Vi hoje na televisão um programa em que um vereador de determinada Câmara Municipal se dirigia aos seus Camaradas. Não teria sido possível eu ver essa cena, se não estivesse lá o cameraman (anglicismo!) com a sua câmara.
Ora aqui temos nós quatro palavras aparentadas, de entre várias outras pertencentes à mesma família.: Todas derivam do latim camara ou camera (usaram-se as duas grafias), que, por sua vez derivou do grego kamara, e cujo significado é abóbada ou compartimento.
No português antigo, câmara era simplesmente um quarto numa habitação ou uma sala.
Havia os conselheiros reais, que se reuniam na “câmara d’el-rei” e exerciam junto do monarca funções semelhantes às dos ministros de hoje.
Com o uso deram origem a outras corporações com o mesmo nome: Câmaras Municipais, Câmaras de Comércio, etc.
No exército, os soldados que dormiam na mesma câmara (quarto, dormitório) referiam-se uns aos outros por seus “camaradas”. Daí ganhámos um sinónimo para “companheiro”.
No século X, um cientista iraquiano, da cidade de Basra, Abu Ali Al-Hassan ibn Al-Haitham, foi o primeiro a realizar metodicamente experiências sobre uma observação, que já os chineses haviam feito muitos séculos antes, e depois deles também os gregos: a luz que penetra por um pequeno orifício, numa das paredes de um quarto às escuras, projecta-se lá dentro, na parede contrária. E, se entre essa luz e a parede se interpuser um objecto, a sombra desse objecto fica visível na parede-tela.
Chamou-lhe, na língua árabe, “Al.Bayt al-Muthilim” (a casa escura, ou o quarto escuro). Traduzido em latim, a língua que utilizavam os cientistas do ocidente, deu camera obscura, ou seja a “câmara escura”.
Graças às observações de Al-Hassan, explicadas num tratado sobre óptica, que ele escreveu, viria a ser inventada a “câmara fotográfica” e a fotografia.
E da fotografia veio o cinema e o vídeo, para os quais se usam aparelhos, a que continuamos a chamar câmara.
Portanto, camaradas da Câmara, olhem bem para a câmara, para ficarem bem no retrato.