No meu texto de ontem contei-vos o que aprendi sobre a história da palavra álgebra.
Aí fiz referência ao livro Al-Kitab al-Jabr wa-l-Muqabala, ou seja o “Livro de Juntar e de Equalizar“, da autoria do matemático persa Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī (780-850).
A propósito contei-vos também que foi do nome deste al-Khwārizmī que nos veio a palavra algarismo.
Sabem porquê? Por causa de uma interpretação errada da tradução de um título:
O mesmo al-Khwārizmī escreveu outro livro sobre a maneira de usar os numerais indianos, porque foram os indianos os primeiros a criar um sistema simples de notação dos números, com base no complicado sistema dos brâmanes.
O livro de al-Khwārizmī, escrito em 825, foi traduzido para latim no século XII (mais ou menos aquando da independência de Portugal). O tradutor pôs-lhe o título de Algoritmi de numero Indorum , querendo significar “Sobre os números indianos”, de Algoritmi (forma latinizada do nome do autor do original em árabe). O título foi mal compreendido, e a partir daí nasceram duas palavras algoritmo, para significar “método de cálculo” e algarismo, em português, directamente do árabe, significando o dígito.
Dígito, de dedo, porque o sistema é decimal. E é decimal porque a mais antiga forma de contar foi pelos dedos. Salvo as excepções que justificam a regra, o ser humano tem 10 dedos nas mãos. Eu tive um colega que nasceu com onze!
Uma das grandes invenções dos matemáticos foi o zero, que em árabe se diz sifr, de onde também o nosso cifra. Foi a invenção do zero que permitiu a notação posicional dos números. Até aí só se podiam representar os números de 1 a 9. Para cima de nove eram necessários artifícios, variando de povo para povo, para representar números superiores. O zero permitiu utilizar de novo os nove algarismos, acrescentando-lhes um zero à direita, para as dezenas, dois zeros para as centenas e assim por aí adiante.
Um “zero à esquerda” tem outro significado, mas eu não quero aqui ofender ninguém…
Antes dos árabes terem adoptado os algarismos indianos, todos os povos semitas, e depois deles os gregos, utilizavam as letras do alfabeto para denotar os números.
Na Europa os romanos difundiram o seu sistema, baseado nas letras I, V, X, C, M por um sistema também posicional.
Vejamos a evolução na grafia dos números indo-arábicos que nós usamos hoje. Adaptado, com a devida vénia, da Enciclopédia Britânica:
Como vêem, havia uma diferença entre a grafia dos algarismos entre os árabes do Médio Oriente e os árabes ou mouros da Andaluzia e do Maghreb. Foi deste que derivou a forma que nós usamos hoje.
Conclusão: não são só as palavras que têm história… os números também.

Prezado Inácio,
mais uma desilusão minha….
Pensei, que eu tinha encontrado “o código secreto do Khwarizmi” porque os desenhos dos numeros são tão genial e lógico !
1,2,3,….: é só contar os ângulos e vê-se o valor….
Que acha ? Eis a minha descoberta:
http://briefeankonrad.tripod.com/Lebenssinn/index.blog?entry_id=1614600
tem a minha teoria ainda uma hipótese ?
abraço
Ralf
queria saber mais sobre a matemática indu-arábica, sua história, como nasceu e quando e como é utilizada nos dias de hoje.
Muito interessante sua pesquisa. Achei interessante o quadro demonstrando a derivação da grafia.
Um detalhe que me chamou a atenção foi a forma de grafia Brahmi, que coincide com a grafia do 1, 2 e 3 usada pelos japoneses (bastões deitados). Realmente o mundo é menor do que se imagina…
Parabéns pelo seu blog!
porque o surgimento do algarismo?