As malhas fugidas do nylon

Haverá ainda, entre os meus leitores, alguém que se lembre ainda de certas profissões, que eram muito comuns no meu tempo e, desde então, desapareceram, ou quase?

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, onde eu morava, no curto espaço de um quarteirão, havia a carvoaria do senhor Serafim, que fazia também as “bolas” para acender o fogareiro, havia a mercearia do senhor Pelicão, (ou seria Pericão?), havia o alfaiate senhor Miranda e o droguista Cardoso, a tabacaria Silva (só muitos anos mais tarde soube que o senhor, a quem todos chamávamos Silva, e nos vendia as borrachas e os lápis para a escola, afinal se chamava Espinosa. Ele deixava que o chamássemos Silva, uma vez que o nome da loja era Tabacaria E. Silva).

A um cantinho da loja do alfaiate, que era também a habitação da família Miranda, estava uma pequena mesa, onde trabalhava a senhora Ermelinda, cerzideira (sabem o que é?), que também apanhava as malhas, que ameaçavam “fugir” perna acima, nas meias das senhoras. Para isso tinha um copo de boca larga, sobre o qual esticava a parte da meia onde estava a malha fugitiva, e pacientemente a “apanhava” com uma agulha de barbela. As meias de algodão já não eram para as senhoras finas, as de seda ainda custavam um dinheirão, quando, no final da guerra, por volta de 1945, apareceram no mercado as “meias de vidro”. Era esse o nome vulgar das meias em fibra de nylon, que nessa altura, ainda que muito mais baratas do que as de seda, eram suficientemente caras, pois o nylon, que havia servido para o esforço de guerra, ainda era escasso no mercado. Vinham da América, claro, e já se vendiam no “contrabando”.

O nylon foi a primeira fibra sintética inventada, para substituir as fibras têxteis naturais. A seda era muito cara e os japoneses faziam uma fortuna com ela. Os americanos procuraram um substituto sintético, e o nylon (no Brasil escrevem “nailon”) foi sintetizado em 1935, pelo químico da DuPont, Wallace Hume Carothers. Poucos anos depois, em 1939, rebentou a Segunda Guerra Mundial, e todo o nylon que a DuPont pode produzir foi absorvido para fins militares. No após guerra, começaram a fazer, primeiro, as meias de nylon, e mais tarde outras peças de lingerie feminina, que até aí utilizavam a seda japonesa.

Contudo havia ainda escassez da nova fibra e as meias, como eram novidade, e, além de elegantes, eram práticas, tinham muita procura. Como o fio era muito resistente, se era puxado por um prego no sapato, não se rompia, mas a malha fugia, como um comboio. Era feio ver as malhas fugidas nas meias das senhoras. Surgiu então a arte das “apanhadeiras”: localizar sobre um copo a ponta da malha e, pacientemente, com uma agulha de crochet, reconduzi-la ao seu lugar. Mais tarde inventaram umas pequenas máquinas, semelhantes ao copo, que facilitavam o trabalho. Era uma forma das mulheres se estabelecerem de conta própria: comprar uma máquina e abrir banca numa janela, ou num canto de uma loja.

Lembro-me de me terem contado então que o exército americano pôs à venda uma grande quantidade de excedentes de guerra, entre os quais muitos paraquedas. Ninguém os queria, então em grandes quantidades.

Então houve um comerciante americano mais esperto que se lembrou de arrematar todos os paraquedas, desfiou o nylon e vendeu-o em bobinas, para a indústria

Mas, estou eu aqui a contar-vos a história de uma invenção, quando o tema deste cantinho é a “história das palavras” e não das invenções.

Pois a verdade é que não se sabe ao certo por que razão a empresa DuPont decidiu chamar nylon à nova fibra. Circulam muitas histórias.

Porque já participei algumas vezes, na minha vida, na escolha de nomes e de marcas para produtos, sei que é um processo difícil e demorado: tem que ter em conta que deve soar bem, ser aprovado pelos homens do marketing, atrativo para os utilizadores e não se assemelhar com outro já existente, senão não poderá ser registado.

Deve ter sido isso exatamente o que aconteceu com o nylon. Diz uma versão que a DuPont tinha fábricas em Nova Iorque e em Londres e juntou as abreviaturas de ambas as cidades NY+LON.

Depois é fácil inventar explicações: alguém disse a invenção da fibra americana veio prejudicar enormemente o comércio japonês da seda. “Now you’ve lost, Old Nippon” “Agora estás perdido, velhote nipónico”

4 Respostas to “As malhas fugidas do nylon”


  1. 1 Nuno Matos 20 Março 2009 às 12:55 pm

    Prefiro a versão «Nova iorque e Londres»». Por nada, apenas porque sim.

    Um abraço

    Nuno

  2. 2 Paula Barcelos Pimentel 11 Junho 2009 às 2:46 am

    Olá!

    Estou procurando a origem da palavra Drumet ou Drumete ou Drumete. Você saberia?

    Abs,

    Paula

  3. 3 Edite Coelho 7 Julho 2009 às 3:10 am

    Inácio: Realmente você tem cada ideia! Sabe o que acabo de descobrir nas malhas das suas ideias? É que muitas das cerzideiras se deviam chamar Ermilanda, pois na Cova da Piedade (Almada) onde morei quando criança,também havia uma com esse nome. Também sou do tempo das lojinhas, e ainda hoje frequento a “Papelaria Palma”, e falo com o dono, o Sr.Palma que me vendia livros, cadernos e restante material escolar. Hoje, é quase impossível os meus alunos manterem este tipo de contacto com os pequeníssimos comerciantes porque compram quase tudo nos Supers e nos Hipers. De qualquer modo, aqui na Quinta do Conde ainda se consegue manter um pouco essa tradição porque a maior parte dos Encarregados de Educação compra os livros na Papelaria “Nice” e fala com a D. Nice, que nos atende com muita simpatia. Lembrei-me de partilhar este pormenor “do antigamente” porque adoro fazer compras nas lojas e não sou muito adepta do hipermercado, onde, por vezes, os funcionários que estão na caixa, são alguns dos meus antigos alunos das várias escolas por onde passei e me reconhecem logo, o que me faz ficar muito babada. Embora de maneira diferente, por vezes, há situações e ligações que se mantêm. Edite Coelho

  4. 4 José Carlos Gonzalez 17 Fevereiro 2011 às 9:59 pm

    Muito foi meu interesse em conhecer seu blog, pelo fato de ter grande atração pelas palavras e pelo seu histórico, em especial quando há alguma maneira de rir-se pelas explicações. A história do nylon achei muito boa, tanto as das iniciais de NY e London como também a que alfineta os nipónicos. No transcorrer da narrativa dizes que cá no Brasil se grafa náilon, mas não é fato, se escreve nylon mesmo, mas se fala náilon. O Brasil incorpora quase todas as palavras inglesas com grafia e sonoridades igual à origem. Sua historinha me fez lembrar da sigla “VARIG” a antiga empresa aérea que deixou saudades, que significava “Viação Aérea Rio Grande do Sul S.A.” mas que diziam ser “Vários Alemães Reunidos Iludindo Gaúchos”… Um grande abraço do José Carlos Gonzalez


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