Protocolo

Um amigo meu, diplomata israelita reformado, contou-me que, quando exerceu as funções de Chefe do Protocolo do Estado, foi receber a bordo do avião o Papa João Paulo II.  quando da sua visita à Terra Santa.

Por outro lado, quando eu exercia as funções de presidente da Liga de Amizade Israel-Portugal (cargo de que me “reformei” este mês) recebi uma carta de um grupo folclórico de Portugal, que pretendia fazer um intercâmbio com um grupo similar israelita, e nos propunha assinar um protocolo.

Confesso que, vivendo fora de Portugal há 30 anos, embora todos os dias fale, leia e escreva português, há “regras de uso” que já não são do meu tempo.

Uma delas, por exemplo: no meu tempo, “via-se” uma cassete de vídeo; agora parece que se “visiona” o vídeo. “Aprender até morrer” – sabem quem dizia? Exactamente! O meu “avô” Jacinto de Camarate.

Mas assinar um protocolo para um simples intercâmbio entre dois grupos folclóricos, pareceu-me um assunto demasiado sério…

A secretária da nossa Liga escreve protocolos das nossas reuniões, sim senhor.    Mas para a actividade que nos propunham pareceu-me que um simples acordo bastava.

Não me estivesse a escapar-me qualquer coisa de mais grave, perguntei a quem está mais actualizado do que eu e recebi a explicação: agora não se assinam acordos, mas sim protocolos. É assim que manda o protocolo da língua.

Pronto! Aqui temos já três significados, pelo menos, da palavra “protocolo” e sobre a sua história, nada!

Para isso é que vós, meus amigos, me aturais, não é verdade?

Pois aqui vai: “protocolo” é uma palavra composta de dois elementos da língua grega: proto, que significa primeiro, e kollon, colado.

Antigamente, antes de haver papel, os livros eram escritos em folhas de papiro, que depois se colavam umas às outras, pelas margens laterais, e, no final enrolavam-se, para formar uma espécie de tubo, que se desenrolava para a leitura.

Na primeira folha, escrevia-se normalmente o título do livro, se de um livro se tratava, os nomes do autor e do escriba, e mais elementos para identificar o trabalho.    Sendo uma carta, um tratado, um protocolo diríamos hoje, também se escrevia, na primeira folha, a respectiva identificação.

Essa era, portanto, a primeira folha, que se colava às seguintes, a folha “proto kollon”. Por isso se chamava “protocolo” do livro.

Está explicada a origem e a história está à vista: como a palavra foi alargando o seu domínio semântico.

E está explicada também, da mesma assentada, a origem de “cola”, no sentido de material adesivo, pois também pode significar “cauda”.

E ainda ficamos a saber de onde vem “protótipo”, o primeiro objecto que se fabrica de determinado tipo. E outros quejandos vocábulos da nossa língua, em que “proto” é prefixo.

Esta ficou económica, não foi? Duas palavrinhas pequenas, que deram tantas voltas na vida.

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3 Responses to “Protocolo”


  1. 1 Ojudeu 29 Dezembro 2006 às 1:01 am

    Boa Tarde Sr Inácio

    Antes de mais, muito obrigado pelo seu comentário e pelo seu interesse no nosso projecto.
    A Quinta do Judeu está na nossa família desde 1932. A informação que temos é que a Quinta tem esse nome por causa da estátua do tal judeu romano, entretanto roubada. Esta estátua não tinha sinal algum que demonstrasse que se tratava efectivamente da representação de um judeu romano. Era feita de louça da Vista Alegre e foi uma pena o roubo que, para além de tudo, danificou esta peça de arte. Hoje o novo judeu (eu!) é parecido com o anterior e é a forma de continuarmos esta bonita tradição.
    Quanto aos nossos vinhos, os mesmos não têm qualquer conotação religiosa. São vinhos Douro DOC (denominação de origem controlada), resultados da junção da moderna tecnologia com a mais genuína tradição duriense. O nome se deve exclusivamente a esta estátua. Quando colocamos a nova estátua (eu!) no lugar, várias foram as pessoas que vieram da cidade para ver o “novo judeu”.
    Apesar disso temos tido excelentes reacções da comunidade judaica. Ainda numa exposição em que participamos este ano, fomos visitados por pessoas da embaixada de Israel que quiseram levar nossos vinhos e t-shirts da Quinta. Tudo por causa do nome.
    Um abraço e nos visite quando vier à Portugal.
    OJudeu

  2. 2 joao moreira 30 Dezembro 2006 às 12:08 am

    Viva!

    Onde é a “Quinta do Judeu”?

  3. 3 steinhardts 30 Dezembro 2006 às 9:34 am

    A Quinta do Judeu, a que cheguei por acaso, virtualmente, e onde encontrei pessoas simpáticas, fica na região demarcada dos vinhos do Douro.
    Vejo em http://www.blogdaquintadojudeu.blogspot.com/

    Inácio


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