Poucos serão, por certo, os meus amigos, aqui presentes, que se lembram da II Guerra Mundial.
É natural, pois já lá vão mais de 60 anos (1939-1945) e muitos de vós ainda não eram nascidos.
Durante esse trágico período, em que Portugal se manteve sempre neutral, passaram pelo nosso país dezenas de milhar de refugiados. Normalmente chegavam com um visto válido por 30 dias – ou até mesmo ilegalmente, sem qualquer visto – e, como não conseguiam partir para outro destino, dentro do prazo legal, ou eram presos, ou forçados a residir numa das duas povoações, que a isso foram destinadas: primeiro as Caldas da Rainha, depois também a Ericeira.
Uma das limitações que lhes foram impostas era a proibição de trabalharem em Portugal, como assalariados. Mas eles tinham que viver de alguma coisa. É certo que muitos recebiam um subsídio de organizações de assistência nos Estados Unidos. Mas era um magro subsídio, e alguns usaram de imaginação para montarem pequenos negócios, que isso sim, era permitido.
Foi assim que, como consequência da guerra e dos seus refugiados, se introduziram em Portugal, não só novos costumes, como novos produtos.
Escreve a historiadora Irene Flunser Pimentel, no seu livro «Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial» (Lisboa, “A Esfera dos Livros”, Maio de 2006), que uma refugiada, de nome Davidson, começou a fabricar em casa um bolo, que conhecia do seu país natal, a Alemanha, e que ela vendia a outros refugiados, e depois a quem mais quisesse provar.
Era um frito de massa de farinha doce, redondo como uma bola, polvilhado de açúcar, no interior do qual se injectava um doce, normalmente vermelho. Na Alemanha, o bolo era chamado Berliner Pfannkuchen (bolo berlinense de frigideira), ou simplesmente Berlinner Ballen.Se ainda não adivinharam foram essas as primeiras “Bolas de Berlim”, que a breve trecho começaram a ser vendidas também nas pastelarias. Mais tarde mudaram de estilo: passaram a ser cortadas horizontalmente e recheadas com o chamado “creme pasteleiro”.
Quem diria então que passados mais de 60 anos, as “Bolas de Berlim” se iriam manter, ainda hoje, nos balcões das nossas pastelarias, agora já naturalizadas como bolo tradicional português. E até que se tenha gerado já uma polémica à volta da proibição da sua venda ambulante nas praias, com grande prejuízo para as moscas, amantes do açúcar…
A verdade é que, a mim, as bolas de Berlim, que só vim a conhecer quando mudámos da aldeia para Lisboa, me lembravam muito as “filhós”, que a minha “avó” Maria, de Camarate, confeccionava pelo Natal, com a participação de toda a família alargada e gáudio da miudagem. Com açúcar e canela por cima.
O mesmo sucedia em Tremez, quando para ali mudámos, antes de nos instalarmos em Lisboa. Aí chamavam-se “velhós” e o recheio era de doce de abóbora.
Em ambos os casos eram bastante mais pequenas do que as bolas de Berlim que depois comi nas pastelarias de Lisboa.
No Brasil, comem-se pelo Carnaval, e chamam-se “sonhos”.
Aqui em Israel, na altura em que vos estou escrevendo, as confeitarias e os supermercados têm expostas grandes quantidades de “Bolas de Berlim” (ou “Sonhos” para os brasileiros que aqui vivem), pois está quase a chegar a semana da festa religiosa judaica de Hanucá (5-12 de Dezembro), em que é tradicional comer fritos em azeite, e sobretudo estas bolas, recheadas com doce de morango vermelho.
Mas já se usam vários outros recheios, para todos os gostos. Esta manhã estive num supermercado e vi lá um petiz, atrás da mãe que fazia as suas compras. Vinha todo feliz, trazendo na mão uma caixa de plástico com três redondas “sufganiot” (é o nome que lhes damos na língua hebraica), recheadas com… creme de chocolate!.
Acham que é simples coincidência a tradição de vários povos, em diversos países, comerem bolos de massa frita no Inverno? Pois não é com certeza! O frio, os dias mais curtos, as chuvas, que obrigam as famílias a ficar mais tempo em casa, os lumes acesos, tudo isto conduz à tendência para comer fritos e doces.
Para os judeus há uma explicação relacionada com o “milagre da bilha de azeite”, que não vou contar aqui, pois esta já vai longa. Para os cristãos, o pretexto é o Natal.
No mesmo contexto se insere a coincidência de diversos povos “inventarem” festas religiosas e nacionais, celebradas nas alturas importante do ciclo anual: as sementeiras, as colheitas, os novos frutos, o calor, o frio, a chuva, os dias longos e os dias curtos.
Somos todos muito semelhantes na nossa condição humana e de habitantes deste planeta.