O meu “avô” Jacinto, de Camarate, vivia numa casa construída por ele, por suas próprias mãos, ajudado pelos filhos, que todos foram pedreiros como ele.
Quando chegou à aldeia, comprou uma casa em ruínas, e começou logo a ajeita-la, para lá viverem. À minha “avó” adoptiva, chamavam, lá em Camarate, a “Ti Maria das ruínas.”
Depois a pouco e pouco, quando vinha das obras, onde trabalhava, começou a construir. Sem arquitecto, nem engenheiro, claro. Nem queiram saber o estilo daquilo. A casa ainda lá está.
Água canalizada só tiveram muitos anos depois, quando eu já era um rapazinho e lá ia visitar de quando em quando. Mas tinham um poço, dentro de casa.
Quando eu era pequeno, os meus “avós” diziam-me para beber só água do pote, que era boa para beber. E daí, quando aprendi na escola a dizer “água potável”, fiquei a pensar que se chamava assim por ser “água do pote”, que se podia beber.
A verdade é que ambas as palavras vêem da mesma origem: o Indo-Europeu “po”, que nos chegou através do grego e do latim, e que significa simplesmente beber.
O pote é portanto uma vasilha onde se guarda um líquido para beber. Há também, como sabem, o “pote do vinho”.
Daqui em diante podemos começar a puxar as “cerejas”, e nunca mais acabar: poção, por exemplo, também é um remédio que se bebe, e potassa, vem do inglês potash (cinzas do pote), etc.
Mas a razão que me fez pensar no pote do “avô” Jacinto, foi o convite que recebi para participar num simpósio na Universidade de Bar-Ilan, aqui em Israel, em Ramat Gan.
É que os gregos antigos faziam uns festins para beberem na companhia uns dos outros. “Sum” , em companhia, e “potes”, beber, deu o “sumpótěs”, companheiro da pinga. E com o “sumpótěs” iam ao festim “sumpósion”, onde todos bebiam juntos, e que em latim deu “symposium”.
Por extensão, uma grande reunião, em que, além de beberem juntos, também discutiam assuntos de interesse para todos os participantes, passou a chamar-se um “simpósio”.
Portanto, terei que ir ao tal simpósio, beber alguma coisinha com os restantes convidados e discutir assuntos mais importantes do que pinga…
Quero aproveitar o ensejo para agradecer a simpatia dos muitos leitores, que me escrevem e me encorajam a inventar tempo livre, de que tenho muito pouco, para vir aqui partilhar convosco as histórias, que vou aprendendo.
“Simpatia” é evidente o mesmo “sum” ou “sim” (juntos) mais “pathos” (sentir), ou seja simpatizar com alguém, é sentir o mesmo que a outra pessoa.
E se sentir o contrário da outra pessoa, então tem por ela “antipatia”. Ou pode não sentir nada, e, nesse caso, tem “apatia”.
Aquela senhora, ali no fundo, perguntou se “patologia” também vem de “pathos”. Pois vem sim, minha senhora, então não se sente? E “pateta” também..
Mas tenham paciência, parem de puxar as cerejas, que são como as palavras; vêem umas atrás das outras.