Ontem chamaram-me a atenção para o blogue Clube dos Pinguins , onde se fazia referência a um artigo meu.
Fui ver e encontrei que o simpático autor, desconhecido para mim, me chamava “o histórico Ignácio Steinhardt”. Achei piada ao eufemismo, embora eu não seja ainda tão “histórico”, pois, quando nasci, já não se escrevia “Ignácio” com um “g”.
Esta deveria ser aliás a forma correcta, pois Ignácio vem de “ignis” = fogo. Lembrem-se disso quando a “ignição” do carro não pegar, pois talvez seja preciso limpar as velas.
Mas já tenho uma longa história, sim senhor, e quanto mais longa mais pronunciado se torna este meu vício de contar histórias.
“História”, aliás, começou por ser na língua grega um derivado do verbo historein, com o significado de inquirir, examinar, relatar.
Só em fins do século XV aparece definida como “uma relação lógica de acontecimentos significantes, muitas vezes acompanhada por uma explicação das suas causas.”
Um século depois já era também “um tratado que relata sistematicamente certos fenómenos naturais.” Por exemplo “a história natural.”
Mas já no século XII os franceses tinham pegado na história, sob a forma de estoire, estoire, como “relato dos acontecimentos da vida de uma pessoa” e, mais tarde, não só dos acontecimentos reais da humanidade, como para um relato de acontecimentos fictícios: “uma história” em contraste com “a história”.
A história que vos quero contar hoje começa com uma empregada, que tínhamos em casa, quando eu era garoto, e que costumava cantar uma modinha, que começava assim:
“Os do Porto são portugueses/ os de Lisboa, lisboetas / porque será que aos de Santa Comba/ todos lhes chamam forretas?
Todos nos chamam forretas/ com vontade de embirrar/ nós somos de Santa Comba / não temos jeito para dar!”
Mais uma daquelas expressões ingénuas, que o povo simples sempre encontrava para se referir ao primeiro-ministro Salazar, sem se sujeitar ao que sucedia a quem se atrevia a usar de formas mais “politicamente incorrectas”.
Salazar era pois “forreta” (amigo de meter o dinheiro no forro”). Um eufemismo de “forreta” é dizer-se que era poupado. Não gostava de fazer grandes despesas, nem na sua vida pessoal, quanto mais na economia do país, que, por isso, não progrediu nada durante os 48 anos da sua administração.
Dizem que também era assim o Controlador Geral das Finanças em França, em meados do século XVIII, Étienne de Silhouette.
Também ele, no princípio da sua carreira como responsável pelas finanças do Estado, teve a inteira confiança da corte.
Mas isso só durou enquanto se não tornou aparente que ele era tão agarrado ao seu dinheiro pessoal, como o era com o do país. Tão agarrado que, em França, quando se queria dizer que alguma coisa era “do mais baratinho”, dizia-se ” à la Silhouette”.
Quando uma pessoa dá nas vistas, pela sua maneira de viver ou de agir, ou pelo cargo que ocupa, contam-se sempre histórias, verdadeiras ou inventadas, a seu respeito.
Sobre Étienne de Silhouette contava-se que, para não gastar dinheiro em quadros para decorar as paredes, desenhava ele próprio umas figuras, só com os contornos,sem nada por dentro, e as pendurava nas paredes. Silhouettes!
Também as modas e os estilos têm as suas histórias. Não só as palavras.
Com o tempo, desenhar “Silhouettes” (silhuetas, em português) tornou-se também uma forma de arte.
E agora, que o calor vem aí, e dentro em pouco já estaremos nas praias (aqui no meu sítio elas já estão cheias nalguns dias!), recomendo às minhas gentis leitoras que se não preocupem demasiado com as silhuetas, pois isso pode ser prejudicial para a saúde.