartzo, e, partindo um pedaço da rocha vermelha, construiu o primeiro cachimbo.   Foi com base nessa lenda que se iniciou a tradição dos índios fazerem peregrinações â Rocha Vermelha dos Cachimbos, e lá construir o seu cachimbo sagrado individual com a pedra daquela rocha..

A palavra cachimbo, que usamos em português, veio da língua africana bundo, ou quimbundo (Angola), na qual o cachimbo se dizia “quixima”.

Tabak era uma palavra da língua caribe, falada pelo povo Caribe, habitante das Caraíbas. Na sua língua “carib” significava “inteligente”. 

Não se sabe ao certo se eles chamavam “tabak” ao cachimbo, se às folhas da erva do tabaco, enroladas como os cigarros, para fumar.

Na língua maya o tabaco chamava-se siyar ou sikar.  Daí recebemos a palavra “cigar”. Para o português ficou cigarro.  Para os ingleses, “cigar” é o que nós chamamos “charuto” . Os ingleses têm um tipo de charuto, com as duas pontas cortadas, a que chamam “cheroot”, nome derivado de “shuruttu”, na língua tamil (Sri Lanka, ou Ceilão, como se chamava a ilha no tempo em que eu estudei. Agora andas os tamils revoltados, desejando a independência).

Dizem os contadores de histórias que no século XVIII, em Sevilha, os mendigos começaram a apanhar do chão as pontas dos cigarros, que os “meninos ricos” deitavam fora.  E então enrolavam esse tabaco em papel, chamando-lhes “cigaretas”. 

Daí adaptaram os ingleses a sua palavra para os cigarros, que depois foi seguido no francês e no alemão, com grafias diferentes – “cigarette”, ou seja um charuto pequeno. ~

O nome científico da planta do tabaco é, como sabem Nicotiana tabacum.

O produto activo do alcatrão, que “adorna” as paredes dos pulmões dos fumadores inveterados, chama-se “nicotina”.

Foi seu padrinho o médico francês Jean Nicot, que usava o tabaco como medicamento, para minorar as enxaquecas de Catarina de Médicis., rainha de França.

Proletários de todo o Mundo…

Tanto como me é grato constatar o número bastante razoável de visitantes, que honram este blogue com a sua presença, (vejam o contador aqui à vossa direita) me preocupa o facto de alguns deles insistirem em me considerar uma “autoridade” em etimologia.

Nunca será demais insistir que esta não é a minha especialidade. Posto que palavras são a ferramenta com que trabalho, tenho uma natural inclinação para aprender a sua história.  É tudo!  Além de que tenho gosto em partilhar convosco o que vou aprendendo, e aprendo mais com os vossos amáveis comentários, que muito agradeço.

Um dos aspectos aliciantes deste interesse comum é o facto de que muitas vezes lidamos com uma palavra quase todos os dias, aceitamo-la como facto consumado, e nem sequer reparamos na inesperada origem que está ali mesmo perante os nossos olhos.   Até que ela nos dá um sinal de vida, acena para nós e diz: “Olá, estou aqui!”

A palavra de que me quero ocupar hoje chegou à nossa língua no século XIX, pela pena dos escritores, como Eça de Queiroz, por exemplo: “Jesus foi um proletário, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galileia…”   (Correspondência de Fradique Mendes).

Entrou no uso vulgar depois de que Marx e Engels publicaram o célebre «Manifesto Comunista”, em 21 de Fevereiro de 1848.  “Proletários de todo o Mundo  uni-vos”.  Até em russo, o vocábulo é quase o mesmo: Пролетарии каждого, я объединил вас!”.  “Proletarii”

No dicionário é sinónimo de “trabalhador”, e quantos de nós nos demos antes ao trabalho de ler a continuação do verbete?

Confesso que, até ontem, ao ler uma notícia de um jornal em hebraico, que até não tinha nada que ver com o manifesto, nunca tinha reparado no componente que salta mesmo à vista em proletário – prole!

E prole, diz o mesmo dicionário, é descendência, geração.  

Prole, por sua vez, também tem a sua história.  Deriva da raiz “-ol”, que significava nutrir, e que nos deixou outros derivados, como adolescente e prolífero, por exemplo. Quem diria?

A nossa prole são, pois, os filhos e os netos que temos.  E que tem que ver os filhos com os trabalhadores?

Pois aí é que vem a parte mais interessante da história.

Na antiga Roma, os cidadãos importantes eram aqueles que se salientavam nas letras, na filosofia, na política, mas sobretudo na guerra: os soldados das legiões romanas.

E a gente das classes mais baixas, para que servia? Ah, pois servia, sim senhor, foi-lhes reconhecido um valor: gerar filhos, para aumentar a população, substituir os soldados que morriam nas campanhas, e fornecer novos legionários.

O seu contributo para o Estado romano era a sua prole. Chamavam-lhes, por isso, os prõletãrius.

Os franceses, salvo erro, criaram o proletariado, como classe de trabalho, para os distinguir dos que arrecadavam o dinheiro, produto desse trabalho.

Por isso, Marx e Engels apelaram para a união dos “proletários de todo o Mundo”.

Veêm aí… os Natais!

Aproxima-se o Natal e o início do Ano Novo civil, e quero aproveitar o ensejo para agradecer a fidelidade dos visitantes habituais, que habitualmente me brindam com seus comentários, e para desejar a todos 

NATAL ALEGRE E FELIZ ANO NOVO

Hoje não vou escrever sobre História das Palavras, mas sim sobre a história das datas destas duas celebrações da Cristandade.

Para muitos essas datas não apresentam qualquer dúvida: o Natal é em 25 de Dezembro e o Ano Novo começa em 1 de Janeiro.

Pois bem, nem sempre foi assim, e, mesmo hoje, não é sempre assim para todos os Cristãos.

No princípio do Cristianismo, a data do nascimento de Jesus Cristo, que é afinal o que o Natal comemora, era considerada como sendo 6 de Janeiro, o dia em que agora se comemora o Dia dos Reis Magos.

Quando o Império Romano se converteu ao Cristianismo, houve uma decisão da Igreja Romana para antecipar a data do nascimento para 25 de Dezembro.

Porquê?  Pois há várias explicações, e não sei qual será a mais correcta.

Uma diz que a razão foi para que coincidisse com o solstício do Inverno, que ocorre em 25 de Dezembro.  Outra diz que foi porque em 25 de Dezembro se celebravam em Roma  festas pagãs, e poderia haver tendência para continuar a comemoração dessas festas.   Substituindo-as com o Natal, tornava-se mais fácil eliminar os costumes pagãos.

Uns dizem que o Natal veio substituir as Saturnianas, ou Bacanais, em honra do deus Saturno, que, na realidade, decorriam durante oito dias, e terminavam uns dias antes de 25 de Dezembro;  outros dizem que era o dia do Sol Invicto, em honra do deus do Sol.

De qualquer modo, Jesus passou a ter o seu aniversário em 25 de Dezembro, e, oito dias depois, em 1 de Janeiro, era o dia da Circuncisão do Senhor, seguindo a lei judaica da circuncisão, no oitavo dia, depois do nascimento.

Os cristãos ortodoxos gregos, que aderiram ao Cristianismo antes dos Romanos, como não tinham essas festas pagãs dos Romanos, em 25 de Dezembro, não viram razão para mudar o seu Natal, e continuam ainda hoje a comemora-lo em 6 de Janeiro.

Por sua vez, os Cristãos Arménios não aderiram ao calendário gregoriano.  Eles continuam a guiar-se pelo antigo calendário gregoriano, ou seja 6 de Janeiro, para eles, ocorre 13 dias mais tarde.  Eles comemoram o Natal, quando no calendário comum são 19 de Janeiro.

Assim, aqui em Jerusalém, os cristãos celebram três vezes o Natal, com as tradicionais procissões.    Em 25 de Dezembro vem o Patriarca latino de Jerusalém visitar o presépio em Belém, o Patriarca grego ortodoxo vem em 6 de Janeiro, e em 19 de Janeiro vem o Patriarca arménio.J

á estou a ver os meninos portugueses e brasileiros a perguntar se o Pai Natal também vem três vezes?   A tradição dos presentes de Natal, e do Pai Natal, ou antes São Nicolau, é essencialmente católica.   Pelo menos os Arménios não a seguem.   Mas se todos a seguissem, cada menino receberia apenas os presentes do dia em que os seus pais celebram o Natal, não é assim?

Renovo pois os meus desejos de boas consoadas, com bom bacalhau, peru, filhós, vinho tinto, castanhas, e sobretudo muita alegria e muitos bons desejos para 2008. 

Mudando de assunto, nos últimos dois dias estive ocupado, não com o português, mas com outra língua: o HTML (HyperText Markup Language), que, como muitos saberão, é um código de linguagem obrigatório para escrever páginas na Internet.  

Apesar da minha fraca habilidade, e das minhas duas mãos esquerdas, sou eu sozinho que construo as minhas outras duas páginas na Internet: uma em inglês, outra em português, nas quais eu conto mais algumas histórias, sobre temas que me atraem

Não sei se repararam nos apontadores para elas, que coloquei desde o início, aqui no lado direito deste blogue, e se alguma vez os visitaram.  

Nos últimos dois dias estive ocupado em tentativas para mudar a fachada da página em português.  Fiz e refiz, já não sei quantas vezes, pois a minha sabedoria da sintaxe do HTML tende para zero.   E além disso sou pouco habilidoso.

Uma vez que os leitores deste blogue costumam ser mais generosos com os seus comentários, não se poupando a dar-me alguns conselhos, que me são úteis e de proveito, queria pedir-vos que, se puderem, dêem também uma volta por lá, clicando aqui.  E depois digam-me que tal acham a “arquitectura” e os textos. E, aqueles de vós que também mantêm blogues, sempre mais interessantes que o meu, se acharem que vale a pena, e quiserem recomendar os meus escritos aos vossos visitantes e amigos, eu terei com certeza muito gosto nisso.

Bem hajam.

Somos todos da Lourinhã

O nosso visitante Dino, que, se me não engano. nos escreve da Holanda, pergunta-me “o porquê da expressão: ‘tu deves ser da Lourinhã’…”

Verdade? Verdadinha? Quem diz a verdade não deve por isso de ser acusado:   É a primeira vez que tomo conhecimento com tal expressão.

Conheci, há muitos anos uma simpática senhora da Lourinhã, a Dona Francelina.   E mais não sabia dessa terra.

Mas, como tenho obrigação de tentar saber, fui averiguar, e aprendi que, assim como em cada região do país há costume de considerar os habitantes de determinada terra, como simplórios, no sul é costume de apor essa qualidade, umas vezes aos da Lourinhã, outras aos de Évora.

Porquê exactamente não sei.

Mas talvez seja por uma história que se conta de uma senhora alemã que, há décadas passadas, foi viver para a Lourinhã, e trouxe consigo uma cadela da raça “pastor alemão”.

Como a raça não era conhecida em Portugal, os habitantes da Lourinhã tomaram-na por uma loba e mataram-na, expondo-o no pelourinho da vila.

Quando a senhora alemã se juntou aos restantes vizinhos para ver a loba morta, foi lá encontrar o cadáver da sua cadela.  Por isso também chamaram à Lourinhã, “Vila da Loba”.

Terá alguma relação? Não terá?

 Quem for da Lourinhã, ou souber mais, que venha à liça e ensine aos papalvos das outras terras, que somos nós.

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